SITES QUE, SE AINDA NÃO EXISTEM, DEVERIAM SER INVENTADOS

August 24th, 2008


Dia desses li, não sei onde, uma reportagem sobre um site que funciona como uma espécie de testamento virtual. Lá, você guarda senhas, segredos, recomendações e até declarações nunca feitas para serem abertas / lidas / compartilhadas depois que você morrer, por uma certa boa quantia por mês ( enquanto você está vivo e tem conta bancária, claro ).
Xeretando um pouco mais, descobri um outro site aonde, sob condição de pagar módicas quantias a partir de R$ 400,00, cria para você álibis para as mentiras mais cabeludas, limpando sua barra tranquilamente e de maneira bem eficiente.
Então eu, que até noivo encontrei aqui na rede, fiquei pensando: caramba, pra que será que a internet não serve?
Pensei em sites que, se ainda não existem, bem que podiam ser inventados por alguém.

Registro de Canalhas ( www.entregueocanalha.com.br )
Depois que minha amiga descobriu no Google que o namorado dela era casado, descobri que a internet é ótima para xeretar a vida alheia, mas alguém poderia facilitar o serviço. O site ideal funcionaria assim: se alguém faz alguma canalhice com você, você vai lá, registra nome, sobrenome e foto da pessoa e deda com gosto tudo que ela te fez. Poderia até mesmo ter algumas sessões, como por exemplo “canalhas no amor”, “canalhas na amizade”, “canalhas no trânsito”, “canalhas no trabalho”, “chefes canalhas”. Assim, quando você topar com alguém na vida, pode ir lá, colocar na busca, e ver se o fulano já pisou na bola com alguém. Facilitaria bastante. Só teríamos que ter cuidado para não sermos cadastrados por lá.

Imprima Dinheiro ( www.imprimadinheiro.com.br )
Em tempos de cartão de débito e crédito e transações bancárias on-line, me sinto entediada só de pensar em ir ao caixa eletrônico tirar dinheiro. Por que não imprimi-lo em casa? Você poderia entrar, dar o número da sua conta no banco e imprimir uma quantidade de dinheiro ou folhas de cheque ali, na sua impressora, conforme a sua necessidade. E mais, as notas poderiam até mesmo ter a foto da personalidade que você quisesse no fundo. Já pensou, uma nota de R$1,00 com a cara do Lula? ( Pensando bem, R$1,00 é muito pra ele ). Tudo bem que seria difícil controlar os hackers, as notas falsas e os gastões, como eu. Mas isso é um mero detalhe.

O que Dizer? ( www.dialogoperfeito.com.br )
Sabe aquela hora quando você ouve algo tão absurdo, estarrecedor ou idiota e… Faltam palavras pra dizer alguma coisa? E você pensa… Bem que eu podia dar AQUELA resposta… Mas não consegue? Pois é! Esse site poderia ter as respostas mais incríveis para os comentários, brigas ou falações em geral das mais diversas ordens. Bastaria colocar lá o assunto… E ele coloca as palavras certas na sua boca! Impressionante.

Look Ideal ( www.acertenolook.com.br )
Sabe aquele povo que faz a sessão CERTO e ERRADO nas revistas de moda? Eles poderiam estar on-line, 24 horas, pra dizer pra você qual o melhor jeito de se vestir. Funcionaria assim: você tira uma foto ou liga a webcam, chama o consultor e ele lhe diz, antes de você botar na cara na rua, se você está bonita ou não. Assim você não corre o risco de ficar mal na foto. Tá certo, você poderia ficar um pouquinho dependente da opinião dos outros e paranóica… Mas e daí? Pelo menos estaria sempre na moda.

Médico On-Line ( www.socorrodoutor.com.br )
Já que 98% dos médicos adquiriu o péssimo hábito de tratar você como lixo e mal olhar para a sua cara durante as consultas, que diferença faria se consultar on-line? Simples, rápido e confortável, especialmente para pessoas que detestam médicos, como eu. Você conta os sintomas em um formulário, ele receita algo pra você em uma tela, você imprime, compra… E pronto! Problema resolvido. Lá mesmo poderia ter um link para uma farmácia que manda entregar em casa. Ô, beleza!

Odeio Internet ( www.naoprecisodeinternet.com.br )
Uma comunidade virtual para expressar o ódio por toda a facilidade, futilidade, burrice e dependência criada pela internet. Uma pena que você tenha que conectar para se expressar… Tsc.

É, os tempos são modernos. Mas as pessoas continuam loucas… Como sempre.

AMIZADE, FLORES E SONHOS REALIZADOS

July 26th, 2008

Esta semana, depois de uma pequena temporada sozinha, voltei meu coração para os amigos, chamando por eles. E eles vieram, como sempre vêm - por e-mail, por telefone, no portão, no trabalho.

E uma dessas amigas, uma bem próxima e especial, me trouxe uma incrível notícia: está grávida. E eu nunca a vi tão feliz. Pra falar a verdade, fazia tempo que eu não via alguém ficar tão feliz.

Ela me disse que tinha em casa um galho sem flor há muito tempo. Que já estava até pensando em se desfazer dele, porque achava que ele não daria mais flores. E, junto com o broto de felicidade que cresce dentro dela, nasceu também a flor do seu galhinho. Tão bonito tudo isso… Pela sincronia, por saber que tudo a nossa volta sonha, chora e comemora conosco. É bonito pela flor, pela nova vida que ela está gerando, pelas mudanças que se desenham na vida dela a partir dessa criança, pelo amor que está no ar em volta dela. Amor tão denso que poderia quase ser tocado.

Embora toda felicidade intensa traga junto com ela um medo de que tudo se acabe, vi que há algo mais, se a felicidade vem de algo grande. No caso da Dani, não é só pelo bebê. É porque ela sabe que ele trará muitas outras pequenas felicidades, muitos outros momentos de alegria intensa, muitas flores no galhinho dela. É porque o bebê, além de felicidade, é um sonho. Um sonho que ela está realizando.

A felicidade de minha amiga me fez pensar em um outro capítulo sobre os sonhos. Um capítulo diferente dos que escrevi sobre os sonhos perdidos, os sonhos mortos, os sonhos ainda não sonhados, os sonhos perfeitos. Existem também os sonhos realizados. E que capítulo especial é esse… E que delícia ter sonhos realizados! Depois de tantos momentos difíceis, depois de tantas tentativas, depois de tantos motivos para desistir, de tanto choro e desesperança… O sonho vem e nos surpreende, nos recompensa por, no fundo, nunca termos deixado de acreditar. Ele vem e se torna realidade.

Não raro, os sonhos realizados são grandes sonhos, cultivados por longo tempo, e que mudam nossa vida depois que acontecem. Um filho, um casamento, uma formatura, uma viagem, uma casa para morar, um emprego, um projeto realizado. São sonhos de vida… Sonhos que marcam época e nos fazem ter uma alegria tão profunda que só o sorriso não pode expressar. A alegria de um sonho realizado é energia pura e boa, é o que movimenta o motor do sonhador - e de todos a sua volta - a trabalhar de novo por mais sonhos… Por mais vida e alegria.

Envolvida em algumas difíceis questões pessoais, que deixaram meu coração minúsculo e dolorido, também percebi uma coisa impressionante, um lado incrível da amizade: chorar com os que choram é bom. Mas alegrar-se com os que se alegram é ainda melhor. A alegria da minha amiga fez a minha tristeza parecer tão insignificante que realmente fiquei feliz por ela. E, mesmo em meio a problemas, ela me fez pensar que os sonhos realizados chegam para todos que os buscam, e quando chegam, todas essas tristezas ficam para trás.

Me deu vontade de contrariar o poeta. A tristeza é efêmera, idiota, e embora nos ensine algumas coisas… Passa, como um beliscão. Intenso, dolorido… mas fugaz.

Mas pensando melhor, vi que ele tem mesmo razão. A tristeza não tem fim. A felicidade, sim.

Mas e daí? Tudo fica mais fácil quanto temos, além da nossa felicidade, a felicidade dos outros.

A tristeza pode ser compartilhada, analisada, sentida pelos amigos. Posso chorar até mesmo por alguém que nunca vi. Mas a compreensão da dor do outro é pequena, porque ninguém quer trazer um pote de tristeza pra casa.

A alegria é diferente… É impressionante como a alegria se multiplica e contagia, e como ela fica, e como se torna motivo de esperança em meio a qualquer tristeza. Tente ouvir uma música alegre, tente ir onde as pessoas estão conversando alto e animadas, em um baile onde todos dançam descontraídos, em uma festa onde todos estão sorrindo, em um campo de futebol onde todos gritam, e pulam, e se abraçam quando acontece um gol. Não dá pra ficar imune, e a sensação é doce. A alegria se transmite… E fica com quem a compartilhou.

Passando a mão na barriga da minha amiga, eu quis que ela fosse ainda mais feliz. E, por mais impressionante que seja, deixei minha tristeza de lado… Pra ser feliz como ela.

Espero em breve poder retribuir, mostrando que o broto de alegria sempre dá alguma flor. Em nós mesmos e nas pessoas que amamos.

PENSAMENTOS DE FÉRIAS

July 19th, 2008


Nestas duas últimas míseras semanas de férias eu consegui algo que não conseguia há muito, muito tempo - ficar totalmente sozinha. Com a morte da minha avó, a casa não fica mais cheia de gente todos os dias, e quando todos saíam para trabalhar, eu ficava aqui, ou saía… Sozinha. Sem nada pra fazer, nenhum compromisso, sem essa obrigação chata de viajar e me divertir, sem livro, sem nada. Só eu e eu mesma. No máximo uma TV ligada em um programa inútil, ou um passeio a pé na rua, na feira ou no parque. Descobri que isso me faz muita falta. Não que eu não goste de gente - eu adoro. Mas só sozinha eu consigo fazer aquela higiene mental necessária para continuar sem me sentir completamente esgotada, como vinha acontecendo.

Algumas coisas que passaram pela minha cabeça nesse período:
* Um dos principais incovenientes de ficar mais velha é que, aos poucos, você perde completamente a paciência com papo furado.
* Mentir, às vezes, é realmente necessário. E quem diz que não é mentiroso.
* Me apaixonei completamente pelo meu MP4.
* Você finalmente se despede dos últimos resquícios de adolescência quando se dá conta que a MTV e as músicas que tocam no rádio ficaram insuportáveis de se ouvir.
* Dançar é uma das coisas mais legais que já inventaram.
* Amar alguém exige muito, muito planejamento e paciência.
* Fútil ou não, ir ao shopping e gastar muito dinheiro levanta a moral de qualquer moça. E dá uma sensação de poder maravilhosa.
* O egoísmo realmente faz parte dos ossos masculinos. É a última coisa que se desintegra neles.
* Há duas coisas que não tinham me dito sobre as verdades - elas são sempre individuais e absolutamente perecíveis.
* Dirigir em São Paulo me deixou mais agressiva e mal educada.
* Bêbados e chapados em geral são muitos chatos e irritantes.
* Eu amo a madrugada. Amo.
* As pessoas estão paranóicas com esse lance de peso. Ninguém mais consegue comer, ou conversar em paz. Sempre tem um chato pra puxar papo de regime ou exercícios. Blergh.
* Se você não pensar em comida, não sente fome. É sério.
* É um esforço inútil tentar tirar alguém de uma situação de sofrimento absurdo se a pessoa não está afim de sair da dor.
* Mulheres que andam atrás de moços com carros bonitos e carteira cheia não são espécie em extinção. Muito pelo contrário.
* A lua é muito linda. Sempre foi e sempre será.
* Uma das melhores coisas de ficar noiva é fazer o enxoval.
* Quem fala tudo que pensa não é sincero. Boa parte das vezes é só mal educado mesmo.
* Rituais são necessários. E normalmente são gostosos, se a gente desencana deles.
* É possível haver amizade sincera entre mães e filhas.
* Eu sei que a vida é sempre movimento. Mas às vezes eu só queria ficar um pouco parada.
* Namorado bom não é necessariamente o melhor homem do mundo, mas aquele que faz você ser melhor mulher do que era antes.
* Os anos passam e o Love Songs ainda é o melhor programa para se ouvir no fim de noite.
* Trabalhar, às vezes, é uma bosta.
* Mulheres, quando se juntam pra conversar, sempre acabam falando de homens.
* Tédio é uma doença.
* Adoro colocar meu nome nos livros.
* Há muitas pessoas especiais.
* Não dá pra ser amiga de ex-namorado, principalmente se o namoro não acabou porque você quis.
* O que está me faltando na vida é um pouco mais de romance. Visceral, suave, intenso e surpreendente romance. Com mais romance, com certeza eu sorriria muito mais, mesmo cheia de problemas.

DICA
Chocante, surpreendente, ousado, inteligente, belo, doce, tocante, emocionante, triste, reflexivo, divertido, genial, esperançoso - todos esses adjetivos me passaram pela cabeça enquanto assistia WALL-E, novo e melhor filme da Pixar. Em épocas de bichos falantes chatos e estressantes nos filmes de animação, esse filmaço é um achado! Tecnicamente perfeito, é história bacana pras crianças e fundamental para os adultos, com trilha sonora maravilhosa. Se você ainda não viu… Tá esperando o quê? Corre!

101 COISAS PARA FAZER EM1001 DIAS

June 7th, 2008


Vi a idéia por aí e achei legal.
Tem uma frase que justifica este post:
“Certas coisas, de tão sabidas, não são ditas. E por não serem ditas, são esquecidas.”
Neruda
PS:. Lista em ordem absolutamente aleatória.

1. Doar sangue, plaquetas, e me tornar doadora de órgãos e medula óssea.
2. Me graduar em Pedagogia.
3. Retomar pelo menos três grandes velhas amizades.
4. Assumir alguma função na igreja e levá-la muito a sério.
5. Voltar para as aulas de violão.
6. Casar.
7. Comprar pelo menos mais duas coleções de séries que eu adoro.
8. Aprender a usar agenda.
9. Jantar à luz de velas.
10. Montar uma pequena horta de temperinhos em casa, e cuidar de algumas plantas.
11. Fazer um piquenique em um domingo.
12. Reorganizar o blog.
13. Fazer aulas de alongamento.
14. Continuar as aulas de dança do ventre.
15. Levar as crianças no Zoológico.
16. Regularizar minha carteira de vacinação.
17. Visitar um orfanato.
18. Fazer o auto-exame das mamas todos os meses.
19. Comprar um teclado.
20. Escrever um livro infantil.
21. Publicar um artigo profissional em alguma revista interessante da área.
22. Comprar um vestido lindo.
23. Fazer uma viagem sozinha.
24. Dar um jeito no meu cabelo.
25. Renovar meu estoque de lingeries.
26. Engravidar.
27. Completar uma revista inteira de Sudoku.
28. Aprender a não deixar pra lá coisas que precisam ser ditas, e deixar pra lá coisas que não precisam ser ditas.
29. Fazer um bom e completo check-up.
30. Fazer um backup deste blog.
31. Escolher um lindo buquê e um lindo vestido de noiva.
32. Escrever uma linda carta de amor.
33. Tomar um porre.
34. Passear de mãos dadas no parque.
35. Dar um presente pra minha mãe que seja muito especial.
36. Fazer massagem pelo menos uma vez a cada seis meses.
37. Convencer o Beto a tocar guitarra em algum lugar.
38. Ministrar um curso sobre arte na escola.
39. Aprender a não gastar mais do que recebo.
40. Comprar um tênis para fazer caminhada.
41. Fazer uma poupança - de preferência depositando alguma coisa regularmente lá.
42. Tomar sorvete de iogurte com amora da Zuchero.
43. Visitar todos os museus interessantes da cidade.
44. Doar alguma coisa que seja muito importante pra mim.
45. Emagracer pelo menos 20 quilos.
46. Arrumar porta-retratos com fotos bem lindas.
47. Pegar uma turma de alfabetização, e alfabetizá-los.
48. Ler 30 livros ( não técnicos ).
49. Comprar um apartamento.
50. Aprender a usar todos os recursos da câmera digital.
51. Organizar meus CDs e músicas no computador.
52. Fazer uma coleção de qualquer coisa.
53. Fazer pelo menos 5 jantares temáticos para os amigos.
54. Montar um scrapbook sobre os meus amigos.
55. Montar um quebra-cabeça de 5000 peças.
56. Organizar um encontro do povo do CEFAM, e fazer acontecer.
57. Voltar a clinicar como psicóloga.
58. Comer mais devagar.
59. Ler poemas para uma pessoa cega.
60. Escrever em outro site ou blog.
61. Fazer um bolo bonito.
62. Escrever a história da minha avó e do meu avô no Museu da Pessoa.
63. Aumentar minha renda em 20%.
64. Registrar meus textos na Biblioteca Nacional.
65. Escrever um livro de crônicas.
66. Pintar um quadro com tinta óleo.
67. Conhecer Buenos Aires.
68. Fazer um projeto de consciência ambiental com as crianças.
69. Trocar de carro.
70. Aprender a dançar salsa.
71. Montar o meu projeto de pós-graduação - mestrado.
72. Jogar fora antigas cartas de amor.
73. Comprar e ler mais 8 livros de poema.
74. Aprender a fazer decoupagem em caixinhas direito.
75. Comprar um estojo de 200 cores de lápis aquarela.
76. Montar um portfólio e um bom currículo profissional.
77. Parar de arrumar briga no trânsito.
78. Experimentar comida japonesa.
79. Mandar algum chato que eu conheço ir à merda.
80. Oragnizar minhas fotos em lindos álbuns.
81. Passar um final de semana adorável em Parati.
82. Reciclar o lixo.
83. Dar um presente pro Beto que seja muito especial.
84. Escrever um currículo poético.
85. Fazer uma festa de aniversário diferente.
86. Ter uma idéia luminosa.
87. Voltar ao Rio de Janeiro.
88. Levar a Debinha para passear na fazenda.
89. Fazer uma lista de 20 filmes considerados clássicos que eu ainda não vi e assistir todos.
90. Ir a um baile legal e dançar a noite toda.
91. Visitar minha tia Neusa.
92. Arranjar um notebook.
93. Levar minha mãe para almoçar um dia ( só eu e ela ).
94.Ver um show inesquecível.
95. Fazer o curso de redação do Museu Lasar Segall.
96. Dormir um dia inteiro.
97. Ir ao cinema, a uma livraria e a um restaurante sozinha.
98. Ajudar a montar uma biblioteca comunitária no Morro Doce.
99. Aprender a fazer fondue.
100. Fazer pelos menos três novos grandes amigos.
101. Fazer uma outra lista como esta.

SÚPLICA AO MUNDO">SÚPLICA AO MUNDO

April 26th, 2008

Mundo, por favor, seja doce com as minhas meninas. Ensine-as a ser ternas, piedosas, calmas e carinhosas dando a ela amor e suavidade todos os dias. Ajude-as a entender quão importante é cultivar a alma a salvo das durezas do dia-a-dia. Que elas tenham um jardim secreto, um lugarzinho escondido, onde elas possam sempre sorrir e descansar. Faça-as conhecer pessoas que sejam bons exemplos de humanidade. Que elas recebam flores, presentes, sorrisos e graças de todos. Que sejam amadas e admiradas pelas pessoas mais rígidas. Que esquentem corações gelados onde forem. Que elas possam sempre ser abençoadas e viver em comunhão intensa com Deus, que encontrem esse caminho cedo e duradouramente. Que possam comer chocolate à vontade, tomar sorvete, lambuzar a cara de pirulito enquanto viverem. Porque se você for ruim para elas, mundo, será a minha boca que sentirá o gosto amargo.

Mundo, por favor, poupe as minhas meninas. Se elas caírem, que o chão seja macio. Se elas ficarem doentes, que não sofram mais que um dia. Se elas chorarem, que não seja de tristeza profunda. Se elas tentarem e não der certo, que perca a importância. Se precisarem de alguma coisa que não podem ter, que tenham o dobro em outras coisas que querem. Que elas nunca deixem de sonhar, de querer, de desejar. Não deixe que elas sofram ou vejam violência, que nunca sejam assaltadas, furtadas ou machucadas por ninguém. Ajude-as a se defender de abusos de qualquer natureza, e se não puderem sozinhas, sempre coloque alguém para ajudá-las. Por favor, Mundo, que elas só morram bem velhinhas e tranquilas, depois de terem vivido tudo que quiseram viver, sem nenhuma história ruim pra contar. Porque se você agredi-las, mundo, será como se batesse ainda com mais força em meu próprio rosto.

Mundo, por favor, encante minhas meninas. Mostre a elas coisas bonitas. Que no caminho delas haja sempre uma flor diferente, uma estrela mais brilhante, um céu mais aberto, um desenho interessante no chão. Mostre a elas o brilho do conhecimento, a força das idéias, o impacto positivo da Arte e da Música. Que elas possam, inspiradas por você, criar coisas nunca antes vistas, embelezar coisas que antes eram desprezíveis. Afaste-as da murmuração, da pobreza de espírito. Mostre a elas bons programas na televisão, que ouçam músicas lindas no rádio, que possam ir aos museus todos os meses. Que escrevam livros maravilhosos para elas, que lhes contem histórias fantásticas, que as minhas meninas possam ser sempre imaginativas e cheias de idéias mirabolantes e engraçadas. Porque se você for feio para elas, mundo, meus olhos e ouvidos serão feridos também.

Mundo, por favor, dê oportunidade para as minhas meninas. Que elas tenham bons professores, boas profissões, que possam expressar seus talentos. Que conheçam pessoas boas e inteligentes, que convivam bem com as diferenças, que aceitem o que é estranho para elas, que não se apeguem a coisas fúteis. Mundo, ajude-as a encontrar o prazer no trabalho, no estudo, na diversão sadia. Que possam namorar e se casar com bons rapazes, e que eles não sejam perfeitos para elas, mas que as ajudem crescer como pessoas. Que sejam atendidas por bons médicos, que sempre encontrem pessoas dispostas a escancarar portas e janelas, e que elas saibam entrar por elas com segurança. Que o coração delas nunca fique angustiado por dinheiro e nem por bens materiais, que possam ter tudo que precisam e saber lutar pelo que querem. Porque se elas não puderem conseguir coisas de você, mundo, então também eu terei perdido.

Mundo, por favor, desafie minhas meninas. Não as proteja demais, e nem torne-as fracas e sem iniciativa. Que elas possam sempre aprender uma coisa diferente a cada dia, que não tenham nada sem esforço, mas que não precisem se esforçar mais do que podem para conseguir. Que nunca se sintam abatidas por uma dificuldade, mas sim estimuladas a irem ainda mais longe. Dê para elas problemas para resolver. Fruste-as com cuidado, bem devagarinho. Provoque-as com sutileza. Movimente-as constantemente. Porque se elas se acomodarem, mundo, também eu serei menos brilhante.

Mundo, por favor, não castigue minhas meninas. Feche os olhos para os erros graves delas, não seja justo todo o tempo. Não cobre delas o preço pelas fraquezas humanas. Se elas não forem boas todo o tempo, finja que não viu. Não deixe que elas colham os frutos doentes se por acaso plantarem sementes podres. Ajude-as a não magoar as pessoas. Não deixe que elas tenham dificuldade de aprender as coisas. Não ligue se elas forem teimosas, geniosas ou preconceituosas. Que a aprendizagem delas sempre seja pelo amor e nunca pela dor, mesmo que elas não mereçam… Por favor, Mundo, por favor, dê a elas esse privilégio. Porque se você não tiver piedade delas, mundo, sentirei como se eu mesma não tivesse oportunidade do erro.

Mundo, por favor, seja saudável por minhas meninas. Conserve a salvo alguma água limpa para que elas bebam, algum ar puro para que elas respirem, alguns animais bonitos para que elas observem e se encantem. Tire um pouco de carros das ruas para elas passarem, apresente mais árvores no meio do concreto, deixe que elas tenham encontros frequentes com o mar. Não se entupa de lixo, Mundo, não deixe que estraguem tudo o que você tem de bom. Que elas possam colaborar para manter você em ordem e conservado. Porque se você não respirar melhor por elas, mundo, eu mesma me sentirei sem ar.

Mundo, por favor, não faça sofrer minhas meninas. Não deixe que sejam desprezadas por nenhum amiguinho. Não deixe que seus pais as abandonem e desamparem. Não deixe que os adultos as podem. Não deixe que sejam obrigadas a se calar. Mundo, por favor, não deixem que sofram por gostar de quem não gosta delas. Não deixe que elas façam escolhas erradas. E se fizerem, não deixe que elas vivam sem perceber isso. Não deixe que os dias delas passem em branco… Mundo, poupe-as da dor da solidão, da dor existencial, da dor de encontrar-se com o outro. Porque se elas sofrerem, mundo, o meu coração será tomado de uma tristeza infinitamente maior.

Mundo, não afaste as minhas meninas de mim… Não as leve para longe, não deixe que elas se esqueçam. Que eu sempre tenha algo de bom para compartilhar com elas, que elas sempre sejam minhas amigas, que confiem em mim, e que eu nunca as decepcione.

Mas se nada disso for possível, Mundo, se o desejo do meu coração não puder ser atendido… Se eu e você não pudermos protegê-las, favorecê-las, guardá-las… Se for preciso que elas, como as outras pessoas, tenham que sofrer mais do que parecem poder para viver… Se a essência da vida for mesmo viver com dificuldade, errando e acertando, chorando e sorrindo, encontrando e separando, tendo que conviver com o que é feio e com o que é belo, tendo que escolher entre o certo e o errado… Se nem tudo puder ser fácil, tranquilo e protegido sempre… Se você, de tantos pedidos, apenas puder me conceder um…

Então, Mundo, por favor, que a vida sempre valha a pena para as minhas meninas. Porque se elas forem felizes por você e apesar de você, Mundo… Então eu serei feliz também.

É o que sinceramente desejo para minha afilhada Débora, a luz da minha vida… Minha sobrinha Larissa, sinônimo de alegria… E minha mais nova sobrinha Letícia, que com menos de dois dias de vida renovou minhas esperanças com ternura e o mais puro amor.

CARTA - II

April 6th, 2008

Vozinha querida,

Tem tanta coisa que eu queria te dizer agora… Nessa hora, de dor e de separação.

Esta é daquelas cartas que a gente escreve pra gente mesma… Que nunca vai poder chegar ao remetente, ao menos não fisicamente. Muita gente diria que não faz sentido escrever uma carta pra alguém que não vai poder lê-la. Mas eu escrevo com fé de que você, de alguma maneira, vai saber o que eu vou dizer… Ou melhor ainda, já sabia, antes mesmo que eu pudesse escrever.

Você se foi na quinta-feira. Morreu de repente. As pessoas podem achar loucura eu dizer isso, uma vez que você estava em uma cama há 13 anos, vítima de um AVC fortíssimo, que lhe tornou totalmente dependente dos outros. Além disso, estava internada no hospital há duas semanas, e com 89 anos. Era de se esperar que, qualquer dia desses, você morresse… Mas aqui, no meu coração, você era eterna… Você sempre esteve lá. E com uma ingenuidade quase infantil, eu achava que você sempre ia estar.

Eu queria te dizer tanta coisa, e só consigo me sentir sozinha e desamparada. Como é dura a perda, como é duro entender que somos falíveis, e que nosso amor não é mágico o suficiente para segurar uma pessoa pra sempre perto de nós. É duro enxergar a vida como ela é, vó… E eu sei que você sabe disso.

Mas estou escrevendo mesmo porque esqueci de te agradecer. Agradecer por você ter cuidado de mim quando eu era pequena pra minha mãe ir trabalhar, mesmo eu sendo uma criança encapetada. Agradecer por você ter feito comidas deliciosas pra eu comer, por ter arrumado a minha cama, trocado minhas fraldas, lavado minhas roupas, me dado banho. Agradecer porque eu sei que você faria tudo isso de novo por mim, quantas vezes fosse necessário. Agradecer porque você me comprava doces, deixava eu brincar na rua e me obrigou a largar a chupeta. Agradecer porque você me levou ao médico quando eu quebrei o braço, me abrigava na sua casa quando eu queria estar longe da minha e me defendeu da braveza dos meus pais tantas vezes. Agradecer pelas cantigas, lições e coisas que você me ensinou com suas palavras e sua vida correta.

Eu esqueci também de te dizer que os melhores momentos da minha infância, eu vivi na sua casa, lá na Lapa, aquela casinha velha e simpática. Era lá que a vida fazia mais sentido, era lá que eu me sentia livre de verdade, e era láque eu gostava de ver você brigando com o meu avô por causa da escaleta. São tantos os momentos felizes… A sua casa era um oásis, e me salvou das loucuras dos meus pais inúmeras vezes. Obrigada por você ter acolhido a mim, e tanta gente, lá, comendo do seu feijão e dormindo no seu sofá.

Queria também dizer que eu sempre senti um orgulho danado de você. Eu sei, você era uma mulher simples, analfabeta, pobrezinha, negra, nordestina, e nos últimos anos, idosa e doente - um monte de coisas que as pessoas idiotas deste mundo costumam diminuir e desprezar. Mas eu sentia um orgulho danado de você ser minha avó! Te achava forte, íntegra, carinhosa e sincera… E, mesmo quando você pensava que eu não estava prestando atenção, você me ensinou o jeito mais completo e mais decente de ser uma pessoa legal.

Vozinha, por favor, me perdoa. Me perdoa quando eu te infernizei e desobedeci quando era pequena… Me perdoa quando eu deixei de te visitar quando fiquei mais crescida e tinha meus olhos voltados para o mundo… Me perdoa pelas má-criações… Me perdoa quando, depois de você ter vindo morar aqui nos fundos da minha casa, eu esqueci de ir lá pedir sua benção e te dar um pouquinho de atenção nos dias de muito cansaço. Me perdoa se muitas vezes eu não tive paciência com as agruras da sua doença, e nem compreendi seu sofrimento… Me perdoa se não fiz mais pelo seu bem-estar e seu sossego… Me perdoa se não quis que você morresse por ser egoísta demais pra me sentir desamparada. Eme perdoa pelas duras críticas que fiz a você quando estava me achando muito adulta e auto-suficiente. Me perdoa por ter me sentido magoada, achando que você sempre gostou mais do meu irmão do que de mim. Me perdoa por não ter ido ao hospital te ver na quarta-feira, e por ter ficado com raiva quando descobri que você tinha partido. Me perdoa por estar cansada demais pra segurar sua mão nos últimos tempos… Me perdoa por ter enfrentado você quando era adolescente. A verdade é que, perto de você, eu sempre serei uma menininha boba e chorona, precisando do seu colo e do seu carinho… Do seu exemplo e da sua força… Da sua sabedoria e do seu amor.

Eu queria também te dizer que eu sei. Eu sei que você orou por mim todas as noites da minha vida, que você fez por mim tudo que sabia, que podia, e que o seu amor por mim nunca teve medida.

Vovó querida, eu fiquei mesmo pensando num jeito de não deixar você morrer. Não o seu corpo, que este está lá, enterrado, no escuro e no frio. Mas não deixar a sua lembrança morrer. Fiquei tentando achar um jeito de contar pra todo mundo a pessoa incrível que você foi… Um jeito de não deixar morrer suas expressões hilárias, suas frases sábias, as suas receitas deliciosas, o seu pudim de leite, o seu macarrão. Um jeito para que, mesmo quando eu não estiver mais aqui, as pessoas pudessem saber que você existiu, e foi tão maravilhosa, e tão incrível… E tão tudo.

Meu coração se encheu de tristeza quando descobri que esse jeito não existe. Que o tempo vai passar, e vai levar tudo com ele. As suas roupas bordadas, as suas fotografias, as coisas que você disse… Tudo isso vai se perder. E não há nada que eu possa fazer… Nada. Um dia ninguém mais vai saber que você um dia esteve aqui, e abrilhantou o mundo com tudo que foi e fez.

Mas vovó, eu descobri também que, de um outro jeito, as pessoas como você nunca morrem, simplesmente porque afetam outras pessoas. O que você é está em mim… Não só no meu DNA, na cor da minha pele, no jeitão dos meus quadris.Mas está na minha subjetividade, nos meus hábitos, nas minhas idéias. E quando eu for avó, como você, meu netos saberão que muito do que eu sou veio de você… E assim também será com os netos deles também.

Cada um tem um caminho a trilhar, vó. Você trilhou o seu. Eu não sei o que me espera, não sei como vou me sair. Talvez a minha vida sirva para iluminar a vida de outros, como a sua serviu. Talvez eu passe em branco por aqui. Mas de um jeito ou de outro, eu serei sempre um pouco de você neste mundo. Espero conseguir levar esse honroso legado com a integridade que você merece.

Meu coração está em luto… Um luto triste e tranqüilo. Mas também está alegre por ter tido a graça de ter compartilhado da sua companhia.

Eu te amo muito… E nunca vou te esquecer.

Vai em paz… Que eu aqui fico. Viva… E deixando você viver através de mim.

Beijo da sua neta.

São Paulo, 06/05/08

SAUDOSÍSSIMA - II

March 16th, 2008


Muita gente me pergunta como é que se faz pra aguentar 35 crianças de 3 anos dentro de uma sala por 4 horas por dia ( depois de já ter aguentado mais 35 de 5 anos pelas mesmas 4 horas ). Eu fico frequentemente espantada com a pergunta, talvez porque, pra mim, o barulho, a confusão, o desgaste físico e emocional e todas as humilhações e idiotices políticas que afetam as escolas públicas já estejam naquele nível de dormência que me impede de questionar o inquestionável.

Mas outro dia, depois de uma conversa com uma amiga que me sugeriu milhares de outras profissões nas quais eu me daria muito bem ( segundo ela, é claro ), fiquei pensando nisso. Por que insistir com as crianças? PIor: por que insistir na escola, que já está tão falida que não passa de uma instituição fantasma? Já não seria hora de mudar?

Aí eu fiquei me lembrando de quando eu era criança, e o mundo era só um tapete rico e colorido pra eu andar e descobrir. Que delícia era aquilo tudo… Tudo era novidade. Uma fita métrica, um copo de lata, um carimbo da minha mãe, um elevador, uma roupa com lantejoulas. Tudo era brilhante e diferente, tudo era adorável e curioso. Tudo fazia o mundo ter uma graça, um mistério, um calor diferente. E me peguei muito, muito saudosa daquela época.

Para as crianças, os dias são assim: compridos, intermináveis. Eu me lembro que uma mesma tarde dava pra brincar, pra fazer a lição de casa, pra assistir o Bambalalão, pra dormir, pra desenhar, tomar café da tarde e ainda passear com minha vó no supermercado da esquina. Que tardes eram essas, que hoje em dia ficaram tão curtas pra mim? Por que o tempo, para os adultos, é tão curto, tão corrido? Quando ganhei o meu primeiro relógio que funcionava, aquele, que as crianças ganham quando ainda não sabem ver horas direito, me lembro de pensar que o relógio tinha que ficar na mão esquerda porque lá ficava a veia do coração. Eu acreditava piamente que eram as batidas do coração que faziam o relógio fazer tic-tac, que o tempo sempre vinha de dentro. Que pena que a lógica matemática dos adultos não me deixar mais acreditar nessas coisas…

E o que dizer da capacidade inesgotável de se movimentar? Pular de uma escada de 10 degraus, cair, quebrar o braço, correr sem parar, trepar nas estantes, andar de bicicleta por horas, balançar, gangorrar, pendurar-se nas portas do guarda-roupa, achar graça em galo na testa, língua mordida e gesso no pé… Que patéticos são os adultos, que só correm pra chegar no horário no banco, que não conseguem mais se atirar laje abaixo sem se quebrar inteiros, que não se aventuram mais a pular os degraus da escada, que não conseguem se movimentar nem pra buscar a comida na cozinha depois de um dia cansativo de trabalho. Patéticos são os adultos, que usam as mesmas roupas por anos, pois não crescem mais, não mudam, a não ser para envelhecer e engordar.

Os relacionamentos, esses eram efêmeros e deliciosos. Um sentimento de ira virava um tapinha ou um simples “tô de mal”. Uma festa de aniversário era motivo pra uma euforia incontrolável que durava dias. Uma brincadeira nova era razão de arrumar mais amigos, mais gente pra brincar e fechar a rua. Criança não costuma mentir pra agradar, nem pra fazer média, e também não gosta de ser contrariada. Que delícia era chorar com vontade quando alguém me magoava ou ofendia, ao invés de sorrir amarelo ou fingir que não entendi. Que máximo era gritar, beijar, abraçar e fazer carinho com vontade, descobrindo o outro, sem me preocupar em ser incoveniente nem invasiva. Que delícia era ficar de bem apenas dando um dedinho, sem precisar de tempo, nem de discussões fiolosóficas intermináveis, nem de promessas falsas, nem de perdões impossíveis. Que delícia era poder me expressar na certeza de que seria acolhida, não importa se estivesse feliz ou triste, brava ou tranquila, indignada ou pasma.

Os problemas de criança são curtos e intensos, como um comercial de televisão. Quanto tempo dura um castigo? Por que a capa do caderno rasgou? O que eu vou fazer quando o meu pai chegar e ver a parede rabiscada de canetinha? Por que o meu amigo corre mais rápido que eu? Nada parecido com as coisas que consomem os dias dos adultos, os adultos, tão lineares em suas desgraças, e incapazes de se divertir com a alma em meio às crises… Os adultos, que se preocupam com o que não podem e não poderão nunca resolver, e assim deixam os dias passando debaixo do próprio nariz.

A criança é aquele ser inacabado, aquele poema em construção, aquela música que está sendo composta. Se revê, se atualiza, se reencontra, se reencanta a todo momento, e assim é vista também. Para o adulto, não há mais mistério em como funciona uma televisão, nem em como as nuvens passeiam no céu, nem no granizo nos dias de temporal, nem em como se dirige um carro. Não há mais graça nas coisas pequenas do dia-a-dia, e é por isso que as pessoas grandes estão sempre buscando a alegria e o encantamento em coisas inatingíveis, imaginárias, em idealizações imensas e sem nexo. O adulto não consegue, como a criança, ser feliz com pouco.

É por isso que os adultos têm inveja das crianças. É por isso que brigam tanto, se incomodam tanto, se irritam tanto com elas. É por isso que querem controlá-las, ensiná-las, dizer o que têm que fazer, não importa se isso vai custar lágrimas inocentes e milhares de “cala a boca e obedece!”. É por isso que os adultos insistem em adaptar as crianças a um mundo que eles mesmos repudiam, sem dar a elas a chance de transformação, de criar novas possibilidades, de simplificar as coisas. É por isso que a criança é sufocada pela mania de”porvir” do adulto; ela acaba cedendo e se tornando um adulto triste, sendentário e complicado também. É por isso que as crianças fracas ficam tristes mesmo quando ainda são pequenas, tendo a infância roubada pela agenda louca e ditadora dos adultos. É por isso que nós, adultos, esquecemos de como era legal brincar e ter a felicidade ao alcance dos dedos com o passar dos tempos… E chegamos a nos perguntar por que queremos ter crianças por perto.

Depois de tantas viagens, descobri por que quero estar perto das crianças. É que, ao vê-las tão felizes com a vida, roubo delas um pouco dessa alegria que as crianças são. Roubo descaradamente, e me dou o direito e o prazer de redescobrir o prazer de carregar água de um lado pro outro, de descobrir uma fita métrica, de costurar uma boneca de pano, de brincar com lantejoulas coloridas, de pintar com tinta e melecar a mão. Passo por tudo isso de novo, e quando me esqueço, por alguns minutos, que sou a adulta responsável por eles, fico feliz e tranquila, como uma criança… Esqueço de tudo lá fora, e vivo minha vida leve de novo - ainda que não consiga mais correr por tantas horas, nem me encantar com o caracol sapateando perto da areia do parque. Quando estamos juntos, nos divertindo, ou quando eu as observo, vejo nelas a alegria que eu mesma era, e me lembro como a vida pode ser simples quando a gente fala “pefessola” e tem tudo pela frente. As crianças, se me sugam, me alimentam o dobro todos os dias. E é por isso que, enquanto a criança moleca que eu fui ainda estiver viva, vou querer estar perto delas.

A TEMPESTADE

January 28th, 2008


( MINISTÉRIO DO BOM SENSO ADVERTE - Este é literalmente um texto de auto-ajuda - estou tentando ajudar a mim mesma. Se servir pra mais alguém, ótimo. Mas não tenho a pretensão de ser dona da verdade de ninguém… Só da minha. E olhe lá. )

Problema é diferente de crise. O problema é um escorregão. A crise é um acidente grave de carro. O problema é perder 10 reais na rua. A crise é ter dívidas enormes com o banco e com o cartão de crédito. O problema é ter uma dor de cabeça. A crise é ter um tumor cerebral. O problema é discutir com o namorado por causa de um atraso. A crise é descobrir que não ama mais o marido. O problema é ficar de saco cheio do chefe de vez em quando. A crise é trabalhar sob constante estresse.

O problema é ter que passar o rodo no quintal depois da chuva. A crise é ver o barco enchendo de água durante a tempestade. Com o problema, você lida. Com a crise, você fica quase impotente. Quase.

Claro, tem gente que adora transformar problemas em crise. E gente também que enfrenta grandes crises tratando-as como pequenos problemas. Mas ninguém está livre nem de um, nem de outro. Uma hora, você vai topar com um dos dois, ou o que é pior - com os dois ao mesmo tempo.

Sobre os problemas, normalmente, não há com o que se preocupar. Eles vão passar, rápido. Para eles, vale aquelas máximas que as pessoas vivem dizendo. Por exemplo, que nenhum problema será relevante depois de um ano ( a maioria, nem depois de um mês ). E também que, se um problema tem solução, não é necessário se preocupar com ele, porque tem solução. E se não tem solução, idem.

Agora, a crise é diferente. Passar por ela é só para os fortes. Ela vai chegando de mansinho, tomando espaços vazios da sua vida, se instalando . Só que, de repente, vira um monstro terrível, pronto pra engolir você. Um nevoeiro que cega, não deixa você ver nenhum horizonte.

Os problemas nos desestabilizam, nos lembram que, como disse Victor Hugo, o riso constante é insano. Agora, as crises… Elas não. Elas vêm pra mudar a nossa vida. E mudam. Pra melhor ou pra pior.

E no meio da cegueira que a crise provoca, a gente precisa aprender a olhar.

Olhar para baixo, pois sempre haverá alguém que passa por uma crise pior do que a nossa… E nobreza mesmo é estender a mão para o outro quando queremos ser carregados no colo.

Olhar para cima, pois sempre há o apoio divino que pode resolver aquilo que ninguém mais pode.

Olhar para o lado, pois as pessoas sempre têm coisas importantes para nos ensinar e podem mostrar o que não conseguimos ver, seja por suas palavras, seja por seus exemplos.

Olhar para dentro, pois lá está a razão e a solução de tudo.

Olhar para fora, pois mesmo em crise, precisamos salvar o tempo do descanso, do sorriso e da beleza que está no mundo.

Olhar para trás, pois o nosso passado pode nos lembrar quem somos e qual é a nossa trajetória de crescimento.

Olhar para frente, pois como os problemas, um dia as crises passarão - mesmo que demore um pouco mais.

Acredito piamente que as crises sempre têm algo a ensinar, algo que só aprenderíamos passando por elas, e embora algumas sejam imprevisíveis… Nossa escolha conta muito. Um crise financeira pode nos ensinar a lidar de maneira mais consciente e generosa com o dinheiro, ou pode nos empobrecer e levar tudo que construímos. Uma crise de saúde pode nos ajudar a valorizar mais a vida, ou pode nos deprimir até beijarmos a morte. Uma crise na família pode nos lembrar da importância de ter alguém por perto, ou pode nos afastar das pessoas. Uma crise no amor pode nos fazer mais maduros, ou pode nos devolver à solidão. Uma crise no trabalho pode nos apontar novos caminhos de realização pessoal e profissional, ou pode nos deixar frustrados e infelizes. Uma crise existencial pode nos responder perguntas que sequer faríamos antes, ou pode nos calar. Não é fácil passar por uma crise. Mas pode ser bom. O sofrimento será proporcional a dureza da nossa cabeça - quanto mais flexíveis e abertos formos, mais rápido ela passa, e menos dor causa.

Meu avô dizia, quando eu não queria fazer lição de casa - “se tem que ser feito, faça logo; o tempo de brincar e ser feliz é muito mais precioso, e não pode ser perdido.”. No fim, a crise é mesmo uma questão de atitude. Com ela, aprendemos a olhar para muitos lados… Contanto que não fiquemos com os olhos presos nela.

“Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor
E insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não vemos...”

AZUL DA COR DO MAR

January 16th, 2008

É muito interessante essa coisa do sofrimento.

Outro dia vi no Fantástico, no quadro da filósofa Viviane Mosé, uma história, entre tantas outras histórias absurdas que a gente ouve por aí. Um homem honesto, daqueles que vivem para trabalhar na roça e que têm a decência tão fundo que chega nos ossos do corpo, foi acusado e condenado injustamente de ter cometido um crime grave. Na cadeia, apanhou tanto que ficou cego e com uma perna debilitada. Lá passou bons anos da sua vida. Ele e sua família, que dependiam do trabalho dele pra viver, sofreram. Sofreram muito. E, diga-se, não deve haver nada que justifique tamanho sofrimento para pessoas boas como aquelas.

Tem gente que sofre na vida. Gente boa, inteligente, estudiosa, criativa e animada, que não consegue trabalho, ou se consegue, a empresa fecha, tem um chefe invejoso perseguindo, sofre um acidente - e lá vai o emprego embora. Tem gente que jura que conheceu uma boa pessoa pra se casar, mas depois que casa, o fulano se mostra violento, alcoólatra, vagabundo, distante - e lá se vai um sonho de amor destruído, levando junto a dignidade dos envolvidos. Tem gente que finalmente, depois de ralar a vida inteira, ganha na loteria, e quando vai desfrutar da vida mansa, fica doente, ou morre. Gente que é e explorada, maltratada, sujeita a doenças, a maldades de todo o tipo. Gente que não consegue nada fácil. Gente que a vida pisa e judia de muitas formas.

Por outro lado, tem gente que parece guiada por uma estrela diferente todo o tempo. Gente que não merece nada de bom, mas tem tudo - dinheiro fácil, nunca pega nem um resfriado, um amor bacana, beleza, amizades, flores todos os dias, nível zero de preocupação. E estão lá, desfrutando, passando leve pela vida.

O que é que causa esse abismo entre o sofrimento imenso de alguns e a felicidade fácil de outros? Por que às vezes a vida parece tão injusta?

Fiquei pensando nisso. Karma? Não acredito em vidas passadas e reencarnações, portanto, o que tem que ser resolvido e pensado pra mim é aqui e agora. Escolhas? Não dá pra engolir… Será mesmo que tudo, absolutamente tudo está mesmo sob o controle de nossas decisões dessa maneira? Não… Sempre há uma boa parte que não depende de nós. Sorte, azar? E de onde viria essa energia esquisita que se distribui de forma tão desigual? Não… Destino? Coincidências? Provações divinas? Uma eterna propensão natural do ser humano para a dor? Desgraças estatísticas?

As pessoas fazem o jogo do contente, esperando uma redenção que - um dia, elas precisam acreditar - virá. Dizem que é bom se conformar, que a vida é assim mesmo, que nunca a tempestade é maior do que podemos suportar, que questionar o destino é errado. E, é claro, tem gente que até vive procurando o sofrimento o tempo todo, punindo a si mesma a aos outros de uma maneira muito cruel. Tem gente que até mesmo se acostuma a sofrer tanto que quando tem um momento feliz não sabe aproveitar, não entende.

Sofredores e não-sofredores… Eu não estou nem em um grupo, nem em outro. A vida foi relativamente boazinha comigo. Tive família, tive chance de estudar, nunca passei fome, minha saúde sempre foi ótima, escolhi a profissão que amo, nunca sofri grandes fatalidades. Mas também nunca ganhei muitos presentes. Tudo que eu tenho tive que trabalhar muito pra conseguir. Todas as minhas conquistas custaram muitas lágrimas, reflexões e cansaço. Todos os sonhos realizados tiveram que ser construídos por minhas próprias mãos, tijolinho por tijolinho. E ainda tem uns tantos outros que, eu sei, vão custar muito pra realizar. Muito. E muita coisa eu vou morrer desejando, sem conseguir alcançar jamais.

Mas eu penso nisso quando vejo essas imagens de gente que perde tudo em uma enchente, que morre em acidente nas estradas por causa de um outro motorista bêbado, que é ludibriado, que pega uma doença rara, que é enganado, que estava no lugar e na hora errada, que nasce e vive sofrendo. E não estou falando só de dinheiro e bens materiais, não. É muito mais que isso.

Às vezes é uma grande pena que esse tipo de questão não tenha resposta… De repente, o lance é mesmo só pra gente perguntar.

Há canções que a gente ouve, canta, reproduz, imita, repete… E um dia, de repente, ela faz tanto sentido que você descobre por que é uma grande canção.

“Ah… Se o mundo inteiro me pudesse ouvir…
Tenho tanto pra contar, dizer que aprendi
Que na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri…

Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar razão para viver
Ter na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul… Azul da cor do mar…”

DEPENDE DE QUEM?

December 31st, 2007

Esperanças à parte, deve ser verdade o que sinto sobre 2008.
Em 2008, a fumaça dos carros, o desperdício e a falta de consciência vão continuar destruindo a natureza. Mas eu posso tentar ter atitudes mais ecologicamente responsáveis no meu cotidiano.
Em 2008, é provável que haja ainda mais guerras, violências e assinatos estúpidos. Mas eu posso tentar plantar a paz nas minhas relações, evitando brigas inúteis, discussões sem sentido e tentando dirigir de maneira menos agressiva.
Em 2008, políticos vão continuar corrompendo, roubando e mentindo. Mas eu posso tentar me informar melhor, pegar no pé dos políticos que elegi e me preparar para as próximas eleições de forma mais consciente.
Em 2008, a Educação vai continuar em último plano na agenda do povo brasileiro. Mas eu posso tentar ser uma professora melhor para os meus alunos.
Em 2008, os meus amados vão me decepcionar muitas vezes. Mas eu posso tentar ser mais compreensiva e justa nos meus feedbacks, para que continuamos evoluindo no intuito de construir relações divertidas, calmas e saudáveis.
Em 2008 vou ter que engolir muitos sapos. Mas eu posso tentar me trabalhar pra não me sufocar com eles, ou devolvê-los, se assim for melhor.
Em 2008, o sedentarismo, a comida ruim, o estresse e o ar sujo de São Paulo vão continuar detonando minha saúde. Mas eu posso tentar me cuidar melhor, evitando excessos, dormindo direito e respeitando os limites do meu corpo.
Em 2008, a correria vai de novo me engolir, roubando o tempo de descanso, de diversão e de encontrar os amigos. Mas eu posso tentar tornar sagrado um horário na minha semana, mesmo que pequeno, dedicado só a mim.
Em 2008, o dinheiro suado que eu ganho vai valer cada vez menos. Mas eu posso tentar não gastar com bobagens e cuidar melhor pra não ficar apertada.
Em 2008, a vida vai seguir como sempre segue.
E vai depender de mim fazê-la melhor, aproveitando a chance de recomeçar de um outro jeito.
Certamente não vou mudar o mundo.
Com certeza não conseguirei mudar tudo que preciso a minha volta.
Talvez consiga mudar um pouco em mim mesma.
Mas também é certo que não passarei por um ano sem aprender nada de bom.
Um brinde a 2008!
E que ele venha pra ensinar exatamente o que é preciso aprender.
Tim tim! :-)