A proposta do curso é usar a língua de maneira reflexiva e contextualizada. Ao contrário da maioria dos cursos de “redação”, esse não é apenas um desfilar de técnicas pobres. As aulas estimulam a criação e a reflexão sobre a língua e sobre a vida.
O professor Gilson Rampazzo é sério meio ranzinza, mas sabe tirar o melhor das pessoas, é genial e inteligentíssimo. A professora Áurea, pelo que soube, é igualmente ótima. Muita gente que vocês conhecem como bons letristas, poetas e escritores passaram por eles.
Divulgue a proposta a quem mais possa interessar!
Valeu a pena, e vai continuar valendo fazer o segundo módulo.
E hoje, aniversário do Chico Buarque, 66 anos do amor da minha vida toda, eu achei de tentar fazer o mesmo. Só que, como o amor é em dobro, ao invés de cinco, serão dez. Desde ontem ouço e reouço todas as músicas e quanto mais ouço, mais penso que todas são maravilhosas e geniais. Mas segue a minha humilde tentativa de homenagear aquele que, pra mim, é o mais genial compositor popular brasileiro de todos os tempos. Uma lista mutável, intuitiva e absurdamente amorosa.
1. “EU TE AMO”
Parcerias entre o Chico e o Tom Jobim são assim, românticas, viscerais, de coração na mão e cheias de complexidade melódica. Exemplos como “Anos Dourados“, “Retrato em Branco e Preto” e “Sabiá” estão aí pra provar o que uma parceria entre gênios é capaz de fazer pela história da música de um país.
Mas “Eu te Amo”, pra mim, é a melhor delas. É uma canção maravilhosa, com notas lentas e tristes, que fala da inconformidade da despedida de um casal que, ao que tudo indica, tinha uma relação de entrega total – e dói ouvir. Cantada em dupla com Telma Costa, numa linda completude da voz feminina e masculina, a canção é cheia de metáforas belíssimas que enchem os olhos de água; versos como esses abaixo que derretem o coração de qualquer um. Eu não iria embora se ouvisse na hora do adeus um “Eu te Amo” como esse. Acho que ninguém iria.
“Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir?
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir…”
2. “TATUAGEM”
“Tatuagem” , originalmente composta para o musical “Calabar” por Chico e Ruy Guerra, é sensual e apaixonada. A melodia sibilante, toda sinuosa, acompanha a voz do Chico em um belo exercício de interpretação ( coisa que, muita gente diz, ele não sabe fazer… tsc ).
Sutil e ao mesmo tempo explícita, “Tatuagem” fala sobre o amor expresso em corpo, usando uma genial metáfora das imagens que são comumente tatuadas na pele, o desejo de todo amor – ficar marcado pra sempre no ser amado, impossível de ser apagado sem cicatrizes profundas. Linda, linda, linda.
“Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava…”
3. “TEM MAIS SAMBA”
Os quatro primeiros LPs do Chico são maravilhosos, genais do começo ao fim. Mostram definidamente a enorme influência do samba clássico na obra do autor, que o acompanharia até hoje, além de uma capacidade incomum de manejar as palavras sonora e poeticamente nas letras, pra falar sobre qualquer assunto.
“Tem mais samba no encontro que na espera,
Tem mais samba a maldade que a ferida,
Tem mais samba no porto que na vela,
Tem mais samba o perdão que a despedida…”
4. “CHORO BANDIDO”
Parceria erudita, sensível e lírica é a de Edu Lobo com Chico Buarque… Produziram juntos canções memoráveis, como “Valsa Brasileira“, “Beatriz“, “Ciranda da Bailarina” e a minha tão querida “Choro Bandido”.
Melodia fina, ritmo constante e letra que mistura a verdade e a falsidade dos poemas e do amor… Eles têm razão – são bonitas as canções.
“Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido,
Minha musa, vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim…”
“Meu Caro Amigo” é uma canção histórica, muito bem feita, bem humorada, bem construída com instrumentos bem colocados. A letra é uma carta a um amigo exilado, e foi composta com Francis Hime, outro parceiro daqueles. O mais incrível é que, mesmo sendo tão específica, ela continua atual. Eu vivo cantando seus versos quando me sinto reprimida pela vida… “Meu caro amigo” me ajuda a segurar os rojões do cotidiano.
“Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho Ninguém segura esse rojão”
6. “SAMBA E AMOR”
“Samba e Amor”, pra mim, é uma pérola. Uma das canções mais gostosas de ouvir que conheço, que mistura com muito equilíbrio o lirismo da música e do amor. Linda, linda, linda.
“No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação”
7. “TERESINHA”
Por que o Chico agrada tanto as mulheres? Oras, como poucos, ele consegue entender as questões que mais as afligem… Consegue ir a fundo na poética feminina e nos leva a intensas lágrimas e sorrisos quando usa o eu-lírico femininno com tanta propriedade. Impressionante. Ouço “Mulheres de Atenas“, “Atrás da Porta“, “Olhos nos Olhos“, “Maninha“, “O Meu Amor“, “Soneto“, “Suburbano Coração“, “Umas e Outras“, e só falto derreter de tanto que me sinto invadida e compreendida por dentro.
“Teresinha” fala muito comigo. Composta para a incrível e toda boa “Ópera do Malandro”, lembra a canção infantil e me lembra a minha própria história da busca pelo parceiro que realmente entenda a mulher que eu sou… A mulher que todas somos. Maravilhosa.
“O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração”
8. “ATÉ PENSEI”
Reflexiva, poética, bonita, triste. Não me conformo que ele tenha composto uma canção como essa, tão madura, com menos de 20 anos. Fala de desejo, fala de dor, fala de luta. Bonita de tão triste.
“Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha…”
9. “FLOR DA IDADE”
Chico é cronista em poesia. “Flor da Idade” traz um truque no refrão ( a cada verso, aumenta um r na palavra principal e causa um efeito lindo na música ). Além de tudo, cita o poema “Quadrilha”, de Drummond. Como várias, ela é extremamente sonora nas palavras cuidadosamente escolhidas.
“Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor…”
10. “PASSAREDO”
A marca de um bom poeta é sempre a capacidade que ele tem de descobrir as possibilidades da língua, e colocar as palavras de um jeito surpreendente.
“Passaredo” é um bom exemplo de como uma lista completa com nomes de passarinhos pode virar música. Outros jogos linguísticos e estilísticos, como “Corrente“, “Carioca“, “Construção“, “Deus lhe Pague“, “Paratodos“, “Pivete“, mostram que, além da sensibilidade dos temas, é preciso pensar na complexidade e possibilidade das palavras pra fazer uma obra de arte em forma de música. Fantástico!
Desde que o meu queridíssimo Alexandre Inagaki propos no Twitter fazer um Top Five das músicas preferidas do Rei Roberto Carlos, eu tenho me esmerado em ouvir de novo as minhas canções favoritas para tentar escolher apenas cinco delas. Mas, quem disse? Foi tão e tão difícil.
Conheci Roberto Carlos desde os meus primeiros momentos de vida ( intra-uterina, inclusive ). Sou filha de um casal que elegeu as canções do Rei Roberto como trilha sonora de sua história de vida. Cresci ouvindo lado A e lado B de todos os discos românticos e roqueiros do R.C., e posso dizer que sempre gostei de ouvi-lo, e o respeito como grande compositor e intérprete que é. Quem quiser pode considerá-lo brega, ou cult, mas ninguém seria capaz de negar a importância de sua obra na história da música deste país.
Composição original ( vejam só! ) de Louis Armstrong e Zilner T. Randolph, a canção mereceu uma versão western de Roberto, que canta com muita classe a história de um homem malvado, que foi desafiado para um duelo por um sujeito misterioso. A narrativa, muito bem feitinha, leva a gente a imaginar cada passo da história, até o trágico final. A melodia viciada deixa a voz de Roberto em destaque, acompanhado por um básico de instrumentos discretos e competentes. Canto essa música desde menina: pra mim, é impossível não acompanhar “A História de um Homem Mau” com a voz, um assobio ou mesmo uma batidinha de pé.
“Outra Vez”
“Outra Vez” é a canção dos amores doloridos e mal resolvidos, daqueles que machucam, mas deixam uma saudade imensa dentro do peito. Talvez por isso seja uma das mais românticas e mais conhecidas canções do Rei. Já ouvi muita gente dizer, “essa música foi feita pra mim”.
Fiquei dividida entre colocá-la nesta seleção ao invés da singela “Você Não Sabe“, que é uma declaração de amor tão perfeita que chega a doer. Ambas são belíssimas, mas optei por ela por motivos estritamente pessoais.
No disco de 1977, Roberto Carlos consagra-se como grande intérprete romântico, gravando, entre outras lindas canções como “Cavalgada“, “Não se Esqueça de Mim“, e “Falando Sério“, esta composição de Isolda, uma compositora muito habilidosa na arte de dizer o que todo mundo quer dizer, mas não consegue.
Meus pais que o digam. Sempre que queria fazer as pazes com minha mãe, ele colocava “Outra Vez” no toca-discos, e em pouco tempo eles estavam de novo se olhando apaixonadamente, mesmo que isso parecesse tão errado poucos minutos depois. Por anos e anos ela ouviu essa canção sozinha, trancada no quarto, depois que ele morreu. E surpreendentemente essa canção passou a fazer parte de minha própria história amorosa, quando me foi dedicada, uma vez, pelo maior amor da minha vida até aqui. De fato, acho que todo mundo tem um grande amor ausente que queria ter perto uma outra vez.
Este álbum prova que Roberto Carlos realmente entende de música, e não era só um cantor papagaio qualquer. Os arranjos são todos muito bem feitos. “Todos Estão Surdos” tem uma letra meio gospel, meio política, meio meiga. O coral e a levada soul dão o tom diferente e ousado, e as estrofes faladas, em linguagem “descolada”, inseridas entre um refrão e outro, fazem a gente pensar e querer se mexer pra mudar alguma coisa. Bobo é quem fica surdo a uma pérola dessas.
Mas nenhuma delas é tão profunda quanto “Não vou deixar você tão Só”. É uma composição do Antonio Marcos que fala de solidão, aquela solidão de ser só, de querer tanto alguém especial por perto pra dedicar-se, e, aos poucos, ir endurecendo nessa espera. Roberto canta com maestria, talvez porque ele mesmo seja essa pessoa. Dói ouvi-lo cantar “meus olhos vermelhos cansados de chorar, querem sorrir…”. Realmente… Inimitável.
Mas, quando ouço “As Curvas da Estrada de Santos” na voz da Elis Regina, ou mesmo na voz do Rei… Sinto que essa música sou eu. Simples assim. Por isso, ela é a minha preferida.
Ufa! Tá aí. E você, qual é a canção do Rei que embala sua vida?
Minha natureza interior sempre adorou água. Em meus sonhos, lagoas, mares, poças, rios, cachoeiras, banheiras, bicas, torneiras… E chuva, muita chuva. Tudo isso sempre me ensina muito sobre o que estou sentindo. Aprendi que água é símbolo de emoção. As minhas, sempre tão represadas, se soltam em meus delírios oníricos noturnos, me lavando por dentro.
Chuva fininha é melancólica, porque normalmente é gelada, constante, pouco agressiva e sem hora pra acabar. Chuva de granizo é forte e destruidora, deixa a gente espantado com a força da natureza. Cheiro de chuva no asfalto é meio sufocante, cheiro de chuva na terra é gostoso e revitalizante, provoca um sentimento diferente. Chuva de verão é grossa, rápida, passageira, refrescante e dá a impressão que lava tudo com ela, que leva tudo com a enxurrada. Chuva com raios e trovões dá medo por fazer tremer a terra, insistindo em chamar a atenção. E chuva normal, batendo no vidro da janela, acaba fazendo a gente pensar na vida, essa vida estranha e encantadora. Eu tinha esquecido como é bom sair andando debaixo de chuva, sentindo a água massagerar a cabeça, cair nos ombros, encharcar a roupa.
Já são quase 50 dias seguidos de chuva aqui. Impossível ignorá-la. Resta aceitá-la e saboreá-la conforme for possível.
Canções que coloquei no meu “CD para curtir os finais de tarde em São Paulo”.
“Santa Chuva”, Marcelo Camelo
“The Rain”, Roxette.
“Medo da Chuva”, Raul Seixas
“Rain”, Madonna
“Lágrimas e Chuva”, Léo Jaime
“The Rhythm of the Rain”, The Cascades
“Deixa Chover”, Guilherme Arantes
“Raindrops”, B.J. Thomas
“Chuvas de Verão”, Caetano Veloso
“Crying in the Rain”, A-Ha
“Quando Chove”, Patricia Marx
“Have you Ever Seen the Rain?”, Creedence Clearwater Revivel
“Águas de Março”, Tom Jobim e Elis Regina
“Rainy Day”, 10,000 Maniacs
“A Tempestade”, Zelia Duncan e Lenine
“Pray for Rain”, Massive Attack
“Chove Chuva”, Jorge Ben Jor
“It´s Raining Again”, Supertramp
“Primeiros Erros”, Capital Inicial e Kiko Zambianchi
No último dia das crianças, recebi telefonemas e e-mails de várias pessoas me pedindo dicas de presentes para crianças queridas – filhos, sobrinhos e outros miúdos. Baseada na minha larga experiência em contato com eles – seja como tia e madrinha, professora, psicóloga ou como pessoa – sem piscar, respondo: dos 2 dias aos 15 anos, o melhor presente para se dar a uma criança é um livro.
Vivemos em um país onde a cultura letrada é valorizada, mas distante da maioria das pessoas. Poucos conseguem gostar de ler, e se gostam, recorrem a literatura fácil e de baixa qualidade. Reservar um tempo para entrar em contato com um livro e todo o universo que ele carrega – a emoção, o conhecimento, o prazer, a utilidade – ainda é tarefa difícil para muitos de nós. E, no caso das crianças, costumamos apresentar a elas livros simplificados, de texto pobre e ilustrações horrorosas. Para os maiorzinhos, livros chatos e sempre aliados a algum tipo de cobrança. O que é uma pena… Afastamos as crianças do contato prazeroso e necessário com o livro.
Meu romance com a Literatura Infantil é antigo. Lia muito quando criança. Gosto dos livros feitos para os pequenos – são mais sinceros e diretos. Além disso, tenho constante contato com esse material por força do ofício. Leio todos os dias para meus alunos de 3 anos, por pelo menos 30 minutos – momento esperado e cobrado por eles. Temos na classe uma biblioteca circulante com mais de 600 títulos, que é, sem dúvida alguma, um dos lugares da sala mais queridos pelas crianças ( uma sala que tem brinquedos de todos os tipos, materiais de arte, computador e muitas outras coisas atrativas para elas ). Na biblioteca, temos títulos de vários gêneros de leitura – de enciclopédias a gibis, de contos de fada a curiosidades, histórias de muitas culturas, tamanhos, tipos e graus de dificuldade. E depois de muitos anos investindo nisso, posso dizer que crianças gostam de livros com o coração inteiro se forem estimuladas e apresentadas a bons materiais; e se enxergarem na relação de leitura um laço afetivo. Ler para seus filhos, alunos, netos e conhecidos é avançar um pouco mais na construção da ponte entre adultos e crianças que, embora lidem com a vida a partir de universos muito diferentes, se amam e se respeitam.
Este post vem na intenção de compartilhar a quem se interesse pelo assunto indicações de livros que as crianças mais gostam ( servem para os pequenos e também para os maiorzinhos ). São livros que elas amam e pedem para que eu leia mil e uma vezes por semana. Garanto a qualidade de todos – tanto no texto como na ilustração. Fiz uma lista com 70 títulos, separados por gênero. Aqui constam os primeiros 10, de um gênero ideal para crianças de 0 a 5 anos.
Contos de Acumulação e Repetição
São histórias divertidas para as crianças. Geralmente há uma frase ou situação na história que se repete pelo livro todo – simplesmente se retomando ou se acumulando – e por isso elas conseguem acompanhar com mais facilidade. É um dos tipos de leituras que mais gostam, e também é gostoso de ler para elas.
1) “A Casa Sonolenta“, de Audrey Wood . Ilustrações de Don Wood. Editora Ática
Em uma casa especial, num dia chuvoso, todos parecem gostar de dormir demais. Até que uma pulguinha resistente causa uma reviravolta na situação e traz um colorido diferente a essa história que costuma deixar as crianças de olhos vidrados. A dupla Don Wood e Audrey Wood é especialista em casar textos simples e ricos com ilustrações que enchem os olhos, cheias de detalhes e beleza. É deles também “O Rei Bigodeira e sua Banheira” ( Editora Ática ), e “Rápido como um Gafanhoto” ( Brinquebook ), ambos queridíssimos pelas crianças.
2) “Tanto, Tanto…“, de Trish Cooke. Ilustrações de Helen Oxenburry. Editora Ática
Para um bebê muito querido pela família, um dia especial, quando todos estão reunidos, é uma festa intensa e alegre. Todos querem apertar, beijar, mimar o bebê, que, sendo o centro das atenções, se percebe como pessoa importante e amada. Um livro com texto delicioso, protagonistas negros ( raridade… ) e um encadeamento de fatos que toca o coração das crianças. Os bebês costumam adorar ouvir a leitura dessa história, e pedem para repeti-la inúmeras vezes.
3) “O Grúfalo“, de Julia Donaldson e Axel Scheffer. Brinquebook
Um ratinho esperto propaga a existência de um animal estranho, perigoso e nunca antes visto, e com isso consegue se livrar de muitos perigos. Até que… O Grúfalo aparece! Para as crianças maiores, vale pelo humor fino das entrelinhas. E os menores gostam muito da figura diferente e divertida do Grúfalo. A história continua em “O Filho do Grúfalo” ( Brinquebook ).
4) “Maria-Vai-com-as-Outras“, de Sylvia Orthof.
Um clássico da Literatura Infantil, é um livro simples e gostoso de ler. Maria é uma ovelhinha sem cara própria que, por sempre seguir as ações do rebanho, acaba nunca fazendo sua vontade. É uma delícia acompanhar suas reflexões e seu processo de mudança, quando descobre que pode ser ela mesma, além do grupo. A história é muito sonora, e as crianças mais sensíveis conseguem compreender a problemática de Maria já na primeira leitura. É um dos meus preferidos.
5) “Da Pequena Toupeira que Queria Saber quem Tinha feito Cocô na Cabeça Dela“, de Werner Holzwarth. Companhia das Letrinhas.
A Pequena Toupeira se revolta quando acorda com um cocô sobre sua cabeça. Parte, bravíssima, para procurar o autor da façanha, e nesse caminho, descobre como é o cocô de vários animais amigos. O final é surpreendente para as crianças, que se divertem muitíssimo. Trata de um tema evitado de forma leve, com muita delicadeza e diversão.
6) “Menina Bonita do Laço de Fita“, de Ana Maria Machado. Ilustrações de Claudius. Editora Ática.
Outro clássico. Um coelho bem branquinho conhece uma menina negra e linda. E quer saber como faz para ficar preto como ela. Aos poucos, descobre que o caminho para ter uma filha pretinha como a menina é mais delicioso do que ele podia imaginar. Outra história com protagonistas negros, muito bem desenhada, e com o texto sempre primoroso e desafiador de Ana Maria Machado. Sucesso garantido.
7) “Macaco Danado“, de Julia Donaldson e Axel Scheffer. Editora Ática
Mais um livro da mesma dupla de autores de “O Grúfalo”. Nesta história, de ilustrações belas e divertidas, o macaquinho perdido procura sua mãe contando com a ajuda de uma borboleta atrapalhada e bem intencionada. No caminho, ambos descobrem que cada animal é de um jeito, e que cada filhote, embora adore descobrir o mundo, se sente feliz de verdade mesmo quando encontra os braços de sua mamãe. Sensacional e favoritado pelos pequenos todos os dias.
8 ) “Porcolino e Mamãe“, de Margaret Wild. Ilustrações de Stephen Michael King. Brinquebook.
Porcolino é um porco bebê que se perdeu de sua mãe. E procura desesperadamente pelo carinho que lhe falta em vários animais, sem sucesso. Até que percebe que o amor de verdade só está ao lado da mamãe tão querida. História doce, ilustrações suaves e uma deliciosa continuação em “Porcolino e Papai”. Ideal para os bem pequenos.
9) “Bruxa, Bruxa, Venha a MInha Festa“, de Arden Druce. Ilustrações de Pat Ludlow. Brinquebook
Esse livro é realmente sucesso garantido entre os pequenos. Imagens perfeitas, cheias de detalhes, apóiam um verdadeiro conto de repetição, que as crianças rapidamente decoram e amam repetir. Uma festa vai acontecer, uma bruxa é convidada… Mas como condição para aparecer, pede para convidar o gato, que por sua vez exige a presença do espantalho… Até que o final surpreendente remete novamente ao começo da história, que precisa ser repetida, dada o amor das crianças por esse livro.
10) “Mamãe, você me ama?“, de Barbara Josse. Ilustrações de Barbara Lavalee. Brinquebook.
De uma delicadeza incrível e emocionante, esse livro mostra a pergunta de uma menininha inuit a sua mãe; para saber se é amada, ela vai propondo várias situações – até se convencer que o amor de sua mãe é infinito. Livro de ilustrações muito bem feitas, e que esclarece um pouco sobre a cultura dos esquimós.
O dia em que resolver colocar aqui uma página profissional, coloco o resto das dicas. Ou não. Hehe. Quem tiver mais dicas pode postar nos comentários.
“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.
Guimarães Rosa
E qualquer coisa que está por aí, feita com amor, pode ser motivo de sorriso, de aprender, de viver, como o amor do Guimarães – um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Só precisamos olhar pra elas. Algumas coisas que andei enxergando por aí ultimamente:
* “MACHADO DE ASSIS” NO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA
Se você ainda não foi, só tem até o dia 01 de março pra ir. Embora menos exuberante que as duas anteriores, a exposição temporária do incrível Museu da Língua Portuguesa vale pela curiosidade dos documentos raríssimos, pela criatividade no arranjo dos objetos… Mas principalmente por encontrar-se com a obra do Machado. Tente ler, na sala de estar montada no final da exposição, onde estão vários livros com a obra completa do autor, um capítulo de Dom Casmurro, ou então um dos famosos e deliciosos contos. Dá vontade de ler mais. Eu li.
Sem falar no filme e apresentação do terceiro andar, que eu não canso de ver. Sempre me emociona. É uma reação inversa do que eu sinto ao acompanhar os noticiários – dá orgulho de ser gente. Só lembrando – entrada gratuita para crianças, idosos e professores, e meia-entrada para estudantes. A entrada inteira custa R$ 4,00.
* ” O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON“, EM QUALQUER CINEMA
Se quer pensar, vá. Se quer refletir, vá. Se quer se divertir, vá. Se quer esquecer, vá. Se quer chorar, vá. Se quer sorrir, vá. Se quer suspirar, vá. E se quer ver como o Brad Pitt fica lindo em qualquer idade, vá.
Filme pra marcar a vida.
* CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE EM QUALQUER LIVRARIA
O poeta todo mundo sabe que é bom, é indiscutível. Mas quem ainda não encontrou o cronista e o criador de aforismos, não sabe o que está perdendo. Absolutamente lúcido e amável, ele derrama poesia no cotidiano. Leituras aparentemente leves, rápidas e cheias de sorrisos. Aparentemente.
Pra começar, indico ” De Notícias e Não-Notícias faz-se a Crônica“, e “O Avesso das Coisas“. Este último, forte candidato a ser livro permanente de cabeceira.
* AQUARELAS DE MARGARET MEE NA PINACOTECA DO ESTADO
As flores são lindas em sua essência, e sempre achei um pecado tentar resgatar sua beleza natural em desenhos e pinturas ( assim como acho um pecado colocar flores de plástico pela casa ). Mas Margaret Mee mudou meus conceitos… São lindas as aquarelas da inglesa sobre as flores brasileiras. Quem quiser conferir, vá rápido – até o dia 15 de março.
* PÔR DO SOL NOS PARQUES DA CIDADE
Um espetáculo gratuito e corriqueiro que mostra que a vida continua. Sempre. Apesar de tudo e de todos. Ótimo momento e local para se estar em solidão e anonimato.
Dia desses li, não sei onde, uma reportagem sobre um site que funciona como uma espécie de testamento virtual. Lá, você guarda senhas, segredos, recomendações e até declarações nunca feitas para serem abertas / lidas / compartilhadas depois que você morrer, por uma certa boa quantia por mês ( enquanto você está vivo e tem conta bancária, claro ).
Xeretando um pouco mais, descobri um outro site aonde, sob condição de pagar módicas quantias a partir de R$ 400,00, cria para você álibis para as mentiras mais cabeludas, limpando sua barra tranquilamente e de maneira bem eficiente.
Então eu, que até noivo encontrei aqui na rede, fiquei pensando: caramba, pra que será que a internet não serve?
Pensei em sites que, se ainda não existem, bem que podiam ser inventados por alguém.
Registro de Canalhas ( www.entregueocanalha.com.br )
Depois que minha amiga descobriu no Google que o namorado dela era casado, descobri que a internet é ótima para xeretar a vida alheia, mas alguém poderia facilitar o serviço. O site ideal funcionaria assim: se alguém faz alguma canalhice com você, você vai lá, registra nome, sobrenome e foto da pessoa e deda com gosto tudo que ela te fez. Poderia até mesmo ter algumas sessões, como por exemplo “canalhas no amor”, “canalhas na amizade”, “canalhas no trânsito”, “canalhas no trabalho”, “chefes canalhas”. Assim, quando você topar com alguém na vida, pode ir lá, colocar na busca, e ver se o fulano já pisou na bola com alguém. Facilitaria bastante. Só teríamos que ter cuidado para não sermos cadastrados por lá.
Imprima Dinheiro ( www.imprimadinheiro.com.br )
Em tempos de cartão de débito e crédito e transações bancárias on-line, me sinto entediada só de pensar em ir ao caixa eletrônico tirar dinheiro. Por que não imprimi-lo em casa? Você poderia entrar, dar o número da sua conta no banco e imprimir uma quantidade de dinheiro ou folhas de cheque ali, na sua impressora, conforme a sua necessidade. E mais, as notas poderiam até mesmo ter a foto da personalidade que você quisesse no fundo. Já pensou, uma nota de R$1,00 com a cara do Lula? ( Pensando bem, R$1,00 é muito pra ele ). Tudo bem que seria difícil controlar os hackers, as notas falsas e os gastões, como eu. Mas isso é um mero detalhe.
O que Dizer? ( www.dialogoperfeito.com.br )
Sabe aquela hora quando você ouve algo tão absurdo, estarrecedor ou idiota e… Faltam palavras pra dizer alguma coisa? E você pensa… Bem que eu podia dar AQUELA resposta… Mas não consegue? Pois é! Esse site poderia ter as respostas mais incríveis para os comentários, brigas ou falações em geral das mais diversas ordens. Bastaria colocar lá o assunto… E ele coloca as palavras certas na sua boca! Impressionante.
Look Ideal ( www.acertenolook.com.br )
Sabe aquele povo que faz a sessão CERTO e ERRADO nas revistas de moda? Eles poderiam estar on-line, 24 horas, pra dizer pra você qual o melhor jeito de se vestir. Funcionaria assim: você tira uma foto ou liga a webcam, chama o consultor e ele lhe diz, antes de você botar na cara na rua, se você está bonita ou não. Assim você não corre o risco de ficar mal na foto. Tá certo, você poderia ficar um pouquinho dependente da opinião dos outros e paranóica… Mas e daí? Pelo menos estaria sempre na moda.
Médico On-Line ( www.socorrodoutor.com.br )
Já que 98% dos médicos adquiriu o péssimo hábito de tratar você como lixo e mal olhar para a sua cara durante as consultas, que diferença faria se consultar on-line? Simples, rápido e confortável, especialmente para pessoas que detestam médicos, como eu. Você conta os sintomas em um formulário, ele receita algo pra você em uma tela, você imprime, compra… E pronto! Problema resolvido. Lá mesmo poderia ter um link para uma farmácia que manda entregar em casa. Ô, beleza!
Odeio Internet ( www.naoprecisodeinternet.com.br )
Uma comunidade virtual para expressar o ódio por toda a facilidade, futilidade, burrice e dependência criada pela internet. Uma pena que você tenha que conectar para se expressar… Tsc.
É, os tempos são modernos. Mas as pessoas continuam loucas… Como sempre.
A palavra já apareceu pra você, ali, em carne e osso? Já se materializou bem na sua frente?
A palavra já te beijou, já deu um tapa forte no seu rosto, te acariciou, te pegou no colo?
A palavra já foi chão pra você pisar, já foi escada pra você subir, já foi banco pra você sentar, já foi água pra você beber?
A palavra já te deu a mão, já chacoalhou seus ombros, já soprou nos seus ouvidos?
A palavra já foi cheiro, som e sensação na sua vida?
A palavra já envolveu seu corpo, brincou com você, flertou com você, brigou com você, virou estrela e foi pro céu pra você fitar?
A palavra já te fez chorar, rir? Já fez o seu espírito se sentir livre? Já fez você se sentir confortado por ter um lugar no mundo e pertencer a um grupo com história e perspectiva de futuro?
A palavra já mostrou quem você é, o que você sente, o que você pensa, o que você significa nesse mundo?
Não?
Então visite o Museu da Língua Portuguesa o quanto antes.
Você vai ver, através de uma experiência única, que a palavra é viva. Vivinha da Silva.
Enquanto você não vai, passa lá no Mondo Redondo… Está convidado a ler meu post sobre esse lance apaixonante e esquisito de escrever. Clica!
O cinema é um lugar fantástico. Paradisíaco. Totalmente paradisíaco.
No cinema eu já ri de besteiras homéricas até a barriga doer. Já chorei, e muito, ao ponto de voltar pra casa de olhos inchados e chorar por mais de uma semana só em lembrar de uma história triste que me foi contada. Já beijei e namorei bastante embalada pelas comédias românticas que eu tanto gosto de ver. Já comi pipoca, jujuba, cachorro-quente, chocolate e pirulito. Já caí e passei vexame tentando encontrar um lugar no escuro. Já tive conversas sérias. Já conheci gente. E já me senti na mais completa solidão, em uma ou outra sessão da tarde em que só eu e o projetista estavam presentes. Já tive raiva secular de personagens que nunca tinha visto antes. Já pensei sobre problemas, fatos e causas para as quais eu jamais teria atentado. Já me senti totalmente abalada. Já saí achando que o ingresso não valeu o filme, e também já achei que pagaria mil vezes mais se precisasse para ver o que vi. Já senti medo, com direitos a arrepios e pulos da poltrona. E já me senti tão angustiada que tive que sair antes do filme acabar. Definitivamente, o cinema mexe com as minhas emoções. Mesmo quando a sala é ruim, mesmo quando o preço é um abuso, mesmo quando o filme não corresponde às expectativas… Mesmo quando eu nem pensava em ir, como hoje, o cinema me chama. E eu vou.
Acima de tudo, o cinema é lugar pra sonhar. “Temos a arte para que a verdade não nos destrua.” Acho que era o que dizia o Nietzsche. E é bem por aí. Naquela telona, os sonhos ganham movimentos e ficam maximizados, de maneira que a coisa mais absurda vira realidade por algumas poucas horas. Cinema é lugar para esquecer a realidade e transcendê-la, ou repensá-la e lembrá-la como se estivéssemos fora dela. Por isso aquela tela me parece tão mágica. E por isso eu me deixo ser enganada por aquelas imagens. E adoro.
Esses dias eu tenho sentido uma saudade muito grande do tempo em que eu ia, no mínimo, uma vez por semana no cinema. É que a vida anda esquisita. Pessoas andam muito brutas e egoístas, ligadas a futilidades e materialismos. Projetos e ideais andam sendo corrompidos. Pouca gente sabe os reais significados de palavras como prazer, leveza. Lutas de uma vida toda vão por água abaixo por conta de uma mala de dinheiro ou uma conveniência qualquer. Está cada vez mais difícil achar alguém com o coração aberto para o amor, e por consequência, cada vez mais difícil aprender a amar alguém. E no meio disso tudo, eu gostaria de ver muitos filmes bonitos – comédias românticas bobocas, musicais despretensiosos, dramas de finais felizes, imagens fantásticas e belíssimas que só poderiam nascer na cabeça de uma pessoa – nunca da realidade. Talvez a vida ande carregada demais, e eu esteja precisando de um pouco de ilusão. E foi aí que me lembrei da garçonete do Woody Allen. Aquela. Todos os dias, ela fugia da vida dura que levava ali, na sala de cinema. Nos filmes do Woody Allen, é impossível saber se ele queria que ríssemos ou chorássemos. Mas ao ver esse filme, eu chorava, e muito. Pensei se ainda conseguiria chorar se o visse de novo hoje. Os olhos da Mia Farrow ao ver Fred Astaire e Ginger Rogers dançando “Cheek to Cheek” tinham um brilho que hoje eu queria ter nos meus. O brilho de quem acredita que a vida pode ir um pouco além da aspereza e da infelicidade do dia-a-dia. O mesmo acontecia com a senhorita Lisbela. Sonhava dentro do cinema para ganhar força pra continuar acordando fora dele.
Quando eu era mais nova, gostava de imaginar muitas coisas, me ver em várias situações. E a fantasia que eu mais curtia era a de ser atriz. O dinheiro, a fama e os prêmios nada me diziam. Mas me encantava a possibilidade de ser muitas pessoas sem deixar de ser uma só. Me atraía a poesia das histórias, a versatilidade dos sonhos que os atores vivem, essa coisa de construir uma pessoa dentro de você e vesti-la, depois desvesti-la. Claro, não levei a sério porque para certas coisas é preciso talento. Mas trouxe a sensação da brincadeira comigo. E de vez em quando é bom viver outras vidas, nem que seja sentada em uma poltrona de uma sala de projeção, quando a sua parece tão pequena… Tão vazia de sentido, de emoção. Dizem que assim é que é bom, assim que é certo. Uma pena que eu não possa impedir a minha natureza sonhadora de se manifestar e querer muito mais. Mais paixão, mais movimento, mais ilusão, mais ação… Mais sonho.
E no meio de tanta coisa que eu lembrei, lembrei também da canção da Lisbela, que eu estava ouvindo no carro agora a pouco. Por alguma razão, eu fiquei contente ao ouvir a voz suave dos Los Hermanos enquanto dirigia. Talvez seja porque, por mais dura e esquisita que a vida seja, eu percebi que ninguém vai me impedir de querer. Querer dançar nas nuvens como a Ginger Rogers. Querer um beijo apaixonado. Querer um fato sobrenatural. Querer que toda uma trajetória dê certo. Querer sentir o cheiro de pipoca no ar sempre que o dia parecer pesado demais. Ninguém pode me impedir de querer… E muito menos de sonhar. Dentro ou fora do cinema. Eu quero um final feliz.
“Eu quero a sina de um artista de cinema…
Eu quero a cena onde eu possa brilhar.
Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo,
Um beijo imenso, onde eu possa me afogar…
Eu quero ser o matador das cinco estrelas.
Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão.
A Patativa do Norte, eu quero a sorte
Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar…
Pra me danar, por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar…
Ser o primeiro, ser o rei, eu quero um sonho.
Moça donzela, mulher, dama, ilusão.
Na minha vida tudo vira brincadeira,
A matinê verdadeira, domingo e televisão.
Eu quero um beijo de cinema americano,
Fechar os olhos, fugir do perigo.
Matar bandido, prender ladrão…
A minha vida vai virar novela!”
De uns tempos pra cá, tenho recuperado um hábito que todo mundo diz que é ótimo, mas pouca gente pratica pra valer: esse lance de ler. Eu tenho uma preguiça infinita de ler ( acho que já disse isso aqui umas vezes ), apesar de ler muitíssimo. Acho aborrecido e muito sonolento ficar deslizando os olhos por aquele monte de letras amontoadas. Prefiro mil vezes conversar, conversar e conversar ( uma pena que nem sempre eu possa convidar Shakespeare, Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo ou Manuel Bandeira pra tomar um goró aqui em casa ). Sem falar que alguns livros são fedidos, feios e difíceis; são poucas as pessoas que têm o dom da clareza, leveza e profundidade quando o assunto é escrita.
Por outro lado, é lendo que eu aprendo mais coisas, e como acredito piamente que conhecimento é liberdade ( já dizia o Millôr, “quem não sabe, acredita.” ), e como a liberdade é uma sensação maravilhosa… Compartilho aqui com vocês as leituras de ultimamente.
* As Boas Mulheres da China, de Xue Xinran, Companhia das Letras.
A princípio, é mais uma obra que chama a atenção para a opressão e a desigualdade social entre os sexos. Mas o livro é muito mais que isso – trata-se de uma reflexão intensa sobre o que é ser mulher e, além disso – sobre o que é ser uma pessoa em um mundo tão louco e tão cheio de atrocidades.
Nem vou dizer que essa é uma leitura obrigatória para todas as mulheres do mundo. E nem que os homens deveriam ler tanto quanto ou mais que essas mesmas mulheres. Infelizmente, as verdades que constam nesse livro não são digeríveis ou aceitáveis para muitas pessoas. Mas quem lê, não pode negar que as histórias das boas mulheres da China podem mudar uma vida. No mínimo, fazer com que os óculos com os quais você enxerga o mundo fiquem menos embaçados.
Xinran é uma jornalista chinesa. Em tempos de mudanças políticas e econômicas na China, ela tinha um programa de rádio. Nele, se tocava um pouco de música, se lia algumas notícias… E se conversava com mulheres. Aos poucos, elas foram chegando e contando suas histórias. E Xinran reconta algumas delas nesse livro.
Há histórias de mulheres oprimidas, estupradas, violentadas de diversas maneiras, diminuídas, deixadas à margem de tudo, inclusive de suas famílias e da sociedade em que viviam. Por exemplo, da mocinha que criava uma mosca como animal de estimação. Ou da senhora catadora de lixo que escondia um segredo absolutamente improvável. Ou da moça que sofreu inúmeros abusos em nome da Revolução e acabou enlouquecendo. São histórias reais, que acontecem em um lugar que fica logo ali… Há poucos anos atrás.
A leitura do livro é fácil – Xinran escreve bem, e transmite pelas palavras muito de seu conhecimento e de sua emoção; conta histórias sobre seu país e sua gente, e a história dela própria. Mas, apesar da leitura leve, o conteúdo de cada capítulo é pesado e forma bolos de angústia no estômago e na alma. No entanto, quando acabei de ler – ou melhor, enquanto lia-, algo em mim se transformou. Através da luta e da busca da dignidade humana vivida por aquelas mulheres, eu percebi que também tenho um caminho a trilhar, muito longo ainda; que também tive histórias sofridas e ainda assim estou de pé, como boa mulher que sou; e que todos merecemos a felicidade, muito embora sejamos afastados dela. Vale a leitura. Mesmo.
* Amor é prosa, sexo é poesia, de Arnaldo Jabor – Ed. Objetiva.
Como diria a minha mãe, o Arnaldo Jabor é aquele cara feio e chato que fala coisas bem rápido no Jornal Nacional. Um conhecido meu diria que é um diretor de cinema que fez filmes meio doidos nos anos 80. Tem também uma infinidade de textos circulando pela internet que, dizem, são dele – provavelmente, 90% não é. Não sou leitora assídua dos jornais e revistas onde ele assina colunas. Tenho um livro dele que nunca cheguei a ler inteiro, talvez porque quando o ganhei, fosse imatura ainda pra entender algumas coisas. E pra piorar, ele estava na lista dos mais vendidos, o que, no Brasil, costuma ser péssimo sinal. Por isso, cheguei a esse livro por mero acaso, se é que acaso existe, e torcendo o nariz. Lista de mais vendidos + promoção na livraria + intuição que nunca me deixa… Pronto, estava na minha estante.
O subtítulo diz, “crônicas afetivas”. Não podia ser mais acertado. Ele fala sobre Bush, avô, sexo, paixão, filhos, questões existenciais, amor e política sempre do mesmo jeito – emocionado, consciente, lúcido e cheio de razões-emoções que contagiam quem lê. Afetividade é isso mesmo, esse eterno olhar para si mesmo e para o mundo, banhando esse caminho em sentimentos e pensamentos, e isso ele faz muito bem. Sem falar que escreve maravilhosamente; é daqueles autores que parecem estar falando com você através das letras, sem que você nem perceba que está lendo.
A crônica que dá título ao livro ( e que inspirou uma conhecida canção ) é imperdível. Leitura rápida, agradável e, para os olhos mais atentos… Cheia de possibilidades. Adorei.
* O Código DaVinci, de Dan Brown – Ed. Sextante.
Tá, eu li. E li porque todo mundo leu. Só por isso. E quer saber? Gostei muito.
Sem entrar no mérito de questões religiosas e/ou políticas ( que originaram uma avalanche de livros caroneiros que estão infestando as vitrines por aí ), toda a trama de O Código da Vinci é muito envolvente e dinâmica. Se o livro do Jabor remete a uma conversa inflamada e tocante, esse lembra uma tela de cinema, frenética, cheia de imagens mentais que vão se movendo, se encaixando e desencaixando, tirando o fôlego e o sossego do leitor.
A história é manjada – um assassinato, um quebra-cabeças cheio de códigos secretos e investigações, um mocinho e uma mocinha, e várias pessoas em volta que, aos poucos, vão se revelando vilões ou outros mocinhos – uma surpresa atrás da outra. Lembra os adoráveis filmes do Indiana Jones, aventureiros, inverossímeis e deliciosamente divertidos. Ou então os antigos romances da Agatha Cristie. Se pegou, fica difícil largar até saber o final.
Organizado em capítulos curtos, muito bem escrito e bem amarrado, o livro ainda provoca uma curiosidade e uma vontade imensa de visitar o Louvre de perto, e conhecer um pouco mais sobre a História da Arte e da Religião. Se não houver grandes pretensões… É diversão de primeira.
EXPEDIENTE
* Todos os links foram retirados do site da Livraria Cultura que é, sem dúvida, um dos melhores lugares para se estar no mundo, e uma perdição pro meu bolso.
* Orkut em português… Ai, que benção.
* Bem, pessoas paulistanas… O que estão achando do novo prefeito? Eu ando tão emocionada com as coisas que ele vêm fazendo por nossa cidade que nem consigo escrever sobre isso. Mas logo o choque passa… Ah, se passa.