BRINCAR DE VIVER

December 31st, 2015

Eu era pequenininha, meu irmão Rodrigo menor ainda; e sei disso porque lembro dele cantando com a fala meio enrolada e fofinha, exatamente como o filho dele, Dudu, faz hoje. A Maria Bethânia parecia um anjo na televisão, toda de branco, iluminada, com aquela voz forte e doce que lhe é tão característica cantando “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz ‘não’ “. Minha mãe achava linda essa canção; ela olhava nos olhos da gente, sorria e cantava pra nós. Eu também achava linda a música, embora não a entendesse da maneira que entendo hoje. Mal sabia, naquele tempo, como eu teria que ouvi-la na minha cabeça ao longo da vida.

2016, vou fazer 40 anos. Aos 20, eu tinha muitos sonhos. Ter uma família, marido e filhinhos. Fazer algo incrível na minha profissão. Mudar o mundo, torná-lo um lugar justo e habitável. Viver experiências incríveis. Ter um grande amor. Viajar pra um lugar em que ninguém pisou. Escrever um livro. Ter uma casa com jardim. Me divertir rodeada de bons amigos. Ser bem sucedida em muitas pequenas coisas interessantes. Ler todos os livros que eu quisesse. Pintar as paredes de rosa. Ser alguém interessante.

Alguns sonhos se frustraram, outros se realizaram e superaram minhas expectativas, e outros foram remediados. Creio que com todo mundo é assim. É mesmo assim. Desejo, expectativa, vida, alegria ou tristeza. Movimento. Ninguém escapa. Por que eu escaparia?

Mas é triste, de repente, se ver sem sonhos. Sem gostar de viver. Sem querer estar perto das pessoas. Se prejudicando, se sabotando, se esmagando, se colocando em situações perigosas pra ver tudo degringolar mais ainda e provar que tem razão. Provar que não vale a pena.

Não foram poucas as vezes em que eu me peguei, ultimamente, dizendo NÃO pra vida. Em muitos, profundos e difíceis sentidos. Que vontade de desistir.

Talvez eu até tivesse o direito de desistir. Quem me condenaria? Talvez a força das minhas tragédias me absolvesse por parar de aprender essa arte de sorrir pros “nãos” da vida, e me daria permissão pra continuar fazendo o que andei fazendo nos últimos tempos… Vivendo apenas um dia por vez, sem muitas expectativas, me esforçando pra não sonhar, pra não esperar, pra não desejar, e assim… Não me machucar de novo. E de novo. E de novo. Estive fazendo como fazem aquelas pessoas que não querem ser notadas em festa, me escondendo pelos cantos, pra vida não perceber o meu potencial de felicidade e acabar com tudo de novo.

Eu tentei desistir.

Mas algo, alguém tem me chamado. Algo, alguém (alguéns) com a mesma força do olhar e da voz da minha mãe, olhando nos meus olhos e dizendo, volta pro ninho, redescobre o seu lugar, retorna, enfrenta o dia a dia… Reaprende a sonhar. A vida é mesmo assim. A história não tem fim. Continua sempre que você responde SIM.

Sim, eu quero voltar a sonhar, como sonhava aos vinte anos, outros sonhos, sabendo que pode dar tudo errado, mas esperando que dê tudo certo.

Sim, eu quero continuar amando muita gente, mesmo que essa coisa de amar seja algo tão difícil de se fazer e às vezes acabe comigo.

Sim, eu quero continuar aprendendo, e entendendo cada vez mais que o que eu sei é muito pouquinho perto do que há pra se saber.

Sim, eu quero cuidar das pessoas. É assim que eu sou, eu cuido. E quero também que elas cuidem de mim. Eu quero aprender a deixar elas cuidarem de mim.

Sim, eu aceito resignada o que não posso mudar em mim e na vida, porque algumas coisas simplesmente são como são. Limitações são necessárias. Em mim e na vida.

Sim, eu vou lutar com unhas, dentes e coração pra mudar aquilo que eu puder, porque ter preguiça de me mexer e largar tudo pra lá é um desperdício da vida que me foi dada um dia.

Sim, eu vou continuar partilhando experiências, inclusive com quem não merece, porque muitas vezes aceito as partilhas generosas de quem me cerca sem que eu mereça.

Sim, eu quero fazer coisas, eu quero que aconteçam coisas comigo, eu quero reagir, eu quero brilhar com a doçura e a força da Maria Bethânia, eu quero ter algo de bom pra contar no meio das coisas ruins.

Sim… Eu vou continuar.

A emoção começa agora. Agora é brincar de viver.

Vem, 2016. Eu digo SIM pra você.

SER AMADO PLENAMENTE PODE ACABAR COM A SUA VIDA

June 12th, 2015

 

Meus caros, minhas caras, prestem bem atenção, conselho de gente vivida: ser amado pode acabar com a sua vida.

É o que todo mundo diz que quer. Alguém por quem seja amado incondicionalmente, alguém apaixonado, que de tão apaixonado seja subserviente, excessivo, que encha todos os espaços em volta, que viva pra você, que admire, venere, faça feliz e só por isso se sinta feliz também.

Ok, é mesmo uma delícia. E se você encontrar essa pessoa, não haveria nada melhor a fazer a não ser se jogar nos braços dela e curtir a vida adoidado.

Mas cuidado. É possível que você tenha o que deseja, e que alguém te ame assim. E é possível que, por alguma razão, esse alguém suma de sua vida. Pode ser que a pessoa canse. Pode ser que a convivência seja medíocre demais para a grandeza do sentimento. Pode ser que a vida dê suas voltas incompreensíveis e estrague o prazer de vocês. Pode ser morte, cinismo, doença, dificuldade financeira, viagem, traição. Pode ser que você – veja bem, você! – que tanto quer ser amado ou amada assim, simplesmente não consiga aceitar esse amor, não consiga se permitir ser amado ou amada ( sim, é triste, mas tem gente que não sabe ser amado ) e faça besteiras suficientes pra acabar com tudo. Seja como for, pode ter um fim.

Depois do fim, você vai entender a grandeza do que teve. Coisas de ser humano. Só perceber o real valor das coisas com o afastamento – temporário ou definitivo – do que o sustenta. Paciência com nossa natureza limitada, é assim.

Você vai demorar, mas vai se recuperar. Claro que vai. Se tem uma coisa que o tempo pode fazer por você, é curar suas feridas. E você, que uma vez foi amado, vai se tocar que não consegue viver mais sem amor. É que amor vicia. Miseravelmente. Você vai querer mais.

Mas um grande desafio espera por você. Quem teve tudo, dificilmente aceita pouco, aceita menos. Pode até fingir que aceita, mas, no fundo, fica uma profunda sensação de estranhamento, de algo fora de lugar, de dívida constante. A pessoa pode até te amar com tudo que pode, mas o que ela pode, pode ser pouco pra você, que já teve tanto.

Quem já recebeu declarações de amor fartas e constantes, dificilmente se conformará com um “te amo” seco e automático na despedida.

Quem já passou horas ao telefone sem ver o assunto acabar, vai achar pouco falar 5 minutinhos entre um compromisso e outro pra checar se está tudo bem.

Quem já foi olhado profundamente nos olhos, e viu o outro se perder ali, não vai ver nada em olhos que olham de relance, com desconfiança, fugidios.

Quem já teve certeza do amor de alguém, vai morrer de ciúme de quem sabe não ter se entregado.

Quem já foi aceito e admirado em tudo que é, sentindo-se forte e quase perfeito pelo olhar do outro, vai enfraquecer ao ser constantemente julgado com frieza por quem não é generoso na aceitação e vê seus defeitos com precisão cirúrgica.

Quem já teve entrega total de alguém, não aceita meio pacote.

Quem já ouviu belos poemas e canções de amor dedicadas só pra si, não vai achar bonito melodias pobres e frases feitas.

Quem já teve fidelidade e lealdade, não vai se conformar com escapadelas de pensamento, ainda que sejam coerentes e normais.

Quem já dormiu conversando e acordou na mesma conversa de tanta afinidade de ideias, não vai ver a divergência como algo saudável, apenas aborrecido.

Quem já sonhou a dois e aprendeu a abrir mão de bons planos pra voar junto, não vai se acostumar com pé no freio e pouca doação, vai querer voar de novo.

Quem já se fundiu no corpo de alguém de tanta intimidade, não vai ter tanto tesão em fazer sexo por fazer, por mais que seja tecnicamente gostoso.

Quem já sofreu com a angústia da separação consentida para ir à padaria ou ao trabalho só para esperar pelo reencontro, não vai entender quem não sente falta desesperadamente.

Quem já foi prioridade na vida de alguém, não vai aceitar ser uma opção para o tempo livre ou para o final de semana.

Quem já viveu o encaixe da combinação perfeita, não aceita apenas estar ao lado. Vai tentar se mutilar pra encaixar de novo, sem sucesso.

Quem já foi plenamente amado, não vai aceitar nada menos que outro amor pleno.

É raro, é difícil. Pode ser que um amor assim não bata na sua porta duas vezes, muito menos três.

O problema do bom amor é que ele te ensina o valor de ser amado. E depois, não há mais possibilidade de deixar por menos.

É verdade que ser bem amado muda sua visão de você mesmo ou mesma, de todos e todas, do mundo, e te permite, ao mesmo tempo, ser mais exigente e mais solidário com os corações perdidos. Pode ser que você consiga, a duras penas, construir o amor de novo ao amar alguém como um dia foi amado. Mas, é difícil. A reciprocidade é quase um milagre, e todos esperamos por ele. Porém, todos sabemos porque os milagres se chamam milagres. Não são comuns. Não são fáceis. Não são para todos. São especiais.

É, camarada. Cuidado. Ser amado ou amada plenamente pode acabar com sua vida, é verdade.

Mas também é verdade que você não saberá o que é uma vida até ser plenamente amado.

Então, na dúvida… Ame.

E feliz dia dos namorados!

TODOS DIZEM EU TE AMO

June 12th, 2015

Napoleão e Josefine

Trechos de cartas de amor de homens famosos para suas amadas e amados…

Belíssimas. Todos dizem eu te amo. Uns com mais classe que outros, claro, mas todos dizem. Basta saber ouvir.

“Não acreditarás na saudade que sinto de ti. Só fico livre desse tormento quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade…”

Plínio, o Jovem, para a esposa Calpúrnia

 

“Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte. (…) Mas o amor, o todo-poderoso amor, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo que não seja sua pessoa. No meio da multidão, estou só. E todo o mais tornou-se insignificante.”

William Congreve, para Arabella Hunt

 

“És uma dádiva grande demais para ser conquistada de imediato, portanto, devo ser preparado aos poucos para que esse presente precioso não me deixe louco de alegria.”

Richar Steele, para Mary Scurlock

 

“Querida esposinha, tenho alguns pedidos a fazer. Rogo-te que (1) não fiques triste; (2)cuides da saúde e tenhas cuidado com as brisas da primavera; (3) não saias para caminhar sem companhia – e, de preferência, não saias para caminhar de jeito nenhum; (4) fiques absolutamente segura do meu amor. Até o presente não escrevi nenhuma carta para ti sem ter diante de mim teu amado retrato.”

Mozart, para Constanze

 

“Em meio aos meus deveres, quer eu esteja à frente do exército ou inspecionado os campos, minha amada Josefina domina meu coração, ocupa minha mente, preenche meus pensamentos. Se estou me afastando de ti à velocidade da torrente do Ródano, é somente para poder tornar a ver-te mais cedo. Se me levanto para trabalhar no meio da noite, é porque isso pode acelerar em alguns dias a chegada do meu doce amor.”

Napoleão Bonaparte, para Josefina

 

“Não acreditarás na saudade que sinto de ti. Só fico livre desse tormento quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade…”

Plínio, o Jovem, para a esposa Calpúrnia

 

“O amor exige tudo e está certo. Portanto, ele me quer contigo, e te quer comigo. Apenas te esqueces que eu preciso para ti, e para mim – se estivéssemos juntos, sentirias essa dor tão pouco quanto eu deveria senti-la.”
Ludwin van Beethoven, para sua Amada Imortal

 

“Oh! Como teria gostado de passar meio dia ajoelhado a teus pés, com a cabeça sobre teus joelhos, sonhando lindos sonhos, contando-te meus pensamentos com lassitude, com arrebatamento, às vezes sem dizer nada, mas pressionando meus lábios contra teu vestido!”

Honoré de Balzac, para Condessa Ewelina Hanska

 

“Não é ela a única razão do meu viver?  Se ela me demonstrar indiferença, ou mesmo ódio, será meu infortúnio, é tudo. Portanto, que importa, se com isso a felicidade dela não for prejudicada? Sim, se ela não puder me amar, só a mim mesmo caberá a culpa. Meu dever é seguir-lhe de perto os passos, cercar a existência dela com a minha, servir-lhe de barreia contra todos os perigos, oferecer-lhe minha cabeça como apoio, colocar-me incessantemente entre ela e todas as tristezas, sem demandar qualquer prêmio, ou esperar qualquer recompensa. (…) Se cada um dos meus dias for marcado por algum sacrifício em favor dela, no dia da minha morte eu ainda não terei resgatado nem uma fração da dívida infinita da minha existência para com a existência dela.”

Victor Hugo, para Adéle

 

“Perdoa tanto egoísmo – digo-te isso porque penso que irás humanizar-me, e logo irás ensinar-me que existe uma felicidade maior do que construir teorias e acumular fatos no silêncio e na solidão. Minha mui querida Emma, espero de todo coração que nunca te arrependas do grandioso, diria mesmo excelente, ato que realizarás na terça-feira. Minha querida futura esposa… Deus te abençoe.”

Charles Darwin para Emma, sua esposa, três dias antes do casamento.

 

“Cada dia que passamos juntos fortalece minha confiança de que não só nunca mais desejaremos estar separados, como nunca poderemos sequer imaginar a tristeza de não nos termos unido. Hoje és mais cara para mim, minha criança, do que eras no dia do teu aniversário passado, quando eras mais querida que no ano anterior – foste tornando-te, progressivamente, mais querida desde o primeiro aniversário, e não tenho dúvida de que essa preciosa progressão continuará até o fim.”

Mark Twain, para Livy

 

“Em alguns momentos, pensei que seria melhor nos separarmos. Ah! Momentos de fraqueza e loucura! Agora vejo que isso teria mutilado minha vida, arruinado minha arte, destruído os acordes que compõem uma alma perfeita. Mesmo coberto de lama, eu te louvarei; dos abismos mais profundos, eu clamarei por ti. Na minha solidão, tu estarás comigo. Estou decidido a não me revoltar, mas aceitar todos os ultrajes pela devoção ao amor; deixar meu corpo ser desonrado, desde que minha alma possa guardar sempre a tua imagem.”

Oscar Wilde, para Alfred Douglas

 

“Significas tanto para mim, não imaginas quanto. A vida sem ti seria absolutamente vazia. Eu me pergunto como conseguia viver antes. Na verdade, estou cheio de amor, e durante os últimos dois ou três anos esperava despejá-lo sobre alguém, e sempre vivi na esperança de poder fazê-lo… Era o que me sustentava. Agora, tenho alguém a quem posso dedicar e dedico todo o meu amor. Alguém que me faz sorrir e sonhar em meio aos horrores da guerra.”

Tenente John Lindsay, para a noiva – ele morreu na guerra antes de reencontrá-la.

Fonte:

livro

O PATINHO LINDO

June 5th, 2015

Era uma vez uma mamãe pata. Como todas as mães, ela ficou muito feliz quando colocou seus ovinhos e começou a chocá-los. O tempo de choca é importante para que as mamães possam ter sonhos sobre seus patinhos… Imaginá-los, esperá-los, ter medo por eles, sentir amor por eles, antes mesmo que eles existam. Foi uma maneira que a natureza criou para plantar amor no coração das mamães patas (porque amor não é fácil de criar). Enquanto chocava seus ovinhos, mamãe pata também chocava suas expectativas.

Os ovinhos começaram a se abrir. Finalmente tinha chegado a hora! Todos os ovinhos foram estourando a casca, e de lá saíram patinhos, patinhos como todos os outros patinhos da Terra, frágeis, dependentes, fofinhos. Em cada patinho, mamãe pata colou os sonhos que vinha sonhando. Mas um ovo demorou mais para se abrir. E mamãe pata voltou a chocá-lo, preocupada, mas amorosa ainda. Com o passar dos dias, aconteceu algo diferente: os sonhos sonhados por mamãe pata começaram a retroceder… E ela não sabia o que esperar. Um patinho que demorava tanto pra nascer, só podia ser especial, além ou aquém de tudo que ela pudesse esperar. Mamãe pata teve medo de fazer um sonho pra ele. Mesmo assim, continuou chocando.

Tempos depois, nasceu um patinho. Não haviam mais sonhos para serem colados. Até porque era verdade, ele não era como os outros. Desde que abriu os olhos, ao invés de olhar a mamãe, ou o que estava mais próximo, ele olhou para o sol, para as nuvens… Para longe. Mamãe pata ficou um pouco preocupada. Seria o seu patinho especial, diferente? Ela já conhecia o mundo… Já sabia que os patinhos diferentes não eram tolerados com tranquilidade… Sabia que um patinho diferente sofreria um pouco mais.

Ele era maior que os outros. Um pouco mais lento, mas extremamente profundo. Aprendia as coisas com muita facilidade, era inteligentíssimo. Mas acima de tudo… Era um patinho sonhador.

Sonhava, sonhava, sonhava. Sonhava sonhos pra ele, sonhos para os mais próximos, sonhos para o mundo todo. E tinha nele uma serenidade e um amor que não cabiam nele. E era um amor tão grande que o fazia olhar para as pessoas e saber tudo delas, amá-las quase que instantaneamente. Mas justamente por isso, por evidenciar essa falta de amor que havia entre as criaturas com o seu super amor… Ele não era compreendido. E muito menos bem quisto.

Os da mesma idade, por inveja ou por medo, costumavam isolá-lo. Os mais velhos achavam que era um patinho atrasado, que gostava de vadiar. Não entendiam essa postura contemplativa. O patinho tinha coração de poeta. E os poetas estão sempre sós neste mundo. Em sua solidão, tão profunda, eles vêem o tamanho da paisagem – do mundo e das pessoas. Os patinhos com coração de poeta vêem tudo nas criaturas. Vêem a guerra, a maldade, as diversas fomes, as carências que há dentro de cada um. Vêem a alegria, a satisfação, a disposição. Vêem a melancolia, o medo, a raiva, o desprezo. E sentem tudo muito profundamente. Pobre patinho… Não sabia o que fazer com tudo isso. Por isso, tornava-se cada vez mais diferente, cada vez mais só.

Mas ele não gostava de ser só. Por isso, tentou mudar a si mesmo. Não conseguiu. Depois, tentou mudar o mundo. Também não deu certo. Depois ele achou que o problema era o mundo a sua volta. Então, sentiu vontade de fugir. Fugir para bem longe, para algum lugar onde ele não fosse tão diferente, onde ele pudesse ser quem é, junto a pessoas iguais como ele. Mas em todos os lugares do mundo onde ele foi, não encontrou ambientes diferentes. As criaturas do mundo se repetem, se repetem, se repetem… Incansavelmente.

Cansado de tudo, o patinho resolveu parar. Parar de procurar, de mudar, de tentar mudar o mundo, parar de querer companhia. E então, o patinho descobriu o remédio para a sua intensidade: o tempo.

Sim, o tempo… O tempo tinha muito para ensinar ao patinho. Ensinar a ter mais paciência com o insistente atraso do mundo… Ensinar a sempre achar um jeito de se comunicar com as pessoas… Ensinar a achar as companhias certas, nas horas certas, do jeito certo. E o patinho foi aprendendo… Aprendendo.

O patinho foi feliz. Trabalhou, estudou, arrumou amigos, se divertiu… Se apaixonou e fez uma nova família, com outros patinhos… E foi o melhor pai patinho de todos.

E, ainda velhinho, o patinho olhava para o horizonte da mesma maneira que olhou quando nasceu: querendo catar estrelas, querendo assoprar as nuvens, querendo amainar o calor do sol e tocar no brilho da lua. E as criaturas gostavam de ouvir as histórias do patinho. E, por causa dele, elas também aprendiam a olhar para o universo de um jeito diferente… O de fora e o de dentro. O patinho enfeitou o mundo o quanto pode.

E então o mundo percebeu a verdade. Ele não era um patinho feio, estranho ou diferente. Era um patinho lindo… Lindo, lindo, lindo. E na feiura do mundo… Ele brilhava. E fazia brilhar.

TRAUMA

June 4th, 2015

 

 

A palavra “trauma” vem do grego “ferida”.

Não é cicatriz, não é passado, não é “já devia ter sarado”, não é “seja forte”, não é “dorzinha” – é ferida.

Um jeito de ver a palavra “trauma” é pensando em rompimento, como no momento em que um osso se parte, quando se corta um pedaço do braço, ou se torce o tornozelo, ou se leva um tiro. Traumatizou. Feriu. Bang.

O outro jeito de ver o “trauma” é quando algo que devia estar sarando não sara, de jeito nenhum. É como se a ferida se atualizasse, sem trégua pra recuperação. Aí dizemos que aquela pessoa ficou “traumatizada”.

Algo que se atualiza como ferida cravada na carne ou na alma é difícil de encarar. É como se você se machucasse de novo quase todo dia. O problema não é ter caído e machucado e cortado e quebrado e traumatizado uma vez. É quando a ferida reabre, devagarinho e sempre, ou de repente, e não te deixa fazer uma cicatriz.

Quem tem um corte suturado, precisa ter cuidado para não bater ali, para que não se abra de novo. Quem tem uma perna quebrada, precisa tomar cuidado ao andar para não cair e prejudicar a recomposição do osso, ou o que é pior – quebrar a outra perna e ficar impossibilitado de andar. Quem tem um “trauma” em si, seja lá qual for, vive assim, com medo, procurando não deixar que nada que aconteça piore o seu estado.

De vez em quando, a gente se testa. Passa o dedo na ferida, que parece quase fechada, pra ver se ainda dói. Mete a língua na afta, pra ver se ainda está lá, doendo. Tira a casquinha do machucado pra saber se por baixo ainda está infeccionado, e faz sangrar mais. Ouve aquela música. Vai visitar aquela pessoa. Faz aquela comida. Passa por aquele caminho. A gente se testa, claro que sim. Tenta. Mas é tão difícil perceber que, no processo de cura, ainda falta um tanto. Difícil perceber que ainda dói, ainda sangra.

Mesmo as cicatrizes da ferida não são como o resto que não foi traumatizado. Sei porque tenho uma no braço direito, fruto de uma cirurgia que fiz pra resolver um calo no osso, depois de terem engessado o meu braço errado após uma queda da bicicleta que causou quatro fraturas.Faz 30 anos que a cicatriz está aqui. É um risco grande na minha pele, discreto. Em cima daquele risco, a minha pele é diferente. Não tem sensibilidade nenhuma. Se fechou para sentir qualquer coisa; talvez porque ali houve intensidade demais e não sobrou nada pra depois; não é mais a minha pele original, mas uma pele que veio depois, sem terminações nervosas. Um risco na pele que não serve pra mais nada a não ser me lembrar da história, da queda.

Me lembro com alegria do acidente, mesmo lembrando da dor que senti por causa das fraturas, e da cirurgia depois; me lembro das pessoas adultas dizendo, quando eu tive medo de subir na bicicleta sem rodinhas de novo, “você precisa tentar, e logo; senão vai traumatizar”. Eu tentei. Aprendi a andar. Não tem coisa mais gostosa que andar de bicicleta. Agradeço aos meus pais e tios por isso, por terem me ensinado a fazer assim, a ir, a tentar de novo, a subir na bicicleta e cair quantas vezes fossem necessárias até aprender. O medo deles era que a fratura do corpo virasse também uma fratura da alma. Porque os “traumas” do corpo, a gente sabe mais ou menos quanto tempo demora pra curar. Mas os traumas da alma… Ah, esses, são imprevisíveis. E gostam de durar pra sempre.

O trauma da alma é uma prisão. Vejo tanta gente que nem sabe o quanto está presa, e outros que, como eu, lutam contra o que sentem sem sucesso ( não sei o que é pior ). Mulheres e homens que não querem filhos por não terem sido amados na infância. Moças e moços que morrem de vontade de se apaixonar, mas não conseguem, porque um dia foram miseravelmente traídos e abandonados. Gente que não consegue viver o prazer do sexo, porque um dia se sentiram usados e reprimidos. Pessoas que deixaram de sonhar porque um dia viram tudo que acreditaram ruir em pedacinhos impossíveis de colar em sua frente. Gente impedida de fazer escolhas livres. E pode ser mais simples, mas não menos dolorido. Gente que sente tremedeira ao passar em determinado lugar onde viveu um acidente; gente que morre de medo de velórios porque ainda não superou um luto grave; gente que não consegue colocar aliança no dedo, não consegue dormir depois de ver um inseto em casa, que não consegue vestir determinada cor, que sente náuseas ao sentir determinado cheiro que lembra um momento ruim, que mudam de humor ao ouvir determinada palavra, que nunca mais provaram uma comida depois de terem comido aquilo estragado. Prisões, que impedem o movimento da vida, livre, indo, voltando, machucando, curando. Prisões que paralisam e machucam de novo, e de novo, e de novo.

Creio que o trauma é uma vontade de segurar o tempo; de não sentir o vazio. Ao deixar a ferida da alma aberta, você se apega ao último vestígio do que um dia existiu de bom ali. Mas é uma ilusão. Ninguém segura o tempo, e ninguém apaga o que passou. Ninguém.

Quem tem um trauma precisa de cuidado. Precisa de gesso, de sutura, de fisioterapia, de remédio pra dor, de apoios externos. Precisa de carinho, de atenção, de gentileza, de cautela, de conversa, de fé em algo ou alguém. Precisa de muito, muito amor. Mas quem tem tempo pra muito amor hoje em dia? Tá difícil.

Mas mesmo o amor só pode ir até uma parte do caminho. Chega uma hora, um momento, um pedacinho que só o traumatizado pode fazer. É você com a sua alma, você em seu quarto escuro, trancado e lacrado e ignorado antes, mas agora aberto… E nada mais. Como o cachorro e o gato que, ao se machucarem, não deixam que ninguém chegue perto, e têm o instinto de lamber as próprias feridas, e ficar ali, acariciando o local ferido sozinho, achando que só saliva de quem sentiu a dor pode curar. E de repente é só isso mesmo. Sempre ouvi e acreditei que a natureza é mais sábia que qualquer um de nós.

Hoje, ao me ver morrendo de vontade de ir abraçar uma amiga em um momento difícil indo a um velório, sem conseguir, pensei nisso tudo, nos meus traumas. Me senti assim, presa, incapaz. O último velório que fui me deu vontade de morrer também, ali na hora, e tantas vezes depois. Ouço ainda a voz do meu próprio choro. Minha amiga e sua família querida nada têm a ver com isso, e são situações completamente diferentes. Mas não consegui.

Traumas são assim. Feridas.

E já passou da hora de eu entrar no meu quartinho escuro e ver o que tanto tem lá. Colocar todas as cruzes na beira da estrada. Subir de novo na bicicleta. Pra seguir. Pra continuar. Livre.

“Eu sei que as cicatrizes falam
Mas as palavras calam
O que eu não me esqueci.”

UM JARDIM

December 31st, 2014

Fotos máquina nova2014 foi um ano de sobrevivência. Indubitavelmente.

Posso lembrar dele como um ano de recomeço. O ano em que comprei meu apartamento. O ano em que tive depressão, não gostei mais da vida e precisei da ajuda de um psiquiatra e suas pílulas maravilhosas. O ano de aprender a ser viúva e conviver com uma tragédia, pensando que realmente, como todo mundo diz, eu sou forte, porque o que houve foi realmente grave e devastante. O ano em que me deixei levar por todo mundo, porque todo mundo parecia ter uma ideia do que estava acontecendo, menos eu. O ano em que fui pragmática o suficiente pra fazer o que tinha que ser feito, sem prazer, muitas vezes. O ano em que quase não saí de casa. O ano em que fiz uma greve longa e quase me matei de trabalhar depois. O ano das Alegrias de Quintal, um dos meus maiores sucessos profissionais. O ano em que tive que crescer na marra. O ano em que fui solitária como nunca. O ano em que conheci gente muito legal e que outras pessoas simplesmente desapareceram. Ano, como todos os outros, em que morreu e nasceu gente. O ano em que o amor me sorriu novamente – e estou tentando sorrir de volta. O ano em que todo mundo teve razão – política, ideológica, filosófica, religiosa – e achava que a sua razão era melhor que a dos outros… Ai, que coisa insuportável. O ano em que vi a verdadeira face de muita gente, e me assustei. O ano em que aprendi a orar e voltei a pensar mais sobre a minha fé, um ano de trocas espirituais importantíssimas. Ano de Copa do Mundo no Brasil. O ano em que o caos esperado não veio… E outras surpresas – desagradáveis e agradáveis -aconteceram.

Haveria muito a contar sobre 2014, mas foi um ano de muito, muito silêncio também. O ano em que percebi que a maioria das palavras é vã e inútil. Esse monte de livros que eu tenho aqui na estante, esse monte de coisas que as pessoas falam todos os dias, esse monte de coisas que eu escrevo… Tudo isso me pareceu tão incapaz de dar conta do que havia para ser dito, que o silêncio foi a melhor opção.

2014 poderia ser lembrado como um ano de muitas coisas importantes. Mas o que eu gostaria de guardar dele é que foi um ano em que aprendi a cuidar de plantas.

Sim, cuidar de plantas! Na casa da minha mãe até haviam algumas, mas lá nunca fomos de plantas nem de bichos… Só de pessoas mesmo. Por isso, eu tinha na cabeça que não conseguia cuidar de plantas… E todas as que eu colocava a mão inexplicavelmente morriam em poucos dias. Não tinha paciência. Não tinha jeito. Não tinha nem mesmo muita vontade.

Ao mudar pro apartamento, senti falta de outros seres vivos por perto, porque esse sabor de morte parecia impregnado em tudo por aqui. Bichos, nem pensar. Então, pensei em comprar uma azaleia na feira, do velhinho que vendia flores e recitava um versinho ( ele também morreu em 2014, meses depois ). Trouxe a azaleia pra casa e começou a saga de montar um jardim.

Algumas plantas você ganha; outras, você compra; e outras, você herda. Cada uma é de um jeito. Umas não crescem nunca, vão ser eternamente bebês. Outras, quase dispensam cuidados, ficam de boa no sol, na chuva, aguentam um tempão sem água e dão flor o ano todo. Umas são selvagens, outras delicadíssimas e quase precisam de uma redoma. Umas são plantadas com raízes fortes, e outras duram muito pouco. Sim, plantas morrem. Umas são suculentas e guardam água nas folhas, prevenidas. Outras são frágeis e carentes. Algumas precisam de muita água, outras de bem pouca. Umas adoram sol, outras só de longe. Umas crescem rápido e logo precisam de outro vaso. Outras, nossa, são bem lentinhas. Umas apodrecem por dentro e de repente murcham. Outras, ficam mais bonitas na primavera, e no inverno secam tanto que parecem que morreram. Umas renascem do nada. Algumas têm perfume, outras não. As que precisam de menos cuidados, normalmente, tem espinhos ou são ácidas. Cada uma é bonita de um jeito diferente. E tudo sobre elas você aprende na convivência, na tentativa e erro, prestando atenção. Aprendendo a esperar e observar. Sendo delicada, prestativa e entendendo a poética da coisa.

Então, eu fui entendendo qual é a manha de cuidar de plantas. Você não cuida de plantas se não conseguir se dedicar a elas; não cuida de plantas se não se importar. Não cuida se não investir tempo e dinheiro nelas. Não cuida de planta nenhuma se não usar um pouco a cabeça e aprender sobre elas, pesquisar, trocar umas ideias com quem sabe mais. Não cuida de plantas se não fizer determinados procedimentos vitais para elas, como dar água, adubar, podar, pensar na melhor luz do sol, colocar em local arejado, trocar de vaso. Não cuida de plantas diferentes se tratá-las todas do mesmo jeito, porque cada uma tem uma manha, e todas são muito manhosas. E acima de tudo, você não cuida de plantas se não conversar com elas.

Puxa, que pulo do gato! Sempre achei estranho e ria de quem conversava com plantas. Mas é verdade. Seres vivos, dos mais exuberantes aos mais inexpressivos, são assim – precisam de atenção, de carinho, de dedicação. E quando você dá o que precisam, eles começam a ficar mais fortes, mais viçosos, mais bonitos, e sobrevivem. E o que eles precisam é só isso… Luz, água, ar, carinho e atenção.

Conversei muito com minhas plantas. Contei tudo pra elas. Alguns dias, eu estava feliz e dividia com elas as minhas vitórias. Outros dias, eu contava como estava decepcionada com a vida e com as pessoas, e minhas lágrimas ajudavam a regá-las ( sim, 2014 foi um ano em que aprendi a chorar ). Teve dias em que esqueci delas, e no outro dia, estavam lá, murchinhas, com jeito de morte. De vez em quando passava no corredor e falava, puxa, como vocês estão lindas! Ficava admirando lá de fora como elas estavam crescidas e como o meu jardim foi ficando cheio, lindo, viçoso, chamando atenção das pessoas. Mostrava orgulhosa pras pessoas e dizia, veja, olha como está lindo esse jardim! Às vezes eu ficava com preguiça e tinha raiva do trabalho que elas dão… A sujeira, a  complicação e tudo o mais. Mas foi divertido… Foi tão legal.

Um jardim é um micro sistema de vida. Começam a aparecer coisas lá que não foi você que colocou, e nem chamou, mas que fazem ele ser interessantíssimo. Insetos, passarinhos, beija-flor, belas borboletas, plantinhas de ocasião, trevos, matinhos, folhas caídas. O jardim vai formando uma composição interessante, mutante, bonita, cheia de detalhes que você vê de perto e uma imagem completa que você vê de longe.

Então fui percebendo que esse lance de cuidar, é assim – quando a gente cuida de alguém, do mais simples brotinho, ao mais complexo ser humano, do mais espinhoso cacto à mais delicada flor… A gente também cuida de si mesmo. Não há cuidado sem doação, e sem recepção… Uma coisa leva a outra. Quem cuida de alguém aprende também a ser uma pessoa melhor, mais paciente, mais profunda, mais conhecedora de si mesma. O cuidado cura.

Cultivar é isso… Desenvolver. Cuidar. Doar. Podar. Regar. Arranjar. Todas essas palavras, tão próprias do cultivo de plantas, servem também para toda a vida, todas as relações, todos os aprendizados. A vida se mostra nesses movimentos miúdos. E, como plantinhas, vamos crescendo, sendo podados, mostrando nossas flores, secando, voltando a florescer, resistindo às condições climáticas, vendo alguns de nossos companheiros morrerem, vendo alguns outros chegarem, mostrando a que viemos. Nosso potencial estava todo em nossa semente… E o que nos tornamos está tudo no jeito em que somos cuidados, e no que aprendemos a cuidar de nós mesmos. Quanto mais o tempo passa, mais forte ficamos.

Eu poderia ficar aqui fazendo aquela lista de pedidos e desejos e intenções e tudo o mais pra 2015. É inútil. Será um ano como todos os outros – passos atrás, passos para a frente, 50% depende de mim e os outros 50% não.

Então, pra 2015, só desejo que o meu jardim continue lá, lindo, firme, forte… O de dentro, e o de fora. E que ele atraia muitos passarinhos e borboletas.

E um feliz 2015 com muitas folhas, flores e frutos para todos e todas.

 

A ÚLTIMA CARTA

September 22nd, 2014

dayvidwindson - carta

“Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.”

Carlos Drummond escreveu esse poema pra mãe dele, morta há muito tempo. Não é um poema de inconformismo, nem de revolta, nem de medo do futuro, nem de esperança. É um poema daqueles que constatam a realidade da vida. Pessoas amadas vão embora, nos deixam sozinhos na caminhada, e sentimos falta delas. Muita falta. E a vida perde um pouco do brilho, nas noites acumuladas dos nossos dias. É um poema que fala sobre a dor da saudade.

Enfim chegou a primavera. Você se foi no dia em que a primavera chegou, um ano atrás. E se foi quando a primavera da minha vida tinha chegado, bem no comecinho dela; quando eu estava começando a admirar as flores. Um tempo de alegria, de paz, de felicidade, de tranquilidade. Mas fez inverno outra vez. E outra vez. E outra vez. E está frio ainda. Embora eu veja os raios de sol lá fora, e tenha me esforçado para manter portas e janelas abertas… Ainda está muito frio. Muitos galhos ainda estão secos.

Dizem que agora acaba o meu período oficial de luto. É o que dizem os psicólogos e teóricos. Se eu fosse uma viúva de antigamente, só agora poderia tirar o vestido preto. Fico pensando que tipo de piadinha você faria ao me chamar de viúva. Penso  nas muitas outras risadas e piadinhas que você fazia sobre tudo. Penso em como você ria de mim de um jeito tão doce que eu não ficava brava, apenas ria com você. Acho que nunca, em tempo algum, ninguém prestou atenção em mim como você prestava. Você me media milimetricamente, me conhecia, e se interessava por cada mínimo movimento, pensamento, expressão, palavra, ação, sentimento meu. Você me filmava nos mínimos detalhes. Como dizia o Chico, “descartava os dias em que não te vi… Como de um filme, ação que não valeu.”. E eu fico pensando em como eu me sentia amada… No quanto o nosso amor me fez crescer… No quanto ser amada por você me libertou de tanta coisa que me prendia, que não me deixava ser quem eu sou… E em como, mesmo fazendo algo tão sério, a gente se divertia juntos.

Você não faz falta só pra mim. Faz falta pra sua família… Pra sua irmã, pra sua tia. Elas choram de saudade de você. Faz falta também pros seus amigos, que vira e mexe lembram de você, das coisas que faziam juntos. Faz falta pro mundo, que precisava tanto de mais gente disposta a ter a militância que você tinha, com o humor consistente e profundo que você tinha, com a sua inteligência rápida e sutil, com todos os seus talentos. Eu sei que dor não se mede, e que a dor de cada um é de um jeito. Só posso falar da minha. Ela é grande. E de vez em quando me bate com tanta força que me derruba. Mas eu levanto. Como você costumava dizer, eu sou marruda e sei fazer bico sem chorar.

Depois que você foi embora, ainda apareceu muitas vezes. Fiquei com suas coisas, seu computador. Achei nele uma carta linda que você escreveu sobre mim… Poemas que você passou a limpo com o meu nome – coisas que eu leio e me consolam toda vez que alguém ou alguma coisa me faz me sentir um lixo. Achei a pasta com músicas do Chico e as love songs que você baixou pra eu me divertir. Achei cartinhas dentro dos livros, achei coisas legais que você ainda não tinha me mostrado. Mas com o tempo, as coisas pararam de aparecer. O que restava de você foi indo embora. Eu tinha segurado umas roupas suas, mas o seu cheiro também sumiu delas. Dei pra uns haitianos que aportaram aqui em São Paulo, sem nada pra vestir. Creio que você, mesmo apegado como era, teria curtido que fosse assim. Você foi sumindo… E sinto sua falta.

Sinto sua falta, sim, e muitas vezes não me conformo. Fico pensando naquele dia. Eu nunca tinha visto ninguém morrer assim, tão de perto. Enquanto eu gritava desesperada pra você ficar, pra você aguentar, e te sacudia com tanta força, eu vi o brilho dos seus olhos sumir. Como tantos outros momentos especiais, foi um momento só nosso; mas, ao contrário dos outros, foi tão doloroso. Espero que você não tenha sentido dor. Mas te digo aquela imagem nunca vai sair da minha cabeça. Nunca.

Várias vezes eu pensei em morrer. Claro, não teria coragem pra me matar, não sou suicida. Mas eu quis que acabasse também pra mim. Não só por sua causa, não ( pode parar de se sentir o gostosão ), mas porque pensei que, de repente, naquele dia você ficou livre. Livre de tudo. A morte, enfim, é isso. Essa liberdade dessa vida maluca que a gente leva. Não tem mais problema, não precisa mais pensar em dinheiro, não sente mais dor, não tem que aguentar as pessoas loucas fazendo besteiras e magoando você, não tem mais que se preocupar em atingir essa ou aquela meta, não precisa mais sofrer. Pronto, acabou. Eu pensava, podia acabar pra mim também. Descanso. Pedi, algumas vezes antes de dormir, pra Deus não me acordar no dia seguinte. Mas Ele me acordou.

Claro, a vida andou. Naquele dia mesmo, cedo, sem nem sonhar com o que viria a seguir, você me fez prometer que eu andaria sem você. E eu cumpri. Continuei a faculdade. No trabalho, as coisas estão maravilhosas. Fiz uma greve imensa, você ficaria orgulhoso da sua Barbie Operária. O projeto do Quintal tá lindíssimo e indo rápido para além dos muros da escola. Continuei batendo muito papo com as meninas, cuidando da minha mãe e das crianças, continuei dando atenção pra esse monte de gente que eu amo e que me ama. Até me arrisquei a tentar amar de novo. Eu fui, aos trancos e barrancos, tomando antidepressivo, passando no psiquiatra, pensando em um dia de cada vez, falando e calando, procurando grupo de apoio, fugindo da realidade, sem vontade nenhuma de fazer nada, carregando noites e noites sem dormir, dando cada passo dolorosamente, e me achegando com Deus, que é o único que podia me entender… Eu fui. E cheguei aqui… Um ano depois do dia mais terrível da minha vida, viva. E sabendo que ainda tem muito pela frente.

Tem tanta coisa que aconteceu, que eu queria te contar. Tanta. Tanta coisa boa que você gostaria de saber. Vamos ter sobrinhos… Fernanda e Patrícia estão grávidas. A Deby cresceu, está adolescente, uma mocinha linda. Guilherme, Letícia, Dudu e Pedrinho também cresceram, e cada um desenvolveu ainda mais encantos; estão tão lindos. E a sua Bianca… Ah, como ela está linda. Vejo pelas fotos. Não tenho muita coragem de ir vê-la pessoalmente… Acho que ela é a pessoa que mais me lembra como você estaria feliz em estar vivendo, se pudesse. Eu fujo… Porque, se tem uma coisa que aprendi nesse tempo, é que eu sou humana. Falível, e atingível. Às vezes tenho que fugir, me esconder, ficar só.

Minha mãe operou o ombro, e já se recuperou… Meu irmão mudou de casa. Aliás, todo mundo mudou de casa. Eu comprei o apartamento do Levy… Saí da nossa casa. Não foi fácil, sabe. Mas mandaram, eu fiz. Aliás, fiz várias coisas que decidiram por mim. Não me importo. Não tinha condições mesmo de decidir. Não foi ruim. Estou aqui, com a minha casinha, morando sozinha. É menos divertido do que eu pensava. Você sabe, me enrolo toda com as coisas práticas. E sofro com a solidão. Fiquei tão carente… Você não reconheceria. V0cê me ajudava demais com essas coisas todas… Tem tanta coisa que ainda não resolvi. Sinto falta de você cuidando de mim.

Queria te contar tantas outras coisas mais. Queria comentar as coisas que acontecem com você. Queria saber sua opinião… Queria sua companhia.

Esta é a última carta que te escrevo. Não porque você não mereça outras, mas porque preciso que seja assim. Você me dava tanto que não consigo conversar mais com você sem resposta… Não dá. É muito vazio.

Mas quero que saiba que amar você e permitir que você me amasse foi uma das melhores coisas que fiz na vida. E que, se eu soubesse todo o preço que pagaria… Eu teria feito tudo de novo. Só que mais rápido. Pra gente ter sido mais feliz ainda.

Adeus, você… “E não pensa que eu fui por não te amar.” <3

https://www.youtube.com/watch?v=PUs144LMiy4

COISAS QUE EU SEI

July 4th, 2014

Pra que mais serviria fazer mais um aniversário, se não para refletir ( além de comer brigadeiros, claro )?

Nunca foi tão difícil viver como foi nos últimos tempos. Em muitos momentos, eu não queria mais. Mas o tempo foi passando e outro aniversário chegou. O meu dia da vida. Vida… Ah, vida. Não tem como não comemorar a minha vitória, a minha benção… O tempo que passou e me ensinou e maltratou e aliviou tanto.

Li textos de aniversários antigos ( e esse blog acaba de completar 11 anos, tenho alguns deles ). Como eu mudei… Quanta coisa que esperei à toa, quantos sonhos que já não tenho e não fazem o menor sentido, quanta expectativa frustada, quantas surpresas boas a vida me trouxe… Quantas decepções. Quantas voltas o mundo deu. Sou quase uma mulher de quarenta. E isso só me deixa segura e feliz de, apesar de tudo, ter vivido. E bem vivido.

E me deu vontade de registrar um pouco das coisas que hoje eu sei.

E eu sei que as principais coisas a gente não deve escrever à caneta, e sim a lápis. Eu sei também que você pode até deixar de abrir uma fatura de cartão de crédito ou olhar o saldo no banco, mas nunca deve deixar de abrir um livro de poemas ou parar para olhar a lua de vez em quando.

Sei que pode ser que você capriche, e muito, dê o seu melhor; e ainda assim, quase ninguém perceba, porque é preciso muito mais esforço para provar o que você pode fazer de bom – muito mais esforço do que o que você precisa para que percebam o que você pode fazer de ruim. Eu sei também que na maioria das vezes damos importância apenas ao que não importa, e isso é um vício idiota.

Eu sei que não é nada fácil ser leal e fiel aos seus valores, ao que você chama de ética… Mas vale a pena tentar. Eu sei também que nem tudo que me disseram era verdade, até porque a verdade quase nem existe; mas quando você encontra algo que é verdade, aquilo, de fato, pode libertar. Sei também que é muito tênue o limite entre esperar e agir. Sei que religiosidade é uma coisa, espiritualidade é outra, e é legal quando as duas se cruzam para virar aquilo que chamamos de fé.

Eu sei, e como sei, que realmente “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. E quando as pessoas se vão – e elas acabam indo, de um jeito ou de outro – a sensação de ter ido até o fim é a única coisa que pode te salvar da amargura e da tristeza.

Eu sei que nunca, nunca mesmo, vou agradar todo mundo, e por isso desisti de tentar. Eu sei que as máscaras cansam. Sei que não vou destruir e nem salvar o mundo com nada que eu diga. Sei que algumas utopias são quase impossíveis, mas esse “quase” me obriga a continuar brigando por elas. Sei também que todos os dias, os bons e os ruins, inevitavelmente passarão, e é minha tarefa escolher o que guardar de cada um. Sei o quanto a hipocrisia é demolidora de caráter e de relações. Sei também que odeio dinheiro, por causa do que ele faz contra as pessoas puras, e pelo que as pessoas impuras fazem por ele. Sei que  a única briga que vale a pena é aquela pelos seus sonhos mais loucos e profundos – o resto é apenas desgaste.

E eu sei também que a fé é algo para se aprender, não para se ganhar… Na prática. Sei que os mais sábios não são os velhos, e sim as crianças. Sei que a vaidade destrói mais que a inveja. Sei que o amor acaba. E a amizade também. Já a saudade… Essa não tem fim.

Sei que recomeçar é bom, mas não apaga cicatrizes. Sei que os vencedores não aprendem nem a metade do que aprenderam os perdedores. Sei que a maior prova de amor não são as palavras doces… E sim o silêncio das palavras duras.

Eu sei que minha mãe tinha razão em muito mais coisas do que eu imaginava, e não tinha um pingo de razão em outras tantas que pareciam tão certas. Sei que os perfeccionistas e críticos são apenas vaidosos que se acham bons demais para viver em um mundo caótico. Sei que tem mortos que voltam a arranhar o caixão. E sei também que não dá pra voltar atrás. Nunca. A vida só anda pra frente.

E eu também sei que cada um é capaz de dar conta de seu sofrimento – aos trancos e barrancos, mas dá. Sei que sempre vale a pena comemorar o pouco de felicidade que se consegue no câmbio ilegal, porque a vida é muito mais dor e luta do que sossego e sorriso. Sei que algumas pessoas nunca mudam, e outras mudam sempre – e eu gosto mais do segundo tipo de gente.

E eu tô sabendo que só vale a pena discutir com quem sabe que não sabe de nada. Sei que achar que sabe ou fingir que sabe é mais feio que não saber. Inclusive, tudo isso que hoje eu sei, amanhã posso não estar sabendo. Sem problemas.

Eu sei que o perdão é possível e fundamental, justamente porque desculpa não tira a dor. Que o tempo de dentro realmente passa bem diferente do tempo de fora.

Hoje sei que a falta de sono mata, e que só dorme tranquilo quem acredita que tem alguém cuidando de você enquanto seus olhos estão fechados. E sei que quem ama não maltrata, mesmo podendo fazê-lo. Sei que as pessoas morrem, de repente ou aos poucos.

Eu sei que, mesmo não estando só… Serei sempre só. Todos somos.

E eu sei que, mesmo sendo a vida o desafio que é, ela ainda vale a pena a tentativa de ser vivida. Até porque… Não tem outro jeito.

“Eu quero ficar perto

De tudo que acho certo
Até o dia em que eu
Mudar de opinião.
A minha experiência,
Meu pacto com a ciência,
Meu conhecimento
É minha distração…

Coisas que eu sei:
Eu adivinho
Sem ninguém ter me contado…
Coisas que eu sei:
O meu rádio relógio
Mostra o tempo errado;
Aperte o Play…

Eu gosto do meu quarto,
Do meu desarrumado,
Ninguém sabe mexer
Na minha confusão;
É o meu ponto de vista,
Não aceito turistas,
Meu mundo tá fechado
Pra visitação…

Coisas que eu sei:
O medo mora perto
Das idéias loucas.
Coisas que eu sei:
Se eu for eu vou assim,
Não vou trocar de roupa;
É minha lei…

Eu corto os meus dobrados,
Acerto os meus pecados,
Ninguém pergunta mais
Depois que eu já paguei.
Eu vejo o filme em pausas,
Eu imagino casas,
Depois eu já nem lembro
Do que eu desenhei…

Coisas que eu sei:
Não guardo mais agendas
No meu celular.
Coisas que eu sei:
Eu compro aparelhos
Que eu não sei usar.
Eu já comprei…

As vezes dá preguiça,
Na areia movediça,
Quanto mais eu mexo
Mais afundo em mim.
Eu moro num cenário,
Do lado imaginário;
Eu entro e saio sempre
Quando tô a fim…

Coisas que eu sei:
As noites ficam claras
No raiar do dia.
Coisas que eu sei:
São coisas que antes
Eu somente não sabia…

Agora eu sei.”


 

SURRENDER…

June 12th, 2014

 

Ah, o som de algumas palavras da língua inglesa… Gosto muito de algumas delas. Quando ouço “still”, “wonder”, “baby”, “mommy”, “rainbow”, “trust”… Acho o som lindo, independente do significado. É uma questão da língua e das sensações físicas que ela causa em pessoas como eu, que amam as palavras e tudo que elas ajudam a dar sentido. Mas nenhuma palavra da língua inglesa me parece mais linda que surrender.

Gosto do som… Mas gosto mais ainda do significado. Surrender , verbo ou substantivo, significa “render-se”. Entregar-se… Deixar de resistir, de tentar fugir, de tentar manter-se a salvo. Levantar os braços e dizer, “eu desisto!”. Significa também resgatar algo, no sentido de pegar de volta o valor investido. Significa, ainda, ceder… Entregar o ouro, deixar pra lá, desistir da discussão, dar-se por vencido.

Sim, este é o famigerado post de dia dos namorados do Mafalda Crescida, e cá estou eu divagando sobre a origem e o significado das palavras. É que eu acho que não se faz amor sem surrender. Aliás… Amar é muita coisa, mas principalmente… Surrender.

Pessoas que já caminharam alguns quilômetros na estrada da vida – que tem grama fresquinha, algumas flores, mas muitos trechos de pedregulhos – e que já machucaram bastante os pezinhos pisando nas pedras, acabam ficando com duas alternativas: ou sangram… Ou calejam. E muitos de nós, calejados ou doridos, acabamos escolhendo parar de caminhar… Ou continuar caminhando, mas com botas pesadas, meias de proteção e muito cuidado. Não queremos mais correr. Não queremos mais sentir o frescor da grama, e nem a delicadeza das flores. Não queremos pisar firme. Nos armamos dos pés à cabeça para evitar a dor, o sofrimento. E não surrender.

É que quem surrender pode ser considerado fraco. E ninguém quer ser fraco. Ninguém quer ser carente. Ninguém quer ser manipulável, ou sensível. Ninguém quer ser considerado boboca. Ninguém quer ser vencido. Ninguém quer ser levado no bico. Ninguém quer perder. Ninguém quer abrir mão das próprias manias, os próprios objetivos, os próprios sonhos pra dividir coisas com alguém que pode simplesmente deixar sua fortaleza arrasada e destruída, no chão… Mas pode também lhe levar pro céu. Minto. Quem ama, não. Quem ama, surrender. Quem ama quer e precisa surrender. Porque não dá pra saborear o melhor pedaço do amor sem baixar as armas e surrender.

Surrender pode ser tanta coisa. Pode ser admitir o encantamento, mesmo correndo o risco de o outro nem ter olhado direito pra você. Pode ser ter coragem de ligar, de convidar pra sair a primeira vez, de tentar. Surrender é aquela sensação incrível de medo e desejo que vem antes do primeiro beijo, quando você arrisca tudo e se joga num abismo, sem saber onde vai cair. Surrender é dispor-se… Dispor de tempo, de dinheiro, de sentimento. Surrender é aventurar-se. Surrender é ir sem jogar pedrinhas pensando no caminho da volta.

Mas, depois dos primeiros passos… Surrender passa a ser mais. É mesmo essa coisa de se render. De entender que não dá pra evitar dizer “eu te amo”, de procurar quando a saudade vem, de rearranjar toda a sua agenda pra ficar junto, de deixar todo o medo de se machucar de novo. É mais forte que você. E por isso, você surrender.

Surrender é mesmo também essa coisa de investir e resgatar depois. Tudo que você dá, o outro percebe e recebe… E acaba te dando de volta. Algumas vezes você fica em débito, outras em crédito. Mas o amor também é essa balança comercial em que a gente coloca tudo que tem, esperando render. E é uma delícia quando chega aquele momento de usar o que você economizou e investiu daquele jeito suado… E aproveitar, usufruir. Surrender a fundo… E ser feliz.

Não ama quem não surrender… Quem não aprende a perder, a ceder. Quem não abre mão de dizer o que pensa pra não desagradar. Quem não deixa pra lá algumas coisas que gosta ou precisa fazer pra passar algum tempo junto. Quem não perdoa. Quem não aprender a deixar de fazer questão da sua opinião, do seu estilo de vida, das suas coisas em benefício do outro, e ainda sentir prazer por isso. Não ama, pelo menos não plenamente, quem não se doa… Quem não tem paciência pra acertar as arestas. Isso não é mágica… É esforço. É surrender.

É uma delícia quando alguém se surrender por você… Pra você. É tão bom quando alguém baixa a guarda e se rende, e diz, tá legal, você venceu, faz de mim o que quiser, estou todinho ou todinha aqui, sou seu prisioneiro, sua prisioneira… E gosto de ser.

E também é bom quando você percebe que não adianta… Você está completamente surrender por alguém, pra alguém. É aquela sensação de se jogar em um rio do alto de um penhasco. O perigo é grande… Mas nada se compara à sensação de voar, e mergulhar. Uma delícia. Imagina só, se você sobreviver… Que história linda vai ter pra contar.

Neste dia dos namorados, meu caro defendido, minha cara protegida… Não se acanhe. Se joga. Pula. Vai. Surrender!

Eu estou indo de novo. E está sendo muito bom. J

“I´ll let you stay with me, if you surrender…”

MEIO ANO

March 22nd, 2014

Seis meses… Parecem seis anos. Que estrada longa.

Eliane tem razão, o tempo, para quem sofre o luto, é algo bem diferente do que é pra todos os outros.

Marcelo era alguém amável; não por essa ou aquela qualidade, embora ele tivesse muitas, mas amável como um todo. Machucado pela vida, mas extremamente amável. E eu o amava muito. E não sei se algum outro na vida me amou mais do que ele. Era alguém que me fazia sentir assim, amada, todo o tempo. Alguém que me fez conhecer essa incrível sensação de aceitação plena… Como ele vivia dizendo, para ele, eu era perfeita. E eu acabei acreditando. E isso me fazia muito feliz.

Não é fácil lidar com essa falta. É como esquecer o sabor de um doce maravilhoso que você comeu com o maior prazer da vida, mas sabe que não tem onde conseguir outro, não igual aquele. Talvez consiga outros melhores, ou quase daquele jeito, mas aquele… Aquele não tem como repetir. Vai ficar a lembrança daquele momento, daquele prazer, daquela delícia, daquele contexto. Mas o gosto… Esse a memória não é capaz de repetir. Porque a vida é assim. A gente vive o que tem hoje, sem saber o que fica pra amanhã. E por isso é tão importante viver plenamente, sentir todos os sabores, os cheiros, os sons… Hoje. Não depois, nem um dia… Mas hoje.

Me esforcei muito pra não deixar que um amor bonito virasse uma pedra dura e pesada no meu coração. Esforço mesmo. Me esforcei pra não deixar que o que me fez feliz me deixasse amargurada. E foi tanta força que eu tive que fazer que ninguém sabe. Ninguém pode nem mesmo imaginar. Talvez por isso de vez em quando me sinta tão cansada… Um cansaço milenar.

Mas quanto mais o tempo passa, mais tenho certeza de que, a mim, só cabe a gratidão por ter tido uma experiência tão intensa que me ensinou não só a amar mais e melhor, amar sem esperar nada em troca; mas também me ensinou a ter mais fé, sabedoria, me fez mais forte e me ajudou a confiar mais nos planos de Deus, mesmo que eu não os entenda. Hoje sinto que por pior que sejam as pancadas da vida, eu levantarei e seguirei adiante… Porque o melhor e o pior já aconteceram. E eu sobrevivi. Sei que a vida ainda pode me surpreender, para o bem e para o mal. Mas eu me sinto pronta para o que vier.

A vida é sempre melhor vivida do que imaginada. E pra viver, já dizia o Guimarães que o Marcelo tanto amava, a gente precisa mesmo é de coragem.

Hoje pensei tanto em quem me acompanhou nesse tempo. Me veio um profundo sentimento de gratidão. Quem chorou comigo… Quem veio aqui e me esperou dormir… Quem me deu atenção… Quem me pegou no colo… Quem me presenteou, mandou flores, cestas, presentes, bilhetes, cartas, livros. Quem resolveu coisas práticas pra mim… Quem me fez olhar para o passado e refletir… Quem me ajudou a olhar adiante e ver que existe uma tela em branco, que posso pintar como eu quiser. Quem me fez rir, cantar, acreditar, manter o foco no trabalho e nos estudos. Quem me levou pra passear, me levou pra igreja, me levou pra casa, me levou pro cinema, pro restaurante, pro show, pra festa, pra livraria. Quem não me deixou esquecer que eu era profundamente amada, e que não valia a pena desistir. Quem orou por mim nas madrugadas, nas manhãs, nas noites… Quem telefonou, mandou mensagem, se preocupou. E também quem soube a hora de fazer silêncio, se retirar e me deixar sozinha. Quem, em lágrimas, pediu para que eu não desistisse, para que eu não enlouquecesse, para que eu fosse adiante. Quem me ” fez comida, velou meu sono, foi meu amigo e me levou junto”. Muita coisa eu vi, outras não vi, não percebi, mesmo sabendo que aconteceram. Mas agradeço por todas, todas essas boas intenções e ações dirigidas a mim.

Tenho família, tenho amigos, tenho companheiros de oração, de vida, de sorrisos, de lágrimas, e de luta. Especialmente, tenho Deus Emanuel, que me acompanhou em todas as madrugadas solitárias, muitas de desespero e choro, de insônia e angústia, e soprava suave no meu ouvido… “Vai amanhecer já já… Tenha calma.” E amanheceu mesmo. Que presente… Que bem.

Hoje está nublado, e o sol e a chuva estão brigando por espaço no céu. “Eu rabisco o sol que a chuva apagou”. O céu parece perfeito assim, dúbio, da minha janela… E me deu vontade de cantar.

“E mesmo sem te ver, acho até que estou indo bem.
Só apareço, por assim dizer,
Quando convém aparecer.
Ou quando quero…
Quando quero…
Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção.
Eu rabisco o sol que a chuva apagou…
Quero que saibas que me lembro.
Queria até que pudesses me ver…
És parte ainda do que me faz forte;
E pra ser honesto, só um pouquinho infeliz.
Mas tudo bem, tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem de novo,
Acho que estou gostando de alguém.
E é de ti que não esquecerei…”