40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – MEDO

August 22nd, 2016

É mais uma noite de insônia, e aqui, no escuro e na solidão, eu penso na noite escura e longa de todos os dias ruins que já tive na vida, e penso em um dos mais sinceros, urgentes e poderosos sentimentos que há… Penso no medo.

Eu respeito o medo, porque o conheço de perto, sei da sua força e sei que nem sempre consigo ser mais forte que ele. Já tive medo de tanta coisa na vida… Tanta coisa. Penso em tudo que o medo me deu, de tudo que o medo me poupou… Mas penso principalmente no que o medo me roubou, e ainda me rouba até hoje. Conviver com o medo é olhar no espelho e ver a vergonha e a estupidez da nossa existência; é sentir-se desperdiçando tempo e recursos que não voltam mais, mas nada conseguir fazer para mudar; é reconhecer a nossa falibilidade, a nossa insensatez, a nossa covardia. É não aceitar a mudança e a impermanência da vida, é querer manter tudo como está. Dizia o poeta que

“O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar”

Dizem que certa medida do medo é saudável. Aprendi na faculdade de Psicologia que essa sensação de temor é uma ação cerebral instintiva que impede você de se meter em perigos e confusões, faz com que você ande alerta e precavido, faz você buscar por proteção; neurônios, sistema nervoso, conexões cerebrais. É um mecanismo de defesa que garante a integridade do corpo e da mente. Algumas ameaças são reais, e de fato, podem nos destruir, e a vida pode nos quebrar, como quem quebra um palito de dente. O medo de cair num buraco faz com que você ande suave e prestando atenção onde vão seus passos. O medo de se espatifar faz com que você não tente voar se atirando de uma altura imensa, ou não dirija a 180 km por hora. O medo de ser constrangido ou humilhado faz com que você tome conta de suas ações. O medo pode ser bastante útil, e desejável, até. Não atender ao seu apelo, muitas vezes, seria uma burrice.

Mas é do medo que vem a paralisia. Pegamos o medo do aniquilamento total, e o dividimos em fatias menores – fobias irracionais, reações inesperadas, travamentos incompreensíveis. O medo de morrer – real ou simbolicamente – é a consciência da nossa fragilidade, e por isso ele é tão irritante, quase tanto quanto é sedutora a ideia de desafiá-lo, e vencê-lo. O medo causa uma disputa interna que dá muita vontade de ganhar, de vencer. Tudo é perigoso… Mas não temos tempo de temer a morte. E talvez por isso eu tenha me portado, na maior parte do tempo, de maneira muito corajosa na vida, desde pequena. Não tive tempo de dar muita voz ao medo, e fiquei assim… Topetuda. Não tenho medo de andar sozinha à noite, nem de sangue, nem de barata, nem de enfrentar plateias gigantes, nem de dirigir, nem de falar com quem não conheço, nem de me expor, nem de ser assaltada, nem nada assim. Dentro de certas margens mínimas de segurança e razoabilidade, me movimento bem e não deixo o medo me roubar experiências importantes.

Mas, muitas vezes, sou menos corajosa do que gostaria, e justamente naquilo que me é fundamental. Tenho medo de certas conversas sérias. Tenho medo de assumir certos sentimentos, fazer certas declarações. Tenho medo de mudar certas rotas por outras mais ousadas. Tenho medo de cair em certos buracos. Tenho medo de admitir, pra mim mesma, certas coisas que parecem tão óbvias.  Tenho medo de entrar em certos quartos escuros da minha alma e ver o que tem lá dentro. Tenho medo de voltar atrás e começar de novo. Tenho medo de sonhar. E esses medos são os piores, porque não são concretos. São simplesmente fabricados por uma força que não conheço bem. É briga minha comigo mesma. A força do pior medo vem justamente daquilo que não conheço… E o medo do desconhecido é assim, tão malvado, tão irracional, tão patético… Tão grande.

Com o tempo, acho que fiquei até mais medrosa, porque, comigo, de verdade… Tragédias realmente aconteceram. O pior aconteceu. E com medo que volte a acontecer, eu fico assim… Fugindo. De não olhar o saldo no banco a não aceitar um pedido de namoro, de não fazer exames médicos a não atender o telefone, de não mexer no fio do chuveiro a não olhar certas pessoas no olho… A verdade é que eu tenho medo de que algo muito ruim vá acontecer a qualquer momento comigo. E por isso prefiro fugir, fingir que não existe, ignorar. E isso tem sido mais forte que eu.

Mas tem um outro lado meu que grita, berra por liberdade, a liberdade desse medo do desconhecido. Um lado que pede para eu andar de patins, para eu dançar, para eu sorrir para aquele moço, para eu responder aquela carta, para eu tentar mais uma vez, para eu dar aquele passo, para eu cantar, me arriscar, pular, me atirar.

Me lembro de sonhar, muitas vezes na vida, especialmente em momentos terríveis de indecisão e confusão, com uma situação. Tenho que transpor um grande abismo, passar de um lado para o outro, e para isso, há apenas uma corda. Olho para ele e não consigo enxergar seu tamanho; é imenso, enevoado, escuro. Começo a andar segurando na corda com os braços, fazendo enorme esforço, mas não consigo sair do lugar; quanto mais ando, mais longe fico do outro lado onde preciso chegar. E de repente, não aguento mais e solto a corda. Nesse momento, descubro que  o chão estava logo ali… O abismo era apenas uma ilusão que me impedia de andar. Posso atravessar tranquilamente qualquer distância, se tiver coragem pra soltar a corda.

E quantas vezes na vida eu já vi que soltar a corda é necessário, e muito bom. É que o medo faz você acreditar que não há nada depois dele… Mas há sim, e muito. Tem muito depois, mesmo quando tudo parece que vai dar errado – e às vezes dá mesmo; mas mesmo quando dá tudo errado… Existe um depois.

Existe um recomeço depois de encarar a dor de terminar um relacionamento falido, ao vencer o medo de trocar o certo pelo duvidoso. Existe uma nova possibilidade de trabalho depois da dureza de perder a segurança de um emprego meia boca, ao vencer o medo de não conseguir coisa melhor. Existe uma nova amizade depois de superar a timidez de começar uma conversa, ao vencer o medo de ser rejeitado. Existe o sucesso e o aplauso depois de conseguir se expor, ao vencer o medo de ser julgado. Existe a alegria do encontro depois do descompasso do início, ao vencer o medo de tentar. Existe o alívio da realidade depois da boa ou má notícia, se for vencido o medo da verdade. Existe a satisfação da resposta depois da pergunta, se você perder o medo de perguntar. Existe a plenitude de um novo sonho depois da dor da perda, se você enfrentar o medo de sofrer de novo. A vida, mas a vida de verdade, é um prêmio para os corajosos, para as corajosas. E para isso, você precisa colocar o medo como seu aliado, não seu algoz; colocá-lo debaixo de seus pés. Afinal, “o correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Já ouvi de uma pessoa muito sábia que o oposto da Fé não é a dúvida… É o medo.

Me lembro da sensação incrível da primeira vez de andar de bicicleta sem rodinhas auxiliares. Eu tinha muito, mas muito medo de cair. E não tem jeito, por mais que tenha alguém ali atrás, te segurando, há um movimento que é solitário, um passo que só você pode dar, um jeito de fazer que só você pode descobrir, e não tem jeito de entendê-lo a não ser tentando. E eu consegui me equilibrar e ir em frente. Me lembro da sensação incrível, parecia que eu estava voando. Pouco depois eu caí da bicicleta e quebrei o braço em cinco lugares; uma complicação que levou anos pra resolver. Mas valeu a pena. E a primeira coisa que eu fiz quando tirei o gesso foi voltar pra bicicleta. Eu tinha medo de cair e sentir toda a dor de novo. Mas eu não podia deixar de voar, de querer, de ir novamente. Simplesmente não podia.

Outro dia andei de novo de bicicleta ouvindo uma canção. Lembrei-me dessa sensação… E percebi que há muito ainda pra voar. Se… Se eu deixar o sol bater, se eu sair, se eu tentar… Se eu deixar o coração bater sem medo. Espero conseguir.

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – LIVROS

August 8th, 2016

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A budinha leitora ganhei de uma grande amiga no dia do meu aniversário de 40 anos. Ela representa essa minha paixão da vida toda por livros… E foi morar no lugar mais vistoso da casa – minha biblioteca.

Estou aqui sentada, de frente pra ela. Como é linda, como gosto dela! É que levei a vida inteira para fazê-la. Ela já foi de muitos jeitos, de muitos tamanhos, e poderia ser bem maior… Se eu não tivesse tido juízo suficiente pra tirar coisas dela de vez em quando, ou se não tivessem me tomado tantos emprestado sem me devolver. Mas foi bom que alguns foram… Porque assim outros puderam chegar. Minha biblioteca… O lugar mais bacana da casa.

Convivem nela os que vieram quando eu tinha 7, 8 anos e os que chegaram a semana passada. Os que foram presente de alguém, os que comprei, os que herdei e os que vieram parar na minha mão de algum jeito que eu nem lembro como. Os que têm dedicatória, uma frase marcada, um bilhetinho dentro, ou um recadinho no rodapé, ou um buraquinho de cupim, um estragadinho na capa… Conheço todos eles, em detalhes. A maioria tem o meu nome escrito na página de rosto… Amo gravá-los assim. Alguns têm páginas amareladas e puídas pelo tempo, e outros têm aquele cheiro incrível de livro novo. Os que foram lidos e relidos à exaustão, e os que não foram abertos ainda, e talvez nem sejam.  Os que eram meus e os que eram do Marcelo, e que a gente juntou quando casou. Aliás, a lembrança do nosso casamento foram livrinhos que nós editamos, com nossas leituras preferidas, e junto, um marcador de livro. Afinal, pelo menos pra nós dois, não tinha coisa mais íntima e simbólica da nossa união do que juntar e misturar as nossas bibliotecas. Quando a gente namorava, íamos lá pro meu quarto de solteira e ele ficava olhando os livros, e perguntando o que eu tinha achado desse ou daquele, e pegávamos um ou outro e íamos lendo trechinhos juntos, e trocávamos, e nos presenteávamos, e citávamos, ele firme no Guimarães Rosa, eu firme na Adélia Prado e eu pensava…. PUTZ! Tenho que aceitar casar com esse moço, não vai ter jeito. 🙂

Estão nela, ajeitadinhos, lado a lado, e sem nenhuma intenção de briga por méritos em escalas intelectuais – Freud e Picasso; Agatha Christie e Albert Camus; a Bíblia e o Bhagavad Gita; Jane Austen e Clarice Lispector; Platão e Dan Brown; Dostoiévsky e Machado de Assis; Jung e Malba Tahan; Cora Coralina e Bertold Brecht; Santo Agostinho e C.S. Lewis; Oscar Wilde e Ruy Castro; Nelson Rodrigues e Gil Vicente; Drummond e Maiakóvsky; Chico Buarque e Stanislaw Ponte Preta; Millôr e Irmãos Grimm; Carpinejar e José de Alencar; Duda Molinos e Dona Palmirinha; Piaget e Vygotsky; Paulo Freire e Max Webber… E tantas outras combinações inusitadas. Tem também histórias incríveis que ninguém sabe quem escreveu. Ai, como eu a amo e suspiro por ela, minha biblioteca linda!

Tem livro pra tudo ali – pra sonhar, pra entender, pra imaginar, pra fazer alguma coisa, pra juntar dados, pra excitar, pra ler sozinho, pra ler pro outro. Tem manuais e almanaques. Poemas, ensaios, dissertações. Tem clássicos e livros da moda. Tem peças de teatro, romances, diários, discursos, suspenses. Tem biografias, novelas, aforismos. Histórias maravilhosas, crônicas, contos. Estudos, pesquisas. Livros de Arte, livros de História, livros de Filosofia, Psicologia, Teologia, Política, Sociologia, Linguística, Anatomia, Matemática, Pedagogia. Livros raríssimos, como um dicionário de 1890, e livros que todo mundo tem. Se bobear, até algum livrinho de autoajuda perdido lá, disfarçado, deve ter. Quantas culturas, pensamentos, coisas interessantes e bobagens ela guarda. Como eu tenho orgulho dela!

Minha mãe, que nunca teve dó de gastar dinheiro com livros pra mim; meu pai, que trabalhava em uma editora de revistas e me enchia de gibis e outras coisas pra ler; meu avô, que também tinha alegria em colecionar livros; e os próprios livros, com seus encantamentos… Todos eles são responsáveis por eu gostar de ler, de escrever, e ter essa biblioteca belíssima, que ganhou lugar de destaque na minha sala. Fiz questão de pintar a parede, fazer um canto aconchegante e bonito, colocar cheirinhos, plantas, pintar um quadrinho pra enfeitar a parede, e colocar as prateleiras, enormes, pra abrigar o maior tesouro que eu tenho – o conhecimento e o prazer que os livros podem dar. E quem chega aqui já vê de cara um pouco de quem eu sou ao olhar pros livros.

É interessante a reação das pessoas com essa minha paixão. Uns acham bonito, outros acham uma bobagem. Pra uns, ter lido tanto e ter tantos livros me faz alguém intelectual, inteligente; pra outras me faz uma pessoa alienada e besta. Uns ficam indignados, outros ficam pensativos. Tem quem tem inveja e quem ache que eu não sei gastar dinheiro com coisas que importam. Tem quem adore me dar livros, o que eu adoro também… Não tem presente que eu goste mais de ganhar. Mas nem ligo pro que pensam. O que rola entre a minha biblioteca e eu, só nós sabemos. Não sou apegada com nada nessa vida… Mas com ela… Ah, com ela é diferente.

Minha mãe jura que eu aprendi a ler com 3 anos. Não sei se é exagero de mãe, mas me lembro que cedinho eu já lia muito, e lia bem. A escola, chatíssima, bem que tentou tirar meu gosto por leitura, mas não conseguiu. Lá encontrei a minha amiga Fabi, que me mostrou livros da Agatha Cristhie e lemos todos eles, ou quase todos – trocávamos, e delirávamos com os assassinatos e investigações. Depois descobri a biblioteca municipal, e tive fases e fases – Julio Verne; Conan Doyle; Stephen King; aqueles romances de banca, Julia, Sabrina, Bianca; Sidney Sheldon… E por aí foi. Ah, eu já li de um tudo nessa vida! A internet, claro, me roubou muito do tempo de ler. Mas não totalmente. Aqui em casa tem livros na cabeceira da cama, na cozinha, no banheiro, no carro… Em todo canto.

Na minha sala de aula, na escola, também tem uma biblioteca incrível pras crianças. Na semana passada tombei o livro de número 1120. Mais de mil livrinhos de todos os gêneros que eles folheiam, levam pra casa, trocam, olham, reolham, brincam, tentam entender… E eu fico lá, olhando que nem boba pra eles, na esperança de passar essa minha doença pros pequenos e pequenas também. E onde eu posso, semeio livros e bibliotecas.

Quando eu li “Como água para chocolate”, eu chorei e entendi que algumas pessoas têm certas alquimias diferentes com a vida. Quando eu li os poemas do Pessoa, eu entendi que a vida dói mais pra algumas pessoas do que pra outras. Quando eu li “Pedagogia do Oprimido”, eu entendi o que eu vim fazer aqui neste mundo. Quando eu li “Anatomia de uma dor”, eu entendi que a dor do luto podia ser compreendida por outro coração enlutado, e me senti menos só. Quando eu li “Mulheres que correm com os lobos”, eu entendi boa parte da minha alma. Quando eu li “O Mal Estar na Civilização”, eu percebi que o mundo se regula o tempo todo entre a maldade e a genialidade da natureza humana. Quando eu li “O Banquete”, eu tive uma vontade enorme de amar. Quando eu li “Holocausto Brasileiro”, eu desencantei da humanidade. Quando eu li “A Mensagem”, eu voltei a ter esperança. E poderia citar tantos outros que me fizeram enxergar as coisas de um jeito diferente ao longo desses 40 anos de leitura.

Fiquei olhando pra biblioteca e pensando… Se um dia eu morrer de repente, o que será que iam fazer com ela, com os livros todos? Iam jogar fora, colocar os livros pra fazer peso ou equilibrar algum móvel, doar pra alguém, separá-los? Pra quem ela faz sentido, do jeito que é, senão pra mim mesma?

De qualquer forma, o mais importante é saber que muitas palavras, imagens, frases desses livros vão comigo pra onde eu for, porque foram reescritas em mim. E essa é a parte mais legal. Quem sabe o que ainda será escrito daqui por diante, que livros chegarão e partirão da biblioteca… Quem sabe onde essa paixão ainda vai me levar? Se tiver um lugarzinho pra mim, ali no sofá, pertinho dela, minha biblioteca querida… Não preciso de muito mais coisa, não.

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40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – PASSIONAL

July 29th, 2016

Não sei se Deus me sonhou toda assim, voltada pro lado de dentro, meu e dos outros, não sei por que entendo tão pouco da vida prática e entendo perfeitamente o que vai no coração das pessoas, no meu.

Não sei se é conjunção astral, a natureza canceriana, em Sol e ascendência, dizem, tão dramática, sentimental, profunda, protegida em ser tão frágil, cheia de carne molinha e trêmula dentro da casca dura do caranguejo.

Não sei se é cultura, se é criação, se fui criada em família de mulheres fortíssimas e suspirantes, que aguentaram os vários trancos da vida e, com os olhos cheios de água, seguiam em frente.

Não sei se é a formação em Psicologia, o encantamento pelos símbolos, a vontade de decifrar todos os enigmas nos mares escuros e perigosos da psique humana, que me faz enxergar além e atrás do aparente, que me faz querer, quase que inconscientemente, dar significado pra tudo e pra todos.

Não sei se é a miopia, aquela, que me faz ver tudo embaçado de longe e tão nítido de perto, que me obriga a enxergar detalhes, a ver pequenas partes e não o todo, a virar as costas pra banda passando na rua e olhar as formigas passando no canto da calçada, a achar sentido nas coisas mais idiotas e corriqueiras.

Não sei se é a nacionalidade errada; eu deveria ter nascido mexicana, pra justificar o rímel borrando, as lágrimas contidas escorrendo à revelia, o coração batendo forte olhando a lua de madrugada, a música entrando no ouvido e batendo direto na alma, a resignação, o “pra sempre” e o “nunca mais”, o arrebatamento imediato diante do objeto do desejo, a pessoa do desejo, não sei de onde vem tanto desejo, caramba, esse desejo que não para nunca e me faz seguir assim… Desejando, desejando, desejando.

Não sei se é a alma lotada de poesia, essa alma que se apaixona tanto pelas palavras e as valoriza tanto, alma contemplativa, que “projeta-me em tal solidão” que consigo ver tudo de todo o lado e sentir tudo ao mesmo tempo, até que fique exausta, não sei por que essa determinação absurda de carregar água na peneira e guardar vento no  bolso.

Não sei se aprendi a ser assim, se sou assim, se queria ser assim, mas o fato é que é assim que é… O coração na mão, sempre entregue, sempre vivo, “saliente, bate, bate muito mais que sente, fica doente, mas é natural“, porque não teve outro caminho pra mim. Eu sou assim… Refém dos meus sentimentos. A vida me dói tanto. Sou passional.

Passional, palavra que me soa perfeita para quem tem “coração na mão como um refrão de bolero“, previsível e intensa. “Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé”, disse o outro, mas com paixão demais eu vivo assim, perdida, no meio de um tiroteio, pegando tudo pra mim, absorvendo, significando, e me vem essa sensação de ser ridícula, desnecessária, incompreendida, inútil pra este mundo… Tão só neste mundo vão.

Passional vem do latim, significa “suscetível à dor”, exposta, sem defesa, tão frágil diante de qualquer possibilidade de sentir. Vou lá e sinto mesmo, vou inteira, entrego o ouro, abro a porta, entro com tudo e que se dane os estragos de depois. Quando eu vi, já tinha ido. E aí tudo me dói. A planta balançando no vento, a pessoa abandonada dormindo no chão, a voz da Billie Holiday, o frio ou o calor, as escolhas erradas – minhas e dos outros, o papel em branco esperando um registro, a vida como ela é, ai, como tudo dói.

Claro, com o tempo, aprendi a disfarçar. Pareço ponderada, tranquila, racional, até cética, às vezes; tão consciente de tudo, tão calma, me procuram para acalmar os ânimos, para apaziguar, para explicar, para separar a briga. Pareço, sim, tão amiga de paz. Mas só eu sei como aqui dentro tudo derrete, tudo me consome, tudo me causa insônia, tudo ferve, e na noite que se faz em mim, preciso tanto desse pulso da paixão das coisas, paixão de tudo. E não tem jeito. Eu represo, mas não é raro, isso tudo vaza de mim. Ai, ai, ai, que me dói tanto, e precisa vazar, senão explodo, ou implodo.

É que dentro tem água, muita água. Sempre sonho com água. Cachoeiras, poças, lagos profundos, canais subterrâneos, mares e oceanos, cascatas, me afogo sempre nessa água de paixão e acordo puxando o ar. Não é raro desejar não ser assim. Queria tanto passar mais leve, ser superficial, medíocre, não perceber, não sentir, fazer o que vejo tanta gente fazendo, vivendo por viver. Mas fazer o quê, sou assim. E tive, nesse tempo todo, de aprender a lidar com isso, comigo, com a vida de quem sente demais.

Se é pra trabalhar, que seja um trabalho idealista, que seja bonito, que seja pra fazer diferença e pra mudar o mundo. Se é pra crer, que não seja pra repetir rezas, esquentar banco de igreja no domingo, fingir que sou boazinha; vou crer no impossível, no mais difícil, vou querer entender os mistérios a fundo e mudar a mim mesma, e não vou me conformar com respostas prontas. Se é pra ter amigos e amigas, que sejam irmãos e irmãs, que contemos tudo, que nos mimemos, que nos acarinhemos, que nos ajudemos e alimentemos, não me venha com amizade meia boca e troca de conversas formais. Se é pra ter família, que seja família de verdade, que sejamos envolvidos, que façamos tudo uns pelos outros, que criemos os filhos e enterremos os mortos do jeito inteiro, do jeito certo. Se é pra amar, que seja amor total, de entrega, de corpo e alma, que me jogue no abismo, que qualquer coisa menos que isso me parece traição do próprio amor, ao próprio amor; que seja pra tirar tudo do lugar e me fazer mudar, crescer, me fazer ser outra pessoa – ou melhor, fazer ser eu mesma -, que seja um desafio todo dia, e se não for assim, não quero, e vou morrer tentando encontrar o que eu procuro. E se for pra doer… Que doa até o fim, tudo que tenha que doer, e tudo que dói que doa mesmo – a saudade, o abandono, a morte, o medo, a culpa, a incapacidade. É pra sentir tudo inteiro, nunca quero ser metade de nada nem de ninguém.

Eu antes achava que ser passional me fazia uma vítima da vida. Passiva, não tinha escolha. Mas hoje eu sei que não é verdade. Essa é a vida que eu escolhi. Pago o preço. Até aqui, paguei. Isso é, ao mesmo tempo, minha desgraça e minha alegria, meu desespero e minha consolação. “O que eu sofri por causa do amor ninguém sofreu, mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais… Mais do que eu.”.

Não sei se é melhor ser assim, não faço defesa pros outros do que acabei achando ser bom pra mim. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Mas é assim que é, digo e repito. E se é, melhor que continue sendo. Nada de tons pastéis. Nada de assepsia. Nada de morninho. Nada de qualquer coisa serve. Nada de rotina. Nada de nem lembrar o que estou fazendo aqui. Nada de trabalhar só pra ganhar dinheiro. Nada de cozinhar com pouco tempero. Nada de cruzar com as pessoas sem deixar marcas, e sem ser profundamente marcada. Nada de fazer 40 anos como se fosse quaisquer outros anos. Não, assim não quero. E algo me diz que, como já encontrei uma vez, ainda posso encontrar par neste mundo, em tudo isso.

“E se houver gente que ainda sente solidão não mais virá”.

Que eu possa cantar uma balada de amor com a voz embargada, sentindo cada palavra, indo e voltando no sentimento, chorando mais uma vez uma dor de amor que acabou, sentindo que não vou suportar… Mas suportarei. E continuarei assim, passional… Porque é assim que é, e se é assim que é… Assim continuará sendo.

Me arrasta, sentimento, me leva… E só me deixe estar… Me deixe estar.

 

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – DESTINO

July 23rd, 2016

Seria a vida um mero acumulado de dias que vão passando, um depois do outro, sem um grande sentido ou propósito, um pontinho de luz no fio da existência, que tem começo, meio, e fim, em que cada um de nós faz sua participação e sumirá para o mais absoluto nada, na poeira dos dias – o mesmo nada de onde viemos?

Seria a vida um grande cruzamento de coincidências que vão batendo uma na outra, nos dando a impressão de que são intrinsecamente relacionadas, quando não são mais que fatos que vamos pinçando ( enquanto desconsideramos tantos outros ) para criar um enredo, uma história com sentido?

Seria a vida o tal bordado feito por um gênio com a agulha do tempo, que só vemos do lado do avesso, sem a menor compreensão do que está sendo bordado, mas que forma um desenho perfeito quando olhamos o todo de cima, do local da eternidade?

Seria a vida uma farsa, um roteiro feito por um grande criador divino, onde todos os fatos já estão escritos, criados e fadados ao nascer, todos os diálogos já estão bolados, todos os finais já estão escritos, e que são simplesmente encenados por nós sem nenhum direito de escolha, de interferência, de livre arbítrio, esperando pelas vaias ou aplausos ao final da peça?

Seria a vida um caminho flutuante, que ninguém sabe onde vai dar, onde todos estamos indo ou caindo de acordo com a vontade do vento, deixando a vida nos levar, apenas reagindo a cada fato ou evento, tentando colocar sentimentos onde só deveria haver a fruição do momento?

Seria a vida uma preparação para algo muito maior e mais longo que virá depois? Seria a vida uma purgação de algo muito maior e mais longo que veio antes?

Seria a vida uma ilusão, uma matrix, uma espécie de sonho ruim, onde somos controlados em tudo sem perceber?

Seria a vida feita de escolhas racionais, conscientes ou não, onde todos estamos assumindo riscos, fazendo investimentos, colhendo os frutos que foram plantados, uma matemática perfeita entre o que queremos, fazemos e ganhamos ou perdemos a partir disso?

Seria a vida uma “caixa de bombons“, todos embrulhados da mesma maneira, que vamos desembrulhando pouco a pouco, sem saber que sabor vamos encontrar?

Seria a vida um misto de oportunidades e ações que escolhemos, onde 50% depende de nós, e 50% é totalmente imponderável e imprevisível?

Seria a vida uma grande correnteza que nos arrasta para onde quer invariavelmente, nós… Frágeis barquinhos de papel?

Haveria um destino planejado pra mim, do qual tentei fugir, mas tal como na tragédia de Sófocles, Édipo Rei, ao tentar fugir, apenas corri de encontro a ele?

40 anos de perguntas… Todas essas respostas já passaram por mim, e nenhuma delas me parece a correta.

De qualquer maneira, ainda tento segurar o leme da minha vida com as mãos. Mas não há duvidas que estou no mar… E “é ele quem me carrega como nem fosse levar”.

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – MOMENTOS

July 20th, 2016

Três anos atrás, eu estava me casando. Um grande momento.

Ah, os grandes momentos. A roupa especial, o dia marcado, a emoção represada, a dança ensaiada, a contagem regressiva, o discurso preparado, a cerimônia definida, a pose para a foto, o ritual cuidadosamente planejado, todos os recursos providenciados e mobilizados para o sonho virar realidade. Sem dúvidas, momentos que marcam a vida das pessoas.

Em uma vida de 40 anos, creio que posso enumerar alguns grandes momentos que estão guardados na memória, carregados de intensa e profunda emoção – fosse eu a grande protagonista, fosse eu a acompanhante de alguém que eu amava muito. Pensando nisso, me vem um desfile de ocasiões muito, muito especiais, e que merecem grande destaque na galeria da minha vida. Estão registradas nos álbuns de fotografia, nos destaques, nas lembranças físicas que ficaram guardadas no armário. Ah, os grandes momentos…

Não vou me alongar sobre a graciosidade e a alegria daquele dia… Já falei um montão sobre isso no Facebook hoje cedo. Mas fiquei pensando como foi que eu cheguei ali… Naquela grande ocasião do meu casamento. Para chegar até ali, foram necessários muitos pequenos momentos. Esses, sim – espontâneos, singelos, surpreendentes, cheios de carinho, de engajamento, de reflexão, de emoções intensas, que mudaram o rumo de uma história… De duas histórias e de mais infinitas histórias relacionadas a esses mesmos pequenos momentos. E é justamente o despreparo, a falta de hora marcada, o lugar inusitado, o acaso, a surpresa que fazem esses momentos serem tão especiais.

Um dia de formatura serve para lembrar daquela frase do professor que mudou sua vida. Do dia em que você nem ia pra escola, mas foi, e viveu uma experiência que fez você entender tudo diferente. Daquela conversa na saída, daquele beijo no corredor, daquela briga na cantina, daquele dia em que você perdeu a hora de ir embora de tanto que ficou debatendo e discutindo aquela questão, daquela noite que você passou em claro tentando entender, do alívio ao ver a nota daquela prova que, você jurava, não ia ser mais que 1, ou 2.

Assim como o dia em que alguém comemora bodas de prata está comemorando um grande bloco de 25 anos de convivência. Mas quantas noites de desejo, quantas pequenas surpresas, quantos perdões, quantas pequenas declarações silenciosas de amor, quantas escolhas, quantas conversas ao pé do ouvido na madrugada, quantos carinhos, quantas brigas, quantos sonhos compartilhados, quantas conquistas, quantas mãos seguradas cabem em 25 anos de casamento? Incontáveis pequenos momentos…

E eu fico pensando nos pequenos momentos que me levaram ao meu grande dia feliz. A voz no telefone, a ponta firme no momento difícil, as infindáveis conversas sobre tudo, o carinho de repente, o abraço no momento de angústia, a risada explosiva, os presentes singelos, as palavras e olhares trocados no carro, as músicas cantadas junto na estrada, o beijo surpresa, o toque diferente, o bom humor, a partilha da vida cotidiana,  do dia a dia, feita de jeito tão especial que quis se durar para sempre.

Pequenos momentos não acontecem só com pessoas especiais. Uma frase que você leu pichada em um muro na rua pode fazer você ver algo diferente do que via. Passar uma noite sozinha, no frio, pode colocar você em contato com sentimentos que você nunca teve antes. Ver uma notícia na televisão pode fazer você mudar de hábito. Assistir a um diálogo de um filme pode lhe abrir a mente para algo novo. Ouvir a conversa de alguém no ponto do ônibus pode te ajudar a ouvir algo que está calado dentro de você mesmo. Experimentar o sabor de uma comida diferente pode marcar seu paladar para sempre. Viajar para um lugar inesperado pode te trazer um novo horizonte. Creio que todo dia pode trazer um bom momento que mereça ser lembrado… Se você prestar atenção e não passar pela vida sem atentar-se para eles.

Há um filme japonês muito interessante, chamado “Depois da Vida“. Imagine que, ao morrer, você tenha uma semana para pensar e escolher um momento, apenas um, que você vai levar para a eternidade. Todo o resto ficará perdido no tempo; apenas um momento de toda uma vida será eternizado. Uma tarefa quase impossível, para muitos. Outros, teriam a resposta na língua sem pensar. E ainda outros, melancolicamente, concluiriam que viveram momentos vazios de significado… E que não gostariam de levar nada. O que me leva a pensar que o que faz um momento digno de memória não é a ocasião, em si… Mas o quanto você está aberto para que ele transforme algo em você.

Eu fico pensando que momento eu levaria. Qual foi a fatia mais doce da minha vida? Será que alguém viveu a fatia mais doce de sua vida comigo, e gostaria de me carregar para a eternidade? Qual o momento mais incrível, mais perfeito, mais intenso, mais cheio de significado que eu vivi? Quando foi?

Desconfio que não  levaria o dia do casamento, nem da formatura, nem dos grandes holofotes. Não… Ninguém poderia passar uma eternidade em um momento como esses. Talvez eu levasse o momento mais simples, mais sincero e singelo, mais acolhedor… O pequeno momento que, sim, poderia durar para sempre dentro de mim sem me roubar, me cansar, me matar de emoção.

Mas… Pode ser que esse momento ainda esteja por vir. Quem sabe?

Na dúvida… Vamos viver. Enchendo de doçura e relevância os pequenos momentos de todos os dias.

TEXTOS MONDO REDONDO – JUSTO A MIM ME COUBE SER EU!

July 20th, 2016

Escrever um blog é uma experiência incrível, e é por isso que esse aqui existe. Já comecei outros blogs… Profissionais ( Diário de Classe / Gira Cirandinha ), um só pra falar de música ( lá tinha tantos textos, e não me lembro do endereço de jeito nenhum! ), outro só pra falar de questões espirituais ( “Conversas com Deus” – acho que o WordPress apagou por falta de uso ), e também um outro blog só de meninas, que nem de longe me lembro o título ou endereço. Era muita vontade de escrever.

E no auge da minha carreira de pseudo-escritora ( cof cof ) fui convidada a escrever em blogs coletivos. E, em especial, para fazer parte de um grupo muito especial, que escrevia em uma página chamada Mondo Redondo. Tive a honra de dividir a página com gente incrível, e que tinha ( tem! ) enorme talento pra escrever – Anderson, Vulgo Dudu, Rodrigo, Marcio Silva, Elis, Lili, Paulo… Puxa, quanta gente bacana. Bons, ótimos tempos!

Pro Mondo eu sempre guardava o meu melhor. Mas o blog saiu do ar e os textos ficaram aqui, perdidos em uma pastinha do meu computador que, com o tempo e a minha falta de organização, claro, vão se perder também.

Aproveitando essa onda nostálgica que me trouxe de volta ao Mafaldinha, resolvi postar alguns dos textos aqui, aos poucos, os que ainda podem fazer sentido, para que não se percam.

E pra combinar… Um texto inspirado por uma tirinha da Mafalda.

“JUSTO A MIM ME COUBE SER EU!” – Publicado em Fevereiro de 2005
Foi a minha adorada Mafaldinha que me acordou para esse delicioso e assustador fato em uma de suas tirinhas. Justo a mim me coube ser eu. Com a minha vida, a minha existência, faço o que quiser. E, salvo
certos casos de violência e opressão extremas, ninguém me demove da ideia de que são nossas escolhas ( ou a falta delas ) que nos fazem assim, do jeito que somos.

Em situações normais, não existem vítimas. O que faz a diferença é termos consciência disso, ou não. Conheço muita gente que não tem a menor ideia de por que se tornou quem é. E outros tantos que não conhecem o valor da flexibilidade e da mudança, preferindo ser sempre os mesmos durante toda uma existência, em todos os jeitos. Para todos eles, lembro o que a sábia Mafalda quis dizer – apenas a nós cabe cuidarmos de ser nós mesmos. Os outros apenas nos acompanham, ajudando ou atrapalhando, mas a decisão final é nossa.
Afinal, eles também estão cuidando de buscar quem são.

Pensando um pouco mais na descoberta da Mafalda, fiquei pensando em quem eu sou. Meus documentos dizem uma coisa, as pessoas que convivem comigo dizem outra, o que eu penso e sinto me levam a outros
pensamentos, e tudo muda tão rápido, e tudo acontece tão junto que fico perdida pensando na resposta. E me lembro do Machado de Assis dizendo que, na verdade, somos todos esquizofrênicos. Não sou uma. Sou várias.

De vez em quando, sou doce, falo manso, gosto de flores e poesia, suspiro e falo de amor como quem respira o que ama. Em outra vez, sou menina e inconsequente, só penso em brincar, sorrir e falar alto, cantar e dançar, sentir-me leve e livre, deixando-me perder e guiar, como
um filhote de pássaro. Falante e despojada. Reservada e tímida. Posso ser altiva e dura, brigar como uma leoa pelo que quero. Ou parecer uma criança desprotegida que precisa de proteção e apoio imediatos.

Em um dia, fico pesarosa e reflexiva, imersa em mim mesma, em algum lugar tão fundo e tão distante, que depois que volto, nem eu mesma sei dizer onde é. Em outro dia, fico com vontade de gente, de papo, de toque,
de renovação e novidade, e saio por aí procurando o que não encontrei quando fiquei eu comigo mesma… Naquele outro dia.

No meu trabalho, sou séria e profissional, asséptica e eficiente, cheia de metas e objetivos que precisam ser atingidos com a mais alta perfeição possível. Mas posso também ser relaxada, irreverente e tranquila, trabalhando apenas pelo prazer e a alegria de trabalhar,
perdendo em resultados, mas ganhando em caminhos e contatos.

Posso ser uma filha rebelde e malcriada, uma namorada doce e carinhosa, uma neta atenciosa e dedicada, uma irmã amiga e teimosa. Posso ser uma amante quente e atritante, ou lenta e submissa. Posso ser uma amiga que ouve, uma que fala, uma que dá risadas altas e ecoantes,
ou uma outra que chora cúmplice e resignada. Posso ser divertida, cínica, sarcástica, vingativa, e até rancorosa.

Posso gostar da dor ou do prazer. Posso ter vontade de comer chocolate num dia e no outro ter aversão a tudo que é doce. Às vezes, posso perdoar com a maior facilidade, e perdoar tanto que quase chego a esquecer. Em outras, não consigo perdoar de jeito nenhum, e sou
dura e fria como uma pedra. Depende da pessoa, do momento, dos acontecimentos. Depende de tudo.

Não se trata de ser dissimulada ou calculista; apenas de dançar conforme a música. E posso ser tantas outras. E todas elas sou eu. Em comum, apenas o dever de ser verdadeira em tudo, a consciência da impermanência das coisas e pessoas e a vontade de ser a melhor que posso ser em cada momento, em cada lugar, com cada um que
cruza meu caminho.

Talvez tudo isso aconteça porque não faz diferença nenhuma saber quem eu sou. Eu sou eu. Só assim. Karina, 28 anos, fazendo o melhor que pode, sendo várias e tentando fazer algo de bom nesse mundo. Nem
sempre consegue. Mas tenta. A resposta final… Só no final vou saber. E só eu vou saber.

 

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – IMPERMANÊNCIA

July 18th, 2016

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Escrevi na borda do espelho do meu quarto, para que eu não esqueça toda vez que quiser olhar pra mim mesma: nem sempre vai ser assim.

Aprendi uma vez essa frase em uma fábula chinesa. É algo pra se lembrar todos os dias. Nos dias de dor ou de alegria; nos dias de luta ou de paz; nos dias de fracasso ou de glória, nos dias de ascendência ou decadência; nos dias de encontro ou abandono… É preciso lembrar que seja qual for o dia, ele passará. E depois dele virá outro, onde tudo estará diferente. E a quantidade de sofrimento é proporcional à quantidade de teimosia – é preciso aceitar que, para o bem e para o mal… Nem sempre vai ser assim.

Sim, é o Tempo. O velho tempo que passa e arrasta tudo com ele, e provoca em nós alívio ou um triste saudosismo. Mas ele nada conseguiria se não houvesse em tudo que vive e que está a condição existencial da impermanência. Nada foi feito para durar. Há o que dure alguns milésimos de segundo, e há o que dure séculos… Mas, fora o próprio tempo, nada dura para sempre. Por desgaste, por luta, por quebra, por reinvenção… Tudo, tudo muda.

Talvez por uma rebeldia profunda de espírito, eu, como tanta gente, demorei a entender e aceitar a condição de impermanência das coisas. Quantas e quantas vezes quis segurar tudo como estava, pensei que minha fé ou minha vontade garantiria que nada mudaria. Quantas vezes, por preguiça, acomodação ou covardia, achei que seria melhor manter coisas ruins exatamente como se apresentavam, pois até com o que é ruim as pessoas se acostumam, e queremos manter, com medo que piore. Quantas vezes quis que pessoas não fossem embora, ou não mudassem nunca de opinião e afeto. Quantas vezes quis segurar um momento feliz por mais tempo, e preocupada com isso, sequer pude aproveitá-lo, achando que qualquer truque meu podia dar uma volta na vida e fazer o tempo se esquecer de mim. E é aí que coisas ruins acontecem. É aí, justamente aí que fazemos promessas  que não podemos cumprir, que nos envaidecemos de vitórias que não vão durar, que juramos sentimentos que não podemos ter, que nos desesperamos por coisas que não podem nos afligir para sempre, que nos esquecemos que vamos aprender, sentir e viver coisas que se transformarão… E tentamos segurar com as mãos o movimento da vida. Uma grande tolice… Cambia… Todo cambia.

Fico pensando em quantas vezes odiei as mudanças. Como eu queria ter brincado de boneca mais tempo; como quis que aquele amor não terminasse; como quis que aquela festa durasse mais; que aquela viagem durasse mais uns dias; que aquela comida deliciosa não estragasse. Como quis guardar, segurar, reter, manter tudo no lugar, não me mexer, não respirar… Mas não teve jeito.

Se não há o que não mude… Eu também não escapei de mudar. E, fazendo 40 anos, penso em como tanta coisa mudou em mim. Rio do que antes me causava medo; sei fazer rapidamente o que antes era difícil; entendo coisas que antes eram nebulosas; falo coisas que antes não tinha coragem de dizer; faço o que antes não podia fazer; aceito o que antes não queria aceitar. E outros medos vieram, outras dificuldades, outros impedimentos, outros inconformismos. E não há porque esquecer a frase do espelho: nem sempre vai ser assim. A vida ainda tem muito a me mostrar, ensinar. E eu quero que ela ande.

Mas percebo, também com alegria, que há coisas que não mudaram. E essa é a maior vitória sobre a impermanência: a essência das coisas. A planta que morre, deixa sementes que, de certa forma, a continuam. Os animais, deixam filhotes. Os sábios e sábias deixam coisas importantes que são repetidas, e assim fazem-se eternos. Há maneiras de manter-se, mas só fica o que é principal, essencial… A alma de tudo.

Que eu siga os dias que me restam aceitando que a vida, a vida de verdade, é mesmo assim. Muda. Passa. Vai e volta. Que eu saiba mudar com ela. Que eu não apresse e nem atrase nada que estiver diante de mim. Que eu esteja perto de pessoas que também sabem mudar, para que delas eu não precise me afastar se ficar muito longe. Que eu entenda que nem sempre vai ser assim… E aceite isso como uma benção, não uma maldição. Que eu não esqueça que “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” ( Guimarães Rosa ). Que eu afine, e desafine. Que eu tenha coragem para não me abrigar na mediocridade, que eu não tenha a ilusão da estabilidade do que não é estável… Que eu conserve a minha essência e deixe ir o que é aparência. Que cada dia seja uma surpresa, que eu receba isso com alegria… E que, de fato, nem sempre seja assim. Seja desse jeito, ou de outro… Que tudo, de fato, mude.

“Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo…
– Os ares fogem, viram-se as águas,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.”

Cecília Meireles

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – VIDA

July 4th, 2016

“Porque se chamava moço, também se chamava estrada… Viagem de ventania. Nem lembra se olhou pra trás ao primeiro passo, asso, aço, aço, aço, aço…”

GRATIDÃO, Vida, por tudo que me deu e me tirou. Por todo o vento que passou, e foi me trazendo exatamente até aqui. Grata porque és um caminho só de ida, porque se assim não fosse, eu estaria parada em algum ponto da estrada. Grata porque todos os dias o sol se levanta e me diz que tudo passa debaixo dos meus olhos, e posso continuar lá, brilhando, porque não há outra escolha. Grata porque o meu caminho me trouxe até aqui.

 “Porque se chamava homem, também se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem! Em meio a tantos gases lacrimogêneos, ficam calmos, calmos, calmos…”

PERDÃO, Vida, pelo tempo desperdiçado. Pelas vezes em que quis desistir de ti. Pelos dias que passaram sem reflexão. Pelas oportunidades perdidas. Pelos sonhos que abandonei pelo caminho. Pelas fraquezas, pelas maldades, pelas lágrimas inúteis, pelas teimosias. Perdão pelas vezes em que escolhi a amargura, o desânimo, a tristeza. Perdão por não ter percebido antes que posso flutuar ao invés de fincar pé no chão… Perdão por não ter entendido antes que sou árvore, mas também sou pássaro.

“E basta contar compasso… E basta contar consigo… Que a chama não tem pavio! De tudo se faz canção, e o coração na curva de um rio, rio, rio, rio, rio…”

POR FAVOR, Vida, continua me tomando pela mão e me levando adiante. Me ajuda a ter fé e descansar no Criador. Me ajuda a não me apoiar em ninguém que não seja eu mesma , mas não deixa que eu esconda a minha mão para quem quer que seja que precise da minha companhia. Continua me dando fome, me dando sono, me dando gana, me dando sabedoria. Abre meus olhos e meus ouvidos. Fecha a minha boca. Continue plantando sementes em mim – eu ainda tenho tempo pra esperar o tempo da colheita, eu ainda tenho energia de navegar por esse rio. Na conta dos créditos e débitos, que eu fique sempre equilibrada. Não me deixa ter medo do fim… Sim, Vida… A chama não tem pavio.

“E lá se vai mais um dia…”

Um dia é só mais um dia. Hoje é dia de lembrar que estou viva por alguma razão. É dia de celebrar. É dia de te desejar. Vida… Siga e me leve junto com você, me ajudando a tornar todos os dias cheios de sonho, chama e passos firmes adiante. E lá na frente, que eu possa olhar pra trás e ver de quantos finais e quantos recomeços é feita uma mesma VIDA.

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – INFÂNCIA

June 19th, 2016

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Amo essa foto. A menina, com a beca da pseudo formatura, toda danadinha, subvertendo a seriedade da situação com um sorriso sapeca. É isso que ela era, e é isso que eu queria ter continuado a ser. A menina dessa foto.

Muito difícil falar da menina. Porque eu tenho saudade dela. Porque meus olhos enchem de brilho. Porque ela vivia em tempo de tanto amor e tanta alegria e tanto exagero de sentimento. Porque ela se foi… E eu queria que ela voltasse. Porque é falar de gente que não está mais aqui, gente que a menina amava, e dá muita saudade. Porque falar da menina é falar do que ficou no fundo, do mais puro. E não falo dessa pureza boboca, estereotipada, não, essa ideia que fazem de menina como se ela fosse um anjinho imaculado… Não. A menina era gente, todas as meninas e meninos são. E gente é sempre assim, em qualquer idade, em qualquer tamanho – complexa, cheia de manha, um mar de pensamentos e emoções, contraditória e extremamente necessária. A pureza da menina é uma pureza não idealizada, mas densa… Bruta. A pureza da menina é quem eu sou, aquilo que eu tenho de essencial, aquilo que se condensarem, separarem, depurarem… É o que sobra. É isso aí! A menina é essência.

Eu lembro dos fatos marcantes da menina, os grandes momentos, as grandes passagens… As coisas que colocam marcos: antes e depois daquilo. Lembro, e como lembro, do dia em que o irmão da menina nasceu. Lembro da festa que fizeram no dia em que descobriram que, lá com três anos, ela tinha aprendido a ler. Lembro das festas de aniversário, que naquele tempo, eram feitas no quintal de casa. Lembro da primeira vez que a menina dormiu na vó, longe da mãe. Lembro do primeiro tapa que a menina levou de outra garotinha, do ódio e da dor que ela sentiu. Lembro também do primeiro dia na escola. Lembro da pediatra; do primeiro dente que caiu; do dia em que quebrou o braço tentando andar de bicicleta; no dia em que descobriu que o nome do pai era curioso – Pedro Álvares Cabral.

Mas a menina não era feita só de grandes eventos…

A menina tinha cheiros. Cheiro de bolo de limão da mãe; cheiro da pipoca na porta do circo; cheiro da pizza na saída da igreja; cheiro do perfume da vó; cheiro do gel de cabelo do tio; cheiro da folha de mangueira do cemitério onde vô trabalhava.

A menina também tinha gentes. A mãe… Ah, a mãe. Que colo era aquele! Que sorriso, que paixão, a maior paixão da vida… E tinha também pai. Mais distante, mas ele pegava a menina, colocava sentada nos ombros e saía com ela por aí na rua. Ah, nos ombros de pai ela era mais alta, mais onipotente, mais mais mais de tudo! Pai, herói esquisito e amado. E vó? A que fazia comida, a que dava banho, cuidava. E tinha vô. A figura que a menina,mesmo pequena, já admirava por toda a sabedoria, a mansidão, o sorriso largo. Tinha a professora, a Tia Rita. Linda! Alta, ruiva, boazinha, querida. Tinha tios e primos. E tinha todos os filhos dos amigos dos pais, e o pessoal da igreja, os moleques e molecas da rua. Naquele tempo, meninas não viviam sozinhas como vivem hoje.  Todo mundo vivia junto de todo mundo, era educado por todo mundo e aprendia a lidar com todo mundo.

Menina também tinha aquele movimento louco, parque, só andar correndo, ralar joelho toda hora, brincar, brincar, brincar, brincar. Correr, esconder, fazer teatro, desenhar, até graveto no chão vira brincadeira. Dia de menina dá pra fazer tudo, comer, brincar, ver TV, brincar, chamego da família, brincar, passear, brincar, tomar banho, brincar… E naquele tempo, eram as crianças mais velhas que ensinavam as crianças mais novas a brincar.

Menina tinha brinquedos. A bola vermelha. Os jogos. A bicicleta. Os carrinhos do irmão. E as bonecas. A Farofinha, a Pistache, o Fofão, a Joaquina… E lógico, a mais querida de todas, a boneca bebê, que está guardada até hoje.

Menina também sofria, muito. A dificuldade de entender o tempo, e por isso achar que tudo – seja a mais deliciosa paz e alegria, ou o mais doloroso inferno – vai durar pra sempre. Tem aquela incompreensão sobre quem eram os adultos. Tem aquela eterna angústia de sentir que nunca vai aprender todas as regras sociais, e saber onde é que é pra pisar, o que se pode ou não se pode falar, o que é feio e o que é bonito, o que é certo e o que é errado. Tem as loucuras dos adultos, que tanto marcaram a vida da menina. Tem aquelas maldades que só menina sabe fazer. Tem a sensação incrível e difícil de estar em novos ambientes, onde menina não sabia o que esperavam dela. Tem aquela coisa chata de sentir a espontaneidade cortada a cada dois minutos por um adulto que está ensinando a “ser gente”. Tem o fato de menina ser, sim, frequentemente desconsiderada, agredida, vista como idiota, sem direitos. Tem a dificuldade de lidar com os desejos que não podem ser satisfeitos imediatamente. E tem a dificuldade da espera… Ah, como menina tem que esperar tanta coisa. E como é ruim esperar!

Falar da menina é também falar das coisas simples que davam em sorriso. Desenhar. Assistir desenhos na TV. Colinho. Brincar. Maria Chiquinha. Vestido de florzinha. Bichos de jardim. Curiosidade. Sorrisos e lágrimas viscerais.

A menina dorme comigo todos os dias. Eu cresci… Mas ela ficou em algum lugar dentro de mim. É ela quem me segura, quem me sustenta, quem me acalma, quem me ajuda a ter esperança. É essa menina que conversa com os meninos e meninas com quem eu cruzo todos os dias.

Não morra nunca, menina. Não deixe de sorrir desse jeito. Você é assim, pra mim… Fruto e flor.

 

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – NAMORADO

June 12th, 2016

Entre tempo de preparação, ação e reação… São 40 anos tentando entender o que significa ter um namorado. Poucas coisas ocuparam tanto os meus pensamentos e palavras, e causaram tantas mudanças na minha vida quanto essa busca do encontro com alguém que, hoje eu sei… É paradoxalmente uma busca por mim mesma.

Hoje eu penso que o amor entre duas pessoas que se querem como companheiros é uma fruta deliciosa, de casca grossa, espinhosa e pontuda… E de polpa doce, carnuda e suculenta, que a gente nunca vai provar por inteiro, mas pode dar umas boas abocanhadas durante a vida. Quem se dedica a descascar essa fruta e consegue provar um pouco de seu sabor… Jamais esquece o gosto.

Tem gente que aprende na teoria, mas não consegue na prática. Tem gente que tem um professor ou professora só, e consegue aprender tudo com ele ou ela. Tem gente que passa a vida inteira com medo de tentar. E outros, poucos, que tiram de letra.  Pra mim, o caminho foi partilhado com muita alegria e muita dor, muita paixão e muito abandono, muita entrega e muita incompreensão, tudo “muito”. E é com gratidão que olho pra  trás e penso no que passou… Em quem passou e dividiu um pouco da vida, do corpo, dos pensamentos, dos sonhos, do coração comigo. Ah, eu sou grata a vocês, queridos namorados que um dia tive. Agradeço muito, e não importa se deu certo por um mês, seis meses, um ano, cinco anos, dez anos. Um encontro de amor é sempre mais certo que a segurança da solidão… É sempre mais certo do que não tentar.

Agradeço ao que me beijava escondido da inspetora de alunos e pegava na minha mão, me fazendo corar e tremer inteira, por ter me ensinado que amar é uma aventura secreta que faz vento dentro do estômago.

Agradeço ao mais velho que gostava tanto das minhas ideias de mocinha e vivia me dizendo que eu era inteligente, por ter me ensinado que amar envolve intensa e atenta admiração.

Agradeço ao companheiro que escrevia coisas comigo, me levava ao cinema, ao museu, ao teatro, e que ficava muito tempo ao meu lado estudando e batendo papo sem perceber a hora passar, por ter me ensinado que amar é afinidade, é troca, é congruência.

Agradeço ao moço que me beijava até eu ficar tonta e perder o ar, por ter me mostrado que o amar tem uma inegável e deliciosa expressão física, química, biológica.

Agradeço ao príncipe encantado romântico e problemático, que me escreveu lindas cartas de amor, se rasgava em elogios, e me fazia sentir a mulher mais incrível do mundo só em um olhar… Por ter me mostrado que amar faz a gente ser melhor quando o outro nos olha com tanta generosidade, e a gente se reconhece nesse espelho.

Agradeço ao bonzinho que fazia todas as minhas vontades e recebia de coração aberto todos os meus carinhos, me mostrando que amar é um doce e voluntário regime de servidão.

Agradeço ao malvado que nunca conseguiu assumir nosso romance e com isso me machucou tanto, por ter me ensinado que amar exige uma entrega de olhos fechados, mas com a qual precisamos tomar muito cuidado para não perder a mão de quem somos.

Agradeço ao moço da outra cidade que viajava horas e horas só pra ganhar um beijo, por ter me ensinado que o amar é subverter as regras, até mesmo do tempo e do espaço.

Agradeço ao companheiro imperfeito que o amor fez ser perfeito, que era meu parceiro em tudo e partilhava comigo canções, leituras, poemas, sonhos, reflexões, família, tudo com muita doçura, por ter me ensinado que amar precisa de uma dose diária e profunda de ternura.

Agradeço ao rapaz que teve toda paciência de me resgatar dador profunda e cuidou do meu coração com dedicação e esforço, por me mostrar que o amar carece de certa dose de investimento e semeadura, ainda que o solo pareça seco. É uma questão de esperança.

Agradeço ao namorado que virou marido, que me fez feliz como nunca, e involuntariamente me causou a maior dor que já senti, mas me ensinou que o amar de verdade liberta e nos faz ser quem realmente somos.

Agradeço ao moço que me acolheu no meio da maior melancolia da minha vida, me ouviu, me recuperou, me acompanhou, cuidou do meu dia a dia e me fez ter vontade  de continuar, me ensinando que o amar é a única coisa que pode reparar um buraco deixado pelo próprio amor.

Agradeço também ao adversário de valor que namorei por último, que deu uma boa sacudida na minha vida, por ter me mostrado que o amar é desafio de olhar ao diferente e a partir disso rever a mim mesma, “ferro afiando ferro”, no choque. Amar é encontro de duas pessoas inteiras, que voluntariamente assinam um acordo de interdependência… E não de dependência.

Agradeço também a todas as tentativas que não deram muito certo e/ou não duraram muito, mas o suficiente pra entender que o amar é isso aí mesmo, aproximações sucessivas, ir, chegar perto e voltar… O importante é ter coragem de tentar.

Mas agora quero agradecer, de antemão, ao que vai chegar pra me mostrar que o amar é algo que eu não vi ainda, mas vou ver… É algo que ainda vou aprender… É algo bom que ainda vou viver… É alegria e dor que ainda não experimentei… É semente que ainda não foi plantada… É síntese de tudo que vivi até aqui… É esperança de futuro, é continuar caminhando.

Love is a bird… She needs to fly“. O amor é uma águia… Não pode viver presa, caída, machucada no chão. Ela precisa voar. E voará de novo para horizontes diferentes, que eu nunca sonhei em ver. E se assim não for, eu estarei congelada. Fria, morta, em suspenso.

You´re frozen… When your heart is not open.

Feliz dia nos namorados e namoradas, queridos e queridas.

“You only see what your eyes want to see.
How can life be what you want it to be?
You’re frozen… When your heart’s not open.

You’re so consumed with how much you get…
You waste your time with hate and regret.
You’re broken, when your heart’s not open.

If I could melt your heart,
We’d never be apart.
Give yourself to me,
You hold the key.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same…
If I lose you, my heart will be broken.

Love is a bird, she needs to fly…
Let all the hurt inside of you die…
You’re frozen… When your heart’s not open.