SOBREVIVENTES E FANTÁSTICOS

December 31st, 2011

Fico sempre impressionada com essas histórias de sobreviventes. Gente que passa dias debaixo de escombros, náufragos que nadam além das próprias forças até encontrar ajuda, pessoas que saem de um coma depois de passar muitos anos dormindo, pessoas que resistem anos e anos a prisões, maus tratos e violência; gente que cava a terra com a própria mão procurando um pouco de ar, ou que passam meses e meses vagando no deserto ou nas montanhas geladas para depois voltarem triunfantes para a vida que tinham antes, como heróis dignos de admiração. Sobreviventes sempre merecem respeito.

Também me impressionam as histórias dos fantásticos. O cego que virou fotógrafo. A mãe que ergueu o peso de um carro nos braços para salvar o filho. O visionário a quem todos chamavam de louco, e que criou algo brilhante. Os deficientes que são atletas. O analfabeto que escreveu um livro. Aquele que nunca pegou em um instrumento e compõe uma música. O pai que ao ver o filho adoecer de uma doença rara, estuda e descobre a cura. Aquele que ao passar um aperto,  cria um aparelho, uma fórmula, uma ideia diferente de tudo que já pensaram antes. O rejeitado que por força de vontade vira o fulano mais popular em seu meio. O condenado que perdoa seu carrasco. A gorducha que vira modelo. Fantásticos são pessoas que fazem muito com o pouco que receberam da vida, pessoas que vão além do mediano, do básico… Além do que se espera delas.

Histórias de sobreviventes e fantásticos são sempre recontadas, e contadas de novo, para que lembremos que ninguém – ninguém – pode saber até onde um ser humano pode chegar. Ninguém pode dizer o que é possível ou impossível.  Ninguém pode dizer onde ficam os limites. A nobreza de espírito pode ser encontrada em qualquer lugar, a qualquer tempo… Em qualquer pessoa. Especialmente onde menos se espera.

Quantas pás de escombros caíram sobre você em 2011? O que você viu explodir, sem que pudesse fazer nada para segurar? Quantos terremotos você teve que aguentar, permanecendo firme? Quantas coisas suas roubaram, destruíram, dizimaram… Quantas vezes teve que recomeçar do zero? Quantas pessoas você perdeu, para a morte ou para a vida? Quantos pequenos barcos fortes e seguros você viu partir ao longe, sem perceber sua presença no mar imenso e agitado, sem que a você fosse dada a chance de pedir ajuda? Quantas vezes você achou que não ia dar, e, refrigerado na alma, respirou, seguiu e está aqui?

Pois é, sobreviventes e fantásticos estão sempre por aí, perto de nós, para nos dar exemplo. Em 2011, vi vários e vários deles. Apanharam, perderam, foram agredidos, humilhados, desconsiderados… E estão aí, com o seu copo de champagne na mão acreditando que em 2012 será diferente.

E pode ser que seja. Para melhor e para pior. Pode ser até que o mundo acabe, como se diz. Mas a verdade é que os dias vêm e vão e a vida é isso aí mesmo: sonho e luta; dor e delícia; respiro e sufoco. E em 2012 não será diferente.

Mas aos sobreviventes e fantásticos, que vivem de fazer pequenos e grandes feitos, desejo que continuem remando contra a maré. Que continuem brigando com o destino. Que continuem reinventando a vida até que ela se dê por satisfeita. Que continuem provando que quem faz é quem decide fazer. E que continuem mostrando que, mesmo que tudo pareça dizer que não, o sim existe.

A vida costuma respeitar aqueles que a vencem nos piores embates.

Sendo um tempo de sossego ou de briga, que em 2012 aqueles que amo consigam sobreviver e se mostrarem fantásticos em cada um de seus dias. A começar por mim.

Quem viver… Verá. :-)

“Apesar das ruínas e da morte

Onde sempre acabou cada ilusão

A força dos meus sonhos é tão forte

Que de tudo renasce a exaltação.

E nunca as minhas mãos estão vazias.”

Sophia de Melo Breyner

Feliz 2012!!!

ACEITAR… APRENDER

October 15th, 2011

Essa história de amor é, antes de tudo, aceitar. Aceitar, do latim acceptare – “receber de boa vontade”. É bom quando você é assim, recebida com alegria, com vontade, com coração aberto, como se estivesse sendo muito esperada. Não como um acaso, uma surpresa, algo inesperado. Não como um estorvo, algo que de repente aconteceu, e trouxe problemas, e tem que ser contornado. Não como algo que tem que ser encaixado entre um compromisso e outro, algo que tem que ser espremido para caber onde não tem espaço. Não como quem precisa se adequar e se vestir de um outro jeito para merecer ser convidada.  Não como quem está quebrando um galho porque o outro não achou nada melhor pra fazer, ou ninguém melhor pra conhecer. Não com distração, de qualquer jeito… Mas ser aceita… Realmente recebida, como um presente, como algo suave e agradável… Aceita como você é. Ser aceita sem medo de ser acusada por seus defeitos. Sem receio de mostrar-se em todas os seus sucessos. Com seus tormentos do passado… Com todas as suas possibilidades de futuro. Ser aceita, ser curtida, admirada, observada com atenção… Ser degustada aos pedaços, com alegria, com festa, com respeito, com elevação… Com graça. E por isso, também aceitar. Aceitar, apesar de, por causa de, por ocasião de… Aceitar como quem é presenteada ao se doar. Aceitar conhecendo a si mesma, e também querendo investigar o outro por dentro, naquilo que realmente importa. E, nessa de ser aceita, entender-se como pessoa que merece ter amigos que te aceitem, família que te aceite… Um companheiro que te aceite, nas suas grandezas e pequenezas.

Essa história de amor é, depois de tudo, aprendizado. Aprender, em sua origem, apprehendere - ”agarrar, tomar posse de”. A gente não agarra se não sabe abrir as mãos na hora certa… A gente não agarra se não sabe fechar as mãos na hora certa. A gente não aprende a amar se não se desprende de si mesma para abraçar o outro… A gente não aprende a amar se não deixa as mãos vazias do passado para enchê-las de futuro. Aprender, um esforço diário. Aprender, uma superação da antiga ignorância pela luz do novo conhecimento. Aprender, sempre e aos poucos, como quem devora o que está aprendendo, mas pelas beiradas. Aprender, desafio depois de desafio. Aprender, sendo fácil ou difícil. A gente não toma posse daquilo que não entende como seu… Mesmo que não seja. A gente não aprende se não se doa para ser de alguém. Aprender, todos os dias, e em todos os movimentos… Aprender, aquilo que traz a mudança… O crescimento. Aprender junto… Aprender sempre.

Na última semana, passei por um teste muito duro. Ao ver meu companheiro em uma cama de hospital, eu tive medo de reviver a dor de ser abandonada mais uma vez. Medo, essa emoção tão verdadeira, genuína… Forte. Medo, mau conselheiro, péssimo delineador de ideias e de fatos. Medo… Esse ladrão da esperança que eu tão lenta e duramente reconstruí. Mas foi aceitando, e aprendendo, que passei na prova. E hoje, posso dizer que amo realmente… Amo de novo.

Eu talvez já tenha sido amada antes. Mas talvez nunca tenha sido aceita de verdade. Talvez já tenha sido engolida, mas nunca aceita. E é maravilhoso merecer ganhar esse presente da vida.

E sei que estarei sempre, sempre aprendendo a amar. Mesmo que doa, mesmo que não seja fácil, estarei sempre aprendendo. Porque só ama quem não desiste… Nem de si mesmo, nem do outro.

Sou grata pelo teste. Grata aos que me ajudaram a passar por ele. E principalmente grata por saber que essa chama que eu carrego dentro de mim não se apagou… Nem se apagará.

A FALTA QUE FAZ UM PAI

August 14th, 2011

Meu pai morreu quando eu tinha 18 anos. Antes disso, ele já tinha morrido um pouco pra mim quando saiu da minha casa e sumiu quase que completamente, antes que eu fizesse 15 anos. E antes disso, nós íamos vendo ele se matar aos poucos, e morrer um pouco pra nós todos os dias, por causa de um alcoolismo grave e pesado, desde que eu era pequena; uma doença crônica e que, hoje vejo, não era só dele, mas era nossa também. A morte do meu pai foi lentíssima e muito, muito dolorida. Para ele e para nós, filhos e esposa. E essa dor não tem como ser relatada ou explicada, nem justificada. Quem cresce no centro de uma família doente, entende justamente o que é isso, o que é essa luta pela sobrevivência emocional; quem não, não entenderia nunca, nem com todas as palavras do mundo ( e me arrisco a dizer que, por isso, essas pessoas deveriam agradecer todos os dias ).

Por muito tempo eu tive que trabalhar duro pra lidar com essa morte de pai, porque essas duas coisas, morte e pai, eram as mais difíceis de entender pra mim; conceitos complexos que me faziam uma pessoa complexa e defendida. Foram alguns anos de terapia, muitas leituras, conversas com pessoas, conversas com Deus, observação do comportamento humano, um curso de Psicologia, reuniões sofridas de Al-Anon, reestruturação da minha família e muita, muita conversa comigo mesma e com ele. Aos poucos, aprendi a compreender essa história de que as pessoas não são perfeitas. Aprendi também a dar a cada um o seu pedaço de culpa e de sucesso dentro de uma história de amor entre pessoas, sejam elas pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes. Aprendi a recuperar minha auto-estima, tão esmagada, colei-a de novo, pedaço por pedaço. Aprendi também a buscar essa figura paterna aos pedaços, nos meus tios, no meu avô, nos meus irmãos, e até no meu próprio pai, lembrando dos nossos bons momentos – e eles existiram, e foram muitos. Fui criada por mulheres fortes que não pareciam precisar de homens para nada, e foi difícil, está sendo ainda, me achar como mulher em relacionamento com homens sem ser como elas. Foi difícil lutar contra o impulso egoísta de achar que eu poderia ter um filho sem dar a ele um pai, sem dar a ele uma família, como se eu fosse auto-suficiente. Foi difícil aprender a dizer a palavra PAI, perdoá-lo, e hoje, tantos anos depois, estar aqui, nesta data, sentindo falta de ter um pai… Sentindo falta do MEU pai. Difícil, mas eu nunca desisti, e não desistirei. Por mim, e por ele. Ele, que foi quem mais me ensinou a fazer flores crescerem no meio das pedras nesta vida.

Trabalhando com crianças, já encontrei muitas delas sem pai. Muitas mesmo – desde aquelas que só têm o nome da mãe na certidão de nascimento, passando por aquelas que odeiam seus pais e preferiam ignorá-los, até aquelas que já tiveram muitos pais na vida, sem que nenhum deles chegasse a ser pai de verdade ( e até hoje me emociona ver um pai na reunião da escola, ou indo buscar o filho e carregando ele nos braços, ou brincando com eles no jardim da EMEI enquanto o portão no abre ). Muitos dos meus amigos também não têm pai. Curiosamente ( ou não ), também nunca tive um sogro. Todos os namorados mais constantes não tinham mais pai, ou não sabiam onde eles estavam, ou não me deram a oportunidade de conhecer seus pais. Esse buraco de pai sempre perto de mim, talvez me lembrando do meu próprio buraco… Me lembrando da falta que faz ter um pai.

Isso porque um pai faz muita falta, especialmente para uma filha. Faz falta ter alguém pra ninar você, pra te dar banho, pra dar bronca, pra cuidar das suas coisas, consertar os brinquedos e as coisas que quebram em casa, pra dar presentes, pra sair por aí com você nos ombros, pra dizer pra todo mundo que você é filha dele, pra te defender, pra te elogiar, pra te dizer como você tá linda quando estiver adolescente, pra ficar bravo com o tamanho da sua roupa ou com a quantidade da sua maquiagem, pra te ensinar a dirigir, pra ir te buscar à noite quando você está estudando ou saiu pra badalar, pra te levar ao hospital quando você está doente, pra te emprestar dinheiro, pra dar dura em paquera safado e implicar com seus namorados, pra te ensinar o que você não sabe, pra te levar pelo braço no dia do casamento, pra segurar os seus filhos no colo e levá-los pra passear. Faz falta sim, eu sinto essa falta todos os dias, mesmo tendo aprendido a fazer tudo isso sozinha. Faz falta e sempre fará. Falta sem compensação possível.

Talvez um dia eu também tenha uma família, e espero que nela tenha uma mãe feliz e um pai amoroso e presente. Hoje eu vou estar com meu irmão, que é pai dos meus dois sobrinhos lindos. Ontem, quando o via brincar com os filhos, ele, que cresceu na mesma família que eu, e estava ali, tão presente, firme e carinhoso, eu percebi que meu pai, se o visse, se nos visse, estaria orgulhoso de nós, de quem nos tornamos, de quem ainda podemos nos tornar. Então eu percebi que, pela sua falta ou sua presença, o maior presente que o meu pai me deixou foi ter esperança de sempre fazer um pouco melhor tudo que a vida me der. Não faço a menor ideia de onde ele está, mas pela fé, espero que ele saiba que, acima de todas as dores, eu também tenho orgulho de ser filha dele. E que tudo que eu mais queria hoje era tê-lo por perto pra presenteá-lo, abraçá-lo, cozinhar pra ele e dizer feliz dia dos pais.

Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

Cora Coralina


( Obrigada a Rô Adorável, que me lembrou dessa pérola linda em forma de canção… )

VOCÊ MERECE UM AMIGO

July 20th, 2011

Você merece um amigo que more bem distante, mas saiba se fazer presente, e outro que te faça perguntar onde anda a cabeça dele, mesmo que ele esteja ao seu lado. Você merece um amigo de antigamente que apareça agora, e um que apareça de vez em quando, e um outro que só aparece nas horas certas, e um outro que insiste em aparecer nas horas erradas ( e só depois você entende como as horas erradas podem ser justamente as certas ). Merece um amigo que apareça com força, e depois suma completamente na poeira do tempo. E merece também um amigo que seja constante e tranquilo.

Você merece um amigo que magoe, que machuque, que arranhe seu sentimento por ação ou inação. E merece um outro que te cure, que assopre, que te encante. Você merece um amigo que te faça esquecer, e outro que não deixe de te lembrar. Merece um amigo casual, e outro bem firme. Merece um amigo que compartilhe tudo, e um outro egoísta, que não te oferece nada ainda por cima leve suas coisas sem devolver.  Você merece um amigo que goste das mesmas coisas que você, e um outro que odeia tudo que você gosta. Merece um amigo que seja indiferente, e outro que preste atenção em tudo. Você merece um amigo que te irrite, e também um que te acalme. Merece um amigo ponta firme, e outro folgado.

Você merece um amigo funcional, que te ajude a fazer coisas que você não é capaz, e merece um outro que não serve pra absolutamente nada. Merece um que te atrapalhe bastante, que te envergonhe e te deixe em maus lençóis, e um outro que te ajude, te salve e te tire do sufoco. Merece um amigo correto, que lembre de todas as datas, e um outro desligado, que não aparece nem quando você convida. Merece um amigo que te cobre, te puna, te faça sentir oprimido. E um outro que te liberte, te apoie da maneira mais irresponsável, te faça voar. Você merece um amigo que te perdoe sempre, e um outro que precisa sempre ser perdoado. Você merece um amigo que te sufoque, e um outro que apenas te proteja.

Você merece um amigo de sempre, com quem o assunto nunca acaba, que vai mudando ao longo da vida com você e te acompanha em cada passo. Você merece também um outro amigo de vez em quando, que de repente não vai mais fazer sentido. Merece um amigo de época, com prazo de validade, amigo só de infância, só de adolescência, só de juventude, só de maturidade, e um outro que seja da vida toda. E também um outro amigo flutuante, que é só puxar e ele vem.

Você merece um amigo que comemore coisas com você, que adore festa e oba-oba. E um outro que não saiba suportar a sua dor, que fuja das suas lágrimas. Você merece um amigo que não perceba o óbvio, e também um outro que perceba o movimento mais sutil. Merece um amigo falso que te ajude a valorizar um amigo verdadeiro. Você merece um amigo que só ouça, e merece um outro que só fale. Merece um amigo que te decepcione, e um outro que seja uma boa surpresa. Você merece um amigo que te abandone na hora H, e um outro que apareça nessa mesma hora. Um que sempre diz as coisas certas, e um outro que só fale besteiras. Merece um que entenda seus sonhos, e um outro que te mostre a realidade.

Você merece um amigo que te ame, e um outro que te suporte. Merece um amigo que te defenda, e um outro que te traia. Merece um amigo que curta a sua presença, e um outro que te rejeite. Você merece um amigo pra ficar sem ver a hora passar, e um outro que você conte os minutos pra ir embora. Merece um amigo que te admire, e um outro que te inveje. Merece um amigo que te infle, e um outro que te murche. Você merece um amigo que precise de você desesperadamente. E um outro de quem você precisa… Desesperadamente.

Você merece um amigo só virtual, outro só de telefone, outro só de encontros, outro só de trabalho, outro só de ônibus, outro só uma vez por semana, outro só de igreja, outro só de sala de espera, outro só de supermercado, outro só de banco, outro só de mesa de bar, outro só de porta de algum lugar, outro só de carta, e um que seja tudo isso. Merece um amigo pra beber, pra compartilhar segredos indizíveis, com quem você pode reclamar da vida e falar mal de todo mundo. Merece um amigo que não te julgue, e te entenda. E um outro que te acuse antes de tentar compreender. Merece um amigo pra falar bem de você em qualquer circusntância, e outro pra te pichar por aí. Um que dispute coisas com você, e outro que te dê tudo de graça. Você merece um amigo atrapalhado, e outro cartesiano. Você merece um amigo que você queira imitar… E outro que você prefere não ver como é. Você merece um amigo completo. E outro em que falta o principal.

Você merece um amigo que se lembre de quem você realmente é. E um outro que finja que não viu quem você realmente é.

Você merece amigos que te mostrem todas as facetas da vida, e que façam  você  ver todas essas facetas em você mesmo.

Você merece um amigo… E merece ser um amigo também.

Feliz dia do amigo a todos que conhecem a alegria e a dor da amizade… Pois ela é como a própria vida: imprevisível, inconstante, eterna e necessária. :-)

FUGIR

July 11th, 2011

Fugir pode ser, sim, um ato de covardia, de preguiça, de egoísmo e imaturidade.

Mas fugir também pode ser um ato de rebeldia, de transgressão, de meninice.

A gente às vezes pode fugir de uma situação ruim, por cuidado, pra se preservar. Pode também fugir de algo que deseja muito, mas sabe que não devia desejar… E por isso, por cautela, por precaução… Foge.

A gente pode fugir de pessoas que não suporta mais, por fazerem mal. E pode fugir também por precisar de um tempo, mesmo daqueles que você ama muito. A gente pode fugir pra poder sentir falta, e pra entender, à distância, o habitual, o vai-e-vem de sempre.

A gente pode fugir de situações rotineiras, do cotidiano de mesmice, das coisas que nunca mudam. Se elas não mudam, a gente muda e foge um pouco, pra descansar, pra ganhar novas forças e depois voltar, trazendo um toque aqui e ali de mudança, pois quando a gente muda, não tem jeito… Tudo que cerca muda com a gente.

A gente pode fugir um pouco pra se divertir, pra desencanar, ver novas coisas, novas paisagens, novos ares, respirar de um outro jeito, dormir e acordar de outro jeito, comer de um outro jeito, conversar de um outro jeito.

A gente pode fugir pra se esconder, quando faz a óbvia constatação que existem coisas e pessoas muito mais fortes que nós, e que contra o que a gente não pode, a gente ignora, deixa pra lá até poder, ou deixar de fazer sentido.

A gente pode fugir sozinha ou acompanhada. Deixando aviso ou sumindo. Pra sempre ou por um tempo.

A gente pode fugir pra correr de uma coisa, sem perceber que inevitavelmente estamos correndo para outra, e isso não é ruim, muito pelo contrário… Pode ser ótimo.

A gente pode fugir de armadilhas que a gente mesmo arma, e que magoam, machucam, destróem, e lá, no canto de fuga, a gente coloca tudo no lugar, cola todos os cacos, e volta mais forte.

A gente pode fugir, sim. E muitas vezes, a gente deve fugir.

O dia-a-dia às vezes espreme a gente, sem que a gente perceba, e de repente, a gente está lá, espremida, comprimida, compactada, juntada. Fugindo, a gente pode finalmente espreguiçar, abrir os braços, abrir os olhos, abrir o coração, e voltar mais tranquila, pronta pra outra.

Fugir pode ser vital. E uma delícia.

Fui!

Soundtrack:

VERBETE

June 12th, 2011

NAMORAR

Datação
sXIII cf. FichIVPM
Acepções
verbo transitivo direto e intransitivo

1. Olhar com cobiça, desejando; querer; fazer de tudo para ter; mostrar o que tem  de melhor para agradar; traçar planos; perder o sono e a fome por; apaixonar-se irremediavelmente; sorrir à toa; ficar bobo; conquistar; viver alternando entre o céu e o inferno; desassossegar; arriscar-se.

2. Acompanhar; afinar-se com; sair junto; achar graça em tudo que o outro faz; encantar-se; valorizar pequenas coisas; dispor-se a conhecer; abrir mão de; passear de mãos dadas; comer junto; esconder-se; mostrar-se; buscar igualdades; driblar diferenças; ajeitar-se a; aninhar-se; curtir a companhia de; ter prazer em; olhar profundamente para; ser feliz em estar perto.

3. Beijar; abraçar; agarrar; tocar; acariciar; morder; balançar; roçar; acarinhar; sussurrar; brincar; admirar; atrair; seduzir; caprichar; tomar; sorver; esfregar; perder a cabeça; querer, querer, querer e querer.

4. Pertencer; dispor-se a; assumir; compromissar; precisar; contar com; cuidar; dividir; trocar; presentear; doar sem esperar retorno; retornar; apreciar com constância; manter; esforçar-se por; participar.

5. Lutar por; brigar; enciumar-se de; dar exclusividade a; ser leal a; falar a verdade; manter a palavra; discutir; tratar com sinceridade; conversar; expressar; esclarecer; curar; tentar e tentar e tentar e tentar.

6. Suportar; perdoar; desprender-se; relevar; esquecer; serenizar; superar; fingir que não viu; despriorizar; mudar de ideia; mudar de atitude; acalmar os ânimos; repescar; ajudar; desculpar; não criar caso; deixar passar; fazer questão; alternar; compreender; aceitar; ajudar.

7. Apoiar; admirar; elogiar; cruzar; enternecer; emocionar; tocar o coração; elevar a; priorizar; valorizar a; colocar em alto grau de estima e consideração; atentar-se a; ouvir; minorizar problemas; colocar a mão na massa por; alimentar; em estando em problemas, cuidar de; velar o sono de; dar toques a; ser o suporte de.

8. Sonhar com; planejar; buscar o futuro junto a; olhar para a mesma direção; estabelecer objetivos comuns; perceber desejos comuns; querer continuidade; apegar-se a; não querer afastar-se de.

9. Entregar-se; reformular-se; renergar-se; exigir-se; pacientizar-se; conscientizar-se; buscar humildade em si mesmo; respeitar-se; mudar; deixar o passado; curar feridas; deixar-se; permitir-se; querer bem a si mesmo; oferecer-se; manter-se; enfeitar-se; admirar-se; conhecer-se; domar-se; superar-se.

10. Viver junto.

Enfim…

AMAR.

Namorar de verdade mesmo é para os fortes.
Ajudinha do Houassis na parte técnica.

Feliz dia dos namorados a todos e todas que se dispuseram a levar o amor às últimas consequências… O que nada mais significa do que vivê-lo plenamente… :-)

MAIS UM DE AMOR…

June 1st, 2011

Há um espaço entre o amor e eu.

Em uma ponta, estou eu. Pés no chão, fincados e atolados na lama da falsa segurança da solidão, de todos os sonhos frustados, da mágoa, da tristeza, da saudade, da inglória incompetência de outros amores dolorosamente acabados. Na outra ponta, um incrível e sedutor cenário desconhecido a me chamar, envolver, provocar. Sinto um cheiro delicioso vindo de lá… Ouço belas melodias ao longe, risadas, gargalhadas até. Vejo relances de cores que nunca vi antes, grandiosas e diferentes. Tenho enorme vontade de experimentar tudo que há lá.

Mas há um espaço entre o amor e eu. Um abismo escuro, profundo, mas não tão largo… Apenas um pouco maior do que minha perna. Só preciso de um pouco de impulso para pular, para me atirar lá, lá onde é impossível não querer estar. Está tão perto… Só um pulo. Já me atirei outras vezes, já cheguei até mesmo a voar pra lá, tão leve estava. Talvez devesse tentar de novo… É só um pulo.

Mas é tão difícil livrar-me da minha própria lama… Ela deixa meus pés imóveis, pesados, doloridos. É tão fácil achar que minha força não vai ser suficiente, que não vou conseguir pular e vou cair naquele abismo profundo de silêncio, escuridão e dor, e vou ficar caindo, caindo, caindo, até pousar em outra lama, ainda mais fétida e poderosa que a minha, e que dessa vez ela pode me enterrar até a cabeça. Então fico ali, parada, olhando, pressentindo, admirando aquilo que quero tanto ter e, embora esteja ao meu alcance, não posso me permitir tentar.

Chegou a hora em que me senti incapaz de juntar meus próprios cacos, mesmo depois de já ter feito isso tantas vezes. São muitos, e tão pequenos, e tão cortantes, e tão pontudos.

E é justamente nessa hora que aparece alguém do outro lado, na beiradinha. Já está lá, onde quero estar; não pode vir me buscar onde estou, que dali só eu mesma posso sair. Mas, de onde está, resolve olhar pra mim. Me olha direito, profundamente, entendendo, admirando; e vê além do que aparento ser – vê todo brilho que um dia eu tive, e que se escondeu em algum lugar. Me olha e fala comigo mansamente. Assustada, finjo que não ouço, fecho os olhos, me coloco em silêncio absoluto.

Mas ele não desiste. Ele sabe esperar… E espera. Enquanto espera, vai me encantando, dando de graça aquilo que sempre cobraram de mim. Vai me fazendo limpar os pés. Vai construindo intimidade sem me invadir. Vai me dando roupas mais leves pra vestir. Vai me enchendo de sorrisos, e quando percebo e tenho vontade de fugir, ele me distrai, como se faz com uma criança medrosa. Vai cuidando de mim, bem devagar. Vai me fazendo deixar as coisas tristes para trás, e me fazendo entender que para pular o abismo do amor, é preciso mais que coragem… É preciso fé. E muita fé.

Ele esteve lá, e estendeu a mão por muito, muito tempo, sorrindo docemente pra mim, me chamando pra viver aquilo tudo que um dia eu esqueci de sonhar.

Há um espaço entre o amor e eu, e para pulá-lo é preciso coragem, e fé. Fica mais fácil pular quando tem alguém do outro lado, com os braços abertos, dizendo vem, que eu te seguro… Vem, que eu te amparo… Vem, que eu te empresto o que te falta até você ter de novo… Vem, que você consegue.

E eu vou…

Soundtrack:

SELEÇÃO PARA CURTIR UMA DOR DE COTOVELO EM GRANDE ESTILO

March 5th, 2011

Este post foi encomendado por uma pessoa que estava precisando de uma ajuda. Mas pensando bem, essa seleção vive rodando no meu som. Se sofrer é inevitável, é bom saber que ao menos se pode sofrer com classe.

1. “O Grande Amor“, João Gilberto e Stan Getz

Tom Jobim e Vinícius sempre foram bons em, singela e genialmente, traduzir os sentimentos dolorosos do coração. “Anos Dourados“, por exemplo, que Tom fez com o Chico, é tão maravilhosamente emotiva que arrebata até os corações mais céticos. “O Grande Amor” não tem letra genial, mas tem uma melodia tocante. Fica linda na voz chorosa de João Gilberto. Mas é o sax do Stan Getz que mata qualquer coração dolorido. Vale a pena conferir o álbum todo.

2. “O Mundo é um Moinho“, Cartola

Considerada uma das mais lindas canções brasileiras. Quer ir embora? Vai. Mas depois não diga que eu não avisei. Poeticamente.

3. “Velho Arvoredo“, Elis Regina

Amores mal resolvidos podem ficar anos e anos quietinhos, guardados em caixas interiores aparentemente bem fechadas. Mas a Elis canta divinamente a amargura de quem vê seu coração endurecer aos poucos em ir perdendo a esperança de um dia… Ah, quem sabe um dia.

4. “How can you mend a broken heart?“, Al Green

Faz muito tempo que muita gente faz essa pergunta. Mas desconfio que não tem jeito, não. Quebrou… Quebrou. Triste, mas muito bem feitinha.

5. “Crying“, Roy Orbison

O João Bosco também chorou em uma música ao ponto de fazer a gente chorar com ele. Mas o Roy Orbison, com muita simplicidade, também chora e faz a gente pensar como é duro gostar de quem não gosta da gente, e ainda assim, passado o tempo, perceber que não esqueceu. Haja lágrima.

6. “Crazy“, Julio Iglesias

Canção bem antiga e regravada por um monte de gente. Mas o estilão romântico do Iglesias pai, e o sax cortante do Dave Koz fazem dessa versão uma ótima companheira para aquelas piores noites, em que você realmente acha que vai enlouquecer de amor.

7. “Último Desejo“, Noel Rosa

Noel Rosa era um compositor cheio de bom humor e delicadeza, vide coisinhas lindas como “Três Apitos“. “Último Desejo”, uma de suas últimas pérolas, também foi regravada dezenas de vezes, e todas ficam bonitas. A letra é forte. E a melodia, tristinha. O final, surpreendentemente, chega a ser engraçado. No fim, só nos resta mesmo rir dos grandes amores malvados.

8. “Arranha-Céu“, Zé Renato

Música antiga, do cancioneiro de Silvio Caldas, e aqui cantada dolorosamente por Zé Renato ( a versão do disco tem um acordeon lindo ao fundo ). Você sabe o que é esperar por quem não vem? Esses aí sabem.

9. “A Outra“, Los Hermanos

Embora o tema dessa canção seja bastante específico – o maldito triângulo amoroso -, e embora a melodia seja tão propositalmente clichê, a letra é tão sincera que serve para purgar vários tipos de lágrimas de amor. Pedir pra um amor ir embora é das coisas mais difíceis que há para se fazer. Mas às vezes é preciso. Antes que a dor sangre demais.

10. “De Tanto Amor“, Roberto Carlos

Roberto Carlos é o rei da canção romântica, isso todo mundo sabe. A cena do adeus, a última conversa, a perspectiva do vazio da vida sem aquela pessoa… Ai, quanta tristeza. Se fosse um som… Seria “De tanto amor”.

11. “Samba de um Minuto“, Roberta Sá

A raiva e a mágoa são apenas dois dos muitos sentimentos que embalam a dor de cotovelo. Essa música é daquelas pra cantar com raiva mesmo. Às vezes ajuda.

12. “Turn me On“, Norah Jones

Blues, blues, blues. Uma das letras mais lindas que conheço. Você sabe o que é esperar por quem não vem? Ela também sabe.

13. “Everytime we say goodbye“, Simply Red

Cole Porter é o rei dos standarts românticos, e como todo rei, foi reverenciado por muitos artistas que regravaram suas músicas. Além do U2, que regravou fantasticamente “Night and Day“, o Simply Red fez um estrago ao gravar tão linda a dor de quem vê o ser amado partir… Aos poucos, e sempre. De encher os olhos de água.

14. “Faltando um Pedaço“, Djavan

Fortíssimas e verdadeiras metáforas sobre o amor. “Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha”… É… Dureza.

15. “Haja o que houver” Madredeus

Como o blues, o fado é chorão por natureza. Esse aqui é pura poesia melódica. Você sabe o que é esperar por quem não vem? Eles também sabem.

16. “With or Without you“, U2

Certos amores são impossíveis. Não podem acontecer. Não podem deixar de acontecer. E nesse meio tempo, tem o U2 com essa canção tocante e essa guitarra tão aguda, de espremer sumo do coração. Ui.

17. “Iracema”, Adoniram Barbosa e Clara Nunes

Tem muita gente que tira sarro dessa música. Talvez porque nunca tenha perdido um grande amor. Histórias de amor, existem muitas. Mas bem cantadas assim… São poucas. Linda.

Dava pra fazer um álbum duplo. Até mesmo uma coletânea. Mas tem hora que ouvir a dor de amor, mesmo em grande estilo, começa a doer demais… Melhor silenciar. E esperar as canções alegres que virão.

AMARAMARO

February 6th, 2011


Ah, laranjinha doce e geniosa é o amor. Se desfrutamos, se chupamos com voracidade, se espremos seus gomos entre mãos nervosas, se deixamos simplesmente passar o tempo ao ar e ao sol, com medo que acabe… Não tem jeito, é fatal. Amor, quando é descascado e aberto, está fadado a virar bagaço – sem doce, sem cor, sem caldo… Seco e sem serventia.

Ah, máquina complexa e difícil é o amor. Cheia de botões, de fios invertidos, de comandos traiçoeiros, de circuitos mal feitos, de energia que vai e que vem sem destino e sem direção. Nunca se sabe onde apertar, em que voltagem se deve ligar, qual é a sua potência ou função, nunca funciona como deveria. Amor, quando ligado, ainda que ande a todo vapor, está fadado a explodir de repente, deixando órfãos de pai, mãe e filhos qualquer um que tenha ousado aquecê-lo e dominá-lo.

Ah, barco independente e imprevisível é o amor. Parte, não sabe pra onde; navega, não sabe até quando; chega, não avisa quando retorna; sacoleja, vira, revira, navega manso em calmaria, e de repente pára, sem ir pra canto nenhum. Amor, quando em alto mar, está fadado a ficar eternamente à deriva, sem achar jeito de aportar e sossegar… Gosta do mar. Sempre quer partir.

Ah, criancinha geniosa e encantadora é o amor. Cheia de lacinhos, vestido de babados, de cachinhos perfeitos em birotes geometricamente desenhados, tão corada e de olhos brilhantes, não há como não se deslumbrar. De repente, lá está o amor fazendo birra, batendo o pé no chão, exigindo o que você não tem pra dar, carente de atenção total e irrestrita… Quer, quer e quer, pedindo colo, comida, carinho, papo, atenção, invertendo todas as suas intenções. Amor, quando concebido, é responsabilidade e delírio de quem o concebeu, e haja tempo, recurso e afeto pra niná-lo e sustentá-lo. De repente cresceu… E foi embora.

Passo tanto tempo dos meus dias tentando viver o amor, abrindo espaço pra ele na minha cabeça, na minha agenda, na minha cama. Deixo ele entrar e pronto, ele entra e é tão folgado, toma todos os espaços. E depois, passo mais tempo ainda tentando entender que diacho é o amor, por que ele faz o que faz comigo, por que me seduz e depois me nega, por que não, por que sim, se sou eu, se é ele, se estamos condenados a nunca nos entender em harmonia tão sonhada… Se o timing vai sempre estar errado, se é culpa minha ou do destino, que parece ter raiva de me ver entendida de vez com o amor.

A verdade é que algumas coisas são impossíveis de serem compreendidas, esgotadas, encerradas. Nos resta conviver com elas, sucumbindo à eterna tarefa de alimentar o moto-contínuo das dúvidas e certezas… Das perguntas sem resposta.

Sou incapaz de compreender o amor. Mas também incapaz de rejeitá-lo. Serei sua eterna vítima inconformada, arrasada… E pronta pra outra.

Sou incapaz de compreender o amor… Mas o Drummond sempre me ajuda nessa eterna tentativa.

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

AMAR-AMARO

Porque amou por que almou
se sabia
p r o i b i d o   p a s s e a r   s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?

ah porque amou
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás.

E a Florbela Espanca também…

FANATISMO

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Ano Novo, Vida Nova?

December 30th, 2010

Há dias está na minha Dashboard o post que tem como título esse antigo modo de falar: “ano novo, vida nova”. As letras se derramam e se apagam na tela sem que eu me convença que tenho algo importante a dizer. O título persiste. Mas faltava algo para que eu escrevesse sobre essa passagem de 2010 para 2011.

A um dia do término do ano, acordei cedo, muito cedo. Acordei devido a dores nos ombros, nos braços, e a cabeça, que ultimamente sempre dói – efeito do excesso de esforço e do estresse de 2010, ainda me castigando em seus últimos suspiros. Justamente quando posso relaxar um pouco é que sinto o tamanho da pancada. Ainda bem que não doeu tudo de uma vez. Eu não teria aguentado. Melhor a dor que vai indo embora aos poucos, ainda que ela dure mais.

Pensei que não tenho mesmo nada a dizer. Ano ruim. Ano péssimo. Um ano atrás eu estava aqui, pedindo boas surpresas. E o que tive foram muitos desafios pra enfrentar e muitos drops amargos pra chupar aos poucos. Claro, bons momentos sempre existem. Conheci boas pessoas, tive boas conversas, fiz coisas boas, gente querida apareceu e nasceu, dei risada com gosto, experimentei, beijei, aprendi, amei, escolhi, vi, vivi. Mas, na inevitável balança mental onde coloquei o peso dos últimos trezentos e poucos dias, não vi equilíbrio. Ano ruim. Ano péssimo. O ano em que cansei de viver. Mesmo tão nova de idade, senti meu coração idoso, desgastado, falhando, esclerosado. O ano em que eu disse “não quero mais”. O ano em que ouvia a voz do meu pai, já apagada da minha memória, voltando só pra me dizer, agressiva – “não tem querer”. Mas eu continuei querendo. Querendo sumir, e mudar de vida. Deixar pra trás tudo e ter uma chance pra começar tudo de novo.

Pensando nisso tudo, desci as escadas e notei que tinha algo no meu quintal ao abrir a janela. Um pacote. Um jornal embrulhado, provavelmente deixado por engano. Deixei de assinar os jornais “oficiais” depois do último processo eleitoral. Já chega as besteiras que não posso evitar de ouvir e ler. Mas já que estava lá, não custava olhar. Abri, era a Folha de São Paulo. Logo no meio, as costas do caderno Ilustrada e lá… O artigo do Contardo Calligaris, com o mesmo título do meu post – “Ano Novo, Vida Nova“. Ansiosa, devorei cada palavra. Na segunda leitura, saboreei.

Delicado e consciente, como sempre, ele responde a uma leitora que quer entender as pessoas que simplesmente somem do mapa e da vida dos outros quando cansam da vida que têm. Um belo artigo sobre amor, coragem, covardia e sobre o desejo. Segundo ele, as pessoas que cansam da vida e largam tudo para mudar radicalmente, sem ter sequer paciência para se despedir das coisas e pessoas, frequentemente não vão muito longe de onde estavam. Constróem novamente vidas semelhantes a que tinham antes – trabalho, lugares, hábitos  e relações parecidas. E isso mostra que, na verdade, não adianta fugir de uma vida que parece autoritariamente sufocante, se somos escravos das dores, imposições e exigências que o nosso próprio desejo nos coloca; e pior ainda quando o desejo dos outros, próximos que amamos, vira o nosso próprio desejo por obrigação. Ele termina com o seu “(…) voto para o Ano Novo: que nos preocupemos menos em mudar nossas vidas e encontremos jeitos de conseguir desejar o que já desejamos sem transformar nosso desejo em obrigação.“.

Terminei a leitura pasmada com a “coincidência” dos títulos, dos pensamentos e do jornal deixado no meu quintal, mas principalmente terminei tocada pelas palavras do Contardo. Entendi o que faltava no título do meu post para que ele acontecesse. A interrogação. Será que para ter um ano novo, realmente preciso de uma vida nova?

Pensei nas coisas que gosto da minha vida. São tantas… Tem muita gente chata, mas tem tanta gente que amo e não queria que fosse embora nunca. Tem muita angústia de indefinição sentimental, mas tem muita história pra contar sobre a delícia das tentativas de gostar dos moços, eles, sempre tão misteriosos, malvados e instigantes. Tem muito amigo que sumiu, mas tantos outros que não desistiram de mim. Tem muito problema no trabalho, mas tanta coisa boa realizada e curtida ao máximo. Tem muito problema financeiro, mas muita coisa adquirida. Tem muito cansaço e problemas de saúde, mas ainda estou de pé. Tem muito aborrecimento e inconformidade com o mundo, mas tanta ideia nova surgindo, tanta gente fazendo coisa boa. Tem uma família cansativa e viciada em seus próprios jeitos de ser e viver, mas tem mudança estapeando todos nós e nos ensinando o que falta aprender. Tem tanta coisa que me deixa de saco cheio. Mas tem tanta coisa eu faço como quero, e ainda bem que não sou como tantos outros que não se permitem errar nem escolher nada. Tem muita coisa que tive que enterrar dentro de mim. Mas algumas sementes estão insistindo para serem cuidadas. E de repente me dei conta que não preciso sumir, nem mudar de vida, pra ter um ano novo. Só preciso ter um pouco de paciência com a vida e comigo mesma. E um pouco de ânimo para fazer o que tem que ser feito – rever os meus desejos de sempre. E o que eu sempre desejei é tão simples. Eu quero felicidade em tabletes pequenos e diários, e sabedoria pra deixar os problemas passarem por mim sem me agarrar a eles. Não sei onde foi que me perdi disso. Acho que foi desejando uma vida fácil e nova que nunca virá. E desse desejo virei uma escrava insatisfeita e triste.

Que 2011 seja um ano de liberdade. Liberdade de pessoas que me fazem mal. Liberdade das coisas que não preciso mais ter. Liberdade das ideias que não fazem mais sentido. Liberdade dos desejos impossíveis. Liberdade de um passado que não quero mais reviver. Liberdade pra fazer da minha vida aquilo que eu desejar fazer, guardando só a responsabilidade de não magoar os outros. Que a dor passe rápido, que o riso dure muito, e que minhas escolhas sempre combinem com meus reais desejos.

É o que desejo pra mim. E pra você também.

Feliz ano novo… Com vida velha, mas renovada em seus desejos. :-)