ANO NOVO, NOVINHO!
Cats: Entrelinhas do Cotidiano
Meu sentimento em relação ao Natal é inversamente proporcional ao sentimento em relação ao Ano Novo. Se um me causa sensações de tristeza e tensão, o outro me provoca euforia, alívio e uma felicidade quase automática.
Durante esses dias, estive correndo pra arrumar uma porção de coisas que achava importante. Arrumei armários, podei as plantas, joguei muita coisa fora, deletei arquivos antigos do computador, comprei roupa nova, tracei alguns planos. Claro, ficou inevitável fazer aquele balanço do tempo que se foi. Percebi que esse ano, definitivamente, não foi fácil. Coisas ruins aconteceram, muitas, aliás; muitas derrotas, muitos problemas, muitas perdas, muito cansaço. Mas, que interessante, me sinto vitoriosa; e estou aqui de pé e pronta pra outra. E é por isso que eu adoro ano novo. A impressão que tenho é que tudo isso vai ficar enterrado. Existente, sim, afinal o que é enterrado não deixa de existir. Marcado, sim, afinal o que passou deixa marcas. Mas enterrado quando o meu reloginho andar amanhã.
Racionalmente falando, é uma bobagem. Um minuto tem 60 segundos. Das 23h59m do dia 31de dezembro a 0h00m do dia 1 de janeiro, não acontece nada de diferente com o mundo, com os corações das pessoas. É só um dia a mais ( ou a menos, conforme o ponto de vista ). Um dia depois do outro, nada mais do que isso.
Mas há nessa passagem um fenômeno especial que acalanta os corações tristes e cansados de viver. Um jeito de respirar diferente. É como se o tempo fizesse um agrado, uma carícia suave no rosto, dizendo: “não, não paro de passar, nunca pararei. Mas você pode zerar tudo agora pra tentar de novo, mais experiente ainda.”. Mudança. Novos ares, novos rumos, novo ânimo. Ano novo. E bissexto, ainda.
Não se trata daquelas promessas estranhas, “vou fazer isso, aquilo, deixar de fazer aquilo outro”. Normalmente, essas promessas, tão vazias de sentido e mal intencionadas, de novas não tem nada. É aquela sensasação mágica de novidade.
Na verdade, é uma ilusão. De ilusões também se vive, diria alguém que eu não lembro quem é. E, pra mim, essa é uma das ilusões mais deliciosas. É delicioso saber que aquela fatia de tempo que você tinha pra viver, e que viveu, bravamente – apesar do Bush, do Lula, da falta de grana, da violência, da solidão, da angústia, do desânimo, do capitalismo, do cansaço, dos chefes ditadores, das loucuras do dia-a-dia – passou. Foi bom? Passou. Foi ruim? Passou. Passou e você vai REcomeçar.
Eu adoro palavras que começam com esse prefixo, RE. REnascer. REconhecer. REfazer. REorganizar. REformular. REvitalizar. REcomeçar. Acho que gosto porque é inevitável que a vida tenha momentos bons e ruins; mas, independente do que tenha acontecido, quando você RE alguma coisa, está dando uma nova chance, significa que as coisas têm um movimento, que foram e voltaram. Pra mim, o ano novo é isso. Um REcomeço.
Você pode parar por aí. Tomar 5 litros de champgne, rir à beça, fazer simpatias, passar uma noite agradável, usar roupa nova e viver essa ilusão em uma noite. No dia seguinte, acordar de ressaca, e depois, ir trabalhar, estudar, e viver sua vida como vinha vivendo. Aí, o seu ano novo durou apenas algumas horas. É uma escolha. Isso significaria simplesmente viver essa ilusão, sem maiores pretensões. Afinal, quem não espera muito, não se decepciona muito. É uma escolha, sem dúvida.
Mas… Além da ilusão, está a Esperança. A Esperança é uma ilusão que foi à luta e enfrentou as verdades da vida. Uma ilusão que se pôs à prova da realidade, e ficou assim – pós-graduada, estudada, vivida, experiente, sábia. A Esperança não é ingênua, e nem boboca, nem fútil. Embora massacrada todos os dias pelos nãos que recebe, ela se mantém lá, forte, firme, silenciosa, segura, e respira calmamente no fundo das almas que ainda estão dispostas a fazer de sua existência algo mais do que o feijão-com-arroz que todo mundo faz. A Esperança, numa época como esta, é o que fica ali, sussurrando no seu ouvido – você pode, sim, acreditar; vai ser diferente.
Você argumenta, claro. O mundo vai continuar o mesmo, Dna Esperança, nem vem. Pessoas vão morrer. Os EUA continuarão sendo uma potência econômica massacrante. Aqueles velhos políticos nojentos vão se reeleger. A violência vai continuar, talvez piorar. Doenças vão continuar abatendo nossos corpos. Pessoas continuarão tendo acessos de mediocridade, maldade e prepotência. Desastres naturais, guerras insanas, repressões sutis e escancaradas, desemprego, insanidades e genocídios continuarão sendo estampa no jornal diário. Continuaremos sacrificando nosso tempo trabalhando demais e nos divertindo de menos. Talvez, em 2004, eu seja despedida, meu amor me abandone, falte dinheiro, paz, amigos. Talvez eu seja traída, maltratada. Talvez nada de miraculoso aconteça pra fazer do meu ano novo um ano bom. É, Dna. Esperança, não tente me enganar.
Mas Dna. Esperança, sempre pronta a lhe pegar numa curva, responde – e você? Se nada de bom acontecer, o que você vai fazer? Vai continuar sacrificando seus dias nessa rotina miserável? Vai continuar cometendo os mesmos velhos erros? Vai continuar se fechando para os encontros? Vai continuar fugindo das boas pessoas que aparecem pra você? Vai continuar fingindo que não vê as injustiças por aí e vai continuar encostado, sem fazer sua parte? Vai continuar rindo pouco, cantando pouco, tocando pouco, gozando pouco, olhando pouco para as belezas do mundo? Vai continuar amando, sentindo, pensando e agindo superficialmente? Vai continuar não aproveitando nada do que viveu? Vai deixar por menos? E você, o que você vai fazer? O ano novo é seu. Só seu. Ele pode começar à meia-noite do dia 01de janeiro. Ou no dia 15 de abril. No dia 29 de fevereiro, 13 de julho, 4 de outubro, 28 de dezembro, 10 de maio, 22 de setembro. Ele pode começar e acabar muitas vezes. Você decide o que vai fazer de novo quando bem entender.
Pessoas, que vocês possam dar ouvidos à Esperança. Que escutem o que ela tem a dizer e levem isso com vocês. Que possam valorizar cada momento que já passou, aprender com eles, mas sonhar muito e muito mais para os momentos que virão, sem medo. Que seja um ano novo, novinho em folha, sim… Mas mais do que isso… Que vocês estejam novos. REnovados. REfeitos. REanimados. REavivados. E que esse sentimento acorde com vocês REnascido a cada dia.
Feliz 2004! E até o ano que vem.
PS:. Agradeço mais uma vez a todas as visitas e comentários sobre o novo layout…