MEROS DEVANEIOS TOLOS A ME TORTURAR
Cats: Entrelinhas do Cotidiano
Estive ontem na cerimônia de colação de grau Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, vulgo formatura da FEA USP. Meu irmão do meio era um dos 240 formandos, que foram chamados, um a um, para receber o canudo de papel que lhes conferia o título de administradores, economistas ou contabilistas. Foram no mínimo 10 discursos, mais algumas músicas, shows pirotécnicos e a chamada nominal, além da presença de alguns nomes ilustres ( Senador Aloísio Mercadante e grupo Fat Family, por exemplo ). Quatro horas de cerimônia. E nesse tempo, bem sentada e com um sapatinho alto me apertando doloridamente o pé depois de um dia cheíssimo de trabalho… Deu pra reparar e pensar em bastante coisa.
Não vi nenhum negro se formando lá ( o mais escuro talvez fosse meu irmão, moreno jambo – que provavelmente também era um dos únicos ali que cursara o ensino médio em escola pública ). No estacionamento, uma incrível concentração de carros importados. Dentro do salão, damas trajadas com vestidos finos, cabelos arrumadíssimos e homens alinhados e elegantes – gente bonita, bem vestida e bem cuidada. Por trás das palavras bonitas dos discursos de professores e oradores, o que se ouvia era “somos ótimos por ter passado no vestibular mais concorrido do país, e merecemos ser vencedores pro resto da vida. Esse diploma é passaporte pro nosso sucesso profissional, e continuaremos vencendo e ganhando dinheiro, mesmo tendo uma certa peninha de quem não teve as mesmas oportunidades que nós”. Tsc.
Muitas questões rondando em tudo que foi dito e visto. O Senador Mercadante fez um discurso lindíssimo e engajado que foi um tapa na cara dos ricaços presentes, e que me trouxe apaixonadas lembranças. Ali estavam algumas grandes futuras fortunas do país, que vão esquecer tudo que juraram. Implícita, estava a questão da universidade pública, que é sustentada pelos impostos pagos por todos e que só tem perpetuado esse ciclo de fazer mais ricos quem já é rico e estrepar mais ainda quem já é pobre ( não é o caso do meu mano, mas é o caso de 90% dos que estavam lá ). A festa tinha um tom esnobe e elitista quase sufocante. E me lembrei até que eu tenho que superar essas implicâncias com o ambiente uspiano pra voltar lá, destrancar minha matrícula e terminar aquela faculdade de Pedagogia que pra mim é insuportável.
Mas o momento mais emocionante da festa foi a homenagem prestada pelos formandos aos seus pais. Entre abraços, rosas e muitas lágrimas, naquela hora, as famílias, não importa que história viveram, ou que realcionamento tinham, eram iguais. Os pais orgulhosos de seus filhos, e os filhos agradecendo aos seus pais pelo apoio, pela força, pelas oportunidades e pela exigência. E foi quando caiu a minha ficha de que, pra toda aquela gente, estar ali, naquele ritual de passagem tão pomposo, era a realização de um sonho.
Os sonhos realizados são deliciosos. Dão uma sensação de plenitude, de poder, de conquista, de recompensa. Quando você tem um sonho, o transforma em objetivo e vai atrás dele, faz investimentos. Muitas vezes, faz sacrifícios, escolhas dolorosas, gasta tempo, dinheiro e energia, deixa muita coisa no caminho e ganha outras. E no final, quando o sonho se realiza, apesar de tudo, fica o gosto da vitória, da felicidade. Um gosto de sabor muito raro, muito especial. Um sonho realizado é uma justificativa breve da vida, dá sentido a tudo. Mas é só.
Para aqueles formandos, a vida recomeça na segunda-feira, de outro jeito. Com um sonho realizado nas costas, eles agora têm de redirecionar suas vidas para outros caminhos. Mas aquele sonho, ironicamente, na hora em que foi realizado, morreu. Não há mais nada a fazer sobre ele, a não ser lembrar. E pude reparar na cara de alguns pais, e alguns filhos, aquele jeito de “Está feito. E agora?”. E quem não pensou nisso naquela hora, vai pensar depois. A realização é fugidia, e logo traz uma tristeza que tem qualquer coisa de vazio. Por culpa dessa eterna insatisfação que faz parte da constituição do espírito humano, o sonho realizado vira um sonho morto, e, frequentemente, um peso a ser carregado.
Lembrei de algo que li uma vez sobre isso. Os sonhos perdidos. Esses, sim, duram pra sempre, embalados pelos braços da nossa ilusão, dos nossos ideais, do desejo, e depois passam a embalar os nossos dias. Os sonhos não realizados ( ou não realizáveis ) sempre serão os melhores, porque são perfeitos. O melhor bolo da sua vida vai ser sempre aquele que você não conseguiu provar. O melhor caso de amor sempre será aquele que não vingou. O melhor emprego, com certeza, teria sido aquele que você perdeu por azar ou por falta de esforço ou oportunidade. A melhor viagem é aquela que você não conseguiu fazer. O melhor regime de governo é aquele que nunca vigorou. O melhor poema é aquele que nunca foi escrito. Com esses sonhos, sim, você vai ter que conviver pro resto da vida, porque eles são como aquelas roupas amassadas que escondem sujeirinhas em suas rugas, mas que não serão vistas enquanto não forem passadas pelo ferro quente da realidade, essa malvada realidade, tão entendiante e fascinante ao mesmo tempo. Sonhos que não se realizam são eternos.
Pensei nos meus sonhos realizados. Minhas formaturas, meus empregos, minhas aprovações, meus namoros, meus pequenos desejos satisfeitos. Já nem lembrava muito deles. Os frutos de alguns estão presentes em minha vida todos os dias, mas não me entusiasmam tanto quanto faziam quando ainda não eram realidade.
E percebi que tenho ainda muitos sonhos perdidos. Muitos. E, mais ainda, percebi que vem deles a força de tudo que sinto e penso. É pra sustentar de paixão os meus sonhos não realizados que eu vivo. É pra isso que estou aqui. Vem deles todo esse sentimento, toda essa vontade, toda essa certeza de que eu ainda tenho que viver um pouco mais, nem que seja pra dar um pouco mais de vida a eles. E, se por caso ou acaso, algum dos meus sonhos perdidos vier a se realizar, preciso colocar no lugar dele um outro sonho, ainda mais difícil e ainda mais forte, pra continuar querendo. Querendo, querendo, querendo. A vida sem desejo é sobrevida. E a vida sem sonho é semi-vida.
Olhei com carinho e sorriso pra todos esses sonhos que ainda não vi acontecer. Pensei no quanto ainda tenho por fazer na vida. Não dá pra negar que alguns deles viraram frustrações, pedrinhas no sapato, que me deixaram com um certo medo de andar. Mas foi bom ver que eles ainda estão lá. E que mesmo aqueles que deixaram de fazer sentido, ainda fazem parte de mim. Dizem que um sonho que não se realiza é perigoso, mas pensei no perigo ainda maior que representa um sonho realizado.
Tocaram com força no meu ombro:
- Menina, acorda, olha lá, finalmente acabou… Ele já está vindo!
Quando abracei meu irmão, que trazia em sua mão um canudo bonito de papel, gravado em letras douradas… Desejei que ele tivesse ainda muitos outros canudos com o que sonhar. Acabei falando, quando ele me mostrou o canudo:
- Legal, querido, mas… Depois de curtir um pouco ele, jogue fora. E bem jogado.
- Ué, mas por quê?
- Porque assim você vai sentir falta, vai querer ter outro… E vai ter o que fazer da sua vida, oras.
- É isso que dá deixar você sentada sem ter o que fazer…
Sim, é isso o que dá