Esse foi o nosso convite para as madrinhas e padrinhos…
Madrinhas e Padrinhos
Precisamos de madrinhas e padrinhos para o nosso casamento. Precisamos de gente que vá conosco até o lugar da cerimônia, estenda suas mãos sobre nós e nos abençoe. Gente que segure o buquê, cuide da música, resolva problemas de última hora, vá nos buscar ou nos levar dos lugares. Gente que se vista de modo especial para celebrar conosco a nossa união.
Precisamos de madrinhas e padrinhos para ajudar a fazer as mudanças – a dos móveis, e também as de vida. Para ajudar a colocar as coisas e os sentimentos no lugar. Para ajudar a rir muito e fazer barulho quando as alegrias vierem, para ajudar a organizar a mesa das festas que virão. E também para oferecer um lencinho e um ombro quando as lágrimas chegarem. Precisamos de madrinhas e padrinhos para orar por nós, para nos ajudarem a construir um lar e para puxar nossa orelha quando for preciso.
Precisamos, e muito, de madrinhas e padrinhos, porque aprendemos mais quando somos aconselhados, quando somos acompanhados, quando alguém amplia a nossa visão mostrando horizontes que não vimos ainda. Precisamos de gente companheira, que chegue em nossa casa e se sinta à vontade, que nos receba em sua casa com alegria, que saiba ouvir nossas dúvidas e goste de ouvir nossos causos. Precisamos de gente mais experiente que nos diga, “tenha calma e cautela”. E precisamos também de gente menos experiente que nos diga, “vai com tudo, tenha coragem!”.
Precisamos de madrinhas e padrinhos para pentear o cabelo, oferecer o colo, levar ao cinema, trocar as fraldas e encher as festas de aniversário de nossos filhos, e também para ficar com eles quando quisermos ficar sozinhos de vez em quando, e se filhos as madrinhas e padrinhos também tiverem, queremos também ser para eles tudo isso. Precisamos de gente que faça o papel do pai, que já não temos, e que sejam mães do coração.
Precisamos de madrinhas e padrinhos para nos ajudar no que somos falhos, e para nos elogiar quando fizermos algo bacana. Precisamos de quem venha para nos observar de perto, e para fazer valer o amor que um dia Deus gentilmente dividiu conosco… Precisamos de gente que queira fazer parte e redividir o amor em forma de amizade. Precisamos de madrinhas e padrinhos para nos acalmar quando estivermos com medo, para nos colocar no rumo quando nos perdermos, e para celebrar quando tudo estiver bem.
Precisamos de madrinhas e padrinhos que nos conheçam bem, que nos acompanharam em outras pedreiras e em outras calmarias da vida… Que já mostraram que podem ser, e são, madrinhas e padrinhos. Gente que acompanhou a nossa história de amor, que torceu por nós, que nos recebeu dentro da família e da roda de amigos, que orou por nós e sofreu conosco quando tudo ia desmoronar e vibrou conosco quando Deus mostrou que tudo pode, e que está conosco sempre.
Precisamos de madrinhas e padrinhos porque a vida é grande demais pra não ser dividida.
As histórias de amor podem começar do jeito mais inusitado, ou do jeito mais comum. Creio que isso não tem muita importância. Mais importante do que o motivo por que uma história começa, é o motivo pelo qual uma história continua.
Comigo e com o Marcelo foi assim. Um início confuso. De um lado, uma pessoa indisposta e machucada, cansada de tentar. De outro, uma pessoa sedenta de mudanças, mas travada pela vida. Aconteceu tudo pra separar, mas a vontade era só de unir. Aos poucos foi impossível não ficar perto. Os dois resolveram dar um passo de coragem… E pronto, estava formado um casal.
Nossa história de amor foi se construindo devagar e delicadamente, mas com muita solidez – muito mais do que eu mesma poderia imaginar.
Não sei direito onde começou a história do casamento. Ele sempre falou nisso, e de repente, eu percebi que não dava mais pra não falar. Eu, que estava morrendo de medo de sonhar novamente e não queria viver mais que um dia por vez, tive que passar por duros testes que provaram a minha fé e o meu amor. Mas deu certo! De repente, eu me vi de novo pensando no futuro… Querendo algo mais. E então… Vamos nos casar.
Nós já sofremos um tantão nessa vida. De muitos jeitos. E o tempo em que estamos juntos não é longo, mas foi intenso. Teve alegria e teve tristeza. Teve saúde e teve doença. Teve dias bons, outros nem tanto. Dinheiro nunca teve muito, mas sempre tivemos as bençãos de Deus e até aqui não nos faltou nada que precisamos. E já que a vida estava preparando essa união, não achei certo negar a mim e nem a ele o direito de fazer um casamento como a gente queria. Ficamos noivos, trocamos alianças… E começamos a planejar nossa vidinha juntos. Com festa, bolo e brigadeiro, com papel passado e um canto sossegado. Sem muita gente e nem muita pompa e circunstância, que o dinheiro é curto e amigos são raros. Mas com muita vontade de celebrar.
É incrível como esse ritual do casamento é mesmo marcante. É incrível como provoca coisas em nós e nas pessoas ao nosso redor. Toda a indústria que existe por trás dessa celebração – abusiva e irreal, às vezes – vai se montando pra convencer que você é alguém diferente. E então, por onde você passa, as pessoas te olham diferente, te tratam diferente, te fazem acreditar que o mundo inteiro está sabendo que você é A NOIVA.
Eu nunca me imaginei assim, de noiva. Não que nunca quis casar. Já quis sim. Mas nunca tinha me visto de verdade assim, nessa condição. E agora, quando tudo vai se desenhando – o vestido, o penteado, o buquê, as flores, a cerimônia, as pessoas, os mimos, a lua de mel, a nossa casa, os votos, o bolo, os presentes – eu vou me sentindo como nunca me senti antes. Nunca fui princesa, mas imagino que elas devam se sentir assim… Especiais pra todo mundo.
Esse ritual realmente prepara a gente pra vida que vai vir. Todos os gritinhos das meninas, todos os conselhos, todos os documentos que é preciso separar, os bens, os compromissos assumidos, todas as dicas, todas as coisas que dizem e não dizem, o enxoval, as despedidas que vão sendo feitas, as coisas que vão sendo empacotadas, as malas que vão sendo montadas… Essa coisa toda de ser senhora e ir embora da casa da mamãe… Dá medo e dá alegria. São muitas despedidas para deixar de ser solteira… E muitas coisas para receber pra unir minha vida com a dele, e viver como adulta e como casal. Um momento muito especial e diferente na vida.
Estou gostando de ser noiva, porque isso é um sonho maravilhoso, o herói e a mocinha com um final feliz e uma vida pela frente. Porque antes de tudo ele, que é meu par, me viu por dentro. Ele me amou e agora quer dizer pra todo mundo que pretende fazer de tudo pra me amar pra sempre. E eu vou com ele, porque amo também. Porque viver é dar esses passos pra frente, é ter coragem e aventurar-se… Em tudo!
“Eu quero a sina de um artista de cinema Eu quero a cena onde eu possa brilhar Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo Um beijo imenso, onde eu possa me afogar Eu quero ser o matador das cinco estrelas Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão A Patativa do Norte, eu quero a sorte Eu quero a sorte de um chofer de caminhão Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora Sem sair do meu lugar… Ser o primeiro, ser o rei, eu quero um sonho Moça donzela, mulher, dama, ilusão Na minha vida tudo vira brincadeira A matinê verdadeira, domingo e televisão Eu quero um beijo de cinema americano Fechar os olhos fugir do perigo Matar bandido, prender ladrão A minha vida vai virar novela… Eu quero amor, eu quero amar, Eu quero o amor de Lisbela, Eu quero o mar e o sertão…”
E ele me anima, ele me agrada, ele me acalma, ele me inquieta.
E o cheiro vem acompanhado do velho sonho, aquele, em que tenho que atravessar o abismo fundo e escuro, e ao invés de ir me segurando na corda com tanta dificuldade, tenho que ter fé pra largar da corda… E voar. No meu sonho eu posso voar… E é uma sensação maravilhosa. De vez em quando percebo que na vida eu também já voei… E muito alto.
Quando sinto esse cheiro no ar, não sinto mais medo. Já passou o tempo de sentir medo, e já foi também o tempo dos enterros, das despedidas, da consciência de que não posso segurar a linha do tempo, de que não posso segurar os furacões da vida, de que não posso manter as pessoas como estão, de que não posso garantir que sinto e sentirei sempre a mesma coisa. Não mesmo. E quanto mais velha eu fico, menos quero fazê-lo… Mais eu gosto desse cheiro. Mais espero por ele.
Quando sinto esse cheiro, fico nostálgica, sim. Fico balançada em perder os velhos confortos, mas já sei que não me resta outra coisa senão ir em frente.
Ah, cheirinho bom, tão bom quanto o de pão assando, quanto o de goiaba madura, quanto o de neném banhado, quanto o de chuva no asfalto. Cheiro sedutor.
Sou grata por tudo que tem me sido dado, e a mim tem sido dado o essencial.
Mas agora, depois do descanso, chegou de novo o tempo da batalha, dos recomeços, dos começos, das transformações. Sinto muito forte que tudo será diferente em breve, e que eu também serei diferente.
Porque o cheiro é de mudança… Doce e excitante cheiro.
Sempre vivo falando das coisas que meus avós diziam. Ela, a velhinha bocadura que transformava lixo cotidiano em pérolas ouro-sabedoria; ele, o velhinho doce erudito que transformava tudo que lia e via em assobio e jogava assim, no vento, pra quem quisesse pegar. Poucos pegavam… Eu peguei muita coisa dos dois.
Mas nem tudo eles me disseram. E se eu fosse uma avó, tem algo que eu faria questão de dizer pra quem se interessasse: se quiser saber o que uma coisa ( ou uma pessoa ) é de verdade, vá xeretar lá na sua origem; embora tudo mude, tudo se mostra como realmente é, se olharmos bem no começo.
Sim, buscar nas origens. É por isso que, se eu, além de uma avó, fosse também estudante de Letras, ia me especializar na ciência da Etimologia. Mas já que não sou, recorro ao incrível site Origem da Palavra. E lá aprendi que a própria palavra origem tem um significado interessante: do latim ORIGO, quer dizer, elevar-se, tornar-se visível, aparecer. Enfim… Revelar-se.
Mas toda essa divagação pra dizer que estava lá, no site, pesquisando o que quer dizer satisfação, o que essa palavra carrega. E ela se revelou pra mim. Satisfação é uma palavra que junta duas palavras em latim: SATIS – bastante, suficiente; e FACERE – fazer do modo desejado. Quem está satisfeito tem o bastante… Faz do jeito que quer… Está tranquilo.
Estava eu a pensar na satisfação vendo o irmãozinho de minha afilhada dormir. É um bebê pequeno, de três meses. Dormia e sorria. Aquele sono gostoso, pesado, contagiante. No rostinho dele, nenhum traço de preocupação. Estava alimentado, limpo, tranquilo, sem dor, sentindo o cheiro da mãe, que estava perto. Nada lhe faltava, nada lhe preocupava. Apenas dormia, um sono que nenhum adulto seria capaz de imitar, por melhor que esteja. O bebê, inocente por ainda não entender que o tempo passa, e que a vida dá voltas, e que tudo muda, e que há muito para se querer… Não anseia – apenas dorme. Totalmente satisfeito.
O bebê dormindo me lembrou da extrema insatisfação do mundo. E que mundo doido e insatisfeito é esse que eu enxergo hoje. Nunca nada é o bastante. As pessoas entraram em um vício perigoso de querer sempre mais, mais e mais.
Não desprezo o desejo, e nem a ambição. Freud já explicou, bem antes que eu, que o desejo é covarde e cruel. Mas é ele, o desejo, a força que nos move – o instinto de vida, a energia da mente… O nosso combustível. Portanto, não há problema algum em desejar. O problema é quando perdemos a dimensão do desejo, e fazemos com que ele, de tão gigante e atrapalhado, seja desprezível e banal… Fazendo de nós escravos que querem tudo, mas nunca valorizam nada.
E as pessoas hoje desejam tanto… Elas querem muitas coisas. Elas querem um motor de carro com mais cavalos. Elas querem mais um hambúrguer no lanche. Elas querem mais canais na televisão. Elas querem estar na moda, bem vestidas e portando objetos valorizados. Elas querem um celular menor e internet mais rápida. Elas querem atendimento rápido no restaurante e na loja. Elas querem viajar pra um lugar onde ninguém mais foi, e lá elas querem tirar milhares de fotos. Elas querem uma posição melhor na empresa e um título a mais de pós-phd-doutorado formação acadêmica. Elas querem saber de todos os assuntos, opinar sobre tudo. Elas querem mais remédios para não sofrer com a depressão e a ansiedade. Elas querem ir a todas as festas e eventos. Elas querem mais plásticas, e roupas, e tratamentos e ginástica para ter um corpo perfeito. Elas querem amigos legais, família bem resolvida, amores eternos. E quando tiverem tudo isso, elas vão se sentir insatisfeitas de novo e querer mais coisas. Pobres deslumbradas pessoas, que de tanto querer por querer, nunca vão entender o que é satisfação.
Lembrei do Riley. Sim, o Riley. Riley é um ratinho, personagem de um fantástico livro álbum. E na contra capa do livro, está escrito assim:
“Nós, seres humanos, vivemos bastante tempo e na maior parte do tempo não somos felizes. Queremos ser mais altos, mais baixos, mais gordos, mais magros, mais velhos e mais jovens. Queremos que o nosso cabelo liso seja ondulado e que os nossos olhos castanhos sejam azuis. Brigamos com nossos pais, filhos, professores, amigos, com todo mundo. Queremos estar em outro lugar, com outra pessoa, comendo outra coisa e usando algo fantástico que ninguém mais pode se dar ao luxo de ter, e depois desfilar num enorme carrão vermelho. Os ratos vivem muito pouco tempo, e na maior parte desse tempo, eles são muito, muito felizes…”
O Riley vale a sua leitura. Pra ele, as coisas e pessoas bastam. E ele é satisfeito… E feliz.
O Fernando Pessoa também vale a sua leitura. Em seu poema em linha reta, ele se diz farto de seus irmãos que agem como deuses e príncipes…
Eu tento ser como o bebê, como o Riley. Tento sim, mesmo sabendo que é uma luta vã. Não que tenha desistido de desejar. Ainda tem uma porção de coisas que gostaria de fazer na vida, e se for possível, farei… Ainda tenho tanto para aprender. Mas não quero desejar de maneira doentia aquilo que os outros querem que eu deseje, muito menos esquecer do que já tenho para querer o que não posso ter. Não preciso procurar o companheiro perfeito – alguém que me ame, com todas as suas limitações e problemas, está bom. Não preciso viajar pra lugares incríveis nas férias – se der pra me divertir e descansar, está ótimo. Não quero fazer mestrados e doutorados para ser uma profissional melhor – ter o tempo de refletir e aprender com gente interessante está de bom tamanho. Não preciso ter carro grande, apartamento luxuoso e bem localizado, salários astronômicos, jóias caras ou roupas e bolsas de marca pra provar que sou boa – o que tenho me serve. Não preciso ter por perto as pessoas que eu idealizei como família, amor ou amigos – é bom que as pessoas reais me surpreendam, e que eu aprenda a conviver com elas do jeito que são. E, tentando ser assim, não chego a ser como o bebê, mas tenho períodos de sono tranquilos de quem está satisfeita com a vida que tem… Existem dias que são assim, dias de tranquilidade e satisfação, quando tudo está ajeitado e estou curtindo algo, mas curtindo profundamente mesmo… Dias em que bastam um almocinho caseiro, um céu bonito pra olhar, um colo gostoso, risadas e conversas, e um bom pedaço de descanso. Dias em que se pode descobrir que, como dizia a velha placa de caminhão, posso não ter tudo que amo… Mas amar tudo que tenho já me faz feliz.
Se tem uma coisa que o tempo me trouxe, foi a dura compreensão do aforismo engraçadinho do Mario Quintana: “o pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”.
O poeta concluiu que, em horas de medo, tristeza, desespero, cansaço, doença e inconstância… Embora seja válido ( e mais que válido ) a gente buscar apoio, e recebê-lo de algumas poucas almas iluminadas que ainda se dedicam a importar-se com outras almas perdidas… Na hora H, a coisa tem que ser vivida apenas por quem precisa vivê-la. E os abraços, mensagens, telefonemas, orações, palavras bonitas e boas intenções apenas abrandam, mas não resolvem a dor. A existência humana é essencialmente solitária. E são poucos os que conseguem realmente compartilhá-la; compartilhar é abrir mão de querer ter tudo para si mesmo; é dividir, é dividir-se, por vezes até mesmo dilacerar-se – coisa que cada vez mais desaprendemos a fazer. Como dizia minha sábia vozinha, “pela gente, só Deus. O resto é conversa.”.
Hoje, depois de passar dias e dias cuidando de outras pessoas, e outras coisas… Eu me senti profundamente cansada. E quando cheguei em casa e me vi sozinha, eu fiquei triste pensando que devia ter alguém ali pra cuidar de mim. Só um pouquinho. Só hoje. Mas não tinha.
Então fui eu mesma tomar um longo banho, separei um livro bem bacana e coloquei na cabeceira, vesti uma roupa muito confortável, deixei tocando minhas músicas favoritas ao fundo, peguei meu chinelinho, e preparei uma canja. E vou dizer uma coisa: duvido que tenha havido no mundo uma canja com gosto melhor do que essa.
Um lado meu até queria que fosse verdade essa história de fim do mundo. É um lado que observa, impotente e assustado, as coisas ruins e estranhas que acontecem. Um lado pessimista, um lado triste… Um lado cansado.
Mas tem um outro lado que acredita no recomeço. É um lado sabedor de que, pra muita gente, o mundo acaba de vez em quando. Gente que perde alguém que ama. Gente que vê projetos darem errado. Gente que se sente sozinho e abandonado. Gente que naufraga. Que perde tudo. Gente que desiste. E, apesar disso tudo, o sol não vai parar de nascer. E essa gente não parou ainda de respirar. E sendo assim, não há jeito, a não ser continuar… Vivendo, indo, acreditando… Esperando por dias melhores.
Sinceramente, não sei o que esperar do ano que começa. Tenho sido surpreendida frequentemente pela vida. Coisas muito ruins acontecem. Coisas muito boas também. E por isso, não sei o que esperar. Apenas tento olhar pra frente com fé, pedindo o tempo de comemorar… E a força para não cair.
Independente do que virá… Seguirei respirando e vivendo. Desejando, sim, o melhor. Lidando, sim, com o pior. E no mais, que seja um ano tranquilo e feliz.
Se o meu mundo não acabou ainda… Eu saberei recomeçar. Sempre sempre.
2o13 será o ano em que o Mafalda Crescida completa 10 anos. Uma década do meu percurso interno registrado em palavras, trocas, imagens. E vejo quanto já andei… E o quanto ainda é possível andar. É só não parar.
Vendo a inundação de fotos de crianças no Facebook, comentava com Andréa Cordeiro: incrível como as fotos de infância guardam algo que nunca perdemos, e ao mesmo tempo, deixam aquele gosto de saudade de algo que deixamos para trás. Os olhares permanecem, os sorrisos modificam-se… E talvez seja por isso que todos gostem tanto de guardar em bom lugar suas fotos de infância; fotos nos lembram que o tempo passa – para o bem e para o mal – e passando, nos modifica. Comentávamos ainda, Andréa e eu: em uma situação de desastre, depois das pessoas, se possível fosse levar algo da casa, salvaríamos as fotografias… Todo o resto se repõe.
Tantas fotos me fizeram pensar por que raios crescemos e nos tornamos tão distantes da criança que fomos um dia. Alguns olhares, antes tão vivos, hoje são apagados. Algumas verdades que dizíamos se calaram simplesmente. Alguns sonhos simplesmente soterramos. Algumas coisas e pessoas que amávamos tanto, simplesmente deixamos para trás. Como é cruel crescer. E como fazemos crueldades com as crianças para que cresçam logo.
Estou perto de crianças todos os dias. Crianças pequenas, tão graciosas e impetuosas. Tento fazê-las encantar-se com as coisas e compreender o mundo. Sou responsável, entre outros adultos, por ensinar a elas coisas sobre a humanidade – o que se pode saber, o que se pode curtir, as perguntas que ainda restam ser feitas, as respostas que precisam ser modificadas… Músicas, artes e ciências que as pessoas construíram ao longo da história, os livros, as coisas, a natureza, os animais e plantas, os fenômenos, as regras de conduta, a suposta melhor maneira de vencer o desafio de conviver com outras pessoas. Mas também sinto tanta pena delas, por ver o óbvio: quantas coisas roubamos delas. Quantas coisas importantes vamos gradativamente reprimindo, deturpando, corrompendo. Quantas mentiras contamos a elas… Quantas coisas vamos ensinando a fazer, impondo nossa lógica viciada, nossos maus hábitos, nosso jeito que tem deixado o mundo como está, esse mundo estranho que entregamos a elas embrulhado em bela embalagem para presente, mas apodrecido por dentro.
Estragamos as crianças ensinando-lhes o jeito de ser e viver dos adultos, quando deveríamos aprender com elas. Minimizamos sua maneira de pensar, seu jeito de desenhar, sua opinião, suas escolhas, sua maneira simples de ver o mundo, seu senso estético, sua fala sincrética, a incrível capacidade que elas têm de equilibrar atividade e ócio… Sacrificamos tudo isso para, de certa forma, aplicar nelas o troco do que fizeram conosco – todo esse estrago que tornar-se grande significa. Invejamos os mais jovens… E pela força, diminuímos o que deveríamos engrandecer.
Estragamos a infância de nossas crianças quando dizemos a elas que devem se preocupar com o futuro, justo elas, que são tão sábias em viver cada momento intensamente. Rimos e apoiamos quando deixam brinquedos de lado para se preocupar com outras coisas. Damos a elas roupas de “mocinho” e “mocinha”, calçados que não as deixam correr, brincar, pular. Colocamos em escolas que preparam para o vestibular, quando deveríamos colocá-las naquelas que as deixam brincar, que facilitam a convivência com outras pessoas, que valorizam a natureza, a arte, a filosofia e a reflexão, que as ensinam a viver o tempo lentamente, que salvam o tempo de criação e de fruição. Enchemos o tempo delas de atividades que só fazem sentido para nós, e não as deixamos mais em paz.
Escravizamos tão cedo a infância de nossas crianças ensinando-as a consumir, consumir desenfreadamente. Não temos mais tempo de cozinhar para elas, de ler para elas, de conversar com elas, de banhá-las, de colocá-las na cama. Damos a elas presentes caros, excesso de plástico, aparelhos eletrônicos para entretê-las, quando deveríamos, nós mesmos, ser a companhia de que mais querem e precisam. Pobres crianças que nunca cantaram com seus pais no carro enquanto eles dirigiam, nunca caminharam na chuva, nunca fizeram um graveto virar brinquedo, nunca dormiram na casa dos primos. Cuidamos em excesso sem perceber que as tornamos tão desprotegidas para o mundo que – não podemos evitar – elas enfentarão sem casca, sem poder defender-se. Colocamos a malícia e a maldade no lugar errado.
Exigimos tanto dessas crianças… Coitadinhas. Ensinamos as meninas que não podem curtir o seu corpo. Ensinamos os meninos que não podem expressar seus sentimentos. Ensinamos a todos que não podem dizer o que pensam, não podem criar um jeito diferente de organizar as próprias coisas, não podem dar conta de assumir o que fazem e dizem. Subestimamos suas capacidades, desprezamos suas ideias. E ao mesmo tempo, deixamos que pensem que são os reis do mundo, que podem fazer tudo, que jamais serão impedidos ou barrados. Damos a eles quartos cheios de coisas, roupas cheias de fechos e detalhes, brinquedos cheios de estímulos, ensinamentos cheios de nossas vivências fracassadas, relacionamentos cheios de regras, agendas cheias de compromissos, e aos poucos vamos deixando-os vazios… Tão vazios, os pobres infantes.
Transformamos a infância em doença. Aos mais calados, que gostam de contemplar a vida em silêncio, damos anti-depressivos. Aos ansiosos e criativos, damos calmantes. Aos que devolvem a agressividade, damos indutores. Aos que insistem em fazer a infância durar um pouco mais, chamamos de imaturos. Categorizamos o comportamento infantil como doentio e medicalizamos a infância, para que as crianças não nos atrapalhem, não nos questionem, não nos mostrem tudo aquilo que acostumamos deixar de lado, submerso, encalacrado, escondido debaixo do tapete.
Tenho pena das crianças, mas elas, enquanto crianças, são fortes e inventivas, e costumam nos dar muitas voltas antes que possamos nos dar conta. Que consigam nos vencer e conservar aquilo que de melhor tinham. Que sejamos superados e encantados por elas. Que tenham compaixão de nós e nos reensinem a viver.
O maior sucesso do medo é seu efeito paralisante. Não fosse ele, seríamos pessoas de existência curta, mas intensa e incessantemente em movimento. Qualquer movimento. Puro desejo, puro fluir. Mas o medo nos para, nos dá um respiro pra pensar, pra conter, pra ponderar… Pra decidir.
Claro, há vantagens. Medo protege, conserva, educa, salva, preserva, torna possível a convivência. Mas muitas vezes também nos rouba a inocência, a liberdade, a vontade de fazer coisas interessantes na vida. O medo isola, nos deixa encalacrados em uma prisão pessoal, da qual só nossa decisão de não ter mais medo pode nos tirar. Uma prisão muito triste.
Fiquei pensando nisso depois que sofri, dias atrás, um roubo violento. Eu e meu namorado, colocados pra fora do carro sob a mira de revólveres de desconhecidos, dois homens alucinados berrando conosco, ameaçando, expondo nossa fragilidade, quebrando nossa sensação de eterna segurança. Naquele curto momento, muita coisa passou pela minha cabeça. A minha vida, a vida dele, as coisas que tínhamos, a agressão daquele ato. Quase tudo resolvido ( e devolvido ) depois, percebi que o pior não foi a possibilidade nem o que de fato levaram de nós, e sim o que eles deixaram conosco. O medo. Um medo chato, que incomoda, que nos tirou o prazer de nos despedirmos com calma, do carinho do último beijo, do último olhar do dia, da conversa jogada fora ( e que, só agora percebo, era jogada dentro ). Agora o olhar é desconfiado, apressado… Cauteloso. Perdeu-se parte do encanto. Roubaram parte da alegria de estarmos juntos ali.
E foi então que dei pra pensar em quantas coisas me amedrontam hoje em dia. Eu era mais jovem antes. E de primeiro impulso, achei que era mais corajosa também. Mas não, não é isso não. Olhando bem, mas bem mesmo, percebi que medos sempre me acompanharam. A maturidade anulou alguns, especialmente aqueles medos que eu tinha em relação aos outros – medo de não ser aceita, de parecer ridícula, de dar tudo errado, de não corresponder ao que esperavam de mim, e um fortíssimo medo de dizer não. Medos que passaram com tudo que aprendi e conquistei, a duras penas, na vida ( embora, admito, resquícios deles ainda apareçam ). Mas estar mais velha e mais madura me trouxe novos medos. Medos sérios, graves, que tem a ver com a minha existência, com a perda das pessoas que amo, com a finitude de tudo, com os projetos que precisam ser abortados antes de virarem realidade. Sob o pretexto da prudência, escondo minha preguiça e incapacidade de enfrentamento. O medo ainda continua ganhando várias batalhas.
Olhando por aí, vejo quanto medo paira no ar. Não sou a única a ser roubada por ele. As pessoas ficaram mais inconsequentes no que não deviam… E mais medrosas no que deviam. Uma pena. Mas é muito medo.
E é o medo de algo dar errado que faz a mesmice, o tédio. É o medo da mudança que faz as pessoas cultivarem infelicidades enormes como se fossem a maior joia que possuem. É o medo do contato que faz a solidão tão poderosa. É o medo de olhar que torna as pessoas tão cegas. É o medo de dar um passo na direção errada que faz trilhar o mesmo difícil e pedregoso caminho de sempre. É o medo do ataque que faz os esconderijos serem tão blindados. É o medo de amar livremente que faz a superficialidade dos relacionamentos. É o medo de perder a integridade que faz com que nos comportemos como zumbis, mortos em vida. É o medo do julgamento que nos faz viver uma vida que não é nossa, e sim a que quiseram pra nós. É o medo de enxergar a realidade que nos coloca em um mundo de devaneios inúteis, alimentado pela ilusão de que temos o controle mesquinho de tudo que acontece e vai acontecer. O medo engana. Não controlamos nada. E em nossa fragilidade e impotência, não nos resta mais nada a não ser esperar que nada de tão ruim vai acontecer enquanto vivemos… E viver.
Não vou deixar de abrir o vidro do carro e sentir o prazer do vento batendo no rosto por medo do que está lá fora, e nem vou deixar de abrir as portas e janelas da casa quando estiver sozinha pra que a luz e a brisa entrem… Não vou mofar. Não vou deixar de dizer o que eu penso com medo de desagradar a quem não faz questão de agradar ninguém. Não vou deixar de ser gentil e receptiva com quem não conheço por medo de não ser correspondida. Não vou deixar de tomar sorvete, e nem de dançar, e nem de sonhar, e nem de ter fé, e nem de beijar demoradamente na despedida. Não vou ter medo de perder o que não quero mais e com isso não mudar pra ganhar o que quero. Não vou dizer que não consigo e sim que ainda não sei, e com isso vou seguir aprendendo. Não vou deixar meus erros, meus azares e minhas tristezas me acusarem eternamente e me impedirem de ser feliz nas pequenas e grandes coisas. Deixarei pra ter medo dos números e coisas práticas do cotidiano – essas sim, assustadoras por sua capacidade de nos roubarem do que é essencial. O que de bom a vida me trouxer, tentarei receber… Sem medo.
EXPEDIENTE:
* Em 2013 o Mafalda Crescida faz 10 anos. E nessa quase década, conheci através dele muitas pessoas interessantes. Alguns leitores itinerantes, outros bem fiéis ( mais do que eu mesma me mostro ao deixar o blog sem posts por períodos tão longos… ). Por meio desta página, algumas pessoas que convivem comigo conseguiram me conhecer melhor, e isso ressignificou algumas relações. Alguns homens conheceram e se apaixonaram por essas palavras, e outros me amaram mais ainda pelo que eu expressei aqui. Amigos e amores puderam me entender melhor naquilo que só consigo dizer quando paro pra escrever as tais “entrelinhas do cotidiano”. Alguns amigos chegaram, e de repente estava abraçando ao vivo e a cores pessoas com quem talvez nunca tivesse cruzado se não fosse terem me lido e se entendido comigo antes por aqui. São dias, noites, tardes agradáveis, telefonemas, cartas, presentes, cartões, encontros cheios de amor, carinho e identificação, com muitos sotaques diferentes. E pra mim, isso sempre foi o maior ganho do Mafalda na minha vida.
Na última semana, uma de minhas leitoras mais queridas, que se tornou amiga amada, faleceu depois de uma longa e dolorosa luta contra um câncer inexplicável. IsabelaTeixeira era jovem, linda, sábia, corajosa, de um sorriso enorme e um grande talento com as palavras. Muitas vezes ela me disse que se entendeu melhor por conta das explicações que faço sobre mim mesma aqui, e isso nos tornava muito mais próximas do que eu mesma imaginava. A partida dela me deixou triste, aquela tristeza a longo prazo, que a gente vai sentindo aos poucos e nos cantinhos do dia-a-dia, e quando me lembro dela, e tenho lembrado muito… Me vem esse susto de pensar que, de fato, como dizia um de nossos poetas preferidos, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Gostaria de escrever algo para ela que honrasse tudo que ela deixou comigo. Quem sabe um dia… Por hora, só meu respeitoso silêncio, envolto na fé de que ainda nos encontraremos de alguma forma… E escreveremos lindas coisas juntas.
Pode ser que seu companheiro tenha morrido, ou então que esteja muito doente, em estado vegetativo. Pode ser que o pai de seu filho tenha sumido sem deixar rastro no mundo. Pode ser que o casal tenha se separado, e o filho só tenha pai a cada 15 dias, e olhe lá. Pode ser que ela nem saiba quem é o pai de sua filha. Pode ser que ele tenha sido um homem tão escroto e violento que ela tenha fugido dele. Pode ser que ela tenha mandado ele embora, e ele foi mesmo. Pode ser também que seu marido ainda esteja em casa, mas não se importe. Pode ser que seu marido ainda esteja em casa, mas não tenha crescido o suficiente para ser mais que um outro filho. Pode ser que seu marido ainda esteja em casa, mas sequer se manifeste. Pode ser que ela tenha decidido ter um filho sozinha. Pode ser que ela não controle o impulso de ser dominadora e tenha escolhido um homem fraco para ser o pai de seu filho. Pode ser também que seu homem esteja desmotivado, doente, cansado e não consiga ajudar. Pode ser que ele more longe, muito longe. Ou trabalhe demais. Beba demais. Saia demais. Seja duro e ausente demais.
Deus, que não erra, fez as coisas de modo a ser necessário dois seres se unirem para gerar um outro ser da mesma espécie. Isso porque não é fácil cuidar de um filhote, ainda mais se o filhote for um frágil, confuso e eternamente insatisfeito ser humano, como somos todos. Não é fácil alimentar, guiar, proteger, educar, salvar, podar, instruir, amar um serzinho, enchê-lo de representações, padrões, culturas, palavras e exemplos… Prepará-lo para a vida. Trabalho para ser de equipe. Socialmente, construímos papéis de pai e mãe para criar um filho – papéis que se complementam.
Mas… São tantos mas. E elas estão aí. Aquelas que são, ao mesmo tempo, mães e pais de seus filhos. As “pães”, como se diz por aí.
De uns tempos pra cá, virou moda largar os filhos por aí sem sentir nem sequer dor na consciência, sem ser sequer condenado pela irresponsabilidade. Em uma sociedade que prega o individualismo, o consumo desenfreado, o prazer a qualquer custo… Em uma sociedade que nega a reflexão, o questionamento, a grandeza de alma, largar um filho ou uma filha na mão de alguém e sumir por aí é mais que desculpável… Em muitos casos chega a ser estimulado e louvável.
E então vemos surgir as pães. Aquelas que são pais e mães de seus filhos. Minha mãe é pãe. E como ela vi e vejo tantas outras. Elas saem pra trabalhar e fazem a janta. Elas levam ao futebol e pregam os botões da blusa. Elas vão às reuniões de pais e fazem a poupança no banco. Elas pegam no colo e levam ao médico e explicam as doideiras do mundo e dão dura em namorado sem vergonha e vão buscar o filho baderneiro na delegacia e ensinam a dirigir e falam sobre arte e música e vão e vão e vão e não param nunca de ir.
Claro, elas também gostariam de ter alguém pra dividir a responsabilidade e a alegria de cuidar de um filho ou filha. Mas não têm. E dão conta disso sozinhas. E por isso, merecem não uma… Mas duas comemorações.
Feliz dia dos pães a todas aquelas que desempenham lindamente o papel de pai e de mãe ao mesmo tempo. Seus lugares de honra estão duplamente garantidos na vida de seus filhos.