PESSOAS OU PERSONAGENS? – PARTE II – HORÁCIO, O FILÓSOFO




Meu pai era um homem muito complicado, e a relação dele com a minha mãe, complicada ao cubo. Há muitas más ( más não, péssimas ) lembranças do rolo que foi a nossa família quando eu e meu irmão do meio éramos pequenos. Muita mágoa, muita briga, muitos machucados. Mas com o tempo, a maturidade e a cura de certas feridas… Comecei a ver o que de bom dele tinha ficado comigo, lembranças que tinham simplesmente sumido durante a minha adolescência. E, fora os carinhos, os sorvetes, as brincadeiras, as fotos e tudo o mais, uma das melhores coisas que meu pai me trouxe foram os gibis da Turma da Mônica.
Ele trabalhava com os fotógrafos da Editora Abril, na Revista Placar. Ajudava a organizar o acervo de fotos, escolhia algumas de acordo com a matéria, e ajudava no levantamento de imagens, numa época que Internet era apenas um sonho doido futurista. Trabalhando lá, vira e mexe, trazia para casa caixas e caixas de revistas, para minha mãe e pra nós. Meu irmão não curtia ler, mas eu adorava cada gibi que ele trazia, e ele também adorava mostrá-los e ler pra mim. Minha mãe, gerente de banco, prática, observadora, também incentivava que eu lesse, mas não era a mesma coisa… Para ela, isso era apenas um investimento para que eu ficasse mais inteligente, ou uma maneira de me manter quieta por uns segundos; era dele essa coisa lúdica e mais profunda da leitura e da música. Me lembro que quando ele me levava na editora, eu simplesmente delirava vendo tanto papel, tanta gente concentrada e aquele barulho ensurdecedor das máquinas de escrever, e quando me lembro disso, penso que é uma pena que eu não tenha levado adiante o sonho de ser jornalista. Era meu pai também quem trazia pra casa os discos com as poesias do Vinícius de Moraes, e aqueles almanaques gigantes cheios de informações. Tínhamos um orgulho danado quando o nome dele saía nos créditos da revista, mesmo que fosse pequenininho e num cantinho: “Pedro Álvares Cabral – acervo fotográfico” ( sim, meu pai se chamava Pedro Álvares Cabral… Aceito resignada as gozações ).
Quase me perdi no meio das lembranças, que eram só para contar como descobri o personagem que mais adoro na vida, o Horácio ( sim, eu o adoro mais do que a própria Mafalda rs ). Desde pequena, era ele o dono do meu coração, ainda que eu achasse muita graça no caipirês do Chico Bento ou na braveza da Mônica.
Horácio é um filhote de dinossauro que representa a sacada mais filosófica do Maurício de Sousa. Por mais de 30 anos, foi ele mesmo quem desenhou todas as histórias do personagem, pessoalmente, e sozinho. Dá para ver o carinho especial que o autor da Turma da Mônica tem pelo Horácio na quantidade de produtos e no destaque que é dado a ele em todas as produções da turma, ainda que as histórias nos gibis sejam raras. Pode-se ler muitas tirinhas clicando aqui.
Meigo, observador, companheiro e muito sensível, Horácio perambula pelo mundo antigo sem pressa. A ele só interessa fazer duas das coisas mais difícieis e ao mesmo tempo mais maravilhosas que há para se fazer: PENSAR e SENTIR. Ele gosta de alface, e tem uma namorada, Lucinda, de quem foge, apesar de amá-la muito. Há também os amigos – Tecodonte e Pterodáctilo Alfredo, que é o protaginista dessa tirinha linda que está aí embaixo. Sem saber de sua origem, passa muitos de seus dias procurando sua mãe, e lamentando a falta dela. Gosta de dar conselhos e ser simpático com todos, ainda que de vez em quando tenha acessos justíssimos de raiva e sarcasmo.
Metafórica e sutilmente, aqueles assuntos difíceis ( mas necessários ) de serem tratados com as crianças eram expostos naqueles desenhinhos. Nas tirinhas do Horácio, eu e meu pai líamos sobre tudo – morte, ausência, medo, falta, indignação, amor, humor, desigualdade, saudade, preconceito, beleza, relatividade, pensamento, Deus, admiração, apatia… E principalmente a importância de olhar para tudo a nossa volta com olhos atentos e cheios de vontade de aprender. Não é à toa que esse dinossaurinho tem os braços minúsculos e os olhos enormes. Nunca conversávamos sobre o conteúdo das histórias. Meu pai era um homem simples, que estudou pouco, e talvez não tivesse palavras bonitas pra me dizer. Mas também não precisava. As histórias, em si, já eram tudo o que eu precisava, presentes lindos que ele me dava todas as semanas e que fazem parte de mim até hoje.
Hoje, 20 e tantos anos depois, eu ainda leio o Horácio, e aprendo com cada historinha como se ainda fosse uma criança descobrindo o lado bom e o lado cruel do mundo. Mas se há uma coisa que é fascinante nesse personagem, é o otimismo. Mesmo quando sofre, mesmo quando se desaponta, mesmo quando não sabe o que dizer ou fazer, ele sempre tem algo de esperançoso ou alegre pra dizer no quadrinho da palavra fim. E não se trata de uma questão de ingenuidade, mas sim de inocência; mesmo conhecendo o mundo falho como ele é, ele prefere acreditar no lado bom das pessoas e da natureza. Vida longa ao Horácio que há dentro de nós… Muito longa.




EXPEDIENTE
* O contador voltou, e estamos no número 14 020… Começa a contagem regressiva para o visitante 15 000. O felizardo ou felizarda vai ganhar um presente surpresa, um cartão e, se morar em Sampa, um jantar pago num lugarzinho gostoso e/ou um cineminha na faixa. rs Mas não precisam correr… Ainda falta muito. Hehe.
* Obrigada ao Andy, que me ajudou com a edição de imagens deste post.
* Mesmo sem saber direito o que é isso, também faço parte do Orkut; faz tempo que este moço me convidou, eu topei… Mas ainda não sei mexer nas ferramentas do programa. Uma hora eu aprendo… Quem quiser me cadastrar, esteja à vontade.
* Vi que algumas pessoas me cadastraram no msn messenger através do email mafaldacrescida@hotmail.com. Na verdade, uso pouco esse email, e menos ainda acesso o messenger por ele. Por isso, quem quiser me achar, pode me cadastrar no meu outro email, karicabral@hotmail.com , e qualquer hora dessas conversamos em tempo real, o que será um prazer.