Entrelinhas do Cotidiano





RAINING…

Cats: Entrelinhas do Cotidiano, Listas!, Sobre Cultura e Arte

Sat - 06 Feb 2010 - 06:26 PM

Minha natureza interior sempre adorou água. Em meus sonhos, lagoas, mares, poças, rios, cachoeiras, banheiras, bicas, torneiras… E chuva, muita chuva. Tudo isso sempre me ensina muito sobre o que estou sentindo. Aprendi que água é símbolo de emoção. As minhas, sempre tão represadas, se soltam em meus delírios oníricos noturnos, me lavando por dentro.

Chuva fininha é melancólica, porque normalmente é gelada, constante, pouco agressiva e sem hora pra acabar. Chuva de granizo é forte e destruidora, deixa a gente espantado com a força da natureza. Cheiro de chuva no asfalto é meio sufocante, cheiro de chuva na terra é gostoso e revitalizante, provoca um sentimento diferente. Chuva de verão é grossa, rápida, passageira, refrescante e dá a impressão que lava tudo com ela, que leva tudo com a enxurrada. Chuva com raios e trovões dá medo por fazer tremer a terra, insistindo em chamar a atenção. E chuva normal, batendo no vidro da janela, acaba fazendo a gente pensar na vida, essa vida estranha e encantadora. Eu tinha esquecido como é bom sair andando debaixo de chuva, sentindo a água massagerar a cabeça, cair nos ombros, encharcar a roupa.

Já são quase 50 dias seguidos de chuva aqui. Impossível ignorá-la. Resta aceitá-la e saboreá-la conforme for possível.

Canções que coloquei no meu “CD para curtir os finais de tarde em São Paulo”.

“Santa Chuva”, Marcelo Camelo


“The Rain”, Roxette.

“Medo da Chuva”, Raul Seixas

“Rain”, Madonna

“Lágrimas e Chuva”, Léo Jaime

“The Rhythm of the Rain”, The Cascades

“Deixa Chover”, Guilherme Arantes

“Raindrops”, B.J. Thomas

“Chuvas de Verão”, Caetano Veloso

“Crying in the Rain”, A-Ha

“Quando Chove”, Patricia Marx

“Have you Ever Seen the Rain?”, Creedence Clearwater Revivel

“Águas de Março”, Tom Jobim e Elis Regina

“Rainy Day”, 10,000 Maniacs

“A Tempestade”, Zelia Duncan e Lenine

“Pray for Rain”, Massive Attack

“Chove Chuva”, Jorge Ben Jor

“It´s Raining Again”, Supertramp

“Primeiros Erros”, Capital Inicial e Kiko Zambianchi

“Remember When it Rained”, Josh Groban

“Será que Vai Chover?” Paralamas do Sucesso

E você, qual é a trilha sonora da sua chuva? ;-)

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CONTO DE ANO NOVO

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Sat - 26 Dec 2009 - 07:52 PM

Uma vez escrevi esse conto para o Focando, a convite do queridíssimo Arquimimo Novaes. Agora, época de pensar no tempo que passou e no tempo que virá, lembrei dele e aí está.

Para 2010, não vou escrever cartas de intenções, nem textos que falem sobre os meus sonhos, ou o que eu espero da vida, não vou fazer listas e longas reflexões sobre minhas expectativas. Não tenho esperado nada e nem construído sonhos, é assim a minha vida nesse momento, um tanto amarga, é verdade… Mas pouco ansiosa. Falta-me esperança, sobra-me apatia.

Por isso, para 2010, apenas peço que a vida me surpreenda… Positivamente.

Feliz 2010 pra vocês, queridos e queridas!

CONTO DE ANO NOVO

Então era ele. Com suas longas barbas brancas, suas vestes brilhantes, seus olhos apertados. Fazia o seu trabalho, como sempre havia feito, momento a momento, sem falhar. Observava tudo e todos, desde sempre; e freqüentemente não gostava do que via. Às vezes pensava que tantas passagens e sua barba tão longa o haviam deixado mal humorado e ranzinza. Nada no mundo parecia agradar-lhe. Principalmente as pessoas.
As pessoas costumavam ignorá-lo no início de suas vidas, pensar que eram suas donas durante a mocidade e amaldiçoá-lo quando envelheciam, pensando nele cada vez mais, conforme se aproximavam da Morte. Achavam que era ele o culpado de tirar o viço e o encanto de tudo que amavam, inclusive delas mesmas. O Tempo sentia-se injustiçado. Não era verdade. As coisas e pessoas perdiam o encanto por si mesmas, e isso porque tinham uma insuportável mania de novidade. Ele mesmo não era novo, e nunca mais seria, e ainda assim era o Tempo, capaz de construir e destruir coisas e destinos apenas pelo fato de existir. Ninguém havia resistido a ele, nunca. As pessoas eram pouco sábias e volúveis, era o que ele achava. Ele, o grande incompreendido, era apenas implacável e eficiente, fazendo o que precisava fazer, brilhantemente e sem erros.
O Tempo, enquanto fazia o seu trabalho, divertia-se observando as pessoas e as maneiras que elas acharam para controlá-lo. Em todos os povos e culturas, desde que tinham começado a habitar o mundo, as pessoas, em algum momento, paravam para pensar nele. Ao longo dos anos, enquanto suas barbas cresceram e embranqueceram, ele riu dos instrumentos inúteis que criaram na tentativa de compreendê-lo, de retê-lo, de segurá-lo. Palavras, relógios, remédios, cirurgias plásticas, nada adiantava. Sem perceberem, as pessoas tornavam-se suas escravas, e ele, o senhor. Ele preferia as plantas e pedras, o céu e as estrelas, que não foram dotados de pensamento. As pessoas o questionavam demais. E o Tempo se irritava, pois nada podia fazer. De sua dor, ninguém se lembrava.
Sua velhice eterna lhe conferia poderes, mas também obrigações. Uma delas, a de ser sábio e imparcial. Não podia conceder benefícios, não podia ser emocional, não podia fazer nada que manchasse sua reputação de Tempo. Era ele quem tinha que ouvir os pedidos das pessoas que, inutilmente, rogavam que ele passasse mais lentamente, ou mais depressa, ou que durasse um pouco mais, ou que finalizasse logo. Não atendia a ninguém. Passava sempre do mesmo jeito, não importava a situação. E, enquanto passava, arrastava tudo com ele. Por isso, por toda essa força, desde o começo, coube ao Tempo a tarefa mais difícil de todas – girar o mundo em seu próprio eixo, sempre no mesmo ritmo.
O Tempo começou a aborrecer-se. E cansar-se. Aquela grande bola que era o mundo parecia pesada demais. Ele cansou de ouvir as pessoas, de ser odiado por elas. Ressentiu-se por elas não reconhecerem o seu valor, de não entenderem que, se ele lhes roubava o curto tempo da felicidade, também era por ele que o tempo da tristeza e da dor terminavam. Cansou-se do passar, da rotina, da sabedoria, de tudo. Já não aguentava mais ver as mesmas histórias, sempre do mesmo jeito – homens, plantas, estrelas, animais, todos nascendo, crescendo, vivendo, cometendo os mesmos velhos erros, e depois morrendo. Seus olhos apertaram-se ao olhar o firmamento, tal como ele, sempre igual. E o Tempo quis parar. E parou.
Enquanto parou, tudo parou com ele. Por alguns momentos, ouviu o silêncio universal e imemorial, e dormiu. Dormiu como há tempos queria fazer, e nunca tinha conseguido. Dormiu profundamente, sono acumulado, ruidoso, sono de velho, sono solitário como todos os sonos. E enquanto dormiu, o Tempo teve um sonho, o mais forte de todos os sonhos.
E o sonho era assim: ele, o Tempo, finalmente morria. Morria sem descendentes, já que nunca esteve apaixonado, nem teve filhos. E rapidamente a notícia se espalhou pelo universo. Por um tempo, todos ficaram chocados. Depois, alguns se sentiram felizes. O Tempo morto, não havia mais compromissos, nem passagens, nem correria, nem mortalidade. Mas, logo todos se sentiram órfãos. Sem o Tempo, nada andava, nada crescia, tudo parava, menos as pessoas e suas angústias.E, tristes, todos foram até o velório do Tempo, chorar por ele.
Em seu velório, todos se perguntavam quem seria capaz de girar o grande globo, e logo todos estavam desesperados, pois não havia ninguém tão forte, nem tão sábio, nem tão poderoso, nem tão imparcial quanto o Tempo para assumir o seu lugar. E foi então que acharam de perguntar, enfim, do que morrera o Tempo. Quem sabe, sabendo a razão de sua morte, poderiam ressuscitá-lo. Examinaram o Tempo, reviram-no, fizeram autópsias das mais diferentes naturezas. E nada encontraram, nenhuma mancha, nenhum sinal, nenhuma agressão ou esquisitice que configurasse a causa da morte do Tempo. Era fato – o Tempo morreu de velhice. Foi vencido pelo único que podia aniquilá-lo – ele mesmo.
Então, quando todos estavam desolados, chegou a Esperança. Ela, toda de negro, doente, triste, aproximou-se do Tempo, e chorou. Ela sempre fora apaixonada por ele, o amava profundamente em silêncio, ela, que era sempre jovem, bela e desejada…E agora, com a morte de seu amado, não tinha mais motivos para viver. E ali, ao lado do Tempo, começou a definhar.
Então Alguém decidiu que o Tempo merecia uma outra chance, pelo bem de todos. E ele foi tocado, e seu sopro de vida restaurado. O Tempo acordou só para dizer que não queria mais viver. Estava velho, e triste, e cansado, e agora era amante da Morte. Queria apenas ficar como estava. Os lamentos foram muitos, e altos, e ensurdecedores. Como o Tempo podia querer morrer? Não tinha esse direito. O impasse estava criado.
O mesmo Alguém voltou e fez uma proposta ao Tempo. Ele seria, de períodos em períodos, transformado em menino, e assim ganharia novo vigor e força para girar o mundo. E assim, seria novamente jovem, e depois maduro, e depois velho, e quando ele se sentisse novamente velho, voltaria a ser menino, para recomeçar o ciclo. Em troca, ele prometeria não deixar de fazer o seu trabalho, e ainda olhar para a dor e a felicidade das pessoas com olhos mais amorosos. O mesmo Alguém também prometeu que daria às pessoas a capacidade de contar o Tempo, e, assim, a oportunidade de pensar sobre ele com sabedoria e carinho. Daria também a algumas delas discernimento e juventude de alma, para que espalhassem aos outros, e assim, quem sabe, parariam de culpá-lo e sobrecarregá-lo sobre tudo que deixaram de fazer ou fizeram errado. Daria às pessoas a consciência e a liberdade de fazer seus dias felizes, e de recomeçarem, caso algo desse errado. Ao aceitar a proposta, o Tempo voltou a ser menino. E foi quando o Tempo acordou.
Acordou sentindo-se jovem. Desde então, as pessoas inventaram calendários, folhinhas, marcações, relógios, cronômetros. E inventaram o ano, porque algo mágico ocorria de períodos em períodos. O Tempo, quando via que as pessoas estavam cansadas e sobrecarregadas, aproveitava para dormir um pouco e sonhar novamente aquele sonho, acordando mais jovem na alma, até se cansar novamente e recomeçar. Junto com ele vinham todos os seres, que ficavam mais velhos, mas tinham a impressão de não estar. Para isso, pediu ajuda de Esperança, que ficou felicíssima. Há quem jure que eles passam juntos a noite da virada do ano fazendo amor apaixonadamente. O Tempo, hoje, é um senhor amável, sem deixar de ser imparcial, sábio e competente. E, apesar de girar o mundo sempre e sempre, desde que o Tempo sonhou com a sua morte e sua vida, dá a si mesmo e às pessoas a chance de recomeçar, a cada início de ano.

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NO ESPELHO

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Tue - 27 Oct 2009 - 06:41 PM



Se você é “moreninha” ou “queimadinha” como eu, deve ter se perguntado muitas vezes, ainda que inconscientemente, por que tinha que ter como filha uma bonequinha loirinha de olhos azuis quando criança, ou por que o lápis “cor de pele” é roseado se a pele de uma pessoa pode ser de tantas cores, ou por que na televisão e nas revistas tem pouca gente negra, ou por que as pessoas têm medo de dizer “negro” e ficam arrumando apelidinhos para se referir ao tom de pele escuro. Talvez você, se for “bem morena” como eu, tenha antepassados africanos e indígenas em sua família, mas, como a esmagadora maioria dos brasileiros, carregue apenas sobrenomes de origem européia. E talvez você não tenha se dado conta, se for “escurinho” como eu, que teve, a vida toda, que ouvir coisas como “ela é preta mas é super honesta”, “futebol e samba é coisa de negão”, “você está denegrindo a minha imagem”, ou “só podia ser preto mesmo”. E talvez você não tenha reparado, mas nos seus livros da escola os desenhos de pessoas eram sempre de pessoas brancas, as histórias contadas sempre eram as da cultura européia, a Geografia e a História quase nunca passaram pela África, e as contribuições dos africanos e índios para a cultura brasileira mal passaram de notas de rodapé ou meras menções nas aulas oficiais. E se foi assim com você, talvez no espelho você não queira muito ver como a sua pele “moreninha” é linda só por ser como é.

Se você é “mulherzinha” como eu, deve ter se perguntado muitas vezes por que o jeito racional e prático dos homens parece sempre tão melhor do que o seu jeito sentimental e intuitivo de ver o mundo, ou por que você tinha que ser sempre tão comportada e se conter pra não parecer vulgar e oferecida, ou por que você deve aceitar ser tratada como um pedaço de carne rebolante quando anda na rua com uma roupa mais decotada ou mais justinha, ou por que você deve gostar de coisinhas rosas e delicadas mesmo que elas não te agradem, ou por que deve achar graça de piadinhas que ouve no trânsito sobre sua capacidade de dirigir quando comete erros que qualquer homem cometeria. Pode ser que você, por ser mulher, muitas vezes tenha aceitado o controle dos homens sobre seu dinheiro, seu comportamento ou suas vontades, não por consenso, mas por obrigação, e muitas vezes tenha usado seu poder de sedução para conseguir o que não conseguiu por meio da discussão de idéias. Talvez você se pergunte por que as mulheres, para serem vencedoras em funções tradicionalmente masculinas, tenham que negar seus traços femininos, e tenham que batalhar o dobro para conseguir a metade. Talvez tenham te ensinado que não é bom questionar por que você tinha que lavar mais louça e esperar ser cortejada, ou tenham te ensinado que mulher direita não deve gostar muito de sexo pra não parecer vagabunda, e que precisa aceitar traição de homem porque “eles são assim mesmo”. Sendo “mulherzinha” como eu, pode ter muitas vezes reparado que homens ganham mais, são mais valorizados e estão comandando quase todas as instâncias de poder que controlam a vida das pessoas todos os dias. E sendo assim, no espelho, talvez não consiga ver beleza no seu jeito feminino e diferente de ser.

Se você é “remediada” como eu, pode ser que seus pais tenham se matado pra te dar o mínimo de educação de qualidade e condições pra você escolher seus caminhos, mas, na sua vida de “classe média”, você tenha sentido que certos lugares, roupas e sonhos não eram permitidos pra você, ou que na universidade pública você era uma minoria desclassificada, que o seu carro popular não merecia um lugar tão decente no estacionamento quanto aquele outro importado, ou que suas escolhas de diversão, cultura, viagem, moradia, estudo, trabalho e até afetividade sempre estiveram limitadas por quanto o seu dinheiro pode ou não pode comprar, e ao se olhar no espelho… Se ache menor do que realmente é.

Se você é “fofinha” como eu, deve achar estranho ver muita gente como você na rua, mas pouquíssima gente como você na televisão e no cinema, a não ser pra fazer papel de palhaço. E se é “cheinha”, deve ficar se perguntando por que é frequentemente pisoteada pela mídia, por que as pessoas parecem ter raiva quando você opta por gostar de você como é, não fazer sempre dieta e não se proibir de dançar, namorar, transar de luz acesa ou usar biquini na praia, ou talvez se sinta agredida quando os médicos tratam uma característica do seu corpo como puro desleixo, te tratando aos pontapés. Talvez você não entenda por que tanta gente estranha quando você aparece namorando um homem lindo e inteligente, afinal de contas, se ele é assim, tão lindo, poderia estar com qualquer outra mulher mais dentro dos padrões, e não com você, que não o merece. E você, ao se olhar no espelho, talvez ache que não deva ver beleza nenhuma, sem entender que a beleza está muito mais no que se faz mistério do que no que se faz revelado.

E se você for oriental, homossexual, feio, deficiente, nordestino, imigrante, pobre, velho, adolescente, se tiver uma religião, uma profissão, um gosto, uma opinião, um jeito de ser ou de viver diferente da maioria ou do que nos ensinaram ser aceitável, talvez tenha muitas coisas mais pra contar ou pra reparar quando se olha no espelho. Afinal de contas, as pessoas gostam de encaixes e padrões inatingíveis, e costumam humilhar, diminuir, decepar e desprezar aquilo que você tem de melhor, e que faz você ser quem é de verdade.

Preconceito é um atraso que se renova todos os dias muito mais na sutileza das idéias do que na força das ações. Por isso é tão importante que o seu espelho mostre exatamente quem você é, sem esconder nenhuma parte. E mais importante ainda é que você goste muito e tenha orgulho do que vê lá.

“Se o mundo é um lixo, eu não sou…”
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”
( Caetano Veloso )

ATUALIZAÇÃO – 28/10 – Falando em opressão, preconceito, atraso e estupidez humana, leia no Boteco Sujo o texto Polanskis do ABC, especialmente os comentários. É de virar o estômago de nojo, indignação e impotência. Dica do Inagaki.

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HÁ TANTAS PESSOAS ESPECIAIS…

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Wed - 16 Sep 2009 - 01:45 PM

Fui correndo pegar minha caixinha de cartas e cartões. É o que faço quando me bate essa angústia de ser só mais uma no mundo. É o que faço quando preciso ser perdoada por ser medíocre ou por estar errada nas coisas que sinto ou penso. É o que faço quando me vem a consciência de que não sou necessária aqui… Sou apenas participante. Como todos os outros.

Faço isso porque o carinho das pessoas, expresso em tinta de caneta borrada e papéis enfeitados, me faz sentir especial. Algumas pessoas me diziam isso nos cartões – ei, você é especial… Minha vida é diferente por sua causa. O namorado que escrevia cinco ou seis páginas por dia declarando o seu amor e me contando sobre seu cotidiano… A amiga que agradeceu a força em um momento difícil… O irmão que desejou felicidades no natal… O aluno que me garantiu que eu nunca seria esquecida… O professor que elogiou o escrito bem feito… A prima que louvou a minha vida no meu aniversário… O moço que alegou sentir minha falta todos os minutos do dia quando nos separamos… A desconhecida que garantiu que algo que eu disse mudou seu jeito de ver a vida. Pessoas tentando me convencer de que sou, sim, especial. De que tenho qualidades que ninguém mais tem. De que fui planejada e pensada de maneira única. Pessoas tentando me convencer de que precisam de mim e me amam por eu ser quem eu sou… Por ser marcante de alguma forma.

Onde estão todos os remetentes? Alguns não se foram… De outros nunca mais soube ou ouvi falar. Algumas palavras o tempo revelou serem verdadeiras. Outras viraram poeira ao serem sistematicamente amassadas no pilão do tempo. Peguei também coisas que escrevi para outros. Não quero nunca que nos afastemos. Não consigo imaginar minha vida sem você. Você é minha melhor amiga. Te amo como nunca vou amar ninguém. Você deixa um buraco quando se vai. Eu, entregando meu coração, derramada em declarações de amor, amizade e carinho. E no entanto, a vida seguiu sem eles, apesar deles, distante deles. E eu continuo aqui. Só como sempre fui e sempre serei. Como somos todos.

É porque a vida é assim mesmo. Ela segue. Ela vai. Ela leva. Ela empurra. E tudo que parece tão importante fica pequeno, porque, no fundo, a pequenez está em nós. Mesmo os grandes homens e mulheres, mesmo os poetas mais sensíveis, os gênios mais inteligentes, os aventureiros mais corajosos, as pessoas mais importantes… Mesmo esses com o tempo viram só uma lembrança distante. Como um quadro que você põe na parede e se acostuma a olhar. O impacto da primeira vista se apaga com o tempo, tudo fica gasto e amarelo, desbotado e sem graça.

De vez em quando a gente tenta se convencer do contrário. Tenta achar que a lua está no céu só pra enfeitar a sua noite. Que alguém sorriu só porque lembrou de você. Que alguém te ama tanto que seria capaz de abrir mão de qualquer coisa para te fazer feliz. Tenta se convencer de que o mundo estende um tapete colorido só pra você passar. De que seu amor é tão forte e mágico que pode salvar alguém de si mesmo. Tenta acreditar que naquele quesito, naquela partezinha, naquele particular, naquele pedacinho bem específico… A gente é realmente diferente e especial. De vez em quando, a gente tenta se convencer de que, pelos próprios méritos, merece o amor das pessoas. E então se dá conta de que, se amor fosse por merecimento, ninguém seria amado. E fica com aquela falta de jeito enroscada dentro, apertando o coração.

Sempre vai ter alguém melhor do que eu, mais especial do que eu. Sempre vai ter alguém com mais recursos, mais experiências, mais sabedoria, mais beleza, que faça melhor aquilo que eu acho que sei fazer tão bem. Sempre vai ter alguém que mereça mais, que faça mais, que seja mais legal e mais capacitado. Talvez em nenhum lugar eu possa ser especial. Talvez não haja lugar especial pra mim. Nem mesmo no coração daqueles a quem eu amo… E que eu não duvido, me amam também. Mas porque precisam me amar. Não porque sou eu.

O amor dos outros nos dá essa ilusão… A de que somos importantes. Ao ler os cartões e cartinhas, é assim que eu me sinto. Especial e importante. Mas se eu não existisse, eles amariam outros e outras. Porque no fundo, é só uma troca. Amamos o outro porque queremos e precisamos ser amados. E fazemos isso frequentemente porque não somos capazes de amar a nós mesmos por quem somos. Fazemos assim porque não nos bastamos.

Tem dias que me sinto assim, alguém a mais. Lágrimas a mais. Sorrisos a mais. Palavras a mais. Sentimentos a mais. Tudo aquilo que me é tão caro parece tão insignificante diante da grandeza e da indiferença do mundo e da vida, que segue apesar das minhas dores. E nesses dias, nenhum cartão ou carta parece suficientemente bem escrito para que eu possa me sentir digna de merecê-lo.

Um olhar amoroso de alguém pode nos fazer sentir especiais por alguns momentos. Mas é só. Se alguém fosse especial em si mesmo, poderia abdicar da necessidade ridícula e infantil de ser querido, reconhecido e valorizado pelos outros. O mundo não existe por minha causa. E caminharia perfeitamente sem mim.

Dizer que todo mundo é especial é um outro jeito de dizer que ninguém é.

PS:. Patricia explicou melhor o que eu quis dizer.

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33

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Sat - 04 Jul 2009 - 07:58 AM

Tive ótimos professores na vida. Tanto que quis me tornar uma professora também.

Com a professora de História Geral aprendi que Alexandre, O Grande, aos 33 anos governava um império conquistado quarenta vezes maior do que aquele que herdou de seu pai – morreu de uma febre besta, com os mesmos 33. Aos 33 anos, Jesus Cristo mudou a história da humanidade quando foi morto covardemente enquanto revolucionava o jeito de ser e pensar de um povo, foi o que disse a professora da escola dominical. Tive um excelente professor de anatomia na faculdade. Excelente mesmo. E foi ele quem me ensinou que a coluna de um ser humano é composta de 33 vértebras.

Ontem, meu último dia na casa dos 32 anos, estava pensando que precisei de 33 anos da minha vida para compor a minha coluna emocional. Passo a passo eu a fui montando. A cada desafio de cada idade, a gente aprende uma coisa diferente. E até aqui eu me sentia uma menina em crescimento. Hoje, me sinto pessoa. Só isso, pessoa. Não pessoa perfeita ( e talvez por isso eu tenha que viver muitos e muitos anos mais ), mas pessoa inteira, uma pessoa que consegue ficar de pé e olhar para a frente. E fiquei pensando na relatividade de todas as idéias que tive nos meus 32 aniversários até aqui. Na hora de apagar as velinhas, simbólicas ou reais, a cada ano eu desejei coisas diferentes. Cada época da vida coisas nos são dadas, coisas nos são tiradas e tantas outras coisas queremos. “Cada idade tem seu prazer e sua dor, e é preciso deixar que eles escorram entre nós” – é o que dizia aquele poema do Victor Hugo.

Provavelmente, no meu primeiro aniversário, tudo que eu queria era um pouco de leite e colo dos meus pais. Lá pelo quinto, eu queria todos os brinquedos do mundo. Lá pelo décimo, eu queria ser popular e querida pelos amigos. Pelo décimo quinto, eu queria conhecer um príncipe encantado. No meu décimo oitavo aniversário, na hora das velas, eu devo ter feito um pedido para que eu pudesse mudar o mundo todo com minhas boas intenções e minhas idéias revolucionárias. No vigésimo primeiro, eu queria ser a melhor professora e psicóloga do mundo. No vigésimo terceiro, eu estava sonhando em casar com o meu príncipe encantado. No vigésimo quinto, eu achei meu primeiro cabelo branco e queria continuar gostando de mim mais do que de qualquer outra pessoa. No vigésimo sétimo, eu queria mais é ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar. No vigésimo nono eu só queria trabalhar um pouco menos e continuar tendo sonhos. No trigésimo segundo, eu queria uma vida simples e tranquila, casadinha com meu noivo, cheia de filhinhos.

Hoje, com 33, a vida parece diferente para mim. Há coisas que naturalmente e tranquilamente ficaram muito, muito claras. Não vou mudar o mundo, mas posso fazer pequenas coisas que afetam pessoas ao meu redor. Meus pais não são heróis, mas posso amá-los como pessoas dedicadas que me ajudaram a me tornar quem sou. Os amigos que cruzaram comigo ao longo da vida são as compensações que ganhei para todas as grandes dores que tive que passar, e a eles sou grata por não ter me perdido em mim mesma e por não ter enlouquecido. Se vive um dia de cada vez. Se trabalha para conseguir dinheiro, mas também satisfação. Não devo abrir minha boca, a não ser que seja para melhorar o silêncio. Deus não é meu servo, mas pode ser meu amigo. O amor por um homem pode ser vivido de múltiplas ( e válidas ) formas. Ninguém deve se apoiar e nem se importar com nada que o tempo possa mudar, porque a mudança é a natureza da vida. E principalmente, a mais dura e deliciosa de todas as coisas – a gente é quem é e quem pode ser; vamos agradar alguns, desagradar outros, mas é assim que será… Seremos sempre únicos, especiais, imperfeitos e sós nessa caminhada.

Aos 33 anos, eu sei que posso fazer muitas coisas, se quiser; que não posso fazer tantas outras, mesmo se insistir; que as pessoas se encontram e se afastam; que os sonhos se renovam e se gastam. E depois de tanto amor, tanta raiva, tanta dor, tanta saudade, tantos prêmios e tantas rasteiras, a vida é assim mesmo – luta e sonho.

Hoje, na hora das velinhas, só peço isso – para ser capaz de continuar de pé, com minha coluna de 33 vértebras, olhando para a frente. Eu continuarei sendo assim, aprendiz eterna do tempo e do mundo. O que passou, passou. E o que há de vir, virá.

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Srta. Esperança

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Wed - 17 Jun 2009 - 03:18 PM

Adolescente belíssima e suave, assim é Srta. Esperança. Fala baixo e docemente, tem sorriso discreto, quase imperceptível. Sua pele extremamente branca, quase transparente, seus olhos de verde puro e seus gestos delicados escondem uma personalidade convicta, idealista e decidida, mas que prefere antes a constância e o silêncio aos grandes escândalos inflamados.

Vive doentinha, a pobre Srta. Esperança. De saúde frágil, não pode achar um vento mais forte, um vírus desconhecido, um pedaço de bolo com glacê levemente azedo e pronto, lá está ela, acamada, intoxicada, constipada, gripada, deprimida, pneumônica, à beira da morte. Nunca sofreu de mal crônico, mas sim de crises agudas de dor e sofrimento. Quando doente, não gosta de ser tratada por médico algum; cura-se sozinha. E quando, no leito, todos pensam que ela não resistirá… Levanta-se ágil e continua seu caminho.

Ao contrário de tantas outras moças exuberantes, Srta. Esperança não chama atenção ao entrar em um lugar. Não usa tons fortes, nem maquiagem, nem decote. Não tenta seduzir e não tem novidades para contar a ninguém. Caminha devagar e sorrateira pelos cantos, não chamando quase nenhuma atenção para si. Mas é verdade que Srta. Esperança nunca falta a um compromisso – comparece sempre que é chamada a todos os bailes, nascimentos, batizados, aniversários, casamentos, formaturas, cerimônias e velórios para os quais é chamada. Presença certa e flutuante. Nem sempre é a primeira a chegar, mas sempre é a última a sair.

Srta. Esperança vive sozinha, mas tem um irmão mais velho bastante sombrio, o Sr. Medo. Ele é traiçoeiro, atormentado, emotivo, e em seus olhos negros, sempre traz uma ameaça para a pobre moça, atacando-a sem piedade. Embora seja muito mais forte, ele se cansa muito rápido. Srta. Esperança não odeia o irmão, e frequentemente o convida para longas conversas, observando-o com compaixão e paciência, contendo-o com amor. E assim ela consegue calá-lo em seus surtos mais complicados.

As pessoas, embora fiquem encantadas com Srta. Esperança, frequentemente se irritam com seu jeito fugidio quando lhe pedem um conselho, ou quando algo dá errado. Não entendem que seu respirar já é um presente, e sempre querem mais. Ferozes e pouco sábias, as pessoas expulsam, afastam e ofendem Srta. Esperança. Os de coração corrompido se incomodam com sua existência, e não raro tentam atentar contra sua vida. Querem asfixiá-la, entorpecê-la, ludibriá-la, tramam contra ela. Mandam executores profissionais, torturadores, homicidas; tentam as guerras mais declaradas às lutas mais ocultas, dos truques mais sutis aos atentados mais bombásticos. Mas Srta. Esperança é esperta e rápida, escapa e vive. Pode ser fraquinha, mas é guerreira. E, no fim, com ela ninguém pode.

Srta. Esperança nunca namorou. Seu ar angelical, sua beleza exótica e sua doçura acabam ganhando, sem que ela queira, o coração de jovens como ela. Impetuosos e insistentes, eles tentam ganhá-la para si. Mas ela nem nota, e quando nota, não quer. Apenas um, um único, balança seu coração. E é por ele que ela suspira todos os dias.

Sr. Tempo, idoso, experiente e tranquilo, de fato é muito charmoso, forte e protetor. Ele percebe os olhares apaixonados de Srta. Esperança quando passa, aqueles olhos verdes profundos suplicando um olhar correspondido. Mas sabe que tamanha paixão, embora o envaideça, jamais poderia concretizar-se, pois perderiam-se um no outro facilmente. Por isso, Sr. Tempo mantém Srta. Esperança assim, afastada; sabe que ela está presa a ele, mas ainda sozinha e concentrada.

Quando Srta. Esperança senta-se à beira do lago, solitária, chorosa, pensativa, e ameaça perder o fio de realidade, tão absorta em si mesma, querendo mergulhar e se perder para sempre na imensidão azul… É o Sr. Tempo quem vem sentar-se ao lado dela, e espera, simplesmente espera, até que ela fale. E ela fala… Sobre seu cansaço, sua revolta, seus temores, suas doenças, seus males. Depois que Srta. Esperança desabafa no colo do Sr. Tempo, ele a beija ternamente. E ela renasce ali mesmo, pronta para ir em frente.

Srta. Esperança, tão jovem, tão bela, tão atacada, tão suave… É frágil, sim. Mas não morre.

( Este texto é da Valéria, que precisa de longas conversas com Srta. Esperança agora… Força, amiga. :-) )

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QUEM NÃO DESEJA

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Sun - 31 May 2009 - 09:10 PM

Eu, que tantas vezes já escrevi sobre o desejo, achei de reparar em quem não deseja.

Quem não deseja não está procurando nada, não está interessado em nada, não precisa estar perto de ninguém. Olha apenas para a frente, o mínimo necessário para dar alguns passos sem cair, sem pensar em direções, viagens, paisagens, caminhos, pessoas que estão no carro ao lado no trânsito parado. Quem não deseja simplesmente vive seu dia de um lado para outro, evitando ir além dos horizontes mínimos estabelecidos, evitando tomar parte dos acontecimentos.

Quem não deseja até sente fome, mas é capaz de andar corredores inteiros de um supermercado sem encontrar nada que apeteça. Pra matar a sede, água, vinho, refrigerante, ou suco são iguais. Sente sono, mas não pensa nada antes de dormir, nem sonha, nem lembra-se de nada importante ao acordar. Tomar banho, lavar louça, engraxar os sapatos, regar o jardim são apenas coisas para se fazer sem maiores pensamentos ou memórias.

Para quem não deseja, tanto faz vestir branco ou vermelho, tanto faz o listrado ou o estampado, o liso ou o rugoso, tanto faz estar sozinho ou acompanhado, tanto faz aparecer na foto ou não, tanto faz se é de dia ou de noite. Melhor é o morno, o insosso, o médio. Se alguém telefonar, atenda; se algo se quebrar, conserte; se não serve mais, jogue fora; se morreu, enterre; se foi embora, despeça-se. A vida de quem não deseja é resignada e imediata.

Quem não deseja não fica nervoso com o que não dá certo, não tem vontades incompreensíveis, não fala mais alto, não tem repentes, não espera um telefonema especial, não fica indignado com política, não torce por time nenhum. Quem não deseja não fica ansioso com grandes projetos e planos, não fica angustiado com falta de dinheiro, não sente borboletas voando dentro da barriga, não se arrepia com aquela voz, não vê os olhos brilharem por nenhum motivo em especial. Quem não deseja não quer causar polêmica, não quer chamar atenção, não quer nada além do trivial e programado.

Quem não deseja não tem música especial, não tem sabor de sorvete preferido, não vê por que sair em noite de calor, nem lembra que tem estrela e lua no céu. Quem não deseja não se embriaga, não faz oração pra nenhum deus, não se preocupa com o futuro – afinal, o futuro não vai ser muito diferente de hoje. Não chora, mas também não faz questão de sorrir. Não incomoda nem encanta ninguém. Não toma partido, não dá opinião, não defende nem ataca. Quem não deseja só quer passar desapercebido.

A vida sem desejo é medíocre, previsível, indiferente, absolutamente tranquila e insípida. Um arco-íris sem cor, um chiclete mascado, uma rosa sem perfume, um filme sem enredo.

A vida sem desejo é vivida em paz e quietude.

Pena que isso não seja vida.

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O LAGO DA MEMÓRIA

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Sun - 12 Apr 2009 - 02:32 PM

No tempo em que eu acompanhava novelas, me lembro de achar muito interessante os momentos em que os personagens ficavam sozinhos. Fatalmente, eram acometidos por cenas de capítulos anteriores. Lembravam-se de diálogos, de pessoas, de cenas importantes. Algumas produções traziam as memórias em preto-e-branco, em imagem desfocada, ou com eco. Mas, fossem como fossem, eram lembranças tão perfeitas quanto um videotape, recuperações exatas do que tinha acontecido. E apareciam somente quando eram chamadas, em momentos cuidadosamente selecionados, para relembrar ou impulsionar a trama. O personagem lembrador sempre fechava os olhos, como se, para olhar para dentro, precisasse esquecer o que havia ao seu redor.

Comigo é diferente do que acontece nas novelas. As lembranças aparecem nos momentos mais inesperados, e vêm de diversas maneiras. O tempo todo minha mente faz links entre presente e passado. Uma coisa puxa a outra, que puxa mais uma, e mais outra, e pronto – estou imersa até a cabeça no rio da memória, tentando me mover na imensidão da água, inevitavelmente tocada e levada pela correnteza. E sigo nadando, mergulhando, aflita, tentando encontrar um anel perdido no rio, no escuro. Um som, uma sensação, um cheiro, uma palavra, uma imagem… Um sentimento. A lembrança tem muitas caras, muitos jeitos. Mas quase nunca são perfeitas.

“Dicén que la distancia es el olvido“, é o que dizia o antigo bolero. E, embora eu saiba que o inconsciente é um buraco-negro onde tudo está caoticamente registrado, eu até concordo com essa idéia. A distância e o tempo vão apagando a memória, como uma fita de vídeo que vai envelhecendo; a imagem vai ficando imperfeita, depois borrada, depois cortada, até sumir de vez. E jogamos a fita fora. Ficamos só com a impressão, só com o sentimento, só com a vaga idéia de que um dia vimos aquela cena, embora a emoção que ela nos causou ainda permaneça. Como era mesmo o rosto do meu avô? Qual era mesmo a cor dos olhos do meu primeiro namorado? Como era o nome daquele poema, aquele, que tantas vezes recitei em silêncio? Como começava aquela música? O que foi mesmo que a minha professora me disse naquela ocasião? Como foi que tudo começou? Qual foi a última vez que aconteceu?

“Sinto que é como sonhar… Que o esforço pra lembrar é vontade de esquecer“, é o que dizia aquela outra canção. Os sonhos são assim. Tente lembrá-los, e eles desaparecerão em segundos, como memórias proibidas. Embora sonhos sejam desejos e imagens mnemônicas, por alguma razão, nossos mecanismos querem apagá-los, para que possamos seguir em frente. E com o tempo, todas as memórias vão virando sonhos. E dá um medo muito grande de esquecer aquilo que quero lembrar pra sempre. Fico tentando reviver na memória momentos felizes, frases, toques, acontecimentos agradáveis que me trazem alento, fico tentando passar o filme de novo e de novo, para que ele nunca deixe de ser como é. Tenho medo de perder o meu passado, de que a minha vida, e seus grandes momentos, e as pessoas que amei, fiquem como um quadro na parede, lá longe, desgastado, que, mesmo ohando, não consigo mais identificar a imagem com precisão. Por isso, quando a imagem me é muito cara, tento retocá-la, restaurá-la, lembrá-la sempre, para que não se perca. Nessa tentativa, não escapo de acrescentar um detalhe ou outro, de enfeitar, de deixar mais bonito aquilo que antes era uma simples lembrança; com o tempo, ela também já não é mais o que é. De um jeito ou de outro, as lembranças originais se perdem.

“Tudo que morre, fica vivo na lembrança… Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça…” – é o que dizia a outra música. Algumas lembranças eu gostaria muito de apagar. Momentos ruins, bobagens que fiz ou disse, coisas que machucaram, que fugiram ao controle. Mas essas, essas insistem em vir, e vir de novo, e vir outra vez. Quando estou só, essas memórias insistem em me perturbar. Ainda que imperfeitas, como fantasmas, elas ficam batendo no sótão da minha cabeça, fazendo barulho, arrastando correntes, querendo sair, querendo se materializar. E eu penso que melhor seria esquecer. O esquecimento pode ser uma libertação, um desligamento da agonia de saber. O personagem de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” achava que, se conseguisse apagar da memória seu grande amor perdido, não estaria mais preso a ela. Os laços que os uniram se desatariam magicamente se as lembranças se fossem. Se a pessoa não existe mais ali, alimentando o futuro, também não precisa existir mais dentro, relembrando de maneira torturante o passado. Mas tudo que ele consegue com sua débil tentativa de apagá-la é deixá-la ainda mais presente em sua vida.

E assim, contraditórias e intensas, são as lembranças; assim, poderosa e impiedosa, é a memória. Não resistem ao tempo, mas dele se alimentam, nele se formam, com ele se unem, contra ou a favor de nós.

Mnemósine, deusa da memória, é uma titã, filha de Urano e de Gaia – o Céu e a Terra, respectivamente. Mnemósine também é irmã de Cronos, o Tempo; teve com um de seus filhos – Zeus, o maior de todos os deuses – nove filhas, denominadas musas. As musas são excelentes cantoras, e fazem um coro perfeito e harmônico, do qual sua mãe, a Memória, é regente e parte integrante. As filhas da memória tinham a função de presidir as diversas formas do pensamento – a razão, a matemática, a astronomia, a eloquência, a história, a persuasão… A sabedoria. Assim, nos conta a mitologia grega que a Memória é filha do Céu e da Terra, irmã do Tempo, esposa da Divindade e mãe do Conhecimento. Mnemósine também sabia reger doce e eficientemente suas filhas, porque era, ela mesma, a poesia da vida – aquela que tudo sabe, sobre o que foi, o que é e o que virá.

E é assim que a vida se constrói. Sem a memória, seríamos eternos iniciantes, sem construir o conhecimento e a poesia que nos leva ao futuro. Boas ou ruins, as lembranças são nossa história, elas nos têm, e temos a elas. É por isso que não quero me esquecer de nada, nada que houve comigo. Creio firmemente que minhas lembranças são minha saúde, meu tesouro, aquilo que me mantém conectada, ao mesmo tempo, comigo mesma e com o meu redor. São as lembranças que me tornarão viva quando eu morrer… E que fazem vivos em mim aqueles que se foram, sejam pessoas ou momentos. Esquecer pode não ser fácil, mas é ruim. Lembrar também é difícil, mas é mais puro e amoroso, como dizia aquela outra canção:

“Do lado do cipreste branco,
À esquerda da entrada do Inferno,
Está a fonte do esquecimento.
Vou mais além, não bebo dessa água.

Chego ao lago da Memória,
Que tem água pura e fresca.
Digo aos guardiões da entrada:
Sou filho da Terra e do Céu…

Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim…

Olhe nos meus olhos:
Sou um homem-tocha

Me tira essa vergonha,
Me liberta dessa culpa,
Me arranca esse ódio,
Me livra desse medo.

Olhe nos meus olhos -
Sou um homem-tocha…

E esta é uma canção de amor.”

Sim, a água que quero é a água da memória. E mesmo que não quisesse, seria a única que poderia beber. Mesmo imperfeitas, mesmo novelísticas ou alteradas, quero minhas lembranças comigo. Porque sei que, na peneira da alma, só se lembra o que é importante… O que é fundamento. O resto, passa… São lembranças que o vento leva como grãos de areia, e nunca mais veremos.

“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas -
essas, ficarão.”

Carlos Drummond de Andrade

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QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA?

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Sun - 05 Apr 2009 - 07:55 PM

É verdade, eu já li muito jornal na vida. É verdade também que ultimamente eu tinha enjoado tanto de jornal que o máximo que eu fazia era dar uma olhada nos tablóides. Enjoei de jornal, de portais de notícia na internet, de telenoticiário, de ouvir rádio de manhã. A sensação que eu tenho é que nada disso me interessa, porque nada disso é mesmo uma notícia.

Talvez porque o mundo ande mesmo muito chato. Rapidinho, espertinho, cheio de nove-horas, cheio de pirotecnias… Mas chato, em essência. O ser humano cada vez mais mostra que não consegue ir muito além disso que tá aí, por conta de sua natureza estranhamente malvada e egoísta. Ou então, a chata sou eu. Mas toda vez que parava pra pensar em notícia, eu pensava que, embora os papéis sejam trocados todos os dias, as notícias sempre são as mesmas. Sempre. Acidentes aéreos, politicagem suja, guerras, crises e mais crises, pobreza, destruição do ambiente, coisas bizarras acontecendo, violência, gente famosa se exibindo, nasceu filho de alguém, morreu pai de outro alguém, os mesmos colunistas escrevendo as mesmas coisas com palavras diferentes. E me lembro tanto da canção do Caetano… Mas que diabo, quem lê tanta notícia?

As mudanças são tão sutis como ilusórias… Tão rápidas como efêmeras. Na música, na política, na economia, na arte, no esporte, nos classificados… Faz tempo que não se vê nada de novo. Nada de realmente novo. Falta rir de uma piada que nunca ninguém contou. Falta olhar uma pintura feita com uma cor que nunca ninguém tinha visto antes. Falta ganhar um time que nunca ninguém poderia supor que ganhasse. Falta descobrirem uma coisa que nunca ninguém viu. Falta acharem uma solução que nunca ninguém inventou. Falta alguém dar uma opinião que nunca ninguém ousaria pensar. Falta alguma coisa de efervescência, falta alguma coisa de revolução, falta algo que desconstrua velhos conceitos e coloque outras pedras no lugar pra construir de novo. Falta alguma coisa nesse monte de jornais para que eles deixem de ser reprises de tudo que já foram.

No fim, eu acho mesmo que o mundo todo deve estar como eu – precisando de uma boa notícia. Uma notícia surpreendente, algo diferente, que nunca aconteceu antes, algo que mude os rumos da História. Uma notícia que alguém teria orgulho em escrever. Uma notícia que valesse a pena ser lida. Uma notícia de verdade.

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NOTÍCIAS DO SOFRIMENTO

Cats: Entrelinhas do Cotidiano

Sun - 15 Mar 2009 - 12:46 PM

Sabe, pessoas, não é fácil passar por um grande sofrimento nessa vida. É um trabalho duro e cansativo para chegar à superação. Algumas pessoas ajudam, outras atrapalham. Mas o fato é que o caminho do SEU sofrimento só você pode trilhar. E é uma caminhada solitária. Como é solitária toda a nossa vida, por mais que a gente tente se iludir achando que as pessoas queridas a nossa volta unam a gente a alguém ou alguma coisa. Somos sós. Isso, em si, já é uma coisa muito, muito triste. Se dar conta dela na porrada é mais triste ainda.

Eu tentei fazer minha parte, juro pra vocês que tentei, fiz o meu melhor. Cumpri todos os compromissos, tentei não ficar doente, procurei ajuda dos amigos queridos, recebi todas as visitas e telefonemas, aguentei todos os comentários infelizes calada, procurei entender todas as cobranças com amor, tentei não romper laços, respondi todas as perguntas. Procurei terapia, li livros e textos muito interessantes, conversei com pessoas experientes, tentei me distrair e sair de casa mesmo sem vontade, voltei pro trabalho com garra – mesmo que ele às vezes me esgote completamente, tentei me defender, mudei de assunto, inventei novos projetos, me ocupei, tentei não encher as pessoas com minhas lamentações, conheci gente nova, conversei com Deus, fui à igreja, tentei voltar em lugares especiais pra mim e pra ele, ouvi todas as canções, arrumei os armários, racionalizei, olhei pelo lado positivo, guardei a aliança, revelei as fotos, acordei dias e dias no susto, chorei noites e noites, escrevi um livro inteiro das coisas que senti, segui conselhos, mudei o cabelo, fui viajar, comprei roupas novas, tentei me refazer aos poucos. E com tudo isso, sinto como se tivesse guardado bastante comida e utensílios em uma mala para que, agora, eu possa fazer uma viagem longa para uma ilha deserta. E chegou a hora de partir.

Não vou desistir, nem posso. Os dias vêm e vão, um depois do outro, rapidamente. O futuro me assusta, mas nada posso fazer quanto a ele. E mesmo que eu me negue a seguir, a vida vai seguir comigo, então eu não tenho escolha. E isso também é revoltante e difícil. É revoltante saber que, embora tenham tirado o meu chão, eu tenha que continuar caminhando. Mas de nada adianta minha revolta, o meu choro, a minha fala, o meu sorriso, de nada adianta nada disso.

O fato é que a vida seguiu como antes para todos. Os planos continuam intactos, e todos estão indo com eles, esperançosos e felizes, sem que possam fazer nada por mim. Crianças continuam crescendo, pessoas continuam casando e construindo casas, jovens continuam passando no vestibular e começando no trabalho novo, pessoas estão mudando de cidade e investindo na bolsa, todos estão acompanhados por seus parceiros e parceiras. Não tenho inveja disso, mas o fato é que a minha vida, não. A minha vida mudou profundamente, meus sonhos desmoronaram, os planos foram pelo ralo e eu não sei o que fazer daqui por diante, ainda não entendi o que aconteceu. Por isso, não dá pra pensar que eu vou seguir do mesmo jeito de antes. Não vou. E não importa o que eu faça, ou com quem eu converse, ou o quanto eu lute, só há uma coisa a fazer.

E o que tenho a fazer é esperar. O tempo, agora, vai ter que passar.

A travessia é longa. Mas quero crer que é possível.

Continuem torcendo por mim.

Namastê.

“Quando você foi embora,
Fez-se noite em meu viver.
Forte eu sou, mas não tem jeito:
Hoje eu tenho que chorar.

Minha casa não é minha,
E nem é meu este lugar.
Estou só.
E não resisto,
Muito tenho pra falar.

Solto a voz nas estradas,
Já não quero parar.
Meu caminho é de pedra,
Como posso sonhar?
Sonho feito de brisa,
Vento vem terminar.
Vou fechar o meu pranto,
Vou querer me matar.

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte,
Tenho muito que viver.
Vou querer amar de novo
E se não der não vou sofrer.
Já não sonho.
Hoje faço com meu braço o meu viver.”

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