E ELES SE FORAM…

May 5th, 2012

Um dia, não sei quando, eu comecei a ter paixão por livros. Paixão mesmo. Como todo amor de longa data, temos fases mais apaixonadas, eles e eu, e fases mais distantes. A Internet roubou um pouco da minha atenção. Mas não há um dia na vida em que eu não esteja perto de livros, mexendo com livros, querendo livros… Lendo.

Cada livro que tenho na estante me lembra um momento, uma pessoa, alguém, uma fantasia que vivi ( ou que gostaria de viver ). Cada um deles tem uma história, um valor ( que nada tem a ver com preço ), um lugar marcado no móvel. Amores mais que amados, companheiros inseparáveis… Muitos dos quais eu nunca me separaria.

Mas nunca é muito tempo. E para que serve um livro, se não for pra ser lido? Por isso achei tão bacana a ideia de abandonar um livro em lugares estratégicos para que sejam apanhados por outros. A ideia de libertar livros, doando-os para bibliotecas, escolas, lugares onde as pessoas gostam de ler; a ideia de fazer os livros viajarem em intercâmbios com os amigos ( dar alguns e receber outros, e lê-los, e dá-los de novo ); a ideia de ofertar a amigos e parentes livros usados em dias especiais, como quem dá o que tem de melhor a quem mais ama; a ideia generosa e genial de desprender-se, desfazer-se de um livro para que outros possam usufruir de seus benefícios… De seus milagres.

Já fiz isso algumas vezes. E desta vez entrei no Book Crossing Blogueiro, a convite da minha amiga mais que querida Anabel Mascarenhas. A intenção era libertar e libertar-se de um livro, ou dois, ou três, ou dez, deixando-os em lugares especiais e depois contando a experiência.

Acompanhei posts de várias pessoas interessantes sobre o assunto, mas demorei a me organizar. Passei da data. Para mim, não é tão fácil desprender-me. Não das coisas, mas do que significam. Mas no feriado de 1º de maio, consegui finalmente participar.

Escolhi dois livros. O primeiro, “Feliz por Nada”, de Martha Medeiros. Gosto da escrita emotiva, clara e simples da Martha, cronista de primeira linha, sempre puxando o fio das coisas simples do cotidiano que levam aos sentimentos mais profundos. É muito parecido com o que eu faço aqui, no Mafalda Crescida, desde junho de 2003, quando ele começou. “Feliz por Nada” é um apanhado de crônicas publicadas. Comprei na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, um sonho de livraria, justamente quando estava recepcionando, com muita alegria, Anabel, seus pais e seu filho aqui em São Paulo. Ela comprou, fiquei com vontade de comprar também, e assim o fiz. Li cada uma das crônicas devagar, praticamente uma por dia, me apossando das reflexões poderosas da Martha. Foi uma leitura deliciosa. É um livro que eu gostaria muito de guardar. E por isso mesmo, deixei que fosse, antes que criasse poeira aqui em casa.

O segundo livro, “Você Pensa o que Você Acha que Pensa? – um Check Up Filosófico” tem uma história interessante. Comprei um exemplar por acaso, e comecei a ler. Achei interessantíssimo. O livro tenta revelar as incoerências do pensamento a partir de testes lógicos e reflexões bem casadas umas com as outras. Um livro desafiador, agressivo, mas excelente para abrir os olhos. O emprestei para dois amigos, que o devolveram intrigados depois de lerem. E comprei um outro exemplar para dar de preente de aniversário a alguém que, na época, sei que se interessaria bastante pelo conteúdo. Mas meu presente foi sumariamente rejeitado, sem sequer ser aberto, devido a razões absolutamente ocultas pra mim. Acho que a pessoa queria, mesmo sem saber, me magoar definitivamente. E por essas e outras, conseguiu. E fiquei com o livro, lembrança dessa dor, por um bom tempo, sem saber o que fazer com ele. Hoje, liberta do péssimo hábito de guardar marcas concretas de episódios como esse,  fiquei com vontade de me desfazer do livro e da rejeição que ele significou.

Preparei a despedida. Deixei um bilhetinho, escrito à mão, em papel bonito, dentro do livro, explicando que não era um liv ro perdido, e sim um livro abandonado, deixado propositalmente para que fosse encontrado novamente.

Escolhi o lugar. Um lugar onde adoro ler. Um lugar onde já passei muitas horas lendo. Um lugar onde o por do sol é lindo, onde eu gosto de estar e onde as pessoas estão calmas, tranquilas, reflexivas, de portas e janelas abertas.

O Parque Cidade de Toronto é delicioso aos finais de tarde. Fomos, meu amor e eu, dar uma voltinha sob o sol e cumprir minha missão. O livro da Martha deixei em um banco perto do parquinho das crianças. Lugar onde as pessoas se sentam observando a risadaiada e correria dos pequenos, e onde podem pensar como é bom sentir-se feliz por nada… Como pode ser simples a felicidade.

O livro de Filosofia aplicada deixei em frente ao banco onde as pessoas sentam-se diante do sol, para admirar o vai e vem da vida, onde eu mesma gosto de fazer as mais profundas reflexões.

Não nego, não foi fácil virar as costas e ir embora. E se ninguém os quisesse? Não estariam melhor acomodados comigo? E se quisesse voltar a lê-los? E se chovesse de repente? E se quem achasse não entendesse o gesto? E se os pegassem e jogassem em uma caixa de achados e perdidos, sem ler o meu recado?

Mas liberdade tem a ver com isso mesmo… Com o inesperado, com o imprevisível, com um leque enorme de possibilidades que podem acontecer. Liberdade tem a ver com deixar ir… E com ir. E tomara que meus livros possam ir, e ir, e ir, espalhando as sementes que deixaram em mim por aí, fazendo o seu literal papel valer a pena. Eles se foram… Mas estão em mim.

DECISÃO

March 6th, 2012

Um trabalho pode ser apenas um emprego, um enfado, uma obrigação, um lugar de onde você tira o mínimo pra sobreviver, pra onde você vai todos os dias porque não tem outro jeito, reclamando infeliz da vida.

Mas se você colocar amor, ele se torna sua missão, sua realização, seu prazer, fica cheio de significado e poesia… Um dos seus motivos para acordar.

Um bebê que nasce pode ser apenas um pedaço de carne com olhos e boca que vai sugar sua energia, tomar todo seu tempo, atrapalhar o seu sono, trazer gastos e dívidas e amarrar sua vida por um longo tempo.

Mas se você colocar amor nessa relação, o bebê se torna seu filho, e você vai curtir cada minuto, comemorar cada conquista, sofrer com cada tropeço e experimentar o lago mais profundo que um sentimento pode encher.

Um problema pode ser só um evento ou um fato que você, infelizmente, tem que resolver.

Mas resolva com amor, e você terá uma causa, uma luta, um aprendizado, algo para te desafiar e ensinar.

Uma pessoa com quem você convive pode ser apenas um colega, alguém que está perto, que não atrapalha, mas também não faz falta nenhuma, com quem você trabalha, almoça, pega ônibus, cruza no portão de casa, fica junto apenas por ficar.

Mas dedique algum amor a essa pessoa e ela será um amigo, alguém com quem você pode dividir sua existência, alguém que te ajude a compreender tudo e todos, com quem você pode realmente contar, a quem você pode realmente ajudar, e com quem você poderá se sentir menos só no mundo.

O lugar onde você vive pode ser apenas um chão pra você pisar, uma região de onde você pode retirar tudo que precisa, um espaço para você depositar ou retirar coisas, um lugar como qualquer outro onde você casualmente nasceu e/ou vive.

Mas coloque amor nisso e você terá um lar, uma cidade, um país para defender, e rapidamente aparecerão oportunidades para tornar você alguém mais responsável, mais cidadão, mais transformador da realidade – e portanto, mais consciente e ativo.

Uma pessoa problemática pode ser só alguém que não tem mais jeito, um tropeço, uma encheção, alguém vazio, sem esperança, sem futuro, sem razão de existir, que merece ser jogado de lado, abandonado, deixado para trás.

Mas dê muito amor, invista, acredite, cuide, fique quando todos já foram – e então você verá uma nova pessoa, alguém com um novo horizonte, com uma nova paixão, com um novo motivo, e então a vida pulsará em você também.

Alguém que você conhece pode ser só mais uma boca para beijar, um corpo para usar, alguém para passar o tempo, alguém com quem ficar trocando mentirinhas e truques de sedução… Mais um para colocar na lista de conquistas.

Mas se você colocar amor, essa pessoa pode ser sua companheira, sua alegria, alguém que você deseja com força, alguém para te desafiar e te levar cada vez mais além.

Religião, sem amor, é prisão; com amor, é fé.

Leitura, sem amor, é tarefa; com amor, é alegria.

Música, sem amor, é barulho; com amor, é arte.

Doação, sem amor, é vaidade; com amor, é solidariedade.

Sanções, sem amor, são ordens; com amor, são cuidados.

Reflexões, sem amor, são apenas pensamentos; com amor, são movimento.

Uma palavra, dita com amor, é um carinho.

Uma ação, se tem amor, é um gesto.

Um objeto, se tem amor, é um poema.

Um projeto, quando feito com amor, já é um sucesso.

Uma comida, feita com amor, é um banquete.

Um filme, feito com amor, é um clássico.

Uma viagem, vivida com amor, é uma jornada.

Uma tarefa, realizada com amor, é uma criação.

Uma escolha, quando feita por amor, é o caminho certo.

Uma mudança, quando vem com amor, é progresso.

O amor não acontece. Ele faz acontecer…

Porque o amor não é mágica. É uma decisão.

O QUE MOVE O MUNDO

February 26th, 2012

Já faz tempo que eu penso sobre o mundo e a humanidade. Achei que isso era inevitável, mas não é. Tem gente que não pensa, não. E vive feliz assim. Mas eu… Eu sou sempre tomada por uma inconformidade, uma angústia geral sobre as coisas incríveis e horríveis que o ser humano é capaz de fazer…  E desfazer.

De repente, vi pipocarem no minha página do Facebook, pouco mais de um mês atrás, mensagens sobre uma ação de reintegração de posse de um terreno, enorme, em São José do Campos, aqui pertinho de São Paulo. Pessoas indignadas diziam que a polícia, obedecendo ordens do governo do estado ( dando nome aos bois – sob o comando de Geraldo Alckmin, do PSDB ), apoiada em uma decisão da justiça ( dando nome aos bois – a juíza Márcia Loureiro ),  e sob o pedido do prefeito da cidade ( dando nome aos bois – Eduardo Cury, também do PSDB ), estava expulsando desse terreno mais de 2000 – duas mil, por extenso – famílias. E não era só isso. A decisão da justiça estadual contrariava uma outra decisão da justiça federal, que havia dado um tempo para que as pessoas pudessem se organizar para sair de lá, só depois de tentar recorrer às últimas instâncias judiciárias. A ação do governador, que gosta de mostrar por aí uma cara limpinha de bom moço, também contrariava um acordo verbal que havia sido feito um dia antes com líderes comunitários, deputados, representantes da sociedade civil e senador. O terreno de massa falida e inativo há tanto tempo, e que vinha sendo ocupado durante 8 anos por aquelas famílias, seria restituído, de surpresa, à força, e com muita violência, aos seus donos – um deles o Sr. Naji Nahas, famoso por suas acusações de corrupção e bandidagem.

Até aí… O que fazer, não é mesmo? A tal “posse”, tão característica do sistema capitalista em que vivemos – e que aprendemos a normalizar – deveria ser garantida. Embora existam muitos juristas consagrados que consideram a decisão da Juíza Loureiro bastante equivocada ( leia AQUI e AQUI ) por privilegiar o direito à posse em detrimento ao direito à dignidade e até mesmo o direito à vida, tão alardeados em nossa Constituição… Ela fez o seu trabalho, aquilo que considerou justo – independente de quais tenham sido suas razões. Parte da mídia faz questão de chamar aquele lugar de favela, quando na verdade era um bairro ( e mesmo que fosse favela, continuaria sendo o lar de muitas pessoas ); faz questão de dar a entender e até mesmo chamar seus moradores de vagabundos, quando na verdade lá moravam faxineiras, cabeleireiros, pedreiros, garçons, terapeutas, professores, motoristas, diaristas, vigias; faz questão de dizer que as famílias foram atendidas na desocupação e que estão recebendo auxílio do governo, quando foram entulhadas em abrigos dos quais hoje, um mês depois, já foram quase todas expulsas. Muita gente simplesmente se omitiu. Outros mentiram.

Mas o que impressionou foi a crueldade da ação, a maneira como as coisas foram feitas. São inúmeros relatos, de fontes absolutamente confiáveis, que descrevem como crianças, idosos e mulheres grávidas foram arrancados de suas casas, sem ter sequer o direito de pegar seus pertences. Um dia depois, as casas, cheias de móveis, eletrodomésticos, roupas, álbuns de casamento, carteiras, documentos, fotografias, enxovais de bebê – começaram a ser destruídas por tratores que transformaram o terreno do Pinheirinho em uma zona de guerra. O vídeo a seguir mostra bem como ficou o lugar.


Durante as semanas seguintes, o tamanho do estrago foi aparecendo. Pessoas foram feridas, estupradas e abusadas na desocupação. Várias delas não tiveram tempo nem de tirar seus pertences pessoais, como uma calcinha, um RG, uma mamadeira de suas casas. Vários animais de estimação foram mortos a tiros, atropelados ou detonados no meio dos escombros. Instrumentos de trabalho foram inutilizados e destruídos, não só por tratores mas também pelos policiais que estavam “desocupando” o terreno. Pegue uma pessoa, tire dela seu lar, sua história, suas possibilidades de futuro, até mesmo sua identificação, separe-a de quem a apóia, e veja como consegue se virar sem nenhuma dignidade. Nos abrigos, a situação era caótica. Muito calor, nenhuma privacidade, comida ruim, pressão para sair. O governo anunciou um auxílio-aluguel para quem conseguisse comprovadamente alugar uma casa – 400 reais, por 6 meses. Mas muita gente perdeu o emprego, e se tornou persona non grata por um dia ter morado no Pinheirinho. As crianças não tem material nem condições de ir para a escola. Entre os escombros, ocorreram misteriosos incêndios criminosos, que ainda queimaram animais machucados e destruiram o resto do que dava pra salvar. O discurso reticente do governo e da justiça era ofensivo diante de tanta dor e perplexidade. E os voluntários lá, segurando toda essa onda de revolta, miséria e violência.

Desde que começou toda essa desgraça, tudo que faço é me chocar cada vez mais e tentar, de modo bem tímido e limitado, ajudar aquelas pessoas à distância… Porque o que aconteceu ali realmente é uma das coisas mais horríveis que já ouvi falar assim, em tempo real. Pela crueldade deliberada da situação. E desde então passei a conhecer um pouco melhor também as pessoas que me rodeiam. Algumas, se mostrando tão caridosas e solidárias, tão emotivas e guerreiras em função da causa de outros seres humanos e animais em sofrimento. Outras, me revoltando e enojando com seu discurso higienista de apoio a essa ação, e por trás desse discurso, mil preconceitos de quem não aceita o diferente, o que é mais pobre, o que nasceu em outro lugar, o que levou uma outra vida, gente que apoia a violência, a mentira e a maldade enquanto fica aí, papagaiando versículos da Bíblia e esquentando os bancos de igreja, enquanto fica aí, posando de cidadão indignado. Gente que é “contra” o povo do Pinheirinho sem nunca ter feito um esforço mental de se imaginar no lugar de um pai ou uma mãe de família que não tem pra onde ir com seus filhos, não tem pra quem apelar, nem pra onde correr. Vi também bastante gente muito boa de discurso, mas que nada faz; e outras que até fazem, desde que não mexam um milímetro na sua risca diária de afazeres… Sem maiores sacrifícios. A cada uma dessas pessoas, inclusive a mim, sei que a vida  vai dar o que merece, porque o mundo é bem redondinho e dá muitas e muitas voltas. Mas o mais legal é que pude conhecer melhor também a mim mesma… Quem sou eu nesse mundo louco e qual o meu papel na hora de conscientizar e ajudar as pessoas. Em um tempo onde todo mundo tem opinião sobre tudo e carradas de razão, me vi na obrigação moral de me posicionar de verdade.

E uma das coisas que mais me enterneceu entre o povo que se moveu pra ajudar foi saber que um grupo de pessoas estava se organizando pra fazer bonecas de pano, para aquelas crianças que perderam todas as suas bonecas, perderam seus animais, seus cadernos de desenho, sua cama, seu lar… E estão lá, com seus pais, jogadas em abrigos, galpões e barracas no meio da rua – muitas sem conseguir ir à escola ou se alimentar direito. Achei lindo alguém pensar nisso, que delicadeza, que carinho, que amor! As Bonequeiras do Pinheirinho mostraram que é possível nascer flores no meio do lixo.  Paralelamente, eu estava aqui, recolhendo e carregando doações para que pessoas pudessem levar até lá e ajudar quem precisava. Muita gente tem dedicado tempo, esforço e dinheiro para ajudar essas pessoas, incansavelmente. E, graças a Deus, fui me envolvendo cada vez mais com esse povo.

Foi então que ontem, por uma oportunidade oferecida poir minha amiga de infância ( e como ela gosta de dizer, de adultância ) Marília Toledo, pude levar a Andréa Cordeiro, a puxadora desse cordão de bonequeiras, que veio de Curitiba só para chegar com os sacos de bonecas ao Pinheirinho. Seguimos, meu namorado, eu e ela, para São José dos Campos. As bonecas ( e bonecos, e bichinhos, e monstros, e heróis, e robôs ), tão lindas, junto conosco, e mais um monte de outras doações socadas em meu carro pequeno. Quem diria que justamente eu, que achei tão linda e fiquei tão tocada por essa ação, seria a privilegiada escolhida para carregar essas bonecas pra lá!

Olhar o terreno do Pinheirinho pós-expulsão é assustador. Uma coisa é ver as imagens pela TV ou internet. Outra coisa é ver a imensidão daquilo ali, diante dos olhos. O cheiro forte de morte. As árvores pintadas de vermelho, outras queimadas. Os escombros amontoados, centenas de pilhas de escombros. Um cenário de guerra, de tragédia, de devastamento, de destruição total. Nos abrigos, uma situação caótica de miséria, de abandono, de inconformidade, de dor. Gente se sentindo humilhada, agredida, roubada, perdida. Gente que não sabe por onde recomeçar. E entre eles todos… Crianças.

E ao receber das mãos da Andréa as bonecas, as crianças começaram a aparecer de verdade. Sorrindo, pulando, conversando umas com as outras, pedindo uma mão, um carinho na cabeça, um suporte, um olhar de compreensão.

Cheguei em casa toda dolorida de ontem. Não pela distância da viagem… Já dirigi até mais longe. Nem também pelo esforço de carregar coisas. Mas pelo impacto de sentir minhas mãos e pés amarrados vendo tanto a fazer. Ao mesmo tempo, meu espírito estava mais livre.

E foi então que eu descobri que o que move o mundo não é a ganância, o preconceito, a raiva, a cara de pau desses políticos nojentos. Nem os tratores, nem a força bruta, nem nada assim, tão truculento e insensível, que atropela e se movimenta sem parar. O que move o mundo é frágil, delicado, fraco, até. Mas impossível de ser destruído.

ENFIM, SÓ…

February 20th, 2012

Gosto das arrumações de janeiro… Espero por elas. Hora de colocar tudo no lugar, mudar alguns detalhes, repor e trocar coisas, desfazer os pequenos montes de papel acumulado, separar o que não serve. Fazia muito, muito tempo que não me sentia tão feliz em fazer isso como foi ultimamente.

Talvez porque fazia muito, muito tempo que eu não conseguia ficar realmente sozinha. Eu e eu, de casa vazia, de silêncio consolidado, de dona do meu tempo, sem compromissos para ter que ir a algum lugar ou agradar alguém. Eu e eu, tentando um entendimento perfeito.

Um entendimento perfeitamente possível… E saudoso. Correndo o dia inteiro, trabalhando demais, o tempo todo tanta gente querendo, exigindo, precisando de mim… E eu fui me deixando, aos poucos, pra trás. Gosto, e muito de estar perto de outras pessoas, elas me alimentam por dentro, de muitas formas. Mas também preciso de um tempo de digestão, e isso só posso fazer sozinha.

E é nesse tempo de solidão que eu me encontro com meu espaço. E nele, todas as coisas que são minhas de verdade. Me divirto observando o que toma mais lugar agora. Me surpreendo descobrindo coisas que eu nem sabia que tinha. Me alivio jogando coisas velhas fora. Me empolgo tendo novas ideias para enfeitar as paredes, os porta-retratos, as cantoneiras. Sinto de novo o cheiro dos perfumes, experimento os tons de todas as maquiagens, aponto os lápis, testo as canetas, prego botões que faltam nas roupas, reintegro as fivelas dos sapatos, coloco coisas no sol para evitar o mofo. E em tudo isso, vou fazendo um movimento interior de pensar sobre os cheiros, tons e passos do cotidiano.

No meio das antigas faturas de cartão de crédito, das apostilas que pouco ou nada me ensinaram, das garantias e manuais de instruções de aparelhos que nem existem mais, achei tanta coisa do meu passado… Tanta coisa que me contou sobre quem eu era.

Nos cadernos, anotações antigas e desconexas que já não fazem o menor sentido pra mim. Entre os cartões e cartas de amigos e amores, tantas palavras de gente que nem sei mais onde anda. Fotos de pessoas que não reconheço, ou lembro vagamente. Observações doloridas anotadas, sobre coisas que hoje já não me fazem sofrer mais. Contatos escritos e imagéticos com um passado remoto onde eu fazia de tudo – absolutamente tudo – para ser incondicionalmente amada, sem saber a origem dessa carência toda. As palavras SEMPRE e NUNCA usadas em declarações tão inconsequentes… E até mentirosas. Certezas que viraram dúvidas, dúvidas que viraram certezas. Quanta coisa que ficou pra trás. Quanta coisa que não preciso mais guardar.

Mas também tem tudo aquilo que me fazia e me faz forte até hoje. Amizades que o tempo afastou, mas não desintegrou. Pessoas que só de olhar em uma foto me trazem alegria e calma. Objetos que podem ser trazidos à tona e voltar a fazer parte do meu dia. Livros que me ensinaram filosofias importantíssimas, que apóiam minhas ações. Aquilo que fica dentro dos armários é tão importante quanto aquilo que eu descarto nas caixas de lixo. O que fica é alicerce e me sustenta. O que vai é peso, e me liberta.

E nos livros? Quantas dedicatórias… Quanta coisa que eu precisava reler. Quantas capas que eu sequer abri. Quantos grifos que eu não faria mais. Quantos buracos. Quantos preenchimentos.

E é assim, arrumando cada coisa, revendo cada espaço, que eu vou consertando a mim mesma. Que vou me perdoando pelas minhas próprias limitações. Que vou deixando o passado em seu lugar. Que vou me enchendo de esperança no futuro. Que vejo quanta coisa já fiz. E quantas ainda sonho em fazer. Que visualizo perfeitamente quem estará comigo. E quem eu tive que deixar ir embora, para bem longe.

No cd player, antigas canções que há muito não ouvia. E dentro de mim a certeza de que sou, e sempre serei a minha melhor companhia. O mundo tem muitas coisas e pessoas, e com muitas posso me admirar. Mas as melhores são aquelas que mereceram um lugar dentro de mim.

SOBREVIVENTES E FANTÁSTICOS

December 31st, 2011

Fico sempre impressionada com essas histórias de sobreviventes. Gente que passa dias debaixo de escombros, náufragos que nadam além das próprias forças até encontrar ajuda, pessoas que saem de um coma depois de passar muitos anos dormindo, pessoas que resistem anos e anos a prisões, maus tratos e violência; gente que cava a terra com a própria mão procurando um pouco de ar, ou que passam meses e meses vagando no deserto ou nas montanhas geladas para depois voltarem triunfantes para a vida que tinham antes, como heróis dignos de admiração. Sobreviventes sempre merecem respeito.

Também me impressionam as histórias dos fantásticos. O cego que virou fotógrafo. A mãe que ergueu o peso de um carro nos braços para salvar o filho. O visionário a quem todos chamavam de louco, e que criou algo brilhante. Os deficientes que são atletas. O analfabeto que escreveu um livro. Aquele que nunca pegou em um instrumento e compõe uma música. O pai que ao ver o filho adoecer de uma doença rara, estuda e descobre a cura. Aquele que ao passar um aperto,  cria um aparelho, uma fórmula, uma ideia diferente de tudo que já pensaram antes. O rejeitado que por força de vontade vira o fulano mais popular em seu meio. O condenado que perdoa seu carrasco. A gorducha que vira modelo. Fantásticos são pessoas que fazem muito com o pouco que receberam da vida, pessoas que vão além do mediano, do básico… Além do que se espera delas.

Histórias de sobreviventes e fantásticos são sempre recontadas, e contadas de novo, para que lembremos que ninguém – ninguém – pode saber até onde um ser humano pode chegar. Ninguém pode dizer o que é possível ou impossível.  Ninguém pode dizer onde ficam os limites. A nobreza de espírito pode ser encontrada em qualquer lugar, a qualquer tempo… Em qualquer pessoa. Especialmente onde menos se espera.

Quantas pás de escombros caíram sobre você em 2011? O que você viu explodir, sem que pudesse fazer nada para segurar? Quantos terremotos você teve que aguentar, permanecendo firme? Quantas coisas suas roubaram, destruíram, dizimaram… Quantas vezes teve que recomeçar do zero? Quantas pessoas você perdeu, para a morte ou para a vida? Quantos pequenos barcos fortes e seguros você viu partir ao longe, sem perceber sua presença no mar imenso e agitado, sem que a você fosse dada a chance de pedir ajuda? Quantas vezes você achou que não ia dar, e, refrigerado na alma, respirou, seguiu e está aqui?

Pois é, sobreviventes e fantásticos estão sempre por aí, perto de nós, para nos dar exemplo. Em 2011, vi vários e vários deles. Apanharam, perderam, foram agredidos, humilhados, desconsiderados… E estão aí, com o seu copo de champagne na mão acreditando que em 2012 será diferente.

E pode ser que seja. Para melhor e para pior. Pode ser até que o mundo acabe, como se diz. Mas a verdade é que os dias vêm e vão e a vida é isso aí mesmo: sonho e luta; dor e delícia; respiro e sufoco. E em 2012 não será diferente.

Mas aos sobreviventes e fantásticos, que vivem de fazer pequenos e grandes feitos, desejo que continuem remando contra a maré. Que continuem brigando com o destino. Que continuem reinventando a vida até que ela se dê por satisfeita. Que continuem provando que quem faz é quem decide fazer. E que continuem mostrando que, mesmo que tudo pareça dizer que não, o sim existe.

A vida costuma respeitar aqueles que a vencem nos piores embates.

Sendo um tempo de sossego ou de briga, que em 2012 aqueles que amo consigam sobreviver e se mostrarem fantásticos em cada um de seus dias. A começar por mim.

Quem viver… Verá. :-)

“Apesar das ruínas e da morte

Onde sempre acabou cada ilusão

A força dos meus sonhos é tão forte

Que de tudo renasce a exaltação.

E nunca as minhas mãos estão vazias.”

Sophia de Melo Breyner

Feliz 2012!!!

ACEITAR… APRENDER

October 15th, 2011

Essa história de amor é, antes de tudo, aceitar. Aceitar, do latim acceptare – “receber de boa vontade”. É bom quando você é assim, recebida com alegria, com vontade, com coração aberto, como se estivesse sendo muito esperada. Não como um acaso, uma surpresa, algo inesperado. Não como um estorvo, algo que de repente aconteceu, e trouxe problemas, e tem que ser contornado. Não como algo que tem que ser encaixado entre um compromisso e outro, algo que tem que ser espremido para caber onde não tem espaço. Não como quem precisa se adequar e se vestir de um outro jeito para merecer ser convidada.  Não como quem está quebrando um galho porque o outro não achou nada melhor pra fazer, ou ninguém melhor pra conhecer. Não com distração, de qualquer jeito… Mas ser aceita… Realmente recebida, como um presente, como algo suave e agradável… Aceita como você é. Ser aceita sem medo de ser acusada por seus defeitos. Sem receio de mostrar-se em todas os seus sucessos. Com seus tormentos do passado… Com todas as suas possibilidades de futuro. Ser aceita, ser curtida, admirada, observada com atenção… Ser degustada aos pedaços, com alegria, com festa, com respeito, com elevação… Com graça. E por isso, também aceitar. Aceitar, apesar de, por causa de, por ocasião de… Aceitar como quem é presenteada ao se doar. Aceitar conhecendo a si mesma, e também querendo investigar o outro por dentro, naquilo que realmente importa. E, nessa de ser aceita, entender-se como pessoa que merece ter amigos que te aceitem, família que te aceite… Um companheiro que te aceite, nas suas grandezas e pequenezas.

Essa história de amor é, depois de tudo, aprendizado. Aprender, em sua origem, apprehendere - ”agarrar, tomar posse de”. A gente não agarra se não sabe abrir as mãos na hora certa… A gente não agarra se não sabe fechar as mãos na hora certa. A gente não aprende a amar se não se desprende de si mesma para abraçar o outro… A gente não aprende a amar se não deixa as mãos vazias do passado para enchê-las de futuro. Aprender, um esforço diário. Aprender, uma superação da antiga ignorância pela luz do novo conhecimento. Aprender, sempre e aos poucos, como quem devora o que está aprendendo, mas pelas beiradas. Aprender, desafio depois de desafio. Aprender, sendo fácil ou difícil. A gente não toma posse daquilo que não entende como seu… Mesmo que não seja. A gente não aprende se não se doa para ser de alguém. Aprender, todos os dias, e em todos os movimentos… Aprender, aquilo que traz a mudança… O crescimento. Aprender junto… Aprender sempre.

Na última semana, passei por um teste muito duro. Ao ver meu companheiro em uma cama de hospital, eu tive medo de reviver a dor de ser abandonada mais uma vez. Medo, essa emoção tão verdadeira, genuína… Forte. Medo, mau conselheiro, péssimo delineador de ideias e de fatos. Medo… Esse ladrão da esperança que eu tão lenta e duramente reconstruí. Mas foi aceitando, e aprendendo, que passei na prova. E hoje, posso dizer que amo realmente… Amo de novo.

Eu talvez já tenha sido amada antes. Mas talvez nunca tenha sido aceita de verdade. Talvez já tenha sido engolida, mas nunca aceita. E é maravilhoso merecer ganhar esse presente da vida.

E sei que estarei sempre, sempre aprendendo a amar. Mesmo que doa, mesmo que não seja fácil, estarei sempre aprendendo. Porque só ama quem não desiste… Nem de si mesmo, nem do outro.

Sou grata pelo teste. Grata aos que me ajudaram a passar por ele. E principalmente grata por saber que essa chama que eu carrego dentro de mim não se apagou… Nem se apagará.

A FALTA QUE FAZ UM PAI

August 14th, 2011

Meu pai morreu quando eu tinha 18 anos. Antes disso, ele já tinha morrido um pouco pra mim quando saiu da minha casa e sumiu quase que completamente, antes que eu fizesse 15 anos. E antes disso, nós íamos vendo ele se matar aos poucos, e morrer um pouco pra nós todos os dias, por causa de um alcoolismo grave e pesado, desde que eu era pequena; uma doença crônica e que, hoje vejo, não era só dele, mas era nossa também. A morte do meu pai foi lentíssima e muito, muito dolorida. Para ele e para nós, filhos e esposa. E essa dor não tem como ser relatada ou explicada, nem justificada. Quem cresce no centro de uma família doente, entende justamente o que é isso, o que é essa luta pela sobrevivência emocional; quem não, não entenderia nunca, nem com todas as palavras do mundo ( e me arrisco a dizer que, por isso, essas pessoas deveriam agradecer todos os dias ).

Por muito tempo eu tive que trabalhar duro pra lidar com essa morte de pai, porque essas duas coisas, morte e pai, eram as mais difíceis de entender pra mim; conceitos complexos que me faziam uma pessoa complexa e defendida. Foram alguns anos de terapia, muitas leituras, conversas com pessoas, conversas com Deus, observação do comportamento humano, um curso de Psicologia, reuniões sofridas de Al-Anon, reestruturação da minha família e muita, muita conversa comigo mesma e com ele. Aos poucos, aprendi a compreender essa história de que as pessoas não são perfeitas. Aprendi também a dar a cada um o seu pedaço de culpa e de sucesso dentro de uma história de amor entre pessoas, sejam elas pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes. Aprendi a recuperar minha auto-estima, tão esmagada, colei-a de novo, pedaço por pedaço. Aprendi também a buscar essa figura paterna aos pedaços, nos meus tios, no meu avô, nos meus irmãos, e até no meu próprio pai, lembrando dos nossos bons momentos – e eles existiram, e foram muitos. Fui criada por mulheres fortes que não pareciam precisar de homens para nada, e foi difícil, está sendo ainda, me achar como mulher em relacionamento com homens sem ser como elas. Foi difícil lutar contra o impulso egoísta de achar que eu poderia ter um filho sem dar a ele um pai, sem dar a ele uma família, como se eu fosse auto-suficiente. Foi difícil aprender a dizer a palavra PAI, perdoá-lo, e hoje, tantos anos depois, estar aqui, nesta data, sentindo falta de ter um pai… Sentindo falta do MEU pai. Difícil, mas eu nunca desisti, e não desistirei. Por mim, e por ele. Ele, que foi quem mais me ensinou a fazer flores crescerem no meio das pedras nesta vida.

Trabalhando com crianças, já encontrei muitas delas sem pai. Muitas mesmo – desde aquelas que só têm o nome da mãe na certidão de nascimento, passando por aquelas que odeiam seus pais e preferiam ignorá-los, até aquelas que já tiveram muitos pais na vida, sem que nenhum deles chegasse a ser pai de verdade ( e até hoje me emociona ver um pai na reunião da escola, ou indo buscar o filho e carregando ele nos braços, ou brincando com eles no jardim da EMEI enquanto o portão no abre ). Muitos dos meus amigos também não têm pai. Curiosamente ( ou não ), também nunca tive um sogro. Todos os namorados mais constantes não tinham mais pai, ou não sabiam onde eles estavam, ou não me deram a oportunidade de conhecer seus pais. Esse buraco de pai sempre perto de mim, talvez me lembrando do meu próprio buraco… Me lembrando da falta que faz ter um pai.

Isso porque um pai faz muita falta, especialmente para uma filha. Faz falta ter alguém pra ninar você, pra te dar banho, pra dar bronca, pra cuidar das suas coisas, consertar os brinquedos e as coisas que quebram em casa, pra dar presentes, pra sair por aí com você nos ombros, pra dizer pra todo mundo que você é filha dele, pra te defender, pra te elogiar, pra te dizer como você tá linda quando estiver adolescente, pra ficar bravo com o tamanho da sua roupa ou com a quantidade da sua maquiagem, pra te ensinar a dirigir, pra ir te buscar à noite quando você está estudando ou saiu pra badalar, pra te levar ao hospital quando você está doente, pra te emprestar dinheiro, pra dar dura em paquera safado e implicar com seus namorados, pra te ensinar o que você não sabe, pra te levar pelo braço no dia do casamento, pra segurar os seus filhos no colo e levá-los pra passear. Faz falta sim, eu sinto essa falta todos os dias, mesmo tendo aprendido a fazer tudo isso sozinha. Faz falta e sempre fará. Falta sem compensação possível.

Talvez um dia eu também tenha uma família, e espero que nela tenha uma mãe feliz e um pai amoroso e presente. Hoje eu vou estar com meu irmão, que é pai dos meus dois sobrinhos lindos. Ontem, quando o via brincar com os filhos, ele, que cresceu na mesma família que eu, e estava ali, tão presente, firme e carinhoso, eu percebi que meu pai, se o visse, se nos visse, estaria orgulhoso de nós, de quem nos tornamos, de quem ainda podemos nos tornar. Então eu percebi que, pela sua falta ou sua presença, o maior presente que o meu pai me deixou foi ter esperança de sempre fazer um pouco melhor tudo que a vida me der. Não faço a menor ideia de onde ele está, mas pela fé, espero que ele saiba que, acima de todas as dores, eu também tenho orgulho de ser filha dele. E que tudo que eu mais queria hoje era tê-lo por perto pra presenteá-lo, abraçá-lo, cozinhar pra ele e dizer feliz dia dos pais.

Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

Cora Coralina


( Obrigada a Rô Adorável, que me lembrou dessa pérola linda em forma de canção… )

VOCÊ MERECE UM AMIGO

July 20th, 2011

Você merece um amigo que more bem distante, mas saiba se fazer presente, e outro que te faça perguntar onde anda a cabeça dele, mesmo que ele esteja ao seu lado. Você merece um amigo de antigamente que apareça agora, e um que apareça de vez em quando, e um outro que só aparece nas horas certas, e um outro que insiste em aparecer nas horas erradas ( e só depois você entende como as horas erradas podem ser justamente as certas ). Merece um amigo que apareça com força, e depois suma completamente na poeira do tempo. E merece também um amigo que seja constante e tranquilo.

Você merece um amigo que magoe, que machuque, que arranhe seu sentimento por ação ou inação. E merece um outro que te cure, que assopre, que te encante. Você merece um amigo que te faça esquecer, e outro que não deixe de te lembrar. Merece um amigo casual, e outro bem firme. Merece um amigo que compartilhe tudo, e um outro egoísta, que não te oferece nada ainda por cima leve suas coisas sem devolver.  Você merece um amigo que goste das mesmas coisas que você, e um outro que odeia tudo que você gosta. Merece um amigo que seja indiferente, e outro que preste atenção em tudo. Você merece um amigo que te irrite, e também um que te acalme. Merece um amigo ponta firme, e outro folgado.

Você merece um amigo funcional, que te ajude a fazer coisas que você não é capaz, e merece um outro que não serve pra absolutamente nada. Merece um que te atrapalhe bastante, que te envergonhe e te deixe em maus lençóis, e um outro que te ajude, te salve e te tire do sufoco. Merece um amigo correto, que lembre de todas as datas, e um outro desligado, que não aparece nem quando você convida. Merece um amigo que te cobre, te puna, te faça sentir oprimido. E um outro que te liberte, te apoie da maneira mais irresponsável, te faça voar. Você merece um amigo que te perdoe sempre, e um outro que precisa sempre ser perdoado. Você merece um amigo que te sufoque, e um outro que apenas te proteja.

Você merece um amigo de sempre, com quem o assunto nunca acaba, que vai mudando ao longo da vida com você e te acompanha em cada passo. Você merece também um outro amigo de vez em quando, que de repente não vai mais fazer sentido. Merece um amigo de época, com prazo de validade, amigo só de infância, só de adolescência, só de juventude, só de maturidade, e um outro que seja da vida toda. E também um outro amigo flutuante, que é só puxar e ele vem.

Você merece um amigo que comemore coisas com você, que adore festa e oba-oba. E um outro que não saiba suportar a sua dor, que fuja das suas lágrimas. Você merece um amigo que não perceba o óbvio, e também um outro que perceba o movimento mais sutil. Merece um amigo falso que te ajude a valorizar um amigo verdadeiro. Você merece um amigo que só ouça, e merece um outro que só fale. Merece um amigo que te decepcione, e um outro que seja uma boa surpresa. Você merece um amigo que te abandone na hora H, e um outro que apareça nessa mesma hora. Um que sempre diz as coisas certas, e um outro que só fale besteiras. Merece um que entenda seus sonhos, e um outro que te mostre a realidade.

Você merece um amigo que te ame, e um outro que te suporte. Merece um amigo que te defenda, e um outro que te traia. Merece um amigo que curta a sua presença, e um outro que te rejeite. Você merece um amigo pra ficar sem ver a hora passar, e um outro que você conte os minutos pra ir embora. Merece um amigo que te admire, e um outro que te inveje. Merece um amigo que te infle, e um outro que te murche. Você merece um amigo que precise de você desesperadamente. E um outro de quem você precisa… Desesperadamente.

Você merece um amigo só virtual, outro só de telefone, outro só de encontros, outro só de trabalho, outro só de ônibus, outro só uma vez por semana, outro só de igreja, outro só de sala de espera, outro só de supermercado, outro só de banco, outro só de mesa de bar, outro só de porta de algum lugar, outro só de carta, e um que seja tudo isso. Merece um amigo pra beber, pra compartilhar segredos indizíveis, com quem você pode reclamar da vida e falar mal de todo mundo. Merece um amigo que não te julgue, e te entenda. E um outro que te acuse antes de tentar compreender. Merece um amigo pra falar bem de você em qualquer circusntância, e outro pra te pichar por aí. Um que dispute coisas com você, e outro que te dê tudo de graça. Você merece um amigo atrapalhado, e outro cartesiano. Você merece um amigo que você queira imitar… E outro que você prefere não ver como é. Você merece um amigo completo. E outro em que falta o principal.

Você merece um amigo que se lembre de quem você realmente é. E um outro que finja que não viu quem você realmente é.

Você merece amigos que te mostrem todas as facetas da vida, e que façam  você  ver todas essas facetas em você mesmo.

Você merece um amigo… E merece ser um amigo também.

Feliz dia do amigo a todos que conhecem a alegria e a dor da amizade… Pois ela é como a própria vida: imprevisível, inconstante, eterna e necessária. :-)

FUGIR

July 11th, 2011

Fugir pode ser, sim, um ato de covardia, de preguiça, de egoísmo e imaturidade.

Mas fugir também pode ser um ato de rebeldia, de transgressão, de meninice.

A gente às vezes pode fugir de uma situação ruim, por cuidado, pra se preservar. Pode também fugir de algo que deseja muito, mas sabe que não devia desejar… E por isso, por cautela, por precaução… Foge.

A gente pode fugir de pessoas que não suporta mais, por fazerem mal. E pode fugir também por precisar de um tempo, mesmo daqueles que você ama muito. A gente pode fugir pra poder sentir falta, e pra entender, à distância, o habitual, o vai-e-vem de sempre.

A gente pode fugir de situações rotineiras, do cotidiano de mesmice, das coisas que nunca mudam. Se elas não mudam, a gente muda e foge um pouco, pra descansar, pra ganhar novas forças e depois voltar, trazendo um toque aqui e ali de mudança, pois quando a gente muda, não tem jeito… Tudo que cerca muda com a gente.

A gente pode fugir um pouco pra se divertir, pra desencanar, ver novas coisas, novas paisagens, novos ares, respirar de um outro jeito, dormir e acordar de outro jeito, comer de um outro jeito, conversar de um outro jeito.

A gente pode fugir pra se esconder, quando faz a óbvia constatação que existem coisas e pessoas muito mais fortes que nós, e que contra o que a gente não pode, a gente ignora, deixa pra lá até poder, ou deixar de fazer sentido.

A gente pode fugir sozinha ou acompanhada. Deixando aviso ou sumindo. Pra sempre ou por um tempo.

A gente pode fugir pra correr de uma coisa, sem perceber que inevitavelmente estamos correndo para outra, e isso não é ruim, muito pelo contrário… Pode ser ótimo.

A gente pode fugir de armadilhas que a gente mesmo arma, e que magoam, machucam, destróem, e lá, no canto de fuga, a gente coloca tudo no lugar, cola todos os cacos, e volta mais forte.

A gente pode fugir, sim. E muitas vezes, a gente deve fugir.

O dia-a-dia às vezes espreme a gente, sem que a gente perceba, e de repente, a gente está lá, espremida, comprimida, compactada, juntada. Fugindo, a gente pode finalmente espreguiçar, abrir os braços, abrir os olhos, abrir o coração, e voltar mais tranquila, pronta pra outra.

Fugir pode ser vital. E uma delícia.

Fui!

Soundtrack:

VERBETE

June 12th, 2011

NAMORAR

Datação
sXIII cf. FichIVPM
Acepções
verbo transitivo direto e intransitivo

1. Olhar com cobiça, desejando; querer; fazer de tudo para ter; mostrar o que tem  de melhor para agradar; traçar planos; perder o sono e a fome por; apaixonar-se irremediavelmente; sorrir à toa; ficar bobo; conquistar; viver alternando entre o céu e o inferno; desassossegar; arriscar-se.

2. Acompanhar; afinar-se com; sair junto; achar graça em tudo que o outro faz; encantar-se; valorizar pequenas coisas; dispor-se a conhecer; abrir mão de; passear de mãos dadas; comer junto; esconder-se; mostrar-se; buscar igualdades; driblar diferenças; ajeitar-se a; aninhar-se; curtir a companhia de; ter prazer em; olhar profundamente para; ser feliz em estar perto.

3. Beijar; abraçar; agarrar; tocar; acariciar; morder; balançar; roçar; acarinhar; sussurrar; brincar; admirar; atrair; seduzir; caprichar; tomar; sorver; esfregar; perder a cabeça; querer, querer, querer e querer.

4. Pertencer; dispor-se a; assumir; compromissar; precisar; contar com; cuidar; dividir; trocar; presentear; doar sem esperar retorno; retornar; apreciar com constância; manter; esforçar-se por; participar.

5. Lutar por; brigar; enciumar-se de; dar exclusividade a; ser leal a; falar a verdade; manter a palavra; discutir; tratar com sinceridade; conversar; expressar; esclarecer; curar; tentar e tentar e tentar e tentar.

6. Suportar; perdoar; desprender-se; relevar; esquecer; serenizar; superar; fingir que não viu; despriorizar; mudar de ideia; mudar de atitude; acalmar os ânimos; repescar; ajudar; desculpar; não criar caso; deixar passar; fazer questão; alternar; compreender; aceitar; ajudar.

7. Apoiar; admirar; elogiar; cruzar; enternecer; emocionar; tocar o coração; elevar a; priorizar; valorizar a; colocar em alto grau de estima e consideração; atentar-se a; ouvir; minorizar problemas; colocar a mão na massa por; alimentar; em estando em problemas, cuidar de; velar o sono de; dar toques a; ser o suporte de.

8. Sonhar com; planejar; buscar o futuro junto a; olhar para a mesma direção; estabelecer objetivos comuns; perceber desejos comuns; querer continuidade; apegar-se a; não querer afastar-se de.

9. Entregar-se; reformular-se; renergar-se; exigir-se; pacientizar-se; conscientizar-se; buscar humildade em si mesmo; respeitar-se; mudar; deixar o passado; curar feridas; deixar-se; permitir-se; querer bem a si mesmo; oferecer-se; manter-se; enfeitar-se; admirar-se; conhecer-se; domar-se; superar-se.

10. Viver junto.

Enfim…

AMAR.

Namorar de verdade mesmo é para os fortes.
Ajudinha do Houassis na parte técnica.

Feliz dia dos namorados a todos e todas que se dispuseram a levar o amor às últimas consequências… O que nada mais significa do que vivê-lo plenamente… :-)