Srta. Esperança

June 17th, 2009

Adolescente belíssima e suave, assim é Srta. Esperança. Fala baixo e docemente, tem sorriso discreto, quase imperceptível. Sua pele extremamente branca, quase transparente, seus olhos de verde puro e seus gestos delicados escondem uma personalidade convicta, idealista e decidida, mas que prefere antes a constância e o silêncio aos grandes escândalos inflamados.

Vive doentinha, a pobre Srta. Esperança. De saúde frágil, não pode achar um vento mais forte, um vírus desconhecido, um pedaço de bolo com glacê levemente azedo e pronto, lá está ela, acamada, intoxicada, constipada, gripada, deprimida, pneumônica, à beira da morte. Nunca sofreu de mal crônico, mas sim de crises agudas de dor e sofrimento. Quando doente, não gosta de ser tratada por médico algum; cura-se sozinha. E quando, no leito, todos pensam que ela não resistirá… Levanta-se ágil e continua seu caminho.

Ao contrário de tantas outras moças exuberantes, Srta. Esperança não chama atenção ao entrar em um lugar. Não usa tons fortes, nem maquiagem, nem decote. Não tenta seduzir e não tem novidades para contar a ninguém. Caminha devagar e sorrateira pelos cantos, não chamando quase nenhuma atenção para si. Mas é verdade que Srta. Esperança nunca falta a um compromisso - comparece sempre que é chamada a todos os bailes, nascimentos, batizados, aniversários, casamentos, formaturas, cerimônias e velórios para os quais é chamada. Presença certa e flutuante. Nem sempre é a primeira a chegar, mas sempre é a última a sair.

Srta. Esperança vive sozinha, mas tem um irmão mais velho bastante sombrio, o Sr. Medo. Ele é traiçoeiro, atormentado, emotivo, e em seus olhos negros, sempre traz uma ameaça para a pobre moça, atacando-a sem piedade. Embora seja muito mais forte, ele se cansa muito rápido. Srta. Esperança não odeia o irmão, e frequentemente o convida para longas conversas, observando-o com compaixão e paciência, contendo-o com amor. E assim ela consegue calá-lo em seus surtos mais complicados.

As pessoas, embora fiquem encantadas com Srta. Esperança, frequentemente se irritam com seu jeito fugidio quando lhe pedem um conselho, ou quando algo dá errado. Não entendem que seu respirar já é um presente, e sempre querem mais. Ferozes e pouco sábias, as pessoas expulsam, afastam e ofendem Srta. Esperança. Os de coração corrompido se incomodam com sua existência, e não raro tentam atentar contra sua vida. Querem asfixiá-la, entorpecê-la, ludibriá-la, tramam contra ela. Mandam executores profissionais, torturadores, homicidas; tentam as guerras mais declaradas às lutas mais ocultas, dos truques mais sutis aos atentados mais bombásticos. Mas Srta. Esperança é esperta e rápida, escapa e vive. Pode ser fraquinha, mas é guerreira. E, no fim, com ela ninguém pode.

Srta. Esperança nunca namorou. Seu ar angelical, sua beleza exótica e sua doçura acabam ganhando, sem que ela queira, o coração de jovens como ela. Impetuosos e insistentes, eles tentam ganhá-la para si. Mas ela nem nota, e quando nota, não quer. Apenas um, um único, balança seu coração. E é por ele que ela suspira todos os dias.

Sr. Tempo, idoso, experiente e tranquilo, de fato é muito charmoso, forte e protetor. Ele percebe os olhares apaixonados de Srta. Esperança quando passa, aqueles olhos verdes profundos suplicando um olhar correspondido. Mas sabe que tamanha paixão, embora o envaideça, jamais poderia concretizar-se, pois perderiam-se um no outro facilmente. Por isso, Sr. Tempo mantém Srta. Esperança assim, afastada; sabe que ela está presa a ele, mas ainda sozinha e concentrada.

Quando Srta. Esperança senta-se à beira do lago, solitária, chorosa, pensativa, e ameaça perder o fio de realidade, tão absorta em si mesma, querendo mergulhar e se perder para sempre na imensidão azul… É o Sr. Tempo quem vem sentar-se ao lado dela, e espera, simplesmente espera, até que ela fale. E ela fala… Sobre seu cansaço, sua revolta, seus temores, suas doenças, seus males. Depois que Srta. Esperança desabafa no colo do Sr. Tempo, ele a beija ternamente. E ela renasce ali mesmo, pronta para ir em frente.

Srta. Esperança, tão jovem, tão bela, tão atacada, tão suave… É frágil, sim. Mas não morre.

( Este texto é da Valéria, que precisa de longas conversas com Srta. Esperança agora… Força, amiga. :-) )

AMORIA

June 12th, 2009


( A moda Lygia Fagundes Telles )

( Para o amigo Emanuel, que recebeu este texto manuscrito em vermelho cor de sangue pelo correio assim que foi escrito, e que tem me feito ver a importância de continuar enxergando a vida com esperança, fé e doçura, sem deixar de falar de amor todos os dias. )

Era assim que eu queria o Amor, sempre presente, como as estrelas e o sol, sem pedir atenção especial, mas necessário, irresistível, brilhante, soberano, Amor inspirador e diário, passando despercebido e desapercebido aos olhos dos burros, o Amor lá, brilhando e me fazendo olhar para o alto, Amor encantando e fazendo sonhar com infinito e fazendo pensar no mistério da Vida, Amor todo horizonte.

Amor chegaria manso e decidido, seguro e sedutor, sem invadir mas entrando e entrando, sempre e sempre, sem dar escolha, sem desistir de mim, Amor me arrebatando e me grudando com ele, chegando e tirando tudo lugar, dizendo vamos dar um jeito nessa bagunça, colocando tudo de volta de um jeito melhor, comprometido e envolvido, e você olha e diz puxa, como ficou melhor depois que o Amor chegou.

Amor viria e diz que fica, que não vai de jeito nenhum, oras, Amor fazendo entregue sem possuir a alma feito demônio velho, vai ganhando lugar na casa e quando viu, pronto, Amor se instalou e no lugar dele ninguém pisa, deita ou senta à mesa, porque é lugar só do Amor.

E era desse jeito que o Amor andaria, leve e firme, do meu lado, me acompanhando, atrás de mim, me protegendo, na minha frente, me guiando, Amor não se cansa nunca de andar comigo, e ainda chuta as pedras para longe pra eu não me incomodar e nem machucar os pés.

Amor agiria com sabedoria e calma, e está lá o Amor sempre agindo, sem preguiça, motivado, se cortar ele lambe o sangue até não deixar nem marca, se desejar ele vai lá e toma, se dormir ele vela sono, se ficar perigoso ele monta guarda, se precisar ele dá bronca bem dada, e se machucar ele faz remédio, passa, sopra e dá beijinho pra sarar, que mão de Amor é mágica e generosa, gosta de agradar e não se cansa nunca, porque só mão de Amor é assim.

E é desse jeito todo que Amor me faria nova sem me fazer deixar de ser eu, Amor ensinando e me fazendo mais lúcida e mais rebelde, mais segura e mais atirada, mais sensual e mais misteriosa, mais exigente e mais compreensiva, mais desperta e mais sonhadora, que Amor é assim mesmo, paradoxal e infinito, e nem por isso confuso ou assustador, de tanto que é Amor.

Todos os dias eu veria o Amor, que ele faz questão de ser visto, e falaria com ele de tudo quanto é jeito e tudo quanto é assunto, que Amor é inteligente e presta atenção, fosse minha fala como fosse, mansa ou exaltada, Amor lá, falando comigo no silêncio, na voz, no olhar e na telepatia, me alimentando e me limitando, que ninguém pode crescer tanto que acaba estourando, mas se explodir tudo, Amor vai lá e cola os cacos com paciência, que Amor sempre foi tão habilidoso.

Amor pode ter cheiro de fruta ou gosto de bolo-de-vó-quentinho-em-tarde-de-chuva, mas Amor não precisa ser exibido, nem cheio de recursos, melhor mesmo ser assim, simples e secreto Amor, que os outros olham e falam o que ela viu nesse Amor, mas eu sei o que vi direitinho, Amor doce e salgado, apimentado e azedo, depende do dia e da hora do Amor.

Amor não traria preocupação inútil e se vier Dor, e olha que Dor sempre vem, Amor vem com a raquete e pá, acerta a Dor e manda ela pro outro lado, e já fica pronto pra bater nela de novo antes que Dor caia no chão e levante poeira, e se Amor errar a raquetada e Dor cair, que Dor sempre acaba caindo, Amor pega ela do chão e faz um ace de primeira.

Amor teria que vir na hora certa, pra eu não fechar a porta na cara dele tão mal educada, para eu não estar entretida com outro que parece Amor mas não é, para eu não estar destruída, nem cega-surda-muda, para eu não estar no chão caída sem vontade de amar, Amor vem e me encara, e quando eu olhar pra ele eu vejo dentro e penso, puxa, Amor, você demorou tanto, mas que bom que chegou.

E quando Amor fosse embora, depois de tudo e depois de tanto…

Não, Amor não iria embora nunca, Amor ir embora pra quê, não vai não, não vai decepar mais um pedaço do meu coração que ele já está tão pequeno, não vai morrer primeiro, não vai voar pra longe, mesmo sendo passarinho lindo, vai ficar pousado no meu galho inventando música nova todo dia, passarinho que mesmo livre não vai porque gosta de ficar, Amor fica, fica e fica.

Amor encheria minha vida de uma vez e para sempre. Só por ser Amor.

( Feliz dia dos namorados, aos enamorados descarados, aos que fingem que não se importam, aos solitários, e aos saudosos. )

QUEM NÃO DESEJA

May 31st, 2009

Eu, que tantas vezes já escrevi sobre o desejo, achei de reparar em quem não deseja.

Quem não deseja não está procurando nada, não está interessado em nada, não precisa estar perto de ninguém. Olha apenas para a frente, o mínimo necessário para dar alguns passos sem cair, sem pensar em direções, viagens, paisagens, caminhos, pessoas que estão no carro ao lado no trânsito parado. Quem não deseja simplesmente vive seu dia de um lado para outro, evitando ir além dos horizontes mínimos estabelecidos, evitando tomar parte dos acontecimentos.

Quem não deseja até sente fome, mas é capaz de andar corredores inteiros de um supermercado sem encontrar nada que apeteça. Pra matar a sede, água, vinho, refrigerante, ou suco são iguais. Sente sono, mas não pensa nada antes de dormir, nem sonha, nem lembra-se de nada importante ao acordar. Tomar banho, lavar louça, engraxar os sapatos, regar o jardim são apenas coisas para se fazer sem maiores pensamentos ou memórias.

Para quem não deseja, tanto faz vestir branco ou vermelho, tanto faz o listrado ou o estampado, o liso ou o rugoso, tanto faz estar sozinho ou acompanhado, tanto faz aparecer na foto ou não, tanto faz se é de dia ou de noite. Melhor é o morno, o insosso, o médio. Se alguém telefonar, atenda; se algo se quebrar, conserte; se não serve mais, jogue fora; se morreu, enterre; se foi embora, despeça-se. A vida de quem não deseja é resignada e imediata.

Quem não deseja não fica nervoso com o que não dá certo, não tem vontades incompreensíveis, não fala mais alto, não tem repentes, não espera um telefonema especial, não fica indignado com política, não torce por time nenhum. Quem não deseja não fica ansioso com grandes projetos e planos, não fica angustiado com falta de dinheiro, não sente borboletas voando dentro da barriga, não se arrepia com aquela voz, não vê os olhos brilharem por nenhum motivo em especial. Quem não deseja não quer causar polêmica, não quer chamar atenção, não quer nada além do trivial e programado.

Quem não deseja não tem música especial, não tem sabor de sorvete preferido, não vê por que sair em noite de calor, nem lembra que tem estrela e lua no céu. Quem não deseja não se embriaga, não faz oração pra nenhum deus, não se preocupa com o futuro - afinal, o futuro não vai ser muito diferente de hoje. Não chora, mas também não faz questão de sorrir. Não incomoda nem encanta ninguém. Não toma partido, não dá opinião, não defende nem ataca. Quem não deseja só quer passar desapercebido.

A vida sem desejo é medíocre, previsível, indiferente, absolutamente tranquila e insípida. Um arco-íris sem cor, um chiclete mascado, uma rosa sem perfume, um filme sem enredo.

A vida sem desejo é vivida em paz e quietude.

Pena que isso não seja vida.

O LAGO DA MEMÓRIA

April 12th, 2009

No tempo em que eu acompanhava novelas, me lembro de achar muito interessante os momentos em que os personagens ficavam sozinhos. Fatalmente, eram acometidos por cenas de capítulos anteriores. Lembravam-se de diálogos, de pessoas, de cenas importantes. Algumas produções traziam as memórias em preto-e-branco, em imagem desfocada, ou com eco. Mas, fossem como fossem, eram lembranças tão perfeitas quanto um videotape, recuperações exatas do que tinha acontecido. E apareciam somente quando eram chamadas, em momentos cuidadosamente selecionados, para relembrar ou impulsionar a trama. O personagem lembrador sempre fechava os olhos, como se, para olhar para dentro, precisasse esquecer o que havia ao seu redor.

Comigo é diferente do que acontece nas novelas. As lembranças aparecem nos momentos mais inesperados, e vêm de diversas maneiras. O tempo todo minha mente faz links entre presente e passado. Uma coisa puxa a outra, que puxa mais uma, e mais outra, e pronto - estou imersa até a cabeça no rio da memória, tentando me mover na imensidão da água, inevitavelmente tocada e levada pela correnteza. E sigo nadando, mergulhando, aflita, tentando encontrar um anel perdido no rio, no escuro. Um som, uma sensação, um cheiro, uma palavra, uma imagem… Um sentimento. A lembrança tem muitas caras, muitos jeitos. Mas quase nunca são perfeitas.

“Dicén que la distancia es el olvido“, é o que dizia o antigo bolero. E, embora eu saiba que o inconsciente é um buraco-negro onde tudo está caoticamente registrado, eu até concordo com essa idéia. A distância e o tempo vão apagando a memória, como uma fita de vídeo que vai envelhecendo; a imagem vai ficando imperfeita, depois borrada, depois cortada, até sumir de vez. E jogamos a fita fora. Ficamos só com a impressão, só com o sentimento, só com a vaga idéia de que um dia vimos aquela cena, embora a emoção que ela nos causou ainda permaneça. Como era mesmo o rosto do meu avô? Qual era mesmo a cor dos olhos do meu primeiro namorado? Como era o nome daquele poema, aquele, que tantas vezes recitei em silêncio? Como começava aquela música? O que foi mesmo que a minha professora me disse naquela ocasião? Como foi que tudo começou? Qual foi a última vez que aconteceu?

“Sinto que é como sonhar… Que o esforço pra lembrar é vontade de esquecer“, é o que dizia aquela outra canção. Os sonhos são assim. Tente lembrá-los, e eles desaparecerão em segundos, como memórias proibidas. Embora sonhos sejam desejos e imagens mnemônicas, por alguma razão, nossos mecanismos querem apagá-los, para que possamos seguir em frente. E com o tempo, todas as memórias vão virando sonhos. E dá um medo muito grande de esquecer aquilo que quero lembrar pra sempre. Fico tentando reviver na memória momentos felizes, frases, toques, acontecimentos agradáveis que me trazem alento, fico tentando passar o filme de novo e de novo, para que ele nunca deixe de ser como é. Tenho medo de perder o meu passado, de que a minha vida, e seus grandes momentos, e as pessoas que amei, fiquem como um quadro na parede, lá longe, desgastado, que, mesmo ohando, não consigo mais identificar a imagem com precisão. Por isso, quando a imagem me é muito cara, tento retocá-la, restaurá-la, lembrá-la sempre, para que não se perca. Nessa tentativa, não escapo de acrescentar um detalhe ou outro, de enfeitar, de deixar mais bonito aquilo que antes era uma simples lembrança; com o tempo, ela também já não é mais o que é. De um jeito ou de outro, as lembranças originais se perdem.

“Tudo que morre, fica vivo na lembrança… Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça…” - é o que dizia a outra música. Algumas lembranças eu gostaria muito de apagar. Momentos ruins, bobagens que fiz ou disse, coisas que machucaram, que fugiram ao controle. Mas essas, essas insistem em vir, e vir de novo, e vir outra vez. Quando estou só, essas memórias insistem em me perturbar. Ainda que imperfeitas, como fantasmas, elas ficam batendo no sótão da minha cabeça, fazendo barulho, arrastando correntes, querendo sair, querendo se materializar. E eu penso que melhor seria esquecer. O esquecimento pode ser uma libertação, um desligamento da agonia de saber. O personagem de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” achava que, se conseguisse apagar da memória seu grande amor perdido, não estaria mais preso a ela. Os laços que os uniram se desatariam magicamente se as lembranças se fossem. Se a pessoa não existe mais ali, alimentando o futuro, também não precisa existir mais dentro, relembrando de maneira torturante o passado. Mas tudo que ele consegue com sua débil tentativa de apagá-la é deixá-la ainda mais presente em sua vida.

E assim, contraditórias e intensas, são as lembranças; assim, poderosa e impiedosa, é a memória. Não resistem ao tempo, mas dele se alimentam, nele se formam, com ele se unem, contra ou a favor de nós.

Mnemósine, deusa da memória, é uma titã, filha de Urano e de Gaia - o Céu e a Terra, respectivamente. Mnemósine também é irmã de Cronos, o Tempo; teve com um de seus filhos - Zeus, o maior de todos os deuses - nove filhas, denominadas musas. As musas são excelentes cantoras, e fazem um coro perfeito e harmônico, do qual sua mãe, a Memória, é regente e parte integrante. As filhas da memória tinham a função de presidir as diversas formas do pensamento - a razão, a matemática, a astronomia, a eloquência, a história, a persuasão… A sabedoria. Assim, nos conta a mitologia grega que a Memória é filha do Céu e da Terra, irmã do Tempo, esposa da Divindade e mãe do Conhecimento. Mnemósine também sabia reger doce e eficientemente suas filhas, porque era, ela mesma, a poesia da vida - aquela que tudo sabe, sobre o que foi, o que é e o que virá.

E é assim que a vida se constrói. Sem a memória, seríamos eternos iniciantes, sem construir o conhecimento e a poesia que nos leva ao futuro. Boas ou ruins, as lembranças são nossa história, elas nos têm, e temos a elas. É por isso que não quero me esquecer de nada, nada que houve comigo. Creio firmemente que minhas lembranças são minha saúde, meu tesouro, aquilo que me mantém conectada, ao mesmo tempo, comigo mesma e com o meu redor. São as lembranças que me tornarão viva quando eu morrer… E que fazem vivos em mim aqueles que se foram, sejam pessoas ou momentos. Esquecer pode não ser fácil, mas é ruim. Lembrar também é difícil, mas é mais puro e amoroso, como dizia aquela outra canção:

“Do lado do cipreste branco,
À esquerda da entrada do Inferno,
Está a fonte do esquecimento.
Vou mais além, não bebo dessa água.

Chego ao lago da Memória,
Que tem água pura e fresca.
Digo aos guardiões da entrada:
Sou filho da Terra e do Céu…

Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim…

Olhe nos meus olhos:
Sou um homem-tocha

Me tira essa vergonha,
Me liberta dessa culpa,
Me arranca esse ódio,
Me livra desse medo.

Olhe nos meus olhos -
Sou um homem-tocha…

E esta é uma canção de amor.”

Sim, a água que quero é a água da memória. E mesmo que não quisesse, seria a única que poderia beber. Mesmo imperfeitas, mesmo novelísticas ou alteradas, quero minhas lembranças comigo. Porque sei que, na peneira da alma, só se lembra o que é importante… O que é fundamento. O resto, passa… São lembranças que o vento leva como grãos de areia, e nunca mais veremos.

“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas -
essas, ficarão.”

Carlos Drummond de Andrade

QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA?

April 5th, 2009

É verdade, eu já li muito jornal na vida. É verdade também que ultimamente eu tinha enjoado tanto de jornal que o máximo que eu fazia era dar uma olhada nos tablóides. Enjoei de jornal, de portais de notícia na internet, de telenoticiário, de ouvir rádio de manhã. A sensação que eu tenho é que nada disso me interessa, porque nada disso é mesmo uma notícia.

Talvez porque o mundo ande mesmo muito chato. Rapidinho, espertinho, cheio de nove-horas, cheio de pirotecnias… Mas chato, em essência. O ser humano cada vez mais mostra que não consegue ir muito além disso que tá aí, por conta de sua natureza estranhamente malvada e egoísta. Ou então, a chata sou eu. Mas toda vez que parava pra pensar em notícia, eu pensava que, embora os papéis sejam trocados todos os dias, as notícias sempre são as mesmas. Sempre. Acidentes aéreos, politicagem suja, guerras, crises e mais crises, pobreza, destruição do ambiente, coisas bizarras acontecendo, violência, gente famosa se exibindo, nasceu filho de alguém, morreu pai de outro alguém, os mesmos colunistas escrevendo as mesmas coisas com palavras diferentes. E me lembro tanto da canção do Caetano… Mas que diabo, quem lê tanta notícia?

As mudanças são tão sutis como ilusórias… Tão rápidas como efêmeras. Na música, na política, na economia, na arte, no esporte, nos classificados… Faz tempo que não se vê nada de novo. Nada de realmente novo. Falta rir de uma piada que nunca ninguém contou. Falta olhar uma pintura feita com uma cor que nunca ninguém tinha visto antes. Falta ganhar um time que nunca ninguém poderia supor que ganhasse. Falta descobrirem uma coisa que nunca ninguém viu. Falta acharem uma solução que nunca ninguém inventou. Falta alguém dar uma opinião que nunca ninguém ousaria pensar. Falta alguma coisa de efervescência, falta alguma coisa de revolução, falta algo que desconstrua velhos conceitos e coloque outras pedras no lugar pra construir de novo. Falta alguma coisa nesse monte de jornais para que eles deixem de ser reprises de tudo que já foram.

No fim, eu acho mesmo que o mundo todo deve estar como eu - precisando de uma boa notícia. Uma notícia surpreendente, algo diferente, que nunca aconteceu antes, algo que mude os rumos da História. Uma notícia que alguém teria orgulho em escrever. Uma notícia que valesse a pena ser lida. Uma notícia de verdade.

NOTÍCIAS DO SOFRIMENTO

March 15th, 2009

Sabe, pessoas, não é fácil passar por um grande sofrimento nessa vida. É um trabalho duro e cansativo para chegar à superação. Algumas pessoas ajudam, outras atrapalham. Mas o fato é que o caminho do SEU sofrimento só você pode trilhar. E é uma caminhada solitária. Como é solitária toda a nossa vida, por mais que a gente tente se iludir achando que as pessoas queridas a nossa volta unam a gente a alguém ou alguma coisa. Somos sós. Isso, em si, já é uma coisa muito, muito triste. Se dar conta dela na porrada é mais triste ainda.

Eu tentei fazer minha parte, juro pra vocês que tentei, fiz o meu melhor. Cumpri todos os compromissos, tentei não ficar doente, procurei ajuda dos amigos queridos, recebi todas as visitas e telefonemas, aguentei todos os comentários infelizes calada, procurei entender todas as cobranças com amor, tentei não romper laços, respondi todas as perguntas. Procurei terapia, li livros e textos muito interessantes, conversei com pessoas experientes, tentei me distrair e sair de casa mesmo sem vontade, voltei pro trabalho com garra - mesmo que ele às vezes me esgote completamente, tentei me defender, mudei de assunto, inventei novos projetos, me ocupei, tentei não encher as pessoas com minhas lamentações, conheci gente nova, conversei com Deus, fui à igreja, tentei voltar em lugares especiais pra mim e pra ele, ouvi todas as canções, arrumei os armários, racionalizei, olhei pelo lado positivo, guardei a aliança, revelei as fotos, acordei dias e dias no susto, chorei noites e noites, escrevi um livro inteiro das coisas que senti, segui conselhos, mudei o cabelo, fui viajar, comprei roupas novas, tentei me refazer aos poucos. E com tudo isso, sinto como se tivesse guardado bastante comida e utensílios em uma mala para que, agora, eu possa fazer uma viagem longa para uma ilha deserta. E chegou a hora de partir.

Não vou desistir, nem posso. Os dias vêm e vão, um depois do outro, rapidamente. O futuro me assusta, mas nada posso fazer quanto a ele. E mesmo que eu me negue a seguir, a vida vai seguir comigo, então eu não tenho escolha. E isso também é revoltante e difícil. É revoltante saber que, embora tenham tirado o meu chão, eu tenha que continuar caminhando. Mas de nada adianta minha revolta, o meu choro, a minha fala, o meu sorriso, de nada adianta nada disso.

O fato é que a vida seguiu como antes para todos. Os planos continuam intactos, e todos estão indo com eles, esperançosos e felizes, sem que possam fazer nada por mim. Crianças continuam crescendo, pessoas continuam casando e construindo casas, jovens continuam passando no vestibular e começando no trabalho novo, pessoas estão mudando de cidade e investindo na bolsa, todos estão acompanhados por seus parceiros e parceiras. Não tenho inveja disso, mas o fato é que a minha vida, não. A minha vida mudou profundamente, meus sonhos desmoronaram, os planos foram pelo ralo e eu não sei o que fazer daqui por diante, ainda não entendi o que aconteceu. Por isso, não dá pra pensar que eu vou seguir do mesmo jeito de antes. Não vou. E não importa o que eu faça, ou com quem eu converse, ou o quanto eu lute, só há uma coisa a fazer.

E o que tenho a fazer é esperar. O tempo, agora, vai ter que passar.

A travessia é longa. Mas quero crer que é possível.

Continuem torcendo por mim.

Namastê.

“Quando você foi embora,
Fez-se noite em meu viver.
Forte eu sou, mas não tem jeito:
Hoje eu tenho que chorar.

Minha casa não é minha,
E nem é meu este lugar.
Estou só.
E não resisto,
Muito tenho pra falar.

Solto a voz nas estradas,
Já não quero parar.
Meu caminho é de pedra,
Como posso sonhar?
Sonho feito de brisa,
Vento vem terminar.
Vou fechar o meu pranto,
Vou querer me matar.

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte,
Tenho muito que viver.
Vou querer amar de novo
E se não der não vou sofrer.
Já não sonho.
Hoje faço com meu braço o meu viver.”

QUALQUER AMOR

January 29th, 2009


“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.
Guimarães Rosa

E qualquer coisa que está por aí, feita com amor, pode ser motivo de sorriso, de aprender, de viver, como o amor do Guimarães - um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Só precisamos olhar pra elas. Algumas coisas que andei enxergando por aí ultimamente:

* “MACHADO DE ASSIS” NO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Se você ainda não foi, só tem até o dia 01 de março pra ir. Embora menos exuberante que as duas anteriores, a exposição temporária do incrível Museu da Língua Portuguesa vale pela curiosidade dos documentos raríssimos, pela criatividade no arranjo dos objetos… Mas principalmente por encontrar-se com a obra do Machado. Tente ler, na sala de estar montada no final da exposição, onde estão vários livros com a obra completa do autor, um capítulo de Dom Casmurro, ou então um dos famosos e deliciosos contos. Dá vontade de ler mais. Eu li.
Sem falar no filme e apresentação do terceiro andar, que eu não canso de ver. Sempre me emociona. É uma reação inversa do que eu sinto ao acompanhar os noticiários - dá orgulho de ser gente. Só lembrando - entrada gratuita para crianças, idosos e professores, e meia-entrada para estudantes. A entrada inteira custa R$ 4,00.

* ” O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON“, EM QUALQUER CINEMA

Se quer pensar, vá. Se quer refletir, vá. Se quer se divertir, vá. Se quer esquecer, vá. Se quer chorar, vá. Se quer sorrir, vá. Se quer suspirar, vá. E se quer ver como o Brad Pitt fica lindo em qualquer idade, vá.
Filme pra marcar a vida.

* CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE EM QUALQUER LIVRARIA

O poeta todo mundo sabe que é bom, é indiscutível. Mas quem ainda não encontrou o cronista e o criador de aforismos, não sabe o que está perdendo. Absolutamente lúcido e amável, ele derrama poesia no cotidiano. Leituras aparentemente leves, rápidas e cheias de sorrisos. Aparentemente.
Pra começar, indico ” De Notícias e Não-Notícias faz-se a Crônica“, e “O Avesso das Coisas“. Este último, forte candidato a ser livro permanente de cabeceira.

* AQUARELAS DE MARGARET MEE NA PINACOTECA DO ESTADO

As flores são lindas em sua essência, e sempre achei um pecado tentar resgatar sua beleza natural em desenhos e pinturas ( assim como acho um pecado colocar flores de plástico pela casa ). Mas Margaret Mee mudou meus conceitos… São lindas as aquarelas da inglesa sobre as flores brasileiras. Quem quiser conferir, vá rápido - até o dia 15 de março.

* PÔR DO SOL NOS PARQUES DA CIDADE

Um espetáculo gratuito e corriqueiro que mostra que a vida continua. Sempre. Apesar de tudo e de todos. Ótimo momento e local para se estar em solidão e anonimato.

UM NOTEBOOK EM FRENTE AO MAR…

January 18th, 2009


Este blog é mesmo uma parte importante de mim. Percebi isso porque senti grande saudade dele… Saudade neste momento em que me sinto mais introspectiva, com vontade de ter imensas e profundas conversas comigo mesma. Este definitivamente é um canal muito aberto pra esses “monodiálogos”.

* A DIFÍCIL ARTE DO DESCANSO


Férias… Aquele momento que, de tão esperado, é assustador quando chega, porque você sabe que vai acabar. E rápido.
Decidi não fazer muitos planos para as minhas férias ( aliás, decidi não fazer muitos planos pra muitas coisas ). Mas nem por isso consegui me livrar da sensação de que o tempo vai ser curto para tantas coisas que queria ( não ) fazer. Então pensei que o cansaço mental é uma coisa muito séria, e muito difícil de curar. Descansar o corpo é fácil, é só ficar um dia lagarteando no sol ou na sombra por horas. Mas descansar a mente… Ah, isso sim é dureza. Nessas horas, dou razão a quem diz que nossa educação é mesmo muito falha. Passamos anos da nossa vida aprendendo a trabalhar… E no fim, não sabemos descansar. Sad, very sad.

* PRAIA CHEIA


Tem lugar para um monte de crianças, para bandos e bandos de adolescentes, para casais apaixonados, para solitários, para velhinhos e velhinhas. Gente que vem brincar na areia, nadar, surfar, trabalhar, pescar, pegar carnguejo, andar na beira da praia, andar de bicicleta, jogar bola, tomar sol, paquerar, comer e tomar sorvete. Mulheres magras e belas que se escondem debaixo de camisetas, mocinhas que passeiam se exibindo e colhendo os elogios, gordinhas que não têm vergonha de usar biquini, maiôs comportados, fios dentais escandalosos, barrigudos de sunga e tanquinhos de bermuda ou macacão. Um ser vestido de homem-aranha vende sorvete, uma moça sozinha chora sentada nas pedras, mães correndo atrás de filhos, um homem não desgruda do celular um segundo, uma senhora lê jornal sentada em um buraco feito por seu neto na areia, uma moça ouve música e faz palavras cruzadas, enquanto um rapaz ao seu lado lê filosofia. Branquelos pimentão FPS 115, moreninhas FPS 50, morenaças FPS 2, moreníssimos FPS deixa-o-sol-me-queimar-à-vontade. Gente grande rindo que nem criança, criança construindo castelinho concentrada como gente grande. Gente surfando, farreando, pulando ondas, rezando, rindo, conversando, cantando, amassando atrás da pedra, dançando, catando conchas, tirando milhares de fotos. Farofeiros, surfistas, chiquérrimos, equipados, descolados, milhares de cores e desenhos em lycra. Gente de todo jeito, de todo tipo, de todo lugar, fazendo de tudo, em um dos poucos pedaços de terreno que ainda não tem dono. Praia é realmente o lugar mais democrático do mundo. Pra quem vive em São Paulo, onde toda a diversão é segmentada a partir do poder econômico… É uma delícia saber que existe um lugar onde todos podem vir como estão, ser quem quiserem, fazer o que podem e sair como querem.

* TARDINHA

E eu, à praia, vou mesmo pra descansar. Nada distrai mais os meus pensamentos do que olhar o mar… Nada elabora mais as minhas idéias do que olhar o mar. E a melhor hora pra fazer isso é mesmo de tardezinha.
De manhã, a praia lotada e barulhenta não deixa muitas opções. O sol escaldante e perigoso desanima. Mas de tardezinha, a coisa é diferente. O mar é mais quente e mais salgado, a praia é silenciosa e limpa, as pessoas estão mais calmas, o céu fica deslumbrante. O mar chega mais perto e fica mais forte… E o sol vai se pondo devagar, muito mais devagar do que quando nasce. Já não tem gente muito preocupada em comer e carregar bagagens; apenas pessoas que curtem sossego e contemplação. As crianças já cansaram, e o tempo fica mais ameno. A vida fica mais bonita em frente ao mar da tardezinha. Dá até pra deitar na beira da praia e sentir o calor, a água, o vento e a terra de maneiras mais intensas.
Depois que o sol vai embora, o mar, morno e revolto, começa a trazer as conchas. A areia fica lotada delas… Lindas e inteiras. A água batendo nas pedras deixa um recado provocativo… É preciso ser forte. O reflexo no chão é perfeito pra espelhar a lua e as estrelas, que se arranjam poeticamente no céu.
Minha mãe, na tentativa de nos fazer levantar bem cedo nas férias sem reclamar, costumava dizer que as conchas eram um presente para quem chegava primeiro à praia, bem cedo. Depois de grande, descobri que, na verdade, o mar dá de presente as conchas melhores e mais bonitas para quem sai por último - sem pressa… Disposto a admirá-lo e descobri-lo devagar… Devagar como um pôr-de-sol de verão.

* OLHO DE TURISTA

O hábito é uma benção. Graças a ele conseguimos acordar todos os dias na mesma hora, aguentar o trabalho, o frio, o calor. Graças ao hábito conseguimos conviver com as pessoas, e é também graças a ele que algumas coisas passam a ser banais, e deixam de ser motivos de grandes crises - como lavar um cesto enorme de roupa suja ou se conformar com um salário injusto. A capacidade do ser humano de se habituar é a grande facilitadora da vida como a conhecemos hoje.
Mas o hábito também pode ser uma maldição, principalmente se tira a nossa capacidade de encantamento, e também de indignação. O hábito nos impede de ver coisas bonitas que cruzam conosco todos os dias, nos impede de ver absurdos, nos deixa cegos e vicia nosso pensamento.
Um senhor morador da região me disse: “eu vivo aqui todos os dias do ano, mas só percebo como tudo é bonito quando os turistas chegam. Olho de turista vê coisa que a gente não vê… Vê beleza em tudo, porque é tudo novidade.”
Fiquei pensando se ainda consigo ver beleza no meu dia-a-dia, apesar do hábito. Se ainda consigo enxergar pessoas diferentes por onde passo, se ainda conseguiria achar uma paisagem bonita para uma foto nos meus caminhos diários, se ainda consigo sorrir pra gente desconhecida na rua, se consigo organizar minha rotina para sobrar tempo pro descanso no final da tarde. Será que conseguiria vencer o hábito e ter olhos de turista não só quando saio de São Paulo, mas em todos os outros dias? Será que ainda tenho disposição pra contemplação, pra curiosidade, pro novo? Pensar sobre isso tudo é um novo hábito que eu posso tentar cultivar daqui por diante.

TOP 20 - PARA OUVIR EM FRENTE AO MAR

As canções fazem mais sentido quando chegamos mais perto das coisas que as inspiraram. É um diálogo único, esse da música com o mar.

1. I can See Clearly Now - Jonny Nash
2. Encontro das Águas - Jorge Vercilo
3. Meditação - Nara Leão
4. Vento no Litoral - Legião Urbana
5. Ana e o Mar - O Teatro Mágico
6. Linha do Horizonte - Azimuth
7. Coisas do Brasil - Gulherme Arantes
8. Wave - João Gilberto
9. Serra do Luar - Leila Pinheiro
10. Todo Cambia - Mercedes Sosa
11. A Estrada - Cidade Negra
12. Vento Ventania - Biquini Cavadão
13. O Sol - Jota Quest
14. Idade do Céu - Moska
15. Azul da Cor do Mar - Tim Maia
16. Clarear - Roupa Nova
17. Siga o Sol - 14 BIS
18. Como uma Onda - Lulu Santos
19. Um Amor de Verão - Radio Taxi
20. Canção para um Grande Amor - Isabella Taviani

* PARA O MEU ANJO MAIS VELHO:

“Enquanto houver você do outro lado,
Aqui do outro eu consigo me orientar.

A cena repete,
A cena se inverte,
Enchendo a minhalma
Daquilo que outrora eu deixei de acreditar.

Tua palavra
Tua história
Tua verdade fazendo escola
Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim, agora é assim:
De um lado a poesia, o verbo, a saudade;
Do outro a luta, força e coragem pra chegar no fim.

E o fim…
É belo e incerto:
Depende de como você vê.
O novo, o credo.
A fé que você deposita em você e só.


Enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar.”

NOTINHA DE ESCLARECIMENTO

January 10th, 2009

A autora deste blog comunica que, na qualidade de escritora, enquanto não chegar janeiro de 2012, vai continuar publicando suas IDÉIAS assim, com acento. Não estou dizendo que não aceito as mudanças. Apenas que me nego a me preocupar com isso.
Gostaria também de me mostrar solidária ao pessoal que trabalha com a língua escrita, e que agora terá algumas dores de cabeça a mais. E recomendar a todos que, a despeito dos loucos que gostam de complicar o que já não era muito fácil, continuem escrevendo, lendo, se comunicando e expressando com as palavras que aprendemos, reformadas ou não; porque a língua é viva. E é nossa.
Sobre esse desnecessário, caro e inexplicável acordo ortográfico, é o que tenho a dizer por hoje.
O resto, O Teatro Mágico diz melhor:

“Quando alguém te disser tá errado ou errada,
Que não vai S na cebola,
Que não vai S em feliz,
Que o X pode ter som de Z,
Que o CH pode ter som de X,
Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz.”


PS:. Obrigada por todas as mensagens de carinho que me mandaram ultimamente. Ajudou. Muito.

O ÚLTIMO POST DO ANO

December 30th, 2008

Para o último post de 2008, eu pensei em falar sobre muitas coisas que andei tecendo comigo mesma a partir do intensivão emocional que fui obrigada a fazer no último mês. E havia muito a ser dito ( e muito foi escrito ). Sobre a morte. Sobre o que de verdade faz uma família. Sobre a força inabalável da amizade. Sobre as borrachas do tempo. Sobre como se pode ser hostil consigo mesmo. Sobre escolhas e encontros. Sobre a insensibilidade e imbecilidade das pessoas. Sobre os misteriosos caminhos de Deus. Sobre a estranheza da vida. Sobre a graça da solidariedade. Sobre fé. Sobre sabedoria. Sobre as verdades percebida no escuro nas noites de insônia. Sobre força interior. Sobre como é vital ter consciência tranquila sempre. Sobre dor compartilhada. Sobre o destino. Sobre os sonhos roubados. Sobre solidão. Sobre mudanças. Sobre o medo do esquecimento. Sobre raiva e inconformidade. Sobre como nunca podemos conhecer tudo sobre nós mesmos. Sobre como uma festa de natal pode ser dolorida. Sobre pequenas e silenciosas violências cotidianas. Sobre a singeleza das canções românticas. Sobre as lágrimas que saem e as lágrimas que ficam. Sobre esperanças. Sobre lembranças.

Mas minha opção para o último post de 2008 é falar sobre o amor.

A verdade é que eu, como grande parte das pessoas, passei a minha vida toda buscando, idealizando e tentando compreender o amor, sempre na intenção de mantê-lo o máximo possível perto de mim. E, claro, as imagens que temos do amor não apenas são múltiplas em manifestações e significados, como também vão mudando conforme o tempo passa. Eu já acreditei que o amor estava no seio cheio de leite da minha mãe, no sorriso da minha primeira professora, nas mãos das coleguinhas de escola. Também já achei que o amor estava na igreja, nos presentes dos meus tios, nos ombros dos meus pais, no colo dos meus avós, nas minhas brincadeiras com os meus irmãos. Já achei amor nas causas sociais que abracei um dia, nos exemplos que pude observar nas pessoas dignas, na literatura, na poesia, na música, na arte, nas novelas e filmes. Existe amor no meu trabalho, na beleza das coisas simples, na natureza, nos gestos de atenção cotidianos, na dedicação das pessoas umas as outras. E também há muito, muito amor na amizade.

Mas nenhum encontro vem para nos ensinar tanto sobre o amor como a relação entre duas pessoas adultas que resolvem ficar juntas e bancar um relacionamento. As outras relações são marcadas pela ocasião, pela leveza, pelos laços sanguíneos ou pelas obrigações. Mas a relação a dois é marcada principalmente pela escolha de ficar e continuar junto. Me atrapalhei um pouco nisso ao longo da vida. Mas hoje vejo que tudo foi um caminho trilhado… Um caminho cheio de lições sobre o amor.

Houve um tempo em que achei que o amor viria montado em um cavalo branco, cheio de promessas e entregas românticas. E ele veio. Quem caiu do cavalo foi eu ao perceber o tamanho da minha tolice. Primeira lição: o amor não está em declarações e intenções, que permanecem perfeitas quanto menos se submetem ao teste da realidade cotidiana. O romance passa. E a vontade de amar fica.

O amor a dois também já foi para mim um delírio sensual, uma paixão avassaladora e quente. Mas com o tempo ficou claro que não pode ser bom um amor que não me ajuda a crescer, a ficar consciente, que esgota até as últimas gotas de energia. Segunda lição: amor bom é aquele que te faz um pessoa boa sem te deixar pela metade. A paixão passa. E a vontade de amar fica.

Também já achei que o amor a dois estaria no cinismo de não assumir compromissos e evitar entregas, mantendo a salvo uma vida aparentemente bem resolvida e sem dores de cabeça, quando no fundo era apenas uma vida egoísta e sem graça. As bocas efêmeras de baladas diversas e encontros casuais são divertidas, mas deixam uma sede imensa de algo mais. E tome lição: o amor não vem sem envolvimento e compromisso. A diversão passa… E a vontade de amar fica.

Já me iludi pensando que o melhor para o amor seria tentar amar um amigo, que me compreende, não oferece resistências e me conhece intensamente. Um amigo com quem tudo desse certo, que adivinhasse meus anseios e me oferecesse um ombro tranquilo e constante. Bobagem… Mais lição: o amor precisa de desafios, mistérios e confrontações. Segurança passa… E volta a vontade de amar.

E, embora nunca tenha entendido muito bem o porquê, resolvi tomar a decisão, junto com uma outra pessoa muito especial por quem me encantei desde o início, de fazer o amor a dois dar certo. Sem magia, nem encantamento, nem facilidades, nem roteiros de filmes românticos - só com uma decisão e potencial humano. E não foi fácil… Passamos por muitos estranhamentos, muitas desilusões, muitos problemas. Em cada percalço, retomávamos o nosso ideal… E prosseguíamos juntos, cuidando do nosso amor como conseguíamos, investindo no prazer, na alegria do encontro, na afinidade, na coragem. Aos poucos fomos vencendo as nossas limitações, aos poucos fomos mudando um ao outro, aos poucos fomos acumulando experiências… E a cada pedaço retomávamos a decisão de amar. Esse relacionamento foi o meu segredo mais intenso, porque me ensinou demais sobre mim e sobre o próprio amor. Foi então que eu percebi que dá pra construir uma vida ao lado de alguém, com muita sinceridade, consciência e paixão. E tudo ia muito bem, obrigada.

Não sei que raio de lição a vida quis me ensinar ao me fazer perder o meu amor de um jeito tão doído. Não sei se um dia poderei ou precisarei entender.

Mas eu engulo a minha dor a seco porque sei que ela é passageira, mas o que aprendi, não. Engulo e agradeço a essa mesma vida por ter me aprensentado alguém que, mesmo sem saber, me ensinou duas importantes lições sobre o amor. A primeira, que o amor se faz no esforço diário para amar e consolidar parceria nas coisas fundamentais e simples. E a segunda, que o mais importante amor que posso sentir é por mim mesma. Pois, aconteça o que acontecer… Eu nunca poderei me abandonar.

E eu vou seguir… Porque ainda tem muito amor me esperando por aí. Não sei como, nem quanto, nem de que tipo. Só sei que tem… E sempre terá.

PS:. Quem me conhece sabe que eu sempre gostei de comemorar a chegada de um novo ano. Embora os incrédulos digam que a data nada mais é do que um dia depois do outro, em todas as culturas vemos que os rituais que marcam a passagem do tempo são importantes para selar mudanças e provocar reflexões. Eu sempre acredito que um novo ano pode trazer novas chances para fazer de um jeito diferente as coisas antigas, para deixar de fazer algumas coisas, para continuar fazendo outras… E principalmente, para o inesperado acontecer. Então, quero desejar a mim e a vocês muita sabedoria para saber o que fazer com o tempo que virá adiante. O resto… É resto. Feliz ano novo a todos e todas.