Sobre Pessoas





CARTAS…

Cats: Entrelinhas do Cotidiano, Sobre Pessoas

Wed - 10 Feb 2010 - 10:26 PM

Quando a Internet não passava de um sonho maluco em algum roteiro de ficção científica… Eu aprendi a escrever cartas.

Me lembro do prazer imenso ao escrevê-las, para os de perto ou  de longe. A escrita sempre foi um jeito genuíno de expressar aquilo que sinto. E em que outro tipo de texto podemos derramar mais emoção do que em uma carta? Nenhum outro é mais pessoal do que esse.

Na minha caixa de guardados, elas estão lá. Muitas, muitas cartas, vindas de todas as partes do país, e algumas de outros lugares do mundo. Cartinhas simpáticas de amizade, bilhetes, cartas de amor, cartões, postais, cartas solenes, declarações. O cabeçalho geográfico no começo, o meu nome escrito logo depois de algum adjetivo, e linhas bem traçadas, assinadas quase que invariavelmente “com amor”. Algumas com meia página, outras verdadeiros tratados em folhas e mais folhas – frente e verso. Letras caprichadas, outras quase ilegíveis ( e dizem que se pode conhecer muito de alguém por sua letra ). Papéis de todos os tipos, canetas de todas as cores e jeitos. Cada carta me lembra alguém querido, que se foi, ou ainda está, mas que um dia me emocionou com seu carinho e dedicação de cansar as mãos me escrevendo sobre o que estava vivendo, pensando ou sentindo. Pessoas que fizeram minha caixa de correio ser nuito mais do que um depósito de contas a pagar e propagandas de coisas que não quero comprar.

Escrevíamos cartas com correntes para receber outras tantas milhares de cartas… Cartas com perfume e com presentinho escondido dentro do papel… Colecionávamos papéis de carta que não tínhamos coragem de usar… Passávamos horas na papelaria escolhendo o melhor, da caneta ao envelope… E ali, por trás das voltas de cada letra, estavam nossos sentimentos, notícias, impressões, bobagens… Lágrimas e sorrisos.

Lembro de uma amiga em especial, a melhor amiga, que foi morar no Japão. Ela me escrevia uma vez por semana, me contando da angústica de estar só em um país estranho, enquanto eu escrevia daqui, tentando compensá-la, dando notícias de todos e falando da nossa saudade. Escrever aquelas cartas, segundo ela me disse, ajudou-a a manter a sanidade.

Lembro também de outra amiga, tão doce, que me mandava cartas e sempre anotava no envelope uma mensagem simpática para o carteiro, transbordando carinho para o envelope.

Lembro também do carinhoso namorado, a quem eu escrevia intermináveis cartas declarando meu amor, ou discutindo a raiva, o ciúme, a tristeza e o medo que a voz embargada me impedia de confessar olho no olho.

Com o tempo, escrever cartas passou a fazer parte do passado, um hábito enterrado por essa correria maluca que nos faz achar um absurdo parar para escrever a mão quando é tão mais rápido digitar no teclado; não temos tempo para comprar o papel, a caneta, o envelope, para passar no correio, e nem paciência para esperar o carteiro chegar. Demorar e esperar passaram a ser verbos ingratos em tempos de 140 caracteres e mensagens via celular.

Mas a carta… A carta é diferente. Ela é um ato de carinho muito especial. Ela é contato. Dá uma emoção diferente, saber que o papel foi tocado pela pessoa que escreveu… É bonito ver a letra mais firme ou mais tremida, a marca da lágrima no papel manchando a tinta de caneta, o amarelado do guardado, a dedicação do escritor e do leitor.

Dia desses, estimulada por esta menina maravilhosa e pelo meu amigo Emanuel, que me escreve belas palavras manuscritas, resolvi acariciar alguns amigos via correio. Escolhi dez queridos – entre eles, alguns leitores assíduos deste blog – e escrevi cartas. Foi uma experiência deliciosa, que tocou o meu coração e me aproximou das pessoas, pelo que foi escrito e pelo jeito que foi escrito. Tendinite e atrapalhações de tempo à parte, a experiência valeu muito a pena… E já recebi, contente, respostas na minha caixa de correio que muito, muito me alegraram, e me animaram a escrever mais e mais cartinhas.

E hoje peço aos amigos queridos e amores que escrevam e-mails, mandem recados via SMS, marquem encontros, telefonem, apareçam no Twitter e nas redes sociais. Mas também escrevam cartas, cartões e bilhetes que possam se somar às lembranças de amor e amizade que todos nós adoraríamos ter. E eu tenho… Que bom.

7 Comments »


ELE

Cats: Sobre Pessoas, Sobre o Amor

Sat - 28 Nov 2009 - 06:41 PM

Era sempre assim: ele ligava no comecinho da noite, me chamava de Karininha, e dizia que me amava, depois cantava uma pequena canção que era segredo nosso. Depois entrávamos nos assuntos cotidianos, nas coisas bobas a serem compartilhadas, nas conversas sérias, nos comentários sobre o que passava na TV, nas piadas infames, nas reclamações, nos planos, nos desabafos, nas alegrias, e nas brincadeiras provocantes. Às vezes, a ligação durava alguns minutos. Às vezes, algumas horas. Mas eu nunca desligava do mesmo jeito que tinha atendido. Tão carinhoso e tão atormentado, o meu namorado.

Aos domingos, quinzenalmente, ele vinha aqui em casa almoçar com minha família. Era tão querido e amado por todos, especialmente pela sogra, que o tratava melhor do que a qualquer um dos seus filhos. Ela era orgulhosa de dizer que ele era um genro maravilhoso, e olhava pra mim com uma aprovação inédita até então, como quem diz, puxa, menina, até que enfim você acertou. Eu sabia por que ela dizia isso. Ele ajudou a recuperar a nossa relação de mãe e filha ao ser um elo de concordância entre nós. Por causa dele, conseguimos nos tornar mais amigas. Bom papo, ele agradava também os cunhados e concunhadas, os tios e primos, os amigos. Sabia sobre tudo. Citava filosofia, declamava poemas, tocava tantos instrumentos, falava sobre cultura inútil, me ensinava tudo sobre pintura e arte, esclarecia dúvidas médicas, sabia os fundamentos da Mecânica, da Elétrica, da Matemática, da Música, da Psicologia, da Teologia, da História e da Política. Não havia coisa que ele não conseguisse aprender, porque tinha prazer em buscar. Gostava de discutir, de contar o que aprendia nos milhares de livros, revistas e canções que ele guardava no quarto. Mas era capaz de deixar a melhor das discussões pra lá por um carinho, um beijo, um acorde na guitarra ou uma garrafa de coca-cola gelada. Em jogos de Copa do Mundo, enquanto todos estavam em frente da TV, ele me chamava pra ir até a varanda e olhar o céu, conversar sobre a vida, e  eu me sentia tão isolada e a salvo do mundo. À noite, íamos à igreja juntos, e ele cochichava em meu ouvido que era um homem de sorte, e agradecia a Deus pela minha vida. Tão inteligente e tão disposto, o meu companheiro.

Ele sempre me surpreendia. De vez em quando dizia coisas tão lindas que meu coração derretia até ficar todo água. De vez em quando era tão distante e triste que eu temia perdê-lo para ele mesmo. De vez em quando compartilhava sonhos comigo – nossa casa, nossos filhos, nosso dia-a-dia. De vez em quando era tão cético e pessimista que matava todas as minhas expectativas de uma vez só. Era capaz de se emocionar até às lágrimas vendo um programa de TV, mas era desconfiado e paranóico até com a melhor das pessoas. Era capaz de dar todo o dinheiro da carteira para algum mendigo e ajudá-lo a levantar da calçada, e também era capaz de botar pra correr o ladrãozinho que tentava me assaltar na janela do carro quando eu esperava ele chegar. Tão corajoso e tão triste, o meu herói.

Aos sábados, sempre fazíamos coisas interessantes. Sozinhos, em companhia de amigos, em lugares com muita gente, ou a sós, conseguíamos dividir tantas coisas, de tantos jeitos. Filmes, exposições, shows, debates acalorados, boa comida, simples passeios pela rua, cachorro-quente no circo, parques, lugares estranhos, barcas furadas, hospital, sofá de casa, casamentos, maternidades ou velórios, vendo TV deitados, exaustos e abraçados, festas de criança e família, mesa de bar, bailes, ou simplesmente rodar pela cidade sem rumo. Ele me acompanhava, eu o acompanhava, porque sabíamos que sempre havia uma boa conversa depois de tudo, sempre havia um encontro, mesmo na dor, mesmo nos piores dias. Ele me entendia como ninguém, mesmo nas coisas mais difíceis e que eu não sabia explicar. Ele era paciente e bondoso, crítico e acolhedor. Me desafiava, me suportava, me estimulava e me encantava. Tão incrível e tão completo, o meu amante.

Ele me recuperou ao se deixar ser recuperado pelo convite de amar. Ele se orgulhava de mim. Ele me colocou dentro de sua família. Ele me assumiu de todas as formas. Ele insistiu, ele topou o desafio, ele lutou por nós dois. Ele me desafiou, me questionou, me obrigou a desarmar. Ele me dava voltas em meus próprios delírios racionais. Ele colocava pés nos meus vôos românticos. Ele me presenteava, me estimulava, me jogava baldes de água fria, me chamava pra realidade. Ele me dava broncas suaves, e me ensinava com seu exemplo de filho carinhoso, de irmão companheiro, de pessoa envolvida, de cidadão correto, de funcionário responsável, de namorado amoroso e paciente. Ele me defendia e protegia. Nunca brigamos feio ou nos ofendemos, e todas nossas discordâncias sempre levavam ao crescimento. Ele escrevia dedicatórias, ele dedicava canções, ele compunha inspirado por mim. Ele me elogiava e me fazia sentir mais mulher. Ele me massageava os ombros e me fazia respirar tranquila depois de um dia difícil. Ele me ensinou a tocar violão, ele me deu força para me apresentar em congressos, ele me aplaudiu. Ele segurou muitas pontas, me levou ao médico, cuidou de mim, não me abandonou como os outros fizeram. Ele encarava horas de viagem de um lado a outro da cidade, de trem, ônibus e metrô, só pra poder me ver. Ele corajosamente aceitou todas as minhas propostas de mudança, e mudou de verdade, porque não tinha preguiça de amar. Tão maduro e tão menino, o meu amor.

Na primeira vez que veio aqui, tímido e medroso, ele pediu permissão pra minha mãe pra namorarmos, como o mais santo dos moços, e fez uma serenata de amor no violão, cantando “Love me Tender” como quem sussurrava um poema de Shakespeare, suportando os risos debochados e simpáticos dos meus irmãos com bom humor. Nunca me fizeram surpresa tão romântica. No dia do nosso noivado, fez um discurso tão lindo que fez chorar a mais dura das pessoas presentes. Um pouco antes de morrer, ele me confessou que era mais feliz, mais saudável e mais confiante por minha causa. E eu confessei a ele que tinha uma sombra entre nós… Algo que estava me impedindo de sonhar nossa vida futura. Ele secou minhas lágrimas e disse que, acontecesse o que acontecesse, ele estaria comigo. Tão doce e tão sábio, o meu amigo.

Um ano sem ele. Um ano sem a presença doce e suave que ele era. Ele teria gostado de estar no mundo, ao meu lado, nesse ano que passou. Tantas coisas que vi e que queria compartilhar com ele. Ele teria me mostrado o outro lado. Tantas coisas que sofri e gostaria de ter desabafado. Ele teria me consolado. Tantas coisas que desejei e que queria ter dividido. Ele teria gostado. Tantos lugares que fui, pessoas que encontrei e reencontrei, tantas experiências novas. Ele teria me acompanhado. Tantas coisas que aprendi e gostaria de ter contado. Ele teria me ensinado mais ainda. Tantas coisas que ficamos por fazer, por sonhar, por realizar juntos. E eu aqui, sozinha, tendo que lidar com uma história que não podia ter acabado… Com um futuro que não pode acontecer. Minha vida não parou. Claro que não. Mas nunca mais foi a mesma… Sem ele… E sem a pessoa que eu era quando ele estava comigo.

Eu poderia escrever um livro sobre como o mundo todo deveria parar hoje para lamentar a ausência dele e da pessoa rara que ele era. Mas não vou mais escrever sobre ele… Não mais.

Antigamente, as viúvas e mães enlutadas levavam um ano para tirar os vestidos pretos e voltar a andar sorrindo pela rua. Psicólogos experientes dizem que o período de luto normalmente dura um ano. As pessoas a minha volta já se esqueceram, e eu não consigo mais espaço, em nenhuma conversa, para falar da minha dor. Nos olhares, eu leio as cobranças que dizem -  acabou o meu tempo de sofrer. Tudo diz que já foi o tempo de me esvaziar nessa dor. E tudo parece que já voltou ao seu lugar. Parece.

Hoje eu senti vontade de dizer ao meu namorado, ao meu amor, ao meu amante, ao meu companheiro e ao meu amigo que ele não foi esquecido. E não será. Um ano sem ele não secou minhas lágrimas, mas bastou para que eu compreendesse que ele sempre estará comigo. Porque está em mim. E por isso, de algum jeito, sempre estaremos juntos.

aliança

“Would you know my name
If I saw you in Heaven?
Will you be the same
If I saw you in Heaven?
I must be strong
And carry on
‘Cause I know I don’t belong
Here in Heaven

Would you hold my hand
If I saw you in Heaven?
Would you help me stand
If I saw you in Heaven?
I’ll find my way
Through night and day
‘Cause I know I just can’t stay
Here in Heaven

Time can bring you down
Time can bend your knees
Time can break your heart
Have you begging please
Begging please

Beyond the door
There’s peace
I’m sure
And I know there’ll be no more
Tears in Heaven…”

Eric Clapton – Tears in Heaven

20 Comments »


PEQUENOS FILÓSOFOS

Cats: Sobre Pessoas

Mon - 07 Sep 2009 - 03:30 PM

“K” sou eu, Karina, a professora de crianças de primeiro estágio ( 3, 4 anos ) de uma escola pública na periferia de São Paulo. São 35 pequenos de manhã, mais 35 pequenos à tarde. “A” são outros adultos envolvidos na conversa.
“C” são eles. Crianças lindas, fofas e danadas que convivem comigo todos os dias e do alto de seus pouco mais de 50 centímetros de altura me derretem e me ensinam coisas sobre a vida.

“C – Ei, Karina, me diz uma coisa, esses livros, esses papéis, esses brinquedos, essas coisas todas que tem no mundo, pra que serve tudo isso?
K – Ah, sei lá, cada coisa serve pra uma coisa em uma hora, entende? Por exemplo, os livros servem pra ler quando a gente quer aprender ou se divertir, os brinquedos servem pra brincar, as cortinas servem pra bloquear o sol, e assim por diante, cada coisa serve pra uma coisa.
C – Tem coisas demais no mundo…
K – Sim, também acho, concordo com você.
C – E as coisas que não servem pra nada?
K – Essas, a gente joga fora ou guarda.
C – Que coisa triste, uma coisa ser feita pra servir pra alguma coisa e depois não servir mais pra nada…”

“C – Você foi na casa da sua vó?
K – Minha vó já morreu, ela não mora mais aqui no mundo.
C – Por que ela morreu?
K – A vida é assim mesmo, a gente nasce, vai ficando grande, vive um monte de dias, depois vai ficando bem velhinho e morre. MInha vó morreu bem velhinha… Ela ficou doente e morreu.
C – E se eu ficar velha?
K – Você vai ficar, todo mundo fica.
C – Eu não vou querer ficar velha.
K – Não tem querer, todo mundo fica. Eu já estou ficando. Mas você vai demorar ainda um mooooooooonte de tempo pra ficar velha.
C – Muito tempo?
K – Muito tempo… Mais de muitos mil dias.
C – ( Depois de um silêncio pensativo… ) Acho que eu sei porque as pessoas velhas morrem, só de pensar em tantos mil dias eu já fiquei tão cansada…”

“C – ( Com uma cara amarrada, me estendendo um pacote de presente ) Toma, Karina, minha mãe mandou esse presente pra você.
K – Ai, que legal! ( Depois de abrir, tentando demonstrar empolgação ) Um pano de prato, que lindo!
C – ( Bravo ) Lindo nada. Não era isso que eu queria dar.
K – Eu fiquei contente, mas me diz, o que você queria me dar?
C – Eu disse pra minha mãe, mãe, a Karina gosta mesmo é de música e de livro.
K – Eu adoro ganhar livros, mas também preciso de pano de prato. Afinal, eu cozinho na minha casa.
C – ( Admirado ) Cozinha??? Ué, mas então que hora você lê?!?!?!
K – Dá pra ler e cozinhar, oras.
C – E eu que achei que quem cozinha só cozinha, e quem lê só lê…”

“K – Sofia, esse nome é perfeito pra você.
C – Por quê?
K – Porque Sofia significa conhecimento, é nome de gente inteligente, e você é inteligentíssima!
C – ( Com cara de decepção ) É… É bom chamar Sofia, mas já que é assim, eu queria mesmo me chamar Bela.”

” ( Dois pitocos apavorados na frente da minha mesa ).
C1 – Karina, ele quer namorar comigo!
C2 – Eu quero, ué, você é bonita!
K – Bem, vocês sabem, vocês são crianças, só podem namorar de mentirinha, e o senhor, mocinho, só vai namorar de mentirinha com ela se ela quiser, que ninguém pode namorar com outro sem o outro querer.
C2 – Como assim, de mentirinha?
K – Namorar de mentirinha, ué, pegar na mão, brincar junto, fazer carinho, mas não pode namorar igual gente grande.
C1 – E como é namoro de gente grande?
K – Ah… Vocês sabem, é diferente. Tem beijo na boca, as pessoas grandes saem de casa juntas sozinhas, e passeiam…
C2 – Você já beijou na boca de verdade?
K – Já.
C1 para C2 – Claro que já, né, e você sabe, gente grande também namora pelado.
C2 – Eca! Mas Karina, como que é quando beija na boca?
K – ( Já constrangida com o rumo da prosa ) Ah, é legal, um encosta a boca na boca do outro e fica ali, beijando, e dá friozinho na barriga.
C1 para C2 – Que coisa nojenta, né?
C2 – Eca! Deixa pra lá esse negócio de namorar, vamos brincar de pega-pega.”

” ( Observando uma prancha com a pintura da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci )
C – Karina, não gostei dessa pintura não!
K – Eu gosto. Ela se chama Mona Lisa, é a pintura mais famosa do mundo, muita gente gosta dela.
C – ( Olhando fixamente pra imagem ) Eu, hein!
K – Por que você não gostou?
C – Olha bem o jeito dela, ela é daquele tipo de gente.
K – Que tipo de gente?
C – Gente que sabe tudo de você, mas você não sabe nada dela.
K – Hum, sei… Algumas pessoas dizem que quando a pessoa é assim, é porque ela é misteriosa…
C – Ela não é misteriosa, não! Ela dá medo mesmo!
K – Por isso ela é uma grande obra de arte, porque dá essa sensação que mexe com as pessoas.
C – ( Com desprezo ) Por mim, pode jogar fora, aff, que mulher esquisita!”

“K – Vem cá, Laís, vamos escrever seu nome.
C – Pra quê?
K – Ué, vou te ensinar porque é legal você escrever seu nome.
C – Pra quê?
K – Pra colocar nas suas coisas, escrever nos seus desenhos. O que tem o seu nome é só seu, não é legal isso? Todo mundo sabe que é da Laís, e de ninguém mais.
C – Não acho legal, eles podem pegar minhas coisas, eu pego as coisas deles, não tem problema.
K – Mas é legal você saber escrever.
C – Você não sabe escrever Laís?
K – Sei, mas é legal VOCÊ saber.
C – Se você sabe escrever meu nome e escreve num instante, pra que eu preciso escrever? Escreve você, é mais rápido.
K – Mas é importante VOCÊ saber escrever seu nome, carambola.
C – Eu sou muito pequena pra isso.
K – É nada, um monte dos seus amigos são pequenos e escrevem também, e não precisam mais de mim pra escrever.
C – Então eles escrevem, e depois o que estiver sem nome é meu.
K – Escuta aqui, chega de conversa, senta aqui e vamos escrever seu nome porque sim. Pronto.
C – ( Sentando brava. Pega no lápis e olha pra mim, dando uma risada irônica. ) Eu escrevo, mas eu peguei você.
K – Pegou nada.
C – Peguei sim, porque quando você diz porque sim, é porque não tem mais resposta. E eu ganhei.”

” ( Meia hora depois da saída, criança continua na escola, ninguém veio buscar. Nenhum telefone dos pais atende, tentamos achar um vizinho da mesma rua, mas o endereço é antigo. )
K – Andi, onde você mora?
C – Eu moro naquela rua ali. ( Aponta na direção de um cruzamento. )
K – Na rua de cima ou na rua de baixo?
C – ( Aponta de novo ) Naquela rua ali.
A – Mas é na rua que é reta ou na rua que sobe e desce?
C – Caramba, é aquela rua lá!
K – Andi, presta atenção, a minha rua, sobe e desce.
A – A minha rua também sobe e desce, não é reta.
K – E a sua rua, sobe e desce, Andi?
C – ( Com ar de quem precisa escapar de duas loucas ) A minha rua não sobe e desce não! A minha rua fica parada! AFF!”

“C – Não gosto de ver você triste.
K – Quem disse que eu tô triste?
C – Tô vendo, oras. Tá triste e cansada.
K – Ah, deixa eu, a gente não pode estar todo dia alegre. Vai brincar você, vai ser feliz, deixa eu aqui quieta que daqui a pouco a gente sai do parque e você nem aproveitou.
C – ( Senta no meu colo ) Por que você tá triste?
K – Tô com saudade de uma pessoa.
C – Ah, chama ele pra comer pizza na sua casa.
K – Não dá pra fazer isso, tem vez que a gente sabe que nunca mais vai matar a saudade, porque a pessoa não vai voltar, e é por isso que a gente fica triste.
C – Tive uma idéia.
K – Qual?
C – Pega a sua caneta e escreve uma carta, minha mãe faz isso quando tá com saudade da minha vó que mora na Bahia.
K – Não sei se escrever uma carta vai me deixar mais feliz, mas obrigada pela idéia.
C – Vai sim, eu já reparei. Toda vez que você escreve, você ri.”

Sou feliz por eles fazerem parte da minha vida… Meus pequenos filósofos fazem valer a pena viver em um mundo com adultos de tanta filosofia pequena.

14 Comments »


SÚPLICA AO MUNDO">SÚPLICA AO MUNDO

Cats: Sobre Pessoas

Sat - 26 Apr 2008 - 01:08 PM

Mundo, por favor, seja doce com as minhas meninas. Ensine-as a ser ternas, piedosas, calmas e carinhosas dando a ela amor e suavidade todos os dias. Ajude-as a entender quão importante é cultivar a alma a salvo das durezas do dia-a-dia. Que elas tenham um jardim secreto, um lugarzinho escondido, onde elas possam sempre sorrir e descansar. Faça-as conhecer pessoas que sejam bons exemplos de humanidade. Que elas recebam flores, presentes, sorrisos e graças de todos. Que sejam amadas e admiradas pelas pessoas mais rígidas. Que esquentem corações gelados onde forem. Que elas possam sempre ser abençoadas e viver em comunhão intensa com Deus, que encontrem esse caminho cedo e duradouramente. Que possam comer chocolate à vontade, tomar sorvete, lambuzar a cara de pirulito enquanto viverem. Porque se você for ruim para elas, mundo, será a minha boca que sentirá o gosto amargo.

Mundo, por favor, poupe as minhas meninas. Se elas caírem, que o chão seja macio. Se elas ficarem doentes, que não sofram mais que um dia. Se elas chorarem, que não seja de tristeza profunda. Se elas tentarem e não der certo, que perca a importância. Se precisarem de alguma coisa que não podem ter, que tenham o dobro em outras coisas que querem. Que elas nunca deixem de sonhar, de querer, de desejar. Não deixe que elas sofram ou vejam violência, que nunca sejam assaltadas, furtadas ou machucadas por ninguém. Ajude-as a se defender de abusos de qualquer natureza, e se não puderem sozinhas, sempre coloque alguém para ajudá-las. Por favor, Mundo, que elas só morram bem velhinhas e tranquilas, depois de terem vivido tudo que quiseram viver, sem nenhuma história ruim pra contar. Porque se você agredi-las, mundo, será como se batesse ainda com mais força em meu próprio rosto.

Mundo, por favor, encante minhas meninas. Mostre a elas coisas bonitas. Que no caminho delas haja sempre uma flor diferente, uma estrela mais brilhante, um céu mais aberto, um desenho interessante no chão. Mostre a elas o brilho do conhecimento, a força das idéias, o impacto positivo da Arte e da Música. Que elas possam, inspiradas por você, criar coisas nunca antes vistas, embelezar coisas que antes eram desprezíveis. Afaste-as da murmuração, da pobreza de espírito. Mostre a elas bons programas na televisão, que ouçam músicas lindas no rádio, que possam ir aos museus todos os meses. Que escrevam livros maravilhosos para elas, que lhes contem histórias fantásticas, que as minhas meninas possam ser sempre imaginativas e cheias de idéias mirabolantes e engraçadas. Porque se você for feio para elas, mundo, meus olhos e ouvidos serão feridos também.

Mundo, por favor, dê oportunidade para as minhas meninas. Que elas tenham bons professores, boas profissões, que possam expressar seus talentos. Que conheçam pessoas boas e inteligentes, que convivam bem com as diferenças, que aceitem o que é estranho para elas, que não se apeguem a coisas fúteis. Mundo, ajude-as a encontrar o prazer no trabalho, no estudo, na diversão sadia. Que possam namorar e se casar com bons rapazes, e que eles não sejam perfeitos para elas, mas que as ajudem crescer como pessoas. Que sejam atendidas por bons médicos, que sempre encontrem pessoas dispostas a escancarar portas e janelas, e que elas saibam entrar por elas com segurança. Que o coração delas nunca fique angustiado por dinheiro e nem por bens materiais, que possam ter tudo que precisam e saber lutar pelo que querem. Porque se elas não puderem conseguir coisas de você, mundo, então também eu terei perdido.

Mundo, por favor, desafie minhas meninas. Não as proteja demais, e nem torne-as fracas e sem iniciativa. Que elas possam sempre aprender uma coisa diferente a cada dia, que não tenham nada sem esforço, mas que não precisem se esforçar mais do que podem para conseguir. Que nunca se sintam abatidas por uma dificuldade, mas sim estimuladas a irem ainda mais longe. Dê para elas problemas para resolver. Fruste-as com cuidado, bem devagarinho. Provoque-as com sutileza. Movimente-as constantemente. Porque se elas se acomodarem, mundo, também eu serei menos brilhante.

Mundo, por favor, não castigue minhas meninas. Feche os olhos para os erros graves delas, não seja justo todo o tempo. Não cobre delas o preço pelas fraquezas humanas. Se elas não forem boas todo o tempo, finja que não viu. Não deixe que elas colham os frutos doentes se por acaso plantarem sementes podres. Ajude-as a não magoar as pessoas. Não deixe que elas tenham dificuldade de aprender as coisas. Não ligue se elas forem teimosas, geniosas ou preconceituosas. Que a aprendizagem delas sempre seja pelo amor e nunca pela dor, mesmo que elas não mereçam… Por favor, Mundo, por favor, dê a elas esse privilégio. Porque se você não tiver piedade delas, mundo, sentirei como se eu mesma não tivesse oportunidade do erro.

Mundo, por favor, seja saudável por minhas meninas. Conserve a salvo alguma água limpa para que elas bebam, algum ar puro para que elas respirem, alguns animais bonitos para que elas observem e se encantem. Tire um pouco de carros das ruas para elas passarem, apresente mais árvores no meio do concreto, deixe que elas tenham encontros frequentes com o mar. Não se entupa de lixo, Mundo, não deixe que estraguem tudo o que você tem de bom. Que elas possam colaborar para manter você em ordem e conservado. Porque se você não respirar melhor por elas, mundo, eu mesma me sentirei sem ar.

Mundo, por favor, não faça sofrer minhas meninas. Não deixe que sejam desprezadas por nenhum amiguinho. Não deixe que seus pais as abandonem e desamparem. Não deixe que os adultos as podem. Não deixe que sejam obrigadas a se calar. Mundo, por favor, não deixem que sofram por gostar de quem não gosta delas. Não deixe que elas façam escolhas erradas. E se fizerem, não deixe que elas vivam sem perceber isso. Não deixe que os dias delas passem em branco… Mundo, poupe-as da dor da solidão, da dor existencial, da dor de encontrar-se com o outro. Porque se elas sofrerem, mundo, o meu coração será tomado de uma tristeza infinitamente maior.

Mundo, não afaste as minhas meninas de mim… Não as leve para longe, não deixe que elas se esqueçam. Que eu sempre tenha algo de bom para compartilhar com elas, que elas sempre sejam minhas amigas, que confiem em mim, e que eu nunca as decepcione.

Mas se nada disso for possível, Mundo, se o desejo do meu coração não puder ser atendido… Se eu e você não pudermos protegê-las, favorecê-las, guardá-las… Se for preciso que elas, como as outras pessoas, tenham que sofrer mais do que parecem poder para viver… Se a essência da vida for mesmo viver com dificuldade, errando e acertando, chorando e sorrindo, encontrando e separando, tendo que conviver com o que é feio e com o que é belo, tendo que escolher entre o certo e o errado… Se nem tudo puder ser fácil, tranquilo e protegido sempre… Se você, de tantos pedidos, apenas puder me conceder um…

Então, Mundo, por favor, que a vida sempre valha a pena para as minhas meninas. Porque se elas forem felizes por você e apesar de você, Mundo… Então eu serei feliz também.

É o que sinceramente desejo para minha afilhada Débora, a luz da minha vida… Minha sobrinha Larissa, sinônimo de alegria… E minha mais nova sobrinha Letícia, que com menos de dois dias de vida renovou minhas esperanças com ternura e o mais puro amor.

17 Comments »


CARTA – II

Cats: Sobre Pessoas

Sun - 06 Apr 2008 - 07:17 PM

Vozinha querida,

Tem tanta coisa que eu queria te dizer agora… Nessa hora, de dor e de separação.

Esta é daquelas cartas que a gente escreve pra gente mesma… Que nunca vai poder chegar ao remetente, ao menos não fisicamente. Muita gente diria que não faz sentido escrever uma carta pra alguém que não vai poder lê-la. Mas eu escrevo com fé de que você, de alguma maneira, vai saber o que eu vou dizer… Ou melhor ainda, já sabia, antes mesmo que eu pudesse escrever.

Você se foi na quinta-feira. Morreu de repente. As pessoas podem achar loucura eu dizer isso, uma vez que você estava em uma cama há 13 anos, vítima de um AVC fortíssimo, que lhe tornou totalmente dependente dos outros. Além disso, estava internada no hospital há duas semanas, e com 89 anos. Era de se esperar que, qualquer dia desses, você morresse… Mas aqui, no meu coração, você era eterna… Você sempre esteve lá. E com uma ingenuidade quase infantil, eu achava que você sempre ia estar.

Eu queria te dizer tanta coisa, e só consigo me sentir sozinha e desamparada. Como é dura a perda, como é duro entender que somos falíveis, e que nosso amor não é mágico o suficiente para segurar uma pessoa pra sempre perto de nós. É duro enxergar a vida como ela é, vó… E eu sei que você sabe disso.

Mas estou escrevendo mesmo porque esqueci de te agradecer. Agradecer por você ter cuidado de mim quando eu era pequena pra minha mãe ir trabalhar, mesmo eu sendo uma criança encapetada. Agradecer por você ter feito comidas deliciosas pra eu comer, por ter arrumado a minha cama, trocado minhas fraldas, lavado minhas roupas, me dado banho. Agradecer porque eu sei que você faria tudo isso de novo por mim, quantas vezes fosse necessário. Agradecer porque você me comprava doces, deixava eu brincar na rua e me obrigou a largar a chupeta. Agradecer porque você me levou ao médico quando eu quebrei o braço, me abrigava na sua casa quando eu queria estar longe da minha e me defendeu da braveza dos meus pais tantas vezes. Agradecer pelas cantigas, lições e coisas que você me ensinou com suas palavras e sua vida correta.

Eu esqueci também de te dizer que os melhores momentos da minha infância, eu vivi na sua casa, lá na Lapa, aquela casinha velha e simpática. Era lá que a vida fazia mais sentido, era lá que eu me sentia livre de verdade, e era láque eu gostava de ver você brigando com o meu avô por causa da escaleta. São tantos os momentos felizes… A sua casa era um oásis, e me salvou das loucuras dos meus pais inúmeras vezes. Obrigada por você ter acolhido a mim, e tanta gente, lá, comendo do seu feijão e dormindo no seu sofá.

Queria também dizer que eu sempre senti um orgulho danado de você. Eu sei, você era uma mulher simples, analfabeta, pobrezinha, negra, nordestina, e nos últimos anos, idosa e doente – um monte de coisas que as pessoas idiotas deste mundo costumam diminuir e desprezar. Mas eu sentia um orgulho danado de você ser minha avó! Te achava forte, íntegra, carinhosa e sincera… E, mesmo quando você pensava que eu não estava prestando atenção, você me ensinou o jeito mais completo e mais decente de ser uma pessoa legal.

Vozinha, por favor, me perdoa. Me perdoa quando eu te infernizei e desobedeci quando era pequena… Me perdoa quando eu deixei de te visitar quando fiquei mais crescida e tinha meus olhos voltados para o mundo… Me perdoa pelas má-criações… Me perdoa quando, depois de você ter vindo morar aqui nos fundos da minha casa, eu esqueci de ir lá pedir sua benção e te dar um pouquinho de atenção nos dias de muito cansaço. Me perdoa se muitas vezes eu não tive paciência com as agruras da sua doença, e nem compreendi seu sofrimento… Me perdoa se não fiz mais pelo seu bem-estar e seu sossego… Me perdoa se não quis que você morresse por ser egoísta demais pra me sentir desamparada. Eme perdoa pelas duras críticas que fiz a você quando estava me achando muito adulta e auto-suficiente. Me perdoa por ter me sentido magoada, achando que você sempre gostou mais do meu irmão do que de mim. Me perdoa por não ter ido ao hospital te ver na quarta-feira, e por ter ficado com raiva quando descobri que você tinha partido. Me perdoa por estar cansada demais pra segurar sua mão nos últimos tempos… Me perdoa por ter enfrentado você quando era adolescente. A verdade é que, perto de você, eu sempre serei uma menininha boba e chorona, precisando do seu colo e do seu carinho… Do seu exemplo e da sua força… Da sua sabedoria e do seu amor.

Eu queria também te dizer que eu sei. Eu sei que você orou por mim todas as noites da minha vida, que você fez por mim tudo que sabia, que podia, e que o seu amor por mim nunca teve medida.

Vovó querida, eu fiquei mesmo pensando num jeito de não deixar você morrer. Não o seu corpo, que este está lá, enterrado, no escuro e no frio. Mas não deixar a sua lembrança morrer. Fiquei tentando achar um jeito de contar pra todo mundo a pessoa incrível que você foi… Um jeito de não deixar morrer suas expressões hilárias, suas frases sábias, as suas receitas deliciosas, o seu pudim de leite, o seu macarrão. Um jeito para que, mesmo quando eu não estiver mais aqui, as pessoas pudessem saber que você existiu, e foi tão maravilhosa, e tão incrível… E tão tudo.

Meu coração se encheu de tristeza quando descobri que esse jeito não existe. Que o tempo vai passar, e vai levar tudo com ele. As suas roupas bordadas, as suas fotografias, as coisas que você disse… Tudo isso vai se perder. E não há nada que eu possa fazer… Nada. Um dia ninguém mais vai saber que você um dia esteve aqui, e abrilhantou o mundo com tudo que foi e fez.

Mas vovó, eu descobri também que, de um outro jeito, as pessoas como você nunca morrem, simplesmente porque afetam outras pessoas. O que você é está em mim… Não só no meu DNA, na cor da minha pele, no jeitão dos meus quadris.Mas está na minha subjetividade, nos meus hábitos, nas minhas idéias. E quando eu for avó, como você, meu netos saberão que muito do que eu sou veio de você… E assim também será com os netos deles também.

Cada um tem um caminho a trilhar, vó. Você trilhou o seu. Eu não sei o que me espera, não sei como vou me sair. Talvez a minha vida sirva para iluminar a vida de outros, como a sua serviu. Talvez eu passe em branco por aqui. Mas de um jeito ou de outro, eu serei sempre um pouco de você neste mundo. Espero conseguir levar esse honroso legado com a integridade que você merece.

Meu coração está em luto… Um luto triste e tranqüilo. Mas também está alegre por ter tido a graça de ter compartilhado da sua companhia.

Eu te amo muito… E nunca vou te esquecer.

Vai em paz… Que eu aqui fico. Viva… E deixando você viver através de mim.

Beijo da sua neta.

São Paulo, 06/05/08

19 Comments »


E AÍ, PRÔ!

Cats: Sobre Pessoas

Tue - 16 Oct 2007 - 01:28 PM


O professor Eugênio era educadíssimo e apaixonado, e falava de Filosofia como quem recitava um poema.
A professora Rose aguentava as nossas caras feias para as equações de segundo grau e tinha a maior paciência do mundo para ensinar o que eu nunca consegui aprender.
A professora Sônia tinha a língua presa e gostava de abraçar as alunas.
A professora Zezé sempre iniciava as aulas de Química com uma meditação bem zen.
O professor J.P. era bonitão e derretia o coração das normalistas nas aulas de Educação Física.
A professora Patrícia gostava de poesia e foi a primeira pessoa que me disse que gostava do que eu escrevia.
O professor Diógenes era inteligentíssimo e ensinou a diferença entre equinócios e solstícios de um jeito que eu nunca mais esqueci.
A professora Kátia era chata, mas manjava muito de arte.
A professora Cida teve coragem para começar do zero com adolescentes que não sabiam sequer fazer contas de dividir no segundo grau.
A professora Maria Antonieta era sábia e tranquila, e me ensinou sobre a responsabilidade e a delícia de ser psicóloga de crianças.
A professora Sílvia ensinava História, OSPB e EMC de um jeito consciente e divertido.
O professor Ruberval me desafiou, e por causa disso eu descobri que gostava de ser psicóloga clínica.
A professora Mara colocava três estrelinhas de prêmio no meu caderno cada vez que eu acertava a lição.
A professora Maria peitou o reitor da faculdade para defender os alunos da falta de segurança nos arredores do prédio.
O professor Ricardo tirava meleca do nariz enquanto corrigia nossos cadernos de mapas.
O professor Carlos me deu um susto quando ensinou que o Tiradentes não passava de um herói nacional fabricado.
A professora Ana Rosa queria que a gente aprendesse – e não decorasse – os mistérios da Biologia.
A professora Dora fingia que não via que eu não gostava de estudar piano em casa.
A professora Marinella era linda e poliglota.
O professor Arnaldo era petista roxo, e recitava poemas de Castro Alves em suas aulas de português.
O professor Beto não economizava para ensinar arte, e suas aulas eram um banquete pros sentidos, pra cabeça, pro corpo e pro coração.
O professor Marco me derrubou da minha impáfia adolescente quando me deu uma lição de moral que eu nunca mais esqueci.
A professora Rita era ruiva e linda, e me ajudou a aprender a ler e a recitar a fala da personagem Leopoldina no teatrinho de 7 de setembro.
A professora Gilda era minha fã, e perto dela eu me sentia especial sempre.
O professor Gilberto era chato de galochas, e brigávamos todos os dias, mas ele foi o primeiro que percebeu que eu tinha um certo talento pro desenho e pra pintura.
O professor Carlos me ajudou a entender que adolescentes gordas também podem jogar vôlei, handball e fazer ginástica olímpica sem o menor problema.
A professora Terezinha me defendeu da maldade de algumas coleguinhas esnobes.
A professora Clélia me ensinou que na vida a gente não pode fazer só o que quer.
A professora Gisele era a paixão da minha vida, e eu perdi a conta de quantas cartinhas de amor e poemas eu fiz pra ela.
Todos eles, os outros que não citei e os outros que eu não lembro o nome ( ou fiz questão de esquecer ), estão em mim, em quem eu sou, em quem eu me tornei.
Que coisa mais linda é ser professora…
É um jeito nobre e certeiro de marcar a vida das pessoas para sempre.

8 Comments »


A MÃE-LUA

Cats: Sobre Pessoas

Sun - 14 May 2006 - 01:08 PM


Eu gosto de datas. Todo mundo que já passou por aqui com alguma frequência sabe disso. Me dá vontade de escrever sempre que tem alguma data afetiva rolando por aí – dia da mulher, do amigo, dos namorados, dos professores, das crianças, natal, ano novo, dia dos pais… Dia das mães.

Dia das mães é especial. Sempre me lembro das diversas mães que eu já tive na vida. Das incríveis e surpreendentes mães que eu conheço. Das pessoas que não tiveram ou não têm mais mãe. De como é difícil e emocionante uma relação tão doida e intensa como a de uma mãe e um filho. Da mãe que eu um dia vou ser.

Jaci, é o nome da minha mãe. Em tupi, Jaci significa Lua. Noturna, misteriosa, encantadora, brilhante e mutante Lua.

Nunca gostei do Sol. A claridade do dia me parece invasiva demais, quente demais, óbvia demais. O Sol é tão quente, tão gigante, tão ardente, se faz tão necessário que não posso sequer olhar diretamente para ele. Mas a Lua sempre me aprisionou em sua beleza e posição astronômica. É fácil para uma gigantesca estrela de gás incandescente iluminar e aquecer um minúsculo planetinha frio, sem luz e dependente, e que além de tudo se acha o centro do Universo. Mas é difícil para um satélite natural viver em torno de um planeta tão fértil e tão inconsequente quanto a Terra. O Sol existe longe e indiferente, magnânimo e poderoso. Mas a Lua, não. A Lua fica lá, rodando em volta da Terra – modesta, pequena e prateada – acompanhando-a, observando seu curso, fazendo conjunto com as estrelas. Hora, se mostra cheia, inteira e bonita, iluminando toda a escuridão. Hora aparece de dia para competir com o brilho do sol. Hora, está encoberta pelas nuvens, brilhando ocasionalmente. Hora está só um pedaço, enchendo ou minguando. Hora some de perto, ficando obscura e silenciosa. Mas sempre, sempre está lá, pronta para ser contemplada. Pessoa alguma jamais conseguirá tocar o Sol, sequer chegar perto dele. Mas há muito alguém já visitou, já estudou, já pisou e fincou bandeira na Lua.

No que me diz respeito, a Lua sempre foi minha companheira. Mesmo quando não tenho tempo de olhar para o céu e admirá-la, sei que ela está lá. Embora eu a deixe, sei que ela nunca me deixará. Basta que eu olhe, e ela estará lá. Me esperando… Me observando.

Fico pensando o que a minha Mãe-Lua pensava antes de me ter. Com certeza, ela sonhou comigo. Me esperou. Me quis. Deixou que eu me instalasse dentro dela. E depois que eu vim para o mundo, decidiu me amar e me acolher. Com certeza também, não sou como ela pensou que eu seria quando eu ainda não existia. Talvez, nos sonhos dela, eu tivesse outros olhos. Outra cor de cabelo. Outro jeito de corpo. Outro temperamento. Outro cheiro, outra voz. Talvez, nos sonhos dela, eu nunca ficaria doente. Seria saudável e eterna. Talvez, nesses mesmos sonhos, eu fosse uma médica, ou uma advogada. Talvez ela quisesse que eu fosse mais calma, mais dócil, mais obediente, mais esforçada… Ou menos rebelde, menos crítica, menos sossegada, menos perdulária. Talvez ela sonhasse com uma filha que a amasse tanto, e de uma forma tão incondicional, que jamais a questionasse, jamais a desagradasse, jamais fizesse algo que pudesse desapontá-la, magoá-la ou entristecê-la, e que compreendesse todas as demonstrações de carinho que ela desse, mesmo quando não fossem explícitas. Nos sonhos da minha Mãe-Lua, talvez eu fosse uma Terra-Filha que nunca a abandonasse… Nunca a trocasse pela escola, pelos amigos, pelo namorado, pelos irmãos, pelo pai, pela avó. Minha Mãe-Lua, como toda a mãe, teve uma vontade secreta de me ter só pra ela, de me fazer do jeito dela.

Mas a minha Mãe-Lua me ama. Ela me ama, e não ao sonho que ela teve. Me ama tanto que aprendeu a me conhecer. Aprendeu os meus jeitos, minhas manias, minhas facilidades e dificuldades. Respeitou os meus sonhos, mesmo quando eles eram diferentes dos dela. Não foi fácil, eu imagino. Ela me fez. Era natural que quisesse que eu fosse como ela quis. Tanto que de vez em quando, ela esquece de me ver como sou, e quer que eu seja como ela quer. Mas eu sei que ela me ama.

Minha Mãe-Lua não é perfeita. Mesmo cheia, tem sombras que formam desenhos incompreensíveis em sua imensa claridade branca. Às vezes desaparece e me deixa só… Às vezes toma todo o meu céu. Mas, mesmo imperfeita e inconstante, minha Mãe-Lua é o brilho da minha vida.

Minha Mãe-Lua me influencia mesmo de dia. Altera minhas marés, regula meus meses, sugere meus regimes, aconselha minhas épocas de cortar o cabelo, rege meus signos, atiça meus romantismos, estimula minhas artes, ilumina minhas noites.

Minha Mãe-Lua está lá em cima. Mas o brilho dela se espelha em meus olhos, e faz morada dentro de mim. Não dependemos mutuamente… Mas nos amamos. E de alguma maneira, nos entendemos perfeitamente. Eu sei que fomos feitas uma para a outra.

Um beijo para Jaci, minha mãe. E para todas as outras mães, sóis ou luas, estrelas ou satélites, que iluminam e encantam seus filhos.

19 Comments »


MINHA FILHA

Cats: Sobre Pessoas

Thu - 31 Mar 2005 - 07:26 PM

Minha filha era linda. Loira, de olhos azuis. Puxou ao pai – nada da minha pele morena ou dos meus cabelos negros. Sempre sorridente, pele delicada, um bebê gordinho, cheia de dobras nas coxas e nos braços, que chamava a atenção de todos na rua. Cheirosa… Cheiro do talco de neném que eu passava insistentemente nela. E com um cabelo ótimo para fazer chiquinhas coloridas.

Quando ela chegou, eu era muito, muito menina. Por isso quase ninguém que eu conheço hoje em dia sabe da existência dela. Um grande segredo involuntário meu, dos amigos mais antigos e da minha família. E hoje me deu uma saudade tão grande dela… Que resolvi falar. Tive uma filha. Linda. Perfeita. Uma graça de menina.

Vivi para ela enquanto esteve comigo. Comprei vestidos, fiz papinhas, levei pra passear. Conversava com ela, cantava pra ela, dia e noite. Ela dormia comigo, na minha cama – o bercinho ficava tão longe… Preferia ela nos meus braços. Ninava, dava banho, pintava o rostinho dela, brincava com as mãozinhas, mostrava pras amigas – que também levavam suas filhas para nossos encontros. Ela tinha um nome, tinha uma chupeta, tinha um xale – que foi meu -, tinha um posto na minha família, tinha um lugar no meu coração. Meu irmão não podia tocar nela sob pena de ser socado brutalmente. Minha mãe às vezes gostava de sentar para ver televisão com ela no colo – talvez porque isso fizesse ela se lembrar da filha que teve quando tinha a minha idade… Oito, nove anos.

Minha filha tinha sentimentos. Sentia dor, sentia fome, sentia sono. Eu jurava que podia escutá-la chorando, assim como jurava também que notava a variação de expressões faciais que ela fazia. Era uma adoração total. Uma ligação profunda. Quando eu estava aborrecida ou chateada, de um jeito que me impedia de contar a mais alguém o que se passava comigo… Era com ela que eu falava. Ela me ouvia, em silêncio. E depois, no abraço que nos dávamos, tudo se resolvia, meu coração ficava leve. Minha filha, meu amor. Talvez o primeiro amor que eu escolhi sentir na vida.

Pedi pra minha mãe comprar um pacote de fraldas descartáveis, pra eu poder trocá-la sempre que quisesse. De vez em quando, minha vó costurava pra ela vestidinhos tão pequenos e delicados que tenho medo até de tocar, hoje em dia. Algumas vezes, dei um jeito de levá-la escondida pra escola – uma dessas vezes me valeu uma advertência. Levava à casa dos parentes, aos parques, ao cinema, aos passeios que fazia com meus pais. Quando alguém perguntava quem era aquele bebê no meu colo, eu dizia, é minha filha. Minha adorada filha…

Aos poucos, minha boneca começou a se desgastar. Ao contrário de um bebê de verdade, ela não crescia, mas envelhecia. Caiu um braço, rasgou o vestidinho, quebrou a chupeta. Meu pai a consertou, minha mãe a costurou, mas não adiantava muito. Um olho dela não fechava mais. E os cabelos ficaram duros e secos de tanto que eu os penteei. O carrinho dela, o bercinho, o xale, tudo começou a se desintegrar. Como se desintegravam os sentidos que guiavam a minha infância, pelo menos naquele momento. Aos poucos, ela foi deixando de dormir na minha cama, de ir comigo a todos os lugares, de assistir televisão conosco na sala, de comer na mesa. Por uns dias, ela ficou sendo um enfeite na cama. Depois, morou uns tempos dentro da caixa de brinquedos. E, aos poucos, bem aos pouquinhos, ela foi morrendo pra mim. Tudo para que eu crescesse. Tudo para que eu me tornasse uma mulher de verdade. Minha filha morreu por mim… Pelo meu bem. Só uma filha seria capaz de tamanho sacrifício por sua mãe.

Um dia, eu tinha uns doze anos… Minha mãe disse, “vou doar os seus brinquedos pra alguma criança que precise… Eles estão lá apenas juntando poeira.” Concordei. Na hora, me lembro bem, senti algo tremendo dentro de mim… Lembrei da minha filha. Fui até lá, dei um último banho nela, consertei a cabeça, vesti o melhor vestidinho que ela tinha… E dei. Ela se foi. Quem sabe para ser a filha de outra garota.

No meio daquelas crises graves de adolescência, eu me lembrava da minha filha. Queria tanto que tudo voltasse a ser como antes. Minha mãe percebeu, e, nas vésperas do meu aniversário de 15 anos, disse que ia me dar um presente especial. Quando vi a caixa grande, abri com a voracidade de uma criança. Segurei aquela boneca, que era igual a minha antiga filha, como quem quer segurar o tempo pra ele não passar. Tentei brincar um pouco com ela… Não dava mais. E foi então que a guardei dentro do armário. A salvo, como guardei a salvo as lembranças da minha vida de menina.

Hoje, vendo a Debinha ( minha afilhada ) brincar com a minha boneca, penso que é bom saber que certas coisas nunca mudarão. Meninas continuarão tendo suas filhas, amando-as, cuidando-as, aprendendo a amar um brinquedo pra depois aprender a amar uma pessoa. Por enquanto, estou apenas emprestando. Logo vou dar de presente pra Debinha uma boneca só dela. Porque a minha filha… Ah, eu só dou pra minha outra filha… Quando ela nascer.

Debinha Leve.JPG

29 Comments »


ENCONTROS E DESPEDIDAS – EDIÇÃO 2004

Cats: Sobre Pessoas

Sun - 05 Dec 2004 - 10:58 AM

bebesp.jpg

O ano passado, mais ou menos por essa época, escrevi um post falando sobre essa coisa de encontrar e despedir. Falo dos meus alunos. E este ano, me vejo de novo com a mesma pontinha de angústia… E a mesma pontinha de felicidade.

Li o que tinha escrito e vejo que é exatamente o que sinto hoje. Então, vou colocar aqui novamente. Só muda a segunda parte, onde ficam as pérolas ditas pelos bebês deste ano… E as fotos. :-)

***

bebessp.jpg

25 crianças de 3 a 6 anos de manhã… Mais 35 à tarde. Pra cuidar deles na sala, só eu e Deus, e os 5 anjos da guarda que cada um deve ter. Sim, porque criança pequena tem uma pá de anjos da guarda. Afinal, eles fazem as maiores loucuras e vão e voltam inteiros todos os dias, salvo um ou outro galinho na cabeça, pé torcido ou braço quebrado. Nas condições mais complicadas, eles conseguem se divertir. Digo isso com muito respeito. Uma das escolas em que trabalho é de latinha, aquelas, que nada mais são do que barracões de zinco onde o governo municipal literalmente depositou crianças e professores. E ainda assim, eles estão lá, sorrindo, brincando, aprendendo. E vão dividindo essa alegria de viver conosco, pobres, velhas, desvalorizadas e cansadas professoras de educação infantil.

Infelizmente, muita gente não saca que, trabalhando com crianças, dá pra colecionar gotinhas de sabedoria, carinho e felicidade todos os dias. Mesmo nos primeiros dias quando eles choram desesperados querendo ir embora, ou mesmo nos dias em que eu estou tão esgotada de cansaço que não consigo mais sequer olhar pra eles direito. Eles são fofos mesmo quando são irritantes.

Difícil essas coisas da vida. Eles chegam tão bebês. Não sabem pegar no lápis, ir ao banheiro sozinhos, não sabem tirar a blusa quando faz calor, falar o que pensam e sentem. Sofrem demais com essa coisa de ter que ir pra um lugar desconhecido, sem nenhuma pessoa familiar por perto, só porque os adultos decidiram que é bom pra eles. Choram, esperneiam, se descabelam. E aos pouquinhos vão aprendendo que tem hora pra tudo. Aprendendo a amarrar o cadarço do tênis. Aprendendo a se defender dos outros. Que por mais que demore, a hora de ir pra casa sempre vem. Vão aprendendo a contar o que pensam. A negociar. Aprendendo a conviver com os nãos, com o preconceito, com os pontos de vista diferentes. Aprendendo que é importante saber quem se é, importante saber brincar e se divertir, importante se superar. Chegam batendo na altura da minha cintura, me olhando desconfiados, com raiva ou com medo. E saem batendo na altura do meu colo, sorrindo, correndo, pulando que nem cabritos e berrando sem parar, alegres da vida, cheio de amigos e planos pro futuro. E tenho que deixar eles irem, só pra começar tudo de novo. Muito difícil essas coisas da vida. Na teoria funciona bem. Mas na prática, é complicado encontrar e separar, pra eles e pra mim.

***

“- O médico disse que eu tenho que fazer regime.
- Ah é? E o que você tem que comer pra fazer regime?
- Ah… Chocolate, pizza, feijoada, pipoca, bolo…
- Uai, que raio de regime é esse? Não tem que comer salada, cenoura, abobrinha?
- Não! O regime é meu, oras, eu como o que eu quiser. “


“( Eu, bravíssima. ) – Já que você gosta de ser tão engraçadinho, eu vou te colocar no berçário de castigo. Anda, pode vir que eu vou te levar lá JÁ.
( Começa a chorar e espernear ) – Não, eu não quero irrrrrrrrr!!!!!
- Não quero saber, você vai e pronto.
( Chora desesperado, quando vem um amigo e o abraça com força. )
- Calma! Olha, ela vai levar você, mas depois ela traz de volta! Olha só, eu fui e voltei! Seja forte! Não chora! Obedece ela!
( O condenado continua chorando desesperado, eu quase não estou aguentando de vontade de rir, quando o amigo vem e me diz, com cara de mártir: )
- Prô, ele está muito abalado. Posso ir no lugar dele? “

bichinhosdelap.jpg

“- Posso ir brincar?
- Não, você vai ficar aí sentado mais um pouco pra pensar no que você fez. Onde já se viu, morder o amigo, empurrar ele na areia? Que horrível. Isso não se faz.
- Mas prô, deixa eu ir… Por favor.
- Não.
- Eu não vou fazer mais.
- Você sempre diz isso. Não acredito mais. Pode ficar aí. E eu vou contar tudo pros seus pais.
( Chega o agredido, senta no meu colo e diz: )
- Deixa ele ir brincar, prô?
- Não, ele vai ficar aí… Ele machucou você. Olha só, ficou roxo.
- Mas não tá doendo mais.
- Não?!
- Quer dizer, tá doendo… Mas tá doendo pra ele ficar aí também, né?”

“- Prô linda, você fica tão bonita de cor de rosa… Parece uma Barbie, uma menina superpoderosa…
- Ah, muito obrigada! Fico feliz quando você me acha bonita, querida!
- Então pode ficar feliz sempre, porque eu acho você linda sempre… É que tem dias que eu esqueço de dizer. Mas você é linda todo dia, todo dia, todo dia.”


“- Toma, prô, uma cartinha de amor que eu escrevi pra você levar pro *****.
( Abro a cartinha, e está escrito, “*****, a minha prô adora você”, e um desenho de um casal dando as mãos, cheio de corações em volta. )
- Linda a sua carta, querida, obrigada, mas eu não tenho mais nada com o *****.
- Puxa, prô, você troca muito de namorado!
( Fico vermelha. ) – Ah, não é isso… É que se não dá certo com um, a gente tem que tentar de novo, né?
- E por que não dá certo com um?
- Porque às vezes, por mais que você goste da pessoa… Algo acontece e dá tudo errado.
- Nossa, que complicado, se gosta, porque acontece algo errado?
- Não sei… Só sei que às vezes as pessoas não conseguem mesmo ficar juntas, ou ficam juntas mesmo sem estarem felizes… O que é mais triste ainda.
- É, pensando bem… Você tá certa. Pode namorar quantos namorados precisar, mas tem que ficar feliz. Não faz mal, eu faço outra cartinha.”

“- Escuta, menino, porque você tem mania de me chamar me beliscando? Puxa, custa chamar pelo nome?
- Ah, prô, é que eu gosto de apertar você… ( Abraçando minha coxa ) Você é tão fofinha!”

“- A professora nova é feia.
- Mas você ainda nem sabe quem vai ser sua professora nova! E se ela for mais bonita que eu?
- Ninguém é mais bonita que você.”

“- Então o ano que vem eu vou pra primeira série?
- Vai…
- Eu tô com medo, sabe, Karina…
- Sei… Entendo o seu medo. Mas vai dar tudo certo… Além do quê… Você ainda vai passar por isso muitas vezes na vida… E vai perceber que no começo é difícil, mas depois fica legal.
- Eu queria ficar.
- E eu queria que você ficasse… Mas você vai. E vai dar tudo certo.
- Eu volto pra te visitar, tá?
- Você vai esquecer de voltar.
- Não vou… Se eu esquecer, você me lembra. Tá?
- Tá.”

bebesssp.jpg

27 Comments »


IDENTIDADE

Cats: Sobre Pessoas

Sun - 21 Nov 2004 - 12:04 PM

Essas são algumas coisas bestas e esquisitas a saber sobre mim.

* Não deixe uma caneta barata ou um lápis de escrever na minha mão: eu mordo, mordo, mordo até detonar.
* Segundo minha cabeleireira e eu mesma, tenho apenas 4 fios de cabelo branco misturados nos meus trilhares de fios negros ( meu cabelo não tem nenhum tipo de química ).
* Eu falo sozinha. Muito. E falo dormindo também. Pode conversar e perguntar o que quiser saber de mim durante o meu sono, que eu conto e nem vou lembrar que contei no dia seguinte.
* Adoro salada de tomate, especialmente o caldinho que fica depois no prato.
* Não gosto muito de ler, principalmente livros difíceis e longos, mas adoro comprar livros.
* Já perdi 7 óculos num período de 4 anos – e foi aí que resolvi usar lentes de contato.
* Odeio ir ao médico, só vou quando estou morrendo.
* Não sou fotogênica.
* Esqueço datas de aniversário. Teve um ano que até o meu eu esqueci.
* Nas minhas impressões digitais dos dedos, tenho dois arcos.
* Sou desligada e sossegada na maior parte do tempo. Ansiedade é um mal que raramente me ataca.
* Não tomo café, de jeito nenhum. Nem pra agradar sogra.
* Não tenho orelha furada. E não uso colar, nem blusa de gola alta. Me dá aflição algo pegando no meu pescoço, a não ser em situações MUITO específicas. Hehe.
* Eu mesma faço minhas unhas da mão, e não tenho paciência pra ficar muito tempo no salão de beleza.
* Meu pai se chamava Pedro Álvares Cabral.
* Meu ovo frito tem que ter gema dura.
* Quando fico apaixonada, perco completamente a concentração pra maioria das coisas.
* Um dos meus esportes favoritos é comprar lingerie, de várias corezinhas e modelos.
* A esmagadora maioria dos homens que já beijei na vida tinham nomes que começavam pela letra A.
* Sou enjoada pra sucos. Gosto de poucos sabores.
* Não sinto frio nos pés, durmo com eles pra fora do edredon.
* Desde que roubaram meu rádio do carro, eu uso um radinho de pilha pra me fazer companhia no trânsito.
* Morro de rir assistindo o Chaves, e vejo novela mexicana. Sem nenhum tipo de culpa.
* Escuto o “Love Songs”, da Rádio Sucesso, antes de dormir.
* Meus relógios estão sempre adiantados 5 minutos. E o meu despertador toca vinte minutos antes do meu horário de acordar. Uso esse tempinho só pra mim.
* Adoro dar uns amassos no carro.
* Tenho medo de tobogã.
* Tenho vários cds considerados bregas, incluindo Chitãozinho e Xororó, Fábio Jr e SPC. E de vez em quando, escuto.
* O filme da Disney que mais gosto é “A Bela e a Fera”. Em segundo lugar está “A Pequena Sereia”.
* Cheiro de incenso me dá uma vontade incontrolável de espirrar.
* Sou curiosa e discreta em proporções torturantemente iguais.
* Pelo menos uma vez enquanto estou mordendo um chocolate ou algo que estou achando muito gostoso, eu fecho os olhos.
* Amo quando chega o frio e posso usar touca.
* Não tenho ( mais ) animais domésticos.
* Quando estou sozinha e dadas certas margens de segurança, gosto de dirigir rápido, muito rápido.
* Apenas uma pequena parte dos meus dentes é permanente. Não caíram os meus dentes de leite, estão aqui até hoje.
* Adoro quando o moço beija e suspira perto da minha orelha.
* Quando fico irritada, fico quieta, mordo os lábios e viro os olhos pra cima.
* Fico extremamente triste no natal.
* Faço tricô, crochê, bordado e tapeçaria.
* E ao contrário da Mafalda original, adoro sopa. Nham.

É, ao mesmo tempo, assustador e delicioso pensar na infinidade de detalhes que faz uma pessoa ser como é, ser diferente das outras. Religião, time de futebol, opinião sobre a ALCA, profissão, estado civil, tipo físico, todas essas coisas são importantes e fundamentais pra saber algo de alguém. Mas é nos detalhes, nas pequenas coisas, que a especialidade se dá. É no jeito de mexer no cabelo, de piscar os olhos, de sorrir, de enrolar a língua, de fazer careta… E nas pequenas manias, nos pequenos trejeitos, nas pequenas falas do dia-a-dia, nos pequenos gestos para consigo e para com os outros que a imagem de uma pessoa se forma. E, quase tão legal quanto conhecer alguém, é se deixar conhecer a fundo, nesses detalhes.

Bem, tudo isso é pra dizer que parte das mudanças do blog é eu começar a assinar os posts com o meu nome, Karina. O nome do blog permanece, assim como a minha paixão pela Mafaldinha do Quino. Mas vou me sentir melhor se ver o meu nome assinado embaixo de impressões escritas tão pessoais como as que tenho dividido com vocês aqui neste espaço durante todo esse tempo. Prazer em conhecer… E ser (re) conhecida. :-)

42 Comments »
Posts | Comments | RDF | Atom | Valid XHTML | CSS | Log in