( Este é um post coletivo, com colaborações de alguns amigos. Não resumi e nem mudei nenhum texto, por isso o post ficou gigante, e confuso, mas bonito, como a própria Sampa. Os trechos que não estão em itálico são de minha autoria.
)
Ontem estávamos, eu e mais 50 000 pessoas, reunidas na esquina mais famosa de São Paulo ( o cruzamento da Ipiranga com a São João ) para comemorar o aniversário de 450 anos dessa cidade tão amada e tão odiada. Difícil dizer o que se sente nessas horas. Quando Caetano Veloso, no final do show, começou a entoar “Sampa”, a canção que ele fez para a cidade, de fato, alguma coisa aconteceu no nosso coração, independente de todo o resto. Naquela hora, os prédios, as ruas, as pessoas, a música, éramos todos uma coisa só, e deu pra sentir o que realmente é essa tal Sampa.
“Sabe, eu já tinha decidido não escrever nada. Hoje é dia 23, e o prazo que você, miga querida, deu é até amanhã. Mas aí, pensei que não poderia – mesmo que modestamente – deixar de homenagear a nossa São Paulo. Sim, nossa! O que eu mais amo neste bendito lugar é o fato de ele ser de todos. De termos saído sei lá de quais cantos do mundo para nos encontrarmos aqui. E sou feliz porque aqui não me sinto diferente de ninguém, simplesmente porque ser igual não faz muito nosso estilo, não é mesmo?
Somos diferentes, estranhos, excêntricos, chamem do que quiserem. Somos da cidade que tem pessoas demais, carros, barulho, poluição. Somos da cidade que é demais. A cidade de concreto, embelezada por quem vive nela, e tem orgulho de ter fama de trabalhador. Um centro de desigualdade e injustiça. Um sonho para os que procuram oportunidades, festa para os baladeiros e para a gastronomia.
Eu não sabia que amava São Paulo, até conhecer tanta gente de fora dela, e passar um tempo longe. Foi então que percebi que existem lugares paradisíacos, sol aberto o dia todo, gente tranqüila passeando lentamente… E aí senti falta daqui. Não que eu não tenha gostado dos lugares, mas é aqui o meu lar. É aqui, com aqueles edifícios, magníficos ou horrorosos, com o solzinho da manhã, o friozinho e a garoa da tarde, com o estresse, com a paz no final de um dia de luta, com a noite que não pára, com a vida.
É aqui. É nesta mistura de raças e religiões. É nas muitas São Paulo em uma só. É neste lugar absurdo onde nasci, e sinto que jamais conseguirei deixar de dar uns pulinhos para cá, seja lá qual caminho a minha vida tome, e para onde eu vá. Porque paulistano que é paulistano, é um cidadão do mundo nato, mas leva sempre a terra da garoa no coração. Parabéns, São Paulo!”
Tatiana
“Sampa
Sampa – duras ruas caóticas e deslineares
Sampa – sintaxe confusa de sonhos e sons
Sampa – olhares montagem controle remoto
Sampa – broto cinza de crescimento desconexo
Em tuas esquinas me perco e me reencontro
Monstro de gentilezas insuspeitadas
Peito forjado em luz e arabescos
Teu luar anêmico fura o céu sem estrelas
E observa impassível os homens cansados
Sampa, teus sinais verdes são escoamentos de gente
Teus ônibus cheios são viagens redentoras
Nas filas de banco pensando em nada
Pensando pensando pensando e nada
Parques de concreto e lutas abstratas
Putas e pivetes famintos na esquina
Praças, latrinas abertas ao público
Sampa – pútrida, mas tão bela cidade
Sampa que amo e suporto
O silêncio incômodo dos elevadores
A música dispersa das paixões sem espelho
Bocas amargas de palavras recolhidas
E a solidão realçada pela multidão
O vento da madrugada na saída do bar
O azul do céu quando nasce a manhã
A beleza inesperada de tua aurora
Como inesperado é o sorriso banhado em sol e esperança
Uma queda e um reerguer-se contínuos
Sampa, meu coração e minhas angústias
E caminham apressados carregando suas dores
Caminham apressados como se fugissem
Como se pudessem fugir”
Alexandre Inagaki
O show que abriu as comemorações do dia 25 era um retrato perfeito da cidade. Gente demais ( quase 50 000 pessoas se apertando em um espaço pequeno ). Problemas de estrutura, apesar do planejamento ( o som estava péssimo ). O clima estranho ( pessoas colocavam e tiravam o agasalho ). A garoa insistente que não parou um segundo. A separação entre os ricos, chiques e famosos ( que ganharam um lugar especial bem em frente ao palco com direito a cadeiras e capas de chuva ) e o restante da população. Todo, absolutamente todo tipo de gente: velhinhos de terno e gravata, rappers, mauricinhos e patricinhas, manos adolescentes, artistas famosos e não-famosos, políticos, amigos abraçados, mulheres, homens, crianças, policiais, mendigos, maconheiros de carteirinha, mulheres com medo de estragar o penteado por causa da chuva, gente animada e desanimada – milhares de paulistanos orgulhosos de sua terra, felizes em estar ali, apesar dos problemas, comemorando o aniversário da cidade que adoram acima de tudo.
“Sempre achei difícil definir minha relação meio sado-maso com esta megalópolis… às vezes tenho vontade de sumir por causa de tantas injustiças, de tanta solidão, do custo de vida exorbitante, de tanta violência, de tanta coisa feia que vejo por aqui. Por outro lado, lembro da liberdade que o anonimato da cidade grande confere a seus habitantes, da vida cultural intensa, das oportunidades de trabalho, dos salários (que são melhores que em muitos lugares…), enfim de tudo de bom que São Paulo nos oferece. O saldo, no final, sempre pende para o lado positivo e vou ficando… Já são 37 anos e acho que não vou mudar daqui tão cedo! Mesmo se mudar, tenho certeza que voltarei periodicamente para curtir tudas as coisas boas e ignorar as ruins!”
Carla Capelo
“Sampa para todos
Eu tinha tudo para nascer em São Paulo. Porque ela é uma cidade de oportunidades, e, antes de tudo, uma terra acolhedora. Acolheu meu pai vindo de Minas Gerais, que para cá teve de vir pois na cidade onde ele morava não havia curso de Humanas no colegial, só o tal do Científico. Ele teve de vir cedo, morou em pensão. Sampa acolheu também minha mãe vinda do Noroeste Paulista, já que naquele lugar não havia espaço para mulheres que ambicionavam mais que uma modesta vida rural.
Mas meu avô paterno quis que eu nascesse mineiro, como todos os outros netos, ainda mais sendo eu o primogênito de seu primogênito. Fazer o quê. Virei o quarto José Marcos Resende de Varginha. Mas com quinze dias de vida já estava de volta, para morar em Perdizes, bairro muito bom de se viver. E foi assim até os 19 anos.
Meu bairro é uma delícia, tranqüilo pra se morar. Quando eu era pequeno, ia muito ao Parque da Água Branca, havia rodeios o ano inteiro, além de feiras de bichos onde eu conseguia pintinhos grátis e balões de hélio do Pato Donald. Os palmeirenses dominam, a casa deles fica perto, de minha janela posso ouvir o êxtase alviverde quando sai gol.
Efervesce cultura, vinda do SESC Pompéia – quem conhece o lugar, volta com certeza. Os shows que acontecem são escola pra muita gente boa. Titãs, Ira, Zeca Baleiro, Chico César são os que me vêm a cabeça agora. Tem um monte de loucos que fazem arte como ninguém (Quem quer ser normal por aqui?) e organizam uma feira anual que reúne milhares de pessoas.
Um dia, porém, tomei o caminho contrário de meus pais:
fui para o interior, para estudar medicina; deixei Sampa.
No entanto, já há três anos, a 250 km de distância, reconheço a multiplicidade da Terra da Garoa, que me bota para repensar o conceito de qualidade de vida. Dizem que o interior é muito melhor, pois lá não se enfrenta congestionamento, não se estressa. Que lá não há violência, não há medo, pode-se jogar bola na rua. Vá lá.
Mas só São Paulo reserva as mais belas surpresas que se pode ter.
Cite-se a Avenida Paulista, cartão-postal paulistano. A tal da qualidade de vida, afinal, nada é senão simplesmente caminhar por ela procurando e encontrando qualquer coisa, parque ou livraria, igreja ou shopping, hospital ou hotel, em plena hora do rush, olhando roupas e cabelos os mais contrastantes possíveis.
Lá na avenida é onde acontece um mundo de coisa que nem sabemos: ao lado dos principais bancos, verdadeiros centros financeiros da América Latina, pode haver um palco escondido abrigando um mini-concerto de jazz, na frente do qual pode estar o oriental a vender o saboroso yakissoba na calçada. Ao mesmo tempo em que coreanos vendem contrabando eletrônico desconfiados, Picassos e Mirós expõem-se dois quarteirões à frente, no MASP. É uma profusão de executivos engravatados passando calor quando saem para almoçar ao meio-dia, esbarrando nos hippies que lhes tentam vender esculturas de durepox na calçada de um prédio de arquitetura ultramoderna.
Ainda que não tenha nascido em São Paulo, radico-me paulistano desde já, se inconscientemente ainda o não tivesse feito antes. Obrigado, seu Anchieta.”
Tigre
Como paulistana, me emocionei, sim. Me emocionei por sentir que sou parte daquela esquina, daquelas ruas, daquela garoa, daquela gente. É bom saber que tenho um lar. E que o meu lar tem tantas facetas, é tão complexo, está cheio de coisas para descobrir. E bom saber que tudo isso é um retrato de mim mesma.
“O que é São Paulo? Em uma descrição fria e calculista seria o centro social e econômico de um país chamado Brasil, como diz uma propaganda recente, ou a locomotiva que carrega esse mesmo Brasil, ou a cidade que nunca para, enfim, tantas definições que enaltecem a grandiosidade de nossa cidade, mas que nem chegam perto de seu verdadeiro tesouro: nós, seus ilustres moradores. Nós, que fazemos com que ela seja muito mais do que arranha-céus de concreto e vidro, mas lhe damos alma em cada de nossos passos apressados, de nossas tentativas de acelerar os carros em vias congestionadas, de compras em horários impensáveis, nas mordidas dos deliciosos pastéis de feira, nos casacos tirados as pressas do armário por causa de outra frente fria, nos restaurantes que enchemos com gargalhadas e rodas de amigos, nos passeios nos parques , seja ele do Ibirapuera ou Villa Lobos, nos exercícios de fim de semana nas vias públicas, na pizza de sábado à noite, no cineminha das quartas-feiras…
E basta ver a cidade na semana entre Natal e Ano Novo para percebemos isso. Em um primeiro momento podemos achar até divertido poder atravessar a rua em paz ou dirigir usando a quarta marcha pelo menos uma vez no ano, mas logo bate a sensação de estranheza, de que algo está errado, está faltando alguma coisa. Sim!!! É a vida, somos nós, o seu povo que faz de São Paulo um lugar tão especial, que guarda na sua grandiosidade assustadora olhares e semblantes que a torna bela.”
Alessandra
“Gosto do caos e, sobretudo da energia que é preciso desenvolver para enfrentá-lo.
Gosto do vigor que emana das cidades, da luta e do trabalho que elas representam. Tenho, portanto, um amor enorme por São Paulo. Amor bandido? Não sei dizer…
São Paulo é linda, feia, generosa, violenta, absoluta. Custa a dar conta do recado.
Muito grande, é como um filho que cresceu demais, antes da hora, perdeu roupas, personalidade, mudou…
Bizarra é a forma dos antigos descreverem o Rio Tietê, sua beleza, clareza e limpeza.
Rio genuinamente paulista corria com soberania e altivez pelo interior. Hoje é irracionalmente cruel e imundo! De qualquer forma, faz parte da cidade, faz parte de nós paulistanos, que contemplamos tristes sua triste decadência.
São Paulo pecou, cometeu pecado grave!
Amou, demais, se entregou demais, recebeu demais, se doou, foi muito generosa!
Coração bom, não avisava que não havia mais espaço. A casa não era tão grande como todos pensavam, os convidados e os que se convidavam, não caberiam, ficariam mal acomodados.
A cidade não dizia nada. Ia ajeitando como podia. Um canto ali, um espaço acolá, bastava chegar: “Pode entrar, que a casa é sua!”.
Como exagero tem preço, hoje paga caro.
Ao amar, não tinha consciência de receber alguma recompensa. Os generosos nunca têm. Mas ela veio… Chegou rapidamente, sem cerimônia, sem pedir licença.
São Paulo assim, foi erguida por imigrantes vindos do interior paulista, nordestino, do mundo todo.
Árabes, judeus, italianos, armênios, japoneses, incontáveis raças, incontáveis nacionalidades. Todos trabalharam duro, construíram e no afã da labuta, esqueceram de organizar a “Torre da Babel”.
O país de todo ser humano é sem dúvida, aquele que os acolhe.
E a “Paulicéia Desvairada” aqui de braços abertos, sempre generosa!
Escolhendo São Paulo sua terra, os muitos que aqui chegaram, fizeram desta metrópole um caos divino, agitado, inquieto, irresistível…
Obras primas, reminiscências… ora imperiais, ora falidas, interessantes e devastadas, não perdem a majestade!
E a favela, no meio desse caos absoluto e pitoresco, é cheia de vitalidade.
São Paulo que amanhece trabalhando…abraça artistas, escultores, pintores, cantores, os incentiva, sempre generosa!
“Bandeira da minha terra, Bandeira das treze listas.
São treze lanças de guerra cercando o chão dos paulistas”.
As listas não são mais treze, há muito são infinitas. E os que aqui ficam são guerreiros, são verdadeiros paulistas!
Vejo-te linda! Diva, morena, brejeira, viciada, mal amada, ansiosa, cheia de feridas.
Precisam ser tratadas.
Mesmo doente, vale a pena ficar perto de você, viver a seu lado.
Se cuide minha amada, precisamos de você.Todos precisam!!!”
Mônica
“Sampa foi a minha casa quando deixei Recife, com 18 anos, pra tentar minha vida sozinho em outro lugar. No começo, me assustei. Muita gente, muita pressa, pessoas andando pra lá e pra cá, cada um cuidando da sua vida, e parecia que ninguém reparava naquele menino assustado que tinha duas malas na mão e um endereço de uma pensãozinha no bolso. Nem um parente, nem um conhecido. Achei que não ia mais ver o rosto de um vizinho sorrindo, conhecer o dono da padaria da esquina, ou pedir uma xícara de açúcar na porta do lado, como minha mãe fazia numa emergência. Depois de instalado na pensão, eu fui passear na Avenida Paulista. E lá eu sentei em um banco do ponto do ônibus e chorei horas, sentindo aquela solidão no meio de tantos prédios.
Aos poucos, fui descobrindo as pessoas e os lugares. Quando se faz um amigo por aqui, o tem para toda vida. Fui reparando nas esquinas atrás dos prédios, cheia de gente interessante, que conversa, sorri, diz bom dia, é solidária, trabalha, e muito. Aqui é uma terra produtiva, charmosa, agitada, cheia de coisas boas pra se fazer. Eu, que sempre amei o conhecimento e a arte, achei aqui um paraíso que eu curtia aos poucos nos sebos de livros raros, nos cinemas, nos teatros, naquela Cidade Universitária linda, nas pessoas que lêem jornal nas praças e gostam de saber de tudo, nos muros pintados como quadros e nas frases inteligentes rabiscadas nos orelhões públicos. Essa cidade respira cultura e bom gosto, e é extremamente democrática!
É uma cidade nervosa, cheia de coisas pra oferecer, e que exige muito de nós também. Me recebeu de braços abertos, me fez crescer, me ajudou a virar um homem de verdade, honesto, esforçado, batalhador, como a grande maioria das pessoas que moram aqui. Nasci no Rio, cresci em Recife, mas aí é a casa que eu escolhi.
Hoje estou longe demais, num lugar estrangeiro, cheio de gente estranha que não fala a minha língua, um lugar que é bonito, sim, mas nem se compara à beleza de São Paulo. Porque a beleza de Sampa é interior e duradoura. Pode não encher os olhos, mas enche a alma! Este admirador, cidade querida, te parabeniza e deseja muitos anos de vida, sabendo que quando voltar, serei recebido de braços abertos. Saudades de quem te ama.”
Fúlvio
Sim, São Paulo, meu amor… Nós, os seus filhos, vamos passear na tua garoa e te curtir numa boa. Caetano disse que essa terra deu tudo a ele. Faço coro também nisso. Essa terra me deu tudo, e sei que tem ainda muito mais pra me dar. Fica aqui o meu mais sincero parabéns… Pra cidade, mas principalmente pra todos os fortes que sobrevivem aqui, para os que já passaram nesses 450 anos, para os que passam e para os que ainda vão passar. A cidade somos nós e o que construímos aqui. Parabéns para nós.
“Alguma coisa acontece no meu coração…
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o teu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto o mau gosto
É que narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes, quando não somos mutantes
E foste um difícil começo, afasto o que não conheço
E quem vem de um outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Panaméricas de áfricas utópicas,
Túmulo do samba, mais possível novo quilombo de Zumbi
E novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa…”
Caetano Veloso
Fotos enviadas pela Cacau e ajeitadas pelo Marcelo.
* Agradeço a todos os paulistanos, de nascença ou de coração, que colaboraram com este post, mesmo quem não pode ou não se sentiu inspirado para produzir algo, mas comemorou em silêncio cúmplice esse aniversário especial.