40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – INFÂNCIA

June 19th, 2016

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Amo essa foto. A menina, com a beca da pseudo formatura, toda danadinha, subvertendo a seriedade da situação com um sorriso sapeca. É isso que ela era, e é isso que eu queria ter continuado a ser. A menina dessa foto.

Muito difícil falar da menina. Porque eu tenho saudade dela. Porque meus olhos enchem de brilho. Porque ela vivia em tempo de tanto amor e tanta alegria e tanto exagero de sentimento. Porque ela se foi… E eu queria que ela voltasse. Porque é falar de gente que não está mais aqui, gente que a menina amava, e dá muita saudade. Porque falar da menina é falar do que ficou no fundo, do mais puro. E não falo dessa pureza boboca, estereotipada, não, essa ideia que fazem de menina como se ela fosse um anjinho imaculado… Não. A menina era gente, todas as meninas e meninos são. E gente é sempre assim, em qualquer idade, em qualquer tamanho – complexa, cheia de manha, um mar de pensamentos e emoções, contraditória e extremamente necessária. A pureza da menina é uma pureza não idealizada, mas densa… Bruta. A pureza da menina é quem eu sou, aquilo que eu tenho de essencial, aquilo que se condensarem, separarem, depurarem… É o que sobra. É isso aí! A menina é essência.

Eu lembro dos fatos marcantes da menina, os grandes momentos, as grandes passagens… As coisas que colocam marcos: antes e depois daquilo. Lembro, e como lembro, do dia em que o irmão da menina nasceu. Lembro da festa que fizeram no dia em que descobriram que, lá com três anos, ela tinha aprendido a ler. Lembro das festas de aniversário, que naquele tempo, eram feitas no quintal de casa. Lembro da primeira vez que a menina dormiu na vó, longe da mãe. Lembro do primeiro tapa que a menina levou de outra garotinha, do ódio e da dor que ela sentiu. Lembro também do primeiro dia na escola. Lembro da pediatra; do primeiro dente que caiu; do dia em que quebrou o braço tentando andar de bicicleta; no dia em que descobriu que o nome do pai era curioso – Pedro Álvares Cabral.

Mas a menina não era feita só de grandes eventos…

A menina tinha cheiros. Cheiro de bolo de limão da mãe; cheiro da pipoca na porta do circo; cheiro da pizza na saída da igreja; cheiro do perfume da vó; cheiro do gel de cabelo do tio; cheiro da folha de mangueira do cemitério onde vô trabalhava.

A menina também tinha gentes. A mãe… Ah, a mãe. Que colo era aquele! Que sorriso, que paixão, a maior paixão da vida… E tinha também pai. Mais distante, mas ele pegava a menina, colocava sentada nos ombros e saía com ela por aí na rua. Ah, nos ombros de pai ela era mais alta, mais onipotente, mais mais mais de tudo! Pai, herói esquisito e amado. E vó? A que fazia comida, a que dava banho, cuidava. E tinha vô. A figura que a menina,mesmo pequena, já admirava por toda a sabedoria, a mansidão, o sorriso largo. Tinha a professora, a Tia Rita. Linda! Alta, ruiva, boazinha, querida. Tinha tios e primos. E tinha todos os filhos dos amigos dos pais, e o pessoal da igreja, os moleques e molecas da rua. Naquele tempo, meninas não viviam sozinhas como vivem hoje.  Todo mundo vivia junto de todo mundo, era educado por todo mundo e aprendia a lidar com todo mundo.

Menina também tinha aquele movimento louco, parque, só andar correndo, ralar joelho toda hora, brincar, brincar, brincar, brincar. Correr, esconder, fazer teatro, desenhar, até graveto no chão vira brincadeira. Dia de menina dá pra fazer tudo, comer, brincar, ver TV, brincar, chamego da família, brincar, passear, brincar, tomar banho, brincar… E naquele tempo, eram as crianças mais velhas que ensinavam as crianças mais novas a brincar.

Menina tinha brinquedos. A bola vermelha. Os jogos. A bicicleta. Os carrinhos do irmão. E as bonecas. A Farofinha, a Pistache, o Fofão, a Joaquina… E lógico, a mais querida de todas, a boneca bebê, que está guardada até hoje.

Menina também sofria, muito. A dificuldade de entender o tempo, e por isso achar que tudo – seja a mais deliciosa paz e alegria, ou o mais doloroso inferno – vai durar pra sempre. Tem aquela incompreensão sobre quem eram os adultos. Tem aquela eterna angústia de sentir que nunca vai aprender todas as regras sociais, e saber onde é que é pra pisar, o que se pode ou não se pode falar, o que é feio e o que é bonito, o que é certo e o que é errado. Tem as loucuras dos adultos, que tanto marcaram a vida da menina. Tem aquelas maldades que só menina sabe fazer. Tem a sensação incrível e difícil de estar em novos ambientes, onde menina não sabia o que esperavam dela. Tem aquela coisa chata de sentir a espontaneidade cortada a cada dois minutos por um adulto que está ensinando a “ser gente”. Tem o fato de menina ser, sim, frequentemente desconsiderada, agredida, vista como idiota, sem direitos. Tem a dificuldade de lidar com os desejos que não podem ser satisfeitos imediatamente. E tem a dificuldade da espera… Ah, como menina tem que esperar tanta coisa. E como é ruim esperar!

Falar da menina é também falar das coisas simples que davam em sorriso. Desenhar. Assistir desenhos na TV. Colinho. Brincar. Maria Chiquinha. Vestido de florzinha. Bichos de jardim. Curiosidade. Sorrisos e lágrimas viscerais.

A menina dorme comigo todos os dias. Eu cresci… Mas ela ficou em algum lugar dentro de mim. É ela quem me segura, quem me sustenta, quem me acalma, quem me ajuda a ter esperança. É essa menina que conversa com os meninos e meninas com quem eu cruzo todos os dias.

Não morra nunca, menina. Não deixe de sorrir desse jeito. Você é assim, pra mim… Fruto e flor.

 

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – NAMORADO

June 12th, 2016

Entre tempo de preparação, ação e reação… São 40 anos tentando entender o que significa ter um namorado. Poucas coisas ocuparam tanto os meus pensamentos e palavras, e causaram tantas mudanças na minha vida quanto essa busca do encontro com alguém que, hoje eu sei… É paradoxalmente uma busca por mim mesma.

Hoje eu penso que o amor entre duas pessoas que se querem como companheiros é uma fruta deliciosa, de casca grossa, espinhosa e pontuda… E de polpa doce, carnuda e suculenta, que a gente nunca vai provar por inteiro, mas pode dar umas boas abocanhadas durante a vida. Quem se dedica a descascar essa fruta e consegue provar um pouco de seu sabor… Jamais esquece o gosto.

Tem gente que aprende na teoria, mas não consegue na prática. Tem gente que tem um professor ou professora só, e consegue aprender tudo com ele ou ela. Tem gente que passa a vida inteira com medo de tentar. E outros, poucos, que tiram de letra.  Pra mim, o caminho foi partilhado com muita alegria e muita dor, muita paixão e muito abandono, muita entrega e muita incompreensão, tudo “muito”. E é com gratidão que olho pra  trás e penso no que passou… Em quem passou e dividiu um pouco da vida, do corpo, dos pensamentos, dos sonhos, do coração comigo. Ah, eu sou grata a vocês, queridos namorados que um dia tive. Agradeço muito, e não importa se deu certo por um mês, seis meses, um ano, cinco anos, dez anos. Um encontro de amor é sempre mais certo que a segurança da solidão… É sempre mais certo do que não tentar.

Agradeço ao que me beijava escondido da inspetora de alunos e pegava na minha mão, me fazendo corar e tremer inteira, por ter me ensinado que amar é uma aventura secreta que faz vento dentro do estômago.

Agradeço ao mais velho que gostava tanto das minhas ideias de mocinha e vivia me dizendo que eu era inteligente, por ter me ensinado que amar envolve intensa e atenta admiração.

Agradeço ao companheiro que escrevia coisas comigo, me levava ao cinema, ao museu, ao teatro, e que ficava muito tempo ao meu lado estudando e batendo papo sem perceber a hora passar, por ter me ensinado que amar é afinidade, é troca, é congruência.

Agradeço ao moço que me beijava até eu ficar tonta e perder o ar, por ter me mostrado que o amar tem uma inegável e deliciosa expressão física, química, biológica.

Agradeço ao príncipe encantado romântico e problemático, que me escreveu lindas cartas de amor, se rasgava em elogios, e me fazia sentir a mulher mais incrível do mundo só em um olhar… Por ter me mostrado que amar faz a gente ser melhor quando o outro nos olha com tanta generosidade, e a gente se reconhece nesse espelho.

Agradeço ao bonzinho que fazia todas as minhas vontades e recebia de coração aberto todos os meus carinhos, me mostrando que amar é um doce e voluntário regime de servidão.

Agradeço ao malvado que nunca conseguiu assumir nosso romance e com isso me machucou tanto, por ter me ensinado que amar exige uma entrega de olhos fechados, mas com a qual precisamos tomar muito cuidado para não perder a mão de quem somos.

Agradeço ao moço da outra cidade que viajava horas e horas só pra ganhar um beijo, por ter me ensinado que o amar é subverter as regras, até mesmo do tempo e do espaço.

Agradeço ao companheiro imperfeito que o amor fez ser perfeito, que era meu parceiro em tudo e partilhava comigo canções, leituras, poemas, sonhos, reflexões, família, tudo com muita doçura, por ter me ensinado que amar precisa de uma dose diária e profunda de ternura.

Agradeço ao rapaz que teve toda paciência de me resgatar dador profunda e cuidou do meu coração com dedicação e esforço, por me mostrar que o amar carece de certa dose de investimento e semeadura, ainda que o solo pareça seco. É uma questão de esperança.

Agradeço ao namorado que virou marido, que me fez feliz como nunca, e involuntariamente me causou a maior dor que já senti, mas me ensinou que o amar de verdade liberta e nos faz ser quem realmente somos.

Agradeço ao moço que me acolheu no meio da maior melancolia da minha vida, me ouviu, me recuperou, me acompanhou, cuidou do meu dia a dia e me fez ter vontade  de continuar, me ensinando que o amar é a única coisa que pode reparar um buraco deixado pelo próprio amor.

Agradeço também ao adversário de valor que namorei por último, que deu uma boa sacudida na minha vida, por ter me mostrado que o amar é desafio de olhar ao diferente e a partir disso rever a mim mesma, “ferro afiando ferro”, no choque. Amar é encontro de duas pessoas inteiras, que voluntariamente assinam um acordo de interdependência… E não de dependência.

Agradeço também a todas as tentativas que não deram muito certo e/ou não duraram muito, mas o suficiente pra entender que o amar é isso aí mesmo, aproximações sucessivas, ir, chegar perto e voltar… O importante é ter coragem de tentar.

Mas agora quero agradecer, de antemão, ao que vai chegar pra me mostrar que o amar é algo que eu não vi ainda, mas vou ver… É algo que ainda vou aprender… É algo bom que ainda vou viver… É alegria e dor que ainda não experimentei… É semente que ainda não foi plantada… É síntese de tudo que vivi até aqui… É esperança de futuro, é continuar caminhando.

Love is a bird… She needs to fly“. O amor é uma águia… Não pode viver presa, caída, machucada no chão. Ela precisa voar. E voará de novo para horizontes diferentes, que eu nunca sonhei em ver. E se assim não for, eu estarei congelada. Fria, morta, em suspenso.

You´re frozen… When your heart is not open.

Feliz dia nos namorados e namoradas, queridos e queridas.

“You only see what your eyes want to see.
How can life be what you want it to be?
You’re frozen… When your heart’s not open.

You’re so consumed with how much you get…
You waste your time with hate and regret.
You’re broken, when your heart’s not open.

If I could melt your heart,
We’d never be apart.
Give yourself to me,
You hold the key.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same…
If I lose you, my heart will be broken.

Love is a bird, she needs to fly…
Let all the hurt inside of you die…
You’re frozen… When your heart’s not open.

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – SONHO

June 5th, 2016

 

Conversava com minha terapeuta, falando sobre esse lance de fazer 40 anos, e por que está sendo tão importante pra mim pensar sobre o tempo que passou, todas as coisas marcantes que aconteceram, e a pessoa que eu sou hoje.

Na hora dei muitas voltas sem saber responder sobre essa vontade de marcar a passagem do tempo de fora com uma passagem também do tempo de dentro… Mas saí de lá pensando que, talvez, mais do que revisar o passado pra poder enterrá-lo, ou, pelo menos, guardá-lo… O que eu queria mesmo era voltar a pensar no futuro, nas coisas que ainda virão.

Não sei se me restam mais 40 anos pela frente ( com esse meu estilo de vida meio “suicidal tendencies”, é meio difícil que isso aconteça rs ), ou mais 20, 10, 2 anos. Mas o fato é que isso ninguém sabe, e nem deve mesmo saber. Quando o dia 4 de julho chegar, serão 40 anos para trás… E um resto de vida inteira pela frente.

E, o  que fazer desse resto?

Uma das coisas que me deixam mais triste é perceber uma sequela grave de tudo que me aconteceu: eu tenho medo de sonhar. Não tenho muitos planos, objetivos, vontades ou sonhos pra minha vida. Não me parece boa ideia esperar nada além de acordar viva amanhã, e passar o dia numa boa, sem problemas, até que chegue a hora de dormir. Pra mim é difícil planejar qualquer coisa, seja uma viagem de férias, uma festa de aniversário, um dia especial, uma mudança de ares, um novo relacionamento, um filho ou uma nova etapa profissional. O que foge do itinerário mais próximo me parece distante demais pra ser pensado… Sonhado. A sensação é de medo e tristeza profunda; é como se eu não tivesse mais esse direito.

Previsível, e lógico. Os sonhos mais lindos que tive foram, de alguma maneira, levados violentamente e repentinamente pela vida. Não é difícil adivinhar por que tenho tanto medo de sonhar novos horizontes, e mais ainda de me arriscar a dar qualquer passo em direção a eles. Fico tentando viver a vida aos solavancos, esperando pelo melhor, mas com uma sensação horrível que o pior vai acontecer a qualquer momento.

Mas quero de volta meu direito de sonhar. E agora, com um diferencial: aos quarenta, a gente sabe que não controla porcaria nenhuma nesta vida, e que, de repente… Tudo pode acontecer. Ou quase tudo. Ou nada. Assim é a vida.

Comecei a pensar em tanta coisa que eu queria, ou poderia fazer ainda.

Eu poderia morar em uma outra cidade, uma bem pequena, e refazer cada passo da minha vida bem devagar, sentindo o gosto de construir tudo de novo.

Eu poderia fazer mestrado e virar professora universitária.

Eu poderia voltar a ser psicóloga.

Eu poderia ter uma ideia que ninguém teve antes, e fazer uma coisa surpreendente.

Eu poderia casar de novo e ter uns três ou quatro filhos.

Aliás, eu poderia adotar uns três ou quatro filhos sem casar.

Eu poderia virar mochileira e viajar o mundo.

Eu poderia mudar de casa, de bairro.

Eu poderia virar cozinheira, costureira ou jardineira.

Eu poderia emagrecer 30 quilos, fazer cirurgia plástica, mudar o cabelo e ter uma aparência totalmente diferente da que tenho hoje.

Eu poderia escrever um livro.

Eu poderia fazer um curso e mudar de profissão, ser uma coisa que nem tinha pensado que podia ser.

Eu poderia comprar um trailer.

Eu poderia compor uma canção, e aprender a tocar flauta. Poderia, inclusive, ter uma banda.

Eu poderia viver uma nova e linda história de amor.

Eu poderia simplesmente não fazer nada e continuar vivendo como eu tenho feito até aqui… Um dia de cada vez, sem sonhar muita coisa.

São quase que infinitas as possibilidades das coisas que eu poderia fazer, pessoas que eu poderia conhecer, lugares que eu poderia ir… Sonhos que eu poderia ter.

De qualquer maneira, é hora de olhar para a frente e começar a preencher esse enorme vazio com desejos. Sem medo. Sem dor. Sem culpa. Sem prisões. Apenas desejos… Que é o que nos move.

Seja como for… Sei que vai ser diferente. Bem vindos, sonhos. Vocês serão meus… E eu serei de vocês. Que seja lindo e duradouro o nosso reencontro.

Desculpas é que eu não vou pedir pelo que quero e o que não quero fazer.
Outro dia eu apareço, e enquanto isso, vamos nos entender…
Esqueça o que te disseram sobre casa, filhos, televisão.
É preciso sangue frio pra ver que o sangue é quente, e que vai ser diferente!

Pode ser o que você nunca viu; pode ser o que você tem na mão;
Pode ser exatamente o que eu digo, e também pode não…
Então esqueça seus sonhos, esqueça as regras, e a exceção…
É mais real, cru, e fascinante…
É mortal, passível de ressurreição.

Ah há… Ah há… Ah há… Vai ser diferente!

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – CICATRIZES

June 2nd, 2016

Eu sou do clã das cicatrizes. Tenho muitas pra exibir. Sinais de pele, sinais de alma. Não doem mais, mas nunca saem. Pra você não esquecer que doeu.

Tenho as marcas do combate com a vida. Claro, tenho muitas coisas a agradecer. Claro, tem gente que sofreu e sofre muito mais do que eu. Mas são os meus quarenta anos… E estou aqui pra falar das cruzes que precisam ser colocadas na beira do meu caminho… Não no dos outros.

Eu sou assim, sempre fui. Forte e pragmática. Não me orgulho de ser. Não queria ter que ser. Eu queria ser mais feliz, eu queria que tivesse sido normal, eu queria aprender a mostrar fraqueza, queria aprender a pedir as coisas, queria dizer, “cuida de mim”. Eu queria ser incapaz de certas coisas. Eu queria que a minha vida passasse mais leve, como vejo a de tanta gente passar. Mas nisso fui uma negação na vida. Eu sofri pra caramba e estou aqui de pé pra contar a história, e exigir que me respeitem por isso, caramba.

Nada me derrubou até aqui. E ao dizer isso, não estou desafiando a vida. Estou apenas dizendo que, se me foi dada uma carga maior de problemas, também me foi dada uma certa gana de não deixar que eles me derrubem.

Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que correm com os lobos”, fala de uma experiência interessante, a confecção de um “capote expiatório”; um casaco onde você possa pintar, pendurar ou escrever as dores que foi tendo na vida, os segredos que lhe obrigaram a guardar, as lágrimas que não pôde chorar. Fiquei pensando nas dores que penduraria no meu capote, e que tecido forte eu teria que providenciar para suportar o peso delas.

Eu penduraria o meu pai alcoólatra e violento, que implicava comigo e nunca, ou quase nunca, me fez um elogio. Penduraria todas as surras, gritos e humilhações que ele me fez, ainda sem entender por que cargas d’água ele não gostava de mim.

Penduraria todas as brigas e discussões dos meus pais, os gritos deles de madrugada, os jogos deles pra se magoarem usando a mim e meu irmão, que foram destroçando a nossa capacidade de amar.

Penduraria toda a crueldade dos moleques da escola, o sarro que tiraram de mim, todas as ofensas que me fizeram, tudo que falaram pra destruir a minha auto estima, apenas por eu existir.

Penduraria o abuso sexual que sofri, muito menina ainda, por um velho nojento que não foi punido, e as outras duas vezes em que isso aconteceu de novo comigo, ainda na infância.

Pintaria todas as castrações da minha criatividade, das minhas manias de fazer  tudo diferente, das minhas esquisitices, das coisas que me obrigaram a fazer sem eu querer.

Escreveria o nome dos amigos e amigas chegadas que me traíram e me abandonaram miseravelmente. E também o nome dos que só se aproximaram para tirar de mim algum benefício e se aproveitar da minha boa fé, me exploraram, me usaram e jogaram fora.

Escreveria também o nome dos homens que mentiram descaradamente pra mim, traíram e me manipularam como quiseram jurando que me amavam, nos quais eu acreditei.

Eu penduraria todas as vezes que suportei sorrindo toda gente invejosa que cruzou o meu caminho profissional e fez de tudo pra me prejudicar; as vezes que fingi que não ver os comentários maldosos, as intrigas, os olhares atravessados, as injustiças de todo tipo que ouvi da boca de gente que devia ser grata por tudo que eu fiz por elas sem elas nem saberem.

Penduraria o enterro de dois companheiros – um faltando pouco pra casar, e outro dois meses depois de casar. Eu fui lá, vi fecharem os caixões deles, e voltei pra casa sentindo o maior vazio do mundo, querendo morrer. Eu suportei esses dois lutos enormes sem conseguir partilhar isso direito com ninguém. Seriam, sem dúvida, as duas maiores cruzes.

Mas também penduraria lá a morte da minha vó, do meu avô, do meu pai, de amigos e amigas queridas que se foram cedo.

Pintaria, no meu capote, a indignação com toda a injustiça, violência, burrice e estupidez desse mundo; meu ódio da hipocrisia, e minha impotência por nada poder fazer para impedir o mal de seguir adiante.

Penduraria meus três meses de insônia e todas aquelas noites torturantes pra mim. Os momentos de síndrome do pânico, as paranoias, as tristezas profundíssimas. Todas as vezes que pedi  pra morrer. Todos aqueles comprimidos que eu tive que tomar pra ajudar o meu cérebro a reagir a tanta melancolia.

Penduraria todo preconceito e discriminação pela cor da minha pele, por ser mulher, por morar na periferia, por ser gorda, por ser professora, por ganhar pouco, e tantas outras coisas que fazem parte de mim, mas são motivo de rejeição das pessoas.

Eu engoli muito, mas muito, mas muito sapo mesmo. Penduraria eles todos. E também os muitos panos quentes que coloquei em briga dos outros pra salvar muitas relações, e quando todo mundo ia dormir tranquilo, eu ficava acordada sentindo o estresse acumulado.

Eu penduraria as dores que sinto todos os dias, as mais variadas, por trabalhar a mais do que a minha capacidade física suporta.

Pintaria a solidão milenar que eu sinto aqui, sozinha, nesse apartamento que as pessoas nem imaginam o custo afetivo que teve pra mim.

Colocaria também todas as vezes que fui caluniada sem motivo algum; todas as coisas estranhas que aconteceram na minha vida por causa da energia ruim das pessoas, e tudo que pude fazer foi dobrar meu joelho e pedir pra ser protegida.

Fui assaltada à mão armada, fui agredida, quase fui estuprada por um palhaço que saiu comigo quando era adolescente, escapei de várias. E isso me aterrorizou por me fazer sentir a minha fragilidade. Eu poderia colar tudo isso em meu capote também.

E tem muita coisa que eu nem tenho coragem de lembrar ou escrever aqui.

Mas, como bem disse o Carpinejar, “cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca.”. E vamos em frente.

Clarissa conta que, na hora de jogar o capote fora, as mulheres com quem ela trabalhava não queriam desfazer-se deles. É que, se dói pensar que há tanta coisa pra ser colocada em um casaco de nossas dores, é pra dar uma força e uma alegria imensa pensar que eu sou a mulher que vestiu aquele casaco, e ainda estou aqui, viva, e de pé; ainda consigo amar; ainda consigo sonhar; ainda consigo esperar pelo melhor; ainda consigo confiar nas pessoas; ainda consigo criar; ainda consigo gostar de mim; ainda consigo viver, e não apenas sobreviver.

Respeito muito minhas lágrimas. Mas ainda mais minha risada.

Olho pra Deus, os que me amam me empurram, e eu vou em frente, pensando ainda em ter um sonho todo azul… Azul da cor do mar.

Vamos tomar os analgésicos, desabafar com um amigo, cantar com o Tim e dormir, que amanhã tem mais.

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – TRABALHO

May 30th, 2016

 

( Hoje a lição da faculdade de Pedagogia virou post. 🙂 )

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis ( Fernando Pessoa ), 14-2-1933

Puxa… Que interessante ter uma disciplina pra falar sobre o exercício da profissão. Mais interessante ainda é falar sobre isso 22 anos depois de ter entrado em uma sala de aula pela primeira vez como professora. O caminho foi longo, difícil e cheio de idas e vindas. Mas se tem uma coisa que aprendi nesse tempo, é que, como diz o poeta Antonio Machado, “o caminho se faz ao caminhar”.

Fiquei pensando muito em que caminho foi esse, está sendo esse. Quando a colega apontou no fórum que “professor nasce professor”, eu fiquei pensando se ela estava certa. Por muito tempo aceitei essa ideia, do dom, da vocação, da missão. Mas ao longo dos anos percebi que, caso existam essas coisas, elas não são quase nada perto do compromisso ético com a profissão, a vontade de aprender, a consciência de saber-se incompleta, e a disposição para relacionar-se com as pessoas, todas elas.

Fiquei pensando por que resolvi tornar-me professora. Muitas lembranças me vieram à cabeça, e a principal delas é que não escolhi… Isso aconteceu.

Quando eu era criança, eu queria ser bailarina, médica, astronauta; não professora. Fui fazer o curso de magistério por fazer, talvez uma rebeldia juvenil contra minha mãe. Eu achava que seria bom, já que eu, mesmo adolescente, gostava de crianças. Motivos que hoje vejo como ridículos.

Um grande professor que tive, uma vez, me disse que tanto faz o motivo pelo qual você começa algo. O importante é saber o motivo pelo qual se continua. Na verdade, ser professora era algo marcado em minha trajetória de vida. Eu tinha um avô erudito, autodidata; uma mãe que valorizava o estudo, um pai que me trazia caixas de revistas para ler. Cresci aprendendo que é bom aprender, embora odiasse a escola ( lá é um lugar que aprendi muito pouco, por ter professoras como a “tia” do Lucas, do texto, que ignora a vida para privilegiar a “Didática” ).

Mas foi na minha formação inicial, no magistério, que entendi o que estava acontecendo ali. E entendi que eu queria, sim, ser professora… Mas pra mudar o mundo. Pra consertar tudo que estava errado. Nos meus sonhos adolescentes que surgiram de uma inconformidade com a vida como ela nos é dada, era isso que eu queria… E achava que ia conseguir educando as pessoas. Eu lia Paulo Freire, Rubem Alves e chorava de emoção. Esse compromisso com a utopia  de uma sociedade inclusiva, justa, coletiva e solidária começou a me tomar por inteiro. E nessa sociedade sonhada, o poder que vem do conhecimento precisava ser dividido para todos e todas, especialmente para os quais tudo isso havia sido historicamente negado até ali.

Desde cedo aprendi que a profissão de professora me traria percalços sociais. Pouco dinheiro, jornada extensiva, péssimas condições de trabalho, apanhar do governador na rua, ser humilhada na família, ser tratada como um trouxa pela sociedade, ser diminuída pela minha escolha. Militar sempre por causas e pessoas que estão condenadas ao desprezo da sociedade, quando deveriam ser das mais importantes. Ainda mais escolhendo, como eu escolhi, a escola pública e as crianças pequenas. Diga aí se uma professora não tem que ser forte para segurar tudo isso.

Mas meu trabalho não é apenas o lugar de onde tiro meu sustento, pago minhas contas e me adapto ao “sistema”. É muito mais que isso! É realização, é sonho, é luta, é poesia, é contato… É alegria. É de onde tiro meu sustento, e também a minha força pessoal.

E isso não faço sozinha. Faço com minhas parceiras. Faço com os livros, com o estudo, que nunca cessa. Faço com os encontros, palestras, cursos. Faço com o interesse pela cultura, ela, que alimenta a educação. Mas, principalmente… Faço com as crianças. Elas é que me ensinam como ser professora todos os dias. Elas que me surpreendem, me chamam atenção, me encantam, me provocam, me tocam, se relacionam comigo, me fazem seguir em pé, e adiante. Sem elas, nenhuma teoria faria sentido, nenhum salário seria suficiente, nenhum sonho continuaria vivo.

A sala de aula ( e hoje, nem entendo mais sala de aula como uma sala física, concreta, mas sim um lugar mental, construído coletivamente ) é mágica. Acontece alguma coisa lá dentro que me faz ser uma pessoa melhor a cada dia, e essa coisa é o conhecimento, que só se dá a partir da experiência, das relações.. Sem dar-se ali, nada acontece. Nem para mim, nem para as crianças.

Amanhã vou pra escola cedinho. Vai ter festa de aniversário. Vai ter leitura. Vai ter pintura. Vai ter gente rindo e chorando. Vai ter fala genial das crianças. Vai ter algo diferente acontecendo lá, que vai me chamar a atenção pra alguma coisa da vida. Vai ter desenho. Vai ter brincadeira… Vai ter vida acontecendo.

E eu estarei lá de novo pra participar de tudo isso, e me tornar uma professora diferente da que está indo dormir agora.

Cada um tem um jeito de semear algo de bom neste planeta pela sua força, sua inteligência, sua persistência… Seu afeto. O meu jeito é ser professora.

Como eu poderia não querer tudo isso? 🙂
“Se os frutos produzidos pela terra ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as pêras da tua ilusão…
Amarra o teu arado a uma estrela,
E os tempos darão safras e safras de sonhos… Quilos e quilos de amor!
Noutros planetas risonhos, outras espécies de dor…
Se os campos cultivados neste mundo são duros demais
E os solos assolados pela guerra não produzem a paz!
Amarra o teu arado a uma estrela, e aí tu serás
O lavrador louco dos astros, o camponês solto nos céus…
E quanto mais longe da terra, tanto mais longe de Deus!”

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – FRACASSO

May 28th, 2016

Acho que foi num poema do Cazuza que eu li uma vez, “o fracasso parece nome de perfume daqueles ocres vagabundos”. Palavra difícil de dizer, trava na língua. Fracasso é palavra de perdedor, palavra forte, cheia de energia negativa.

40 anos dá tempo pra fracassar muitas vezes. É chato dizer, mas é verdade. Penso em muitos dos meus fracassos, e foram muitos. Os sonhos que tentei realizar e não consegui. As frases que não soube dizer na hora certa. As pessoas que magoei sem querer, e querendo também. As omissões. As mentiras. As fofocas. As vezes que não colaborei por preguiça. As vezes em que deliberadamente não fui uma boa pessoa, uma boa companheira, uma boa profissional. As coisas que não consegui aprender, e nem tive interesse. As pessoas que deixei na mão, os compromissos furados, as conversas difíceis das quais fugi, os desprezos, as intransigências. As desistências por medo. As notas baixas. As desaprovações. As coisas ridículas. As incompetências. As palavras duras ditas sem razão. Os afastamentos. Os egoísmos. Os erros, de diversas ordens. As muitas e muitas vezes em que nadei, nadei, nadei… E morri “de sede em frente ao mar“. Penso nos filhos que não tive, nos amores perdidos, nos cursos largados pela metade, nas piadas sem graça, na toalha de crochê que não terminei, nas coisas esquisitas que eu conclui sem talento nenhum, na alça do sutiã aparecendo, nas tentativas que deram em nada, nas viagens que não fiz, os lugares que não fui, o tempo perdido, nas fotos que saíram tortas, na maquiagem borrada, nas orações que não terminei, nas listas de afazeres que não dei conta, nas cartas que não foram lidas, nos segundos e últimos lugares, nas vezes em que fui a última a ser escolhida pra jogar, no look esquisito, no bolo abatumado, nas plantas que morreram na minha mão, nas dívidas que não tive grana pra pagar, nas blusas e objetos que perdi e não trouxe de volta pra casa, nas negociações que não fui capaz de fazer, nas rateadas no trânsito, nos bichos que não consegui criar, nas besteiras todas. Haja fracasso, camarada.

Os motivos são muitos. Azar. Incompetência. Teimosia. Covardia.

“Erros fazem parte do processo”, diriam. “Você também teve muitas conquistas”, diriam. “Não se olha para o que se perdeu, mas sim para o que se ganhou”, diriam. “Pelo menos você tentou”. Bla bla bla. Consolo pra fracassada é pior que o fracasso em si. A verdade é que tem coisas que você simplesmente não vai conseguir fazer. Porque a ninguém – ninguém – foi dado o direito de fazer tudo, ter tudo. E embora haja muita coisa boa pra contar, “as brigas que perdi… Essas sim- eu nunca esqueci.”

Marido tinha a mania de me chamar de perfeita. Dizia o tempo todo, “você é perfeita, até seus erros são perfeitos”. Me lembro do peso opressivo que essa fala elogiosa e carinhosa tinha sobre mim. O mundo é um caos, as pessoas são estranhas e ser perfeita em um mundo assim seria um castigo, uma responsabilidade sem fim, um tormento. A verdade é que somos todos fracassados e fracassadas, é o que diz a canção do Cazuza. Mas ninguém gosta de ser. E aí a gente fica com essa sensação, de que “todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo“. Essa sensação de estar farta de semideuses. Falta de olhar pra alguém que diga… Sim, somos fracassados. Mas… e daí?

E daí?

Sim, eu trabalho, trabalho, trabalho loucamente… E não tenho dinheiro. Sim, eu sou desligada de padrões esperados, inclusive de aparência. Sim, eu não tive sorte com essa história de casar e ter filhos. Sim, eu não ascendi profissionalmente. Sim, meu carro é popular, nunca fui viajar pra Europa, entrei em várias brigas inúteis e perdidas, moro na periferia. Sim, eu sou perdedora, looser, em muitas coisas.

Mas… Eu não quero mais vencer em tudo, especialmente no que não me fala ao coração. Não quero mais agradar todo mundo – tem gente que não gosta de mim, tem inveja, me deseja o mal, fala mal… Fazer o quê. Eu não quero mais ter tudo. Eu não tenho que consertar tudo – coisas que, muitas vezes, nem fui eu que quebrei, estraguei. Aliás, acho que nem preciso ter tudo que eu tenho, mas sou grata. Sim, eu preciso de ajuda pra fazer um monte de coisas simples, e posso ajudar tanta gente a fazer outras coisas também. Sim, eu sou humana.

Eu não gosto de fracasso. Apenas não penso mais nele, porque aprendi a viver um dia de cada vez, na simplicidade dos pequenos gestos. Eu quero dar chance pra vida me surpreender, seja num casulo de borboleta, seja num jantar de luxo, seja numa noite aconchegante no sofá, seja numa viagem pra Grécia. Eu quero aproveitar o que for possível, sabendo, sabendo mesmo… Que nunca vou ter tudo. E não tem problema nenhum. Assim, posso continuar tentando, sonhando, caminhando… Fracassando.

Me julguem como quiserem. Eu só quero isso aí: amor, sossego e gente boa perto de mim.

O resto… Querer o que não se pode ter (ou ter tudo que se quer, e ser sozinho ou sozinha nisso): isso sim, é o maior fracasso de todos.

“Olha lá! Quem vem do lado oposto e vem sem gosto de viver…
Olha lá! Que os bravos são escravos sãos e salvos de sofrer…
Olha lá! Quem acha que perder é ser menor na vida…
Olha lá! Quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar…
Eu que já não quero mais ser um vencedor,
Levo a vida devagar pra não faltar amor…
Olha você! E diz que não… Vive a esconder o coração…
Não faz isso, amigo…
Já se sabe que você só procura abrigo mas não deixa ninguém ver…
Por que será?
E eu que já não sou assim, muito de ganhar
Junto as mãos ao meu redor:
Faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz!”

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – PERSONAS

May 27th, 2016

Me quiseram vestir com a máscara de menina graciosa e delicada. Mas eu era moleca, ralava o joelho no asfalto, rasgava a meia calça e deixava cair a presilha do cabelo nos primeiros cinco minutos, falava alto e não levava o menor jeito pra ser bailarina ou tocar piano.

Me quiseram vestir com a máscara de filha boazinha e comportada. Mas eu era contestadora, criativa, danada e não engolia ordens sem entendê-las.

Me quiseram vestir com a máscara da adolescente gorducha, excluída e problemática. Mas eu soube inventar um jeito de usar a cabeça pra escapar das armadilhas e viver a juventude cheia de amigas e amigos, fazendo coisas importantes, e sendo sincera no meu desejo de mudar o mundo.

Quiseram que eu usasse tantas vezes máscaras como namorada cordata, perfeita e que escolhia o melhor homem de todos. Mas eu escolhi quem eu quis, e fui para eles a melhor que pude ser, com todos os meus defeitos que, eu tenho certeza, me tornaram inesquecível para eles, como eles se tornaram inesquecíveis para mim.

Quiseram que eu vestisse máscaras de boa cristã. De mulher independente. De amiga fiel. De boa profissional. De estudante nota 10. De negra, gorda, mulher e pobre excluída. De negra, gorda, mulher e pobre empoderada. De princesinha. De patinho feio. De revolucionária. De feliz. De sofrida. De boa prima, neta, amiga, esposa, colega, líder.

Algumas máscaras bem me couberam. Outras, achei que valia a pena tentar vestir. E outras  não consegui, porque já era eu, eu mesma, gritando dentro delas pra parecer simplesmente quem sou. Em cada máscara que me deram, eu quis pintar um pouco de mim.

E quem eu sou, não sou, estou sendo. E uma das coisas mais lindas e libertadoras que podem acontecer com alguém é ter prazer em ser quem se é, simples assim. E por isso ser amada. E por isso se colocar novos desafios. E por isso, só por isso, saber que nunca se vai agradar a todos. Mas pode-se agradar a alguns, algumas. E esses, essas, serão sinceros em estar por perto. Será verdadeiro. Porque amam a você… E não à máscara.

Perto dos 40, já não gosto tanto das máscaras, já não sei identificá-las, ou mesmo vesti-las. A filha, a profissional, a apaixonada, a desiludida, a deprimida, a doce, a otimista – todas elas convivem em mim e fazem parte de mim, e não há problema algum nisso. Eu sou assim. Eu sou uma, eu sou inteira; eu sou muitas, eu sou pedaços.

Uma das tarefas mais importantes e significativas que há pra se fazer na vida é descobrir quem você é, em meio ao que gostariam que você fosse.

Eu olho pro que já descobri… E penso que vale a pena cavocar um pouco mais.

Não posso jogar fora todas as máscaras. Mas quero pintá-las, cada vez mais, do meu jeito.

“Eis o melhor e o pior de mim; o meu termômetro, o meu quilate.
Vem, cara, me reparte: não é impossível, eu não sou difícil de ler!
Faça sua parte,eu sou daqui, eu não sou de Marte.
Vem, cara, me repara: não vê, tá na cara, sou porta-bandeira de mim…
Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.
Em alguns instantes, sou pequenina, e também gigante.
Vem, cara, se depara: o mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder!
Olha minha cara: é só mistério, não tem segredo.
Vem cá, não tenha medo: a água é potável, daqui você pode beber…
Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.”

40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – TEMPO

May 26th, 2016

“Batidas na porta da frente… É o Tempo.”

O Tempo, eu já sonhei com ele algumas vezes. Ele, o senhor velhinho de barbas brancas, primo de Deus de tão poderoso, onisciente, onipresente. Também já o vi como o ser de duas cabeças. Cruel, impiedoso, justo, impessoal, o que tira o viço da vida, o que rouba a alegria. Abençoador, condescendente, amoroso, misericordioso, o que leva embora a tristeza e a dor e traz a sabedoria. “Ele sabe passar… E eu não sei.”

Kronos, o exato, o perfeito, o objetivo, o métrico, o linear, o metódico. Ano após ano, ele passou. Eu não o percebia quando era uma menina, tive raiva dele quando era jovem, e agora… Pertinho dos 40… Acho que é hora de fazermos amizade.

Kairós, o subjetivo, o surpreendente, o impossível de medir, o inexplicável, o intenso, o indiferente. É a parte do Tempo que é só minha e que diz que a diferença entre os 12, os 20, os 40, os 60 não é outra coisa senão eu mesma e o meu relógio interno.

O Tempo veio para conversar comigo e me avisar que 40 anos se passaram desde o dia que cheguei a este mundo, nascendo de parto fórceps – talvez, como bem me disse uma das minhas importantes companheiras de jornada, eu já pressentia que não seria uma jornada muito fácil. Foi uma briga pra nascer. Uma briga pra ser uma criança feliz.  Uma briga pra ser uma adolescente normal. Uma briga pra não deixar de ser uma pessoa adulta com o mínimo de sanidade. Não ganhei todas as brigas, claro. Mas foi uma jornada e tanto, como são todas as jornadas, de todas as pessoas – com muita história pra contar, muita coisa pra refletir. Mas não quero falar de outra pessoa; pertinho dos 40, com essa sensação de fim de ciclo, e começo de outro… Acho que já entendi que só posso falar de mim. E olhe lá.

40 anos se passaram. Sei lá mais quantos virão. Sr Kronos pode me dizer, e Sr Kairós me ajudar a passar por eles da melhor forma. A única certeza que tenho é que jamais me deixarão, como não deixam ninguém.

Me deu vontade de voltar a escrever.

Me deu vontade de pensar em 40 temas para os 40 anos. Sem regras, que odeio regras. Posso levar 40 dias para escrevê-los, posso levar 40 semanas. Kronos está passando, e vai fazer chegar o 4 de julho de 2016, mas Kairós me dá essa liberdade.

Me deu vontade de entender o que significa essa mecha de cabelos brancos que eu insisto em arrancar com a pinça, e que agora, não vou arrancar mais, nem pintar. Deixe-a ser, deixe-a vir.

Me deu vontade de refazer o texto “quem sou eu” aí da aba da direita, que foi feito quando eu tinha 20 e alguma coisa, e que agora, quase não me traduz mais.

Me deu vontade de colocar as cruzes que faltaram na beira da minha estrada, olhar pra elas, chorá-las de novo. Me deu vontade de ser livre pra sentir saudade, e ter pena de mim e de todas as maldades que fizeram comigo, e que eu mesma fiz comigo mesma.

Me deu vontade de olhar pra frente, sonhar com o novo horizonte, esse mesmo, que até ontem estava escuro e nebuloso, e agora, começo a ver alguns raios de sol brotando lá longe. Quem sabe… Quem sabe vai dar pra querer voltar a sonhar de novo. Ainda “dá tempo”.

Me deu vontade de revoltar com tudo que o Sr Tempo me tirou. Me deu vontade de agradecer por tudo que o Sr Tempo me tirou.

Me deu vontade de abrir a porta e ter essa conversa.

E me deu coragem pra sentar em frente ao Tempo e pensar, afinal de contas, quem sou eu e o que eu estou fazendo aqui.

Não fui a primeira, não serei a última. Mas é a minha vez.

Pode entrar, Sr Tempo. Vamos ver no que vai dar essa conversa.

“Batidas na porta da frente: é o Tempo.
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento…
Mas fico sem jeito, calado… Ele ri.
Ele zomba do quanto chorei…
Porque sabe passar… Eu não sei.

(…)

Respondo que ele aprisiona… Eu liberto.
Que ele adormece as paixões… Eu desperto.
E o Tempo se rói com inveja de mim,
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor, pra tentar reviver.
No fundo, é uma eterna criança que não soube amadurecer…
Eu posso, ele não vai poder me esquecer.”

BRINCAR DE VIVER

December 31st, 2015

Eu era pequenininha, meu irmão Rodrigo menor ainda; e sei disso porque lembro dele cantando com a fala meio enrolada e fofinha, exatamente como o filho dele, Dudu, faz hoje. A Maria Bethânia parecia um anjo na televisão, toda de branco, iluminada, com aquela voz forte e doce que lhe é tão característica cantando “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz ‘não’ “. Minha mãe achava linda essa canção; ela olhava nos olhos da gente, sorria e cantava pra nós. Eu também achava linda a música, embora não a entendesse da maneira que entendo hoje. Mal sabia, naquele tempo, como eu teria que ouvi-la na minha cabeça ao longo da vida.

2016, vou fazer 40 anos. Aos 20, eu tinha muitos sonhos. Ter uma família, marido e filhinhos. Fazer algo incrível na minha profissão. Mudar o mundo, torná-lo um lugar justo e habitável. Viver experiências incríveis. Ter um grande amor. Viajar pra um lugar em que ninguém pisou. Escrever um livro. Ter uma casa com jardim. Me divertir rodeada de bons amigos. Ser bem sucedida em muitas pequenas coisas interessantes. Ler todos os livros que eu quisesse. Pintar as paredes de rosa. Ser alguém interessante.

Alguns sonhos se frustraram, outros se realizaram e superaram minhas expectativas, e outros foram remediados. Creio que com todo mundo é assim. É mesmo assim. Desejo, expectativa, vida, alegria ou tristeza. Movimento. Ninguém escapa. Por que eu escaparia?

Mas é triste, de repente, se ver sem sonhos. Sem gostar de viver. Sem querer estar perto das pessoas. Se prejudicando, se sabotando, se esmagando, se colocando em situações perigosas pra ver tudo degringolar mais ainda e provar que tem razão. Provar que não vale a pena.

Não foram poucas as vezes em que eu me peguei, ultimamente, dizendo NÃO pra vida. Em muitos, profundos e difíceis sentidos. Que vontade de desistir.

Talvez eu até tivesse o direito de desistir. Quem me condenaria? Talvez a força das minhas tragédias me absolvesse por parar de aprender essa arte de sorrir pros “nãos” da vida, e me daria permissão pra continuar fazendo o que andei fazendo nos últimos tempos… Vivendo apenas um dia por vez, sem muitas expectativas, me esforçando pra não sonhar, pra não esperar, pra não desejar, e assim… Não me machucar de novo. E de novo. E de novo. Estive fazendo como fazem aquelas pessoas que não querem ser notadas em festa, me escondendo pelos cantos, pra vida não perceber o meu potencial de felicidade e acabar com tudo de novo.

Eu tentei desistir.

Mas algo, alguém tem me chamado. Algo, alguém (alguéns) com a mesma força do olhar e da voz da minha mãe, olhando nos meus olhos e dizendo, volta pro ninho, redescobre o seu lugar, retorna, enfrenta o dia a dia… Reaprende a sonhar. A vida é mesmo assim. A história não tem fim. Continua sempre que você responde SIM.

Sim, eu quero voltar a sonhar, como sonhava aos vinte anos, outros sonhos, sabendo que pode dar tudo errado, mas esperando que dê tudo certo.

Sim, eu quero continuar amando muita gente, mesmo que essa coisa de amar seja algo tão difícil de se fazer e às vezes acabe comigo.

Sim, eu quero continuar aprendendo, e entendendo cada vez mais que o que eu sei é muito pouquinho perto do que há pra se saber.

Sim, eu quero cuidar das pessoas. É assim que eu sou, eu cuido. E quero também que elas cuidem de mim. Eu quero aprender a deixar elas cuidarem de mim.

Sim, eu aceito resignada o que não posso mudar em mim e na vida, porque algumas coisas simplesmente são como são. Limitações são necessárias. Em mim e na vida.

Sim, eu vou lutar com unhas, dentes e coração pra mudar aquilo que eu puder, porque ter preguiça de me mexer e largar tudo pra lá é um desperdício da vida que me foi dada um dia.

Sim, eu vou continuar partilhando experiências, inclusive com quem não merece, porque muitas vezes aceito as partilhas generosas de quem me cerca sem que eu mereça.

Sim, eu quero fazer coisas, eu quero que aconteçam coisas comigo, eu quero reagir, eu quero brilhar com a doçura e a força da Maria Bethânia, eu quero ter algo de bom pra contar no meio das coisas ruins.

Sim… Eu vou continuar.

A emoção começa agora. Agora é brincar de viver.

Vem, 2016. Eu digo SIM pra você.

SER AMADO PLENAMENTE PODE ACABAR COM A SUA VIDA

June 12th, 2015

 

Meus caros, minhas caras, prestem bem atenção, conselho de gente vivida: ser amado pode acabar com a sua vida.

É o que todo mundo diz que quer. Alguém por quem seja amado incondicionalmente, alguém apaixonado, que de tão apaixonado seja subserviente, excessivo, que encha todos os espaços em volta, que viva pra você, que admire, venere, faça feliz e só por isso se sinta feliz também.

Ok, é mesmo uma delícia. E se você encontrar essa pessoa, não haveria nada melhor a fazer a não ser se jogar nos braços dela e curtir a vida adoidado.

Mas cuidado. É possível que você tenha o que deseja, e que alguém te ame assim. E é possível que, por alguma razão, esse alguém suma de sua vida. Pode ser que a pessoa canse. Pode ser que a convivência seja medíocre demais para a grandeza do sentimento. Pode ser que a vida dê suas voltas incompreensíveis e estrague o prazer de vocês. Pode ser morte, cinismo, doença, dificuldade financeira, viagem, traição. Pode ser que você – veja bem, você! – que tanto quer ser amado ou amada assim, simplesmente não consiga aceitar esse amor, não consiga se permitir ser amado ou amada ( sim, é triste, mas tem gente que não sabe ser amado ) e faça besteiras suficientes pra acabar com tudo. Seja como for, pode ter um fim.

Depois do fim, você vai entender a grandeza do que teve. Coisas de ser humano. Só perceber o real valor das coisas com o afastamento – temporário ou definitivo – do que o sustenta. Paciência com nossa natureza limitada, é assim.

Você vai demorar, mas vai se recuperar. Claro que vai. Se tem uma coisa que o tempo pode fazer por você, é curar suas feridas. E você, que uma vez foi amado, vai se tocar que não consegue viver mais sem amor. É que amor vicia. Miseravelmente. Você vai querer mais.

Mas um grande desafio espera por você. Quem teve tudo, dificilmente aceita pouco, aceita menos. Pode até fingir que aceita, mas, no fundo, fica uma profunda sensação de estranhamento, de algo fora de lugar, de dívida constante. A pessoa pode até te amar com tudo que pode, mas o que ela pode, pode ser pouco pra você, que já teve tanto.

Quem já recebeu declarações de amor fartas e constantes, dificilmente se conformará com um “te amo” seco e automático na despedida.

Quem já passou horas ao telefone sem ver o assunto acabar, vai achar pouco falar 5 minutinhos entre um compromisso e outro pra checar se está tudo bem.

Quem já foi olhado profundamente nos olhos, e viu o outro se perder ali, não vai ver nada em olhos que olham de relance, com desconfiança, fugidios.

Quem já teve certeza do amor de alguém, vai morrer de ciúme de quem sabe não ter se entregado.

Quem já foi aceito e admirado em tudo que é, sentindo-se forte e quase perfeito pelo olhar do outro, vai enfraquecer ao ser constantemente julgado com frieza por quem não é generoso na aceitação e vê seus defeitos com precisão cirúrgica.

Quem já teve entrega total de alguém, não aceita meio pacote.

Quem já ouviu belos poemas e canções de amor dedicadas só pra si, não vai achar bonito melodias pobres e frases feitas.

Quem já teve fidelidade e lealdade, não vai se conformar com escapadelas de pensamento, ainda que sejam coerentes e normais.

Quem já dormiu conversando e acordou na mesma conversa de tanta afinidade de ideias, não vai ver a divergência como algo saudável, apenas aborrecido.

Quem já sonhou a dois e aprendeu a abrir mão de bons planos pra voar junto, não vai se acostumar com pé no freio e pouca doação, vai querer voar de novo.

Quem já se fundiu no corpo de alguém de tanta intimidade, não vai ter tanto tesão em fazer sexo por fazer, por mais que seja tecnicamente gostoso.

Quem já sofreu com a angústia da separação consentida para ir à padaria ou ao trabalho só para esperar pelo reencontro, não vai entender quem não sente falta desesperadamente.

Quem já foi prioridade na vida de alguém, não vai aceitar ser uma opção para o tempo livre ou para o final de semana.

Quem já viveu o encaixe da combinação perfeita, não aceita apenas estar ao lado. Vai tentar se mutilar pra encaixar de novo, sem sucesso.

Quem já foi plenamente amado, não vai aceitar nada menos que outro amor pleno.

É raro, é difícil. Pode ser que um amor assim não bata na sua porta duas vezes, muito menos três.

O problema do bom amor é que ele te ensina o valor de ser amado. E depois, não há mais possibilidade de deixar por menos.

É verdade que ser bem amado muda sua visão de você mesmo ou mesma, de todos e todas, do mundo, e te permite, ao mesmo tempo, ser mais exigente e mais solidário com os corações perdidos. Pode ser que você consiga, a duras penas, construir o amor de novo ao amar alguém como um dia foi amado. Mas, é difícil. A reciprocidade é quase um milagre, e todos esperamos por ele. Porém, todos sabemos porque os milagres se chamam milagres. Não são comuns. Não são fáceis. Não são para todos. São especiais.

É, camarada. Cuidado. Ser amado ou amada plenamente pode acabar com sua vida, é verdade.

Mas também é verdade que você não saberá o que é uma vida até ser plenamente amado.

Então, na dúvida… Ame.

E feliz dia dos namorados!