Era sempre assim: ele ligava no comecinho da noite, me chamava de Karininha, e dizia que me amava, depois cantava uma pequena canção que era segredo nosso. Depois entrávamos nos assuntos cotidianos, nas coisas bobas a serem compartilhadas, nas conversas sérias, nos comentários sobre o que passava na TV, nas piadas infames, nas reclamações, nos planos, nos desabafos, nas alegrias, e nas brincadeiras provocantes. Às vezes, a ligação durava alguns minutos. Às vezes, algumas horas. Mas eu nunca desligava do mesmo jeito que tinha atendido. Tão carinhoso e tão atormentado, o meu namorado.

Aos domingos, quinzenalmente, ele vinha aqui em casa almoçar com minha família. Era tão querido e amado por todos, especialmente pela sogra, que o tratava melhor do que a qualquer um dos seus filhos. Ela era orgulhosa de dizer que ele era um genro maravilhoso, e olhava pra mim com uma aprovação inédita até então, como quem diz, puxa, menina, até que enfim você acertou. Eu sabia por que ela dizia isso. Ele ajudou a recuperar a nossa relação de mãe e filha ao ser um elo de concordância entre nós. Por causa dele, conseguimos nos tornar mais amigas. Bom papo, ele agradava também os cunhados e concunhadas, os tios e primos, os amigos. Sabia sobre tudo. Citava filosofia, declamava poemas, tocava tantos instrumentos, falava sobre cultura inútil, me ensinava tudo sobre pintura e arte, esclarecia dúvidas médicas, sabia os fundamentos da Mecânica, da Elétrica, da Matemática, da Música, da Psicologia, da Teologia, da História e da Política. Não havia coisa que ele não conseguisse aprender, porque tinha prazer em buscar. Gostava de discutir, de contar o que aprendia nos milhares de livros, revistas e canções que ele guardava no quarto. Mas era capaz de deixar a melhor das discussões pra lá por um carinho, um beijo, um acorde na guitarra ou uma garrafa de coca-cola gelada. Em jogos de Copa do Mundo, enquanto todos estavam em frente da TV, ele me chamava pra ir até a varanda e olhar o céu, conversar sobre a vida, e  eu me sentia tão isolada e a salvo do mundo. À noite, íamos à igreja juntos, e ele cochichava em meu ouvido que era um homem de sorte, e agradecia a Deus pela minha vida. Tão inteligente e tão disposto, o meu companheiro.

Ele sempre me surpreendia. De vez em quando dizia coisas tão lindas que meu coração derretia até ficar todo água. De vez em quando era tão distante e triste que eu temia perdê-lo para ele mesmo. De vez em quando compartilhava sonhos comigo – nossa casa, nossos filhos, nosso dia-a-dia. De vez em quando era tão cético e pessimista que matava todas as minhas expectativas de uma vez só. Era capaz de se emocionar até às lágrimas vendo um programa de TV, mas era desconfiado e paranóico até com a melhor das pessoas. Era capaz de dar todo o dinheiro da carteira para algum mendigo e ajudá-lo a levantar da calçada, e também era capaz de botar pra correr o ladrãozinho que tentava me assaltar na janela do carro quando eu esperava ele chegar. Tão corajoso e tão triste, o meu herói.

Aos sábados, sempre fazíamos coisas interessantes. Sozinhos, em companhia de amigos, em lugares com muita gente, ou a sós, conseguíamos dividir tantas coisas, de tantos jeitos. Filmes, exposições, shows, debates acalorados, boa comida, simples passeios pela rua, cachorro-quente no circo, parques, lugares estranhos, barcas furadas, hospital, sofá de casa, casamentos, maternidades ou velórios, vendo TV deitados, exaustos e abraçados, festas de criança e família, mesa de bar, bailes, ou simplesmente rodar pela cidade sem rumo. Ele me acompanhava, eu o acompanhava, porque sabíamos que sempre havia uma boa conversa depois de tudo, sempre havia um encontro, mesmo na dor, mesmo nos piores dias. Ele me entendia como ninguém, mesmo nas coisas mais difíceis e que eu não sabia explicar. Ele era paciente e bondoso, crítico e acolhedor. Me desafiava, me suportava, me estimulava e me encantava. Tão incrível e tão completo, o meu amante.

Ele me recuperou ao se deixar ser recuperado pelo convite de amar. Ele se orgulhava de mim. Ele me colocou dentro de sua família. Ele me assumiu de todas as formas. Ele insistiu, ele topou o desafio, ele lutou por nós dois. Ele me desafiou, me questionou, me obrigou a desarmar. Ele me dava voltas em meus próprios delírios racionais. Ele colocava pés nos meus vôos românticos. Ele me presenteava, me estimulava, me jogava baldes de água fria, me chamava pra realidade. Ele me dava broncas suaves, e me ensinava com seu exemplo de filho carinhoso, de irmão companheiro, de pessoa envolvida, de cidadão correto, de funcionário responsável, de namorado amoroso e paciente. Ele me defendia e protegia. Nunca brigamos feio ou nos ofendemos, e todas nossas discordâncias sempre levavam ao crescimento. Ele escrevia dedicatórias, ele dedicava canções, ele compunha inspirado por mim. Ele me elogiava e me fazia sentir mais mulher. Ele me massageava os ombros e me fazia respirar tranquila depois de um dia difícil. Ele me ensinou a tocar violão, ele me deu força para me apresentar em congressos, ele me aplaudiu. Ele segurou muitas pontas, me levou ao médico, cuidou de mim, não me abandonou como os outros fizeram. Ele encarava horas de viagem de um lado a outro da cidade, de trem, ônibus e metrô, só pra poder me ver. Ele corajosamente aceitou todas as minhas propostas de mudança, e mudou de verdade, porque não tinha preguiça de amar. Tão maduro e tão menino, o meu amor.

Na primeira vez que veio aqui, tímido e medroso, ele pediu permissão pra minha mãe pra namorarmos, como o mais santo dos moços, e fez uma serenata de amor no violão, cantando “Love me Tender” como quem sussurrava um poema de Shakespeare, suportando os risos debochados e simpáticos dos meus irmãos com bom humor. Nunca me fizeram surpresa tão romântica. No dia do nosso noivado, fez um discurso tão lindo que fez chorar a mais dura das pessoas presentes. Um pouco antes de morrer, ele me confessou que era mais feliz, mais saudável e mais confiante por minha causa. E eu confessei a ele que tinha uma sombra entre nós… Algo que estava me impedindo de sonhar nossa vida futura. Ele secou minhas lágrimas e disse que, acontecesse o que acontecesse, ele estaria comigo. Tão doce e tão sábio, o meu amigo.

Um ano sem ele. Um ano sem a presença doce e suave que ele era. Ele teria gostado de estar no mundo, ao meu lado, nesse ano que passou. Tantas coisas que vi e que queria compartilhar com ele. Ele teria me mostrado o outro lado. Tantas coisas que sofri e gostaria de ter desabafado. Ele teria me consolado. Tantas coisas que desejei e que queria ter dividido. Ele teria gostado. Tantos lugares que fui, pessoas que encontrei e reencontrei, tantas experiências novas. Ele teria me acompanhado. Tantas coisas que aprendi e gostaria de ter contado. Ele teria me ensinado mais ainda. Tantas coisas que ficamos por fazer, por sonhar, por realizar juntos. E eu aqui, sozinha, tendo que lidar com uma história que não podia ter acabado… Com um futuro que não pode acontecer. Minha vida não parou. Claro que não. Mas nunca mais foi a mesma… Sem ele… E sem a pessoa que eu era quando ele estava comigo.

Eu poderia escrever um livro sobre como o mundo todo deveria parar hoje para lamentar a ausência dele e da pessoa rara que ele era. Mas não vou mais escrever sobre ele… Não mais.

Antigamente, as viúvas e mães enlutadas levavam um ano para tirar os vestidos pretos e voltar a andar sorrindo pela rua. Psicólogos experientes dizem que o período de luto normalmente dura um ano. As pessoas a minha volta já se esqueceram, e eu não consigo mais espaço, em nenhuma conversa, para falar da minha dor. Nos olhares, eu leio as cobranças que dizem -  acabou o meu tempo de sofrer. Tudo diz que já foi o tempo de me esvaziar nessa dor. E tudo parece que já voltou ao seu lugar. Parece.

Hoje eu senti vontade de dizer ao meu namorado, ao meu amor, ao meu amante, ao meu companheiro e ao meu amigo que ele não foi esquecido. E não será. Um ano sem ele não secou minhas lágrimas, mas bastou para que eu compreendesse que ele sempre estará comigo. Porque está em mim. E por isso, de algum jeito, sempre estaremos juntos.

aliança

“Would you know my name
If I saw you in Heaven?
Will you be the same
If I saw you in Heaven?
I must be strong
And carry on
‘Cause I know I don’t belong
Here in Heaven

Would you hold my hand
If I saw you in Heaven?
Would you help me stand
If I saw you in Heaven?
I’ll find my way
Through night and day
‘Cause I know I just can’t stay
Here in Heaven

Time can bring you down
Time can bend your knees
Time can break your heart
Have you begging please
Begging please

Beyond the door
There’s peace
I’m sure
And I know there’ll be no more
Tears in Heaven…”

Eric Clapton – Tears in Heaven